Portal do Destino

Agatha Christie · Capítulo 19 de 31

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Capítulo 5 - Colóquio com o coronel Pikeaway

CAPÍTULO 5

 

 

Colóquio com o coronel Pikeaway

 

Ao volante de seu carro, Tommy tangenciou o Regent’s Park e enveredou por estradinhas que há tempo não cruzava. Lembrou-se das caminhadas em Hampstead Heath, quando Tuppence e ele moravam num apartamento próximo a Belsize Park. Não pôde deixar de lembrar também do cachorro que tinham na época, companhia constante nos passeios. Um cão de índole especialmente teimosa. Assim que colocava as patas na calçada, virava à esquerda em direção a Hampstead Heath. Em vão, Tuppence e Tommy se esforçavam para fazê-lo virar à direita rumo ao centrinho onde havia o comércio. James, um Sealyham terrier de natureza obstinada, escarrapachava o corpo cilíndrico no chão e colocava a língua para fora, dando o aspecto de um cão exausto devido ao exercício errado forçado pelos donos. Os transeuntes não refreavam os comentários.

– Olhe ali! Que cãozinho adorável! Pelagem branquinha... Roliço como uma salsicha! De língua de fora, o pobrezinho. Os donos malvados estão obrigando o coitado a ir aonde não quer.

Tommy apanhava a guia de Tuppence e arrastava James com firmeza na direção oposta à que o cão desejava ir.

– Puxa – falava Tuppence –, não pode carregá-lo, Tommy?

– O quê?! Carregar James? Ele está um chumbo de tão pesado.

James, em uma esperta manobra, virava o corpo roliço e comprido outra vez na direção desejada.

– Coitadinho. Acho que ele quer voltar para casa, não acha?

James retesava a guia com firmeza.

– Tudo bem – consentia Tuppence –, a gente faz as compras depois. O jeito é deixar James escolher. É impossível comandar um cão tão pesado.

James olhava para cima e abanava o rabo, como quem diz: “Até que enfim caiu a ficha! Hampstead Heath à vista!” E a cena sempre se repetia.

Tommy imergiu em pensamentos. No último encontro com o coronel Pikeaway, em Bloomsbury, fora recebido numa sala minúscula e fumacenta. A nova residência do coronel era um sobradinho indefinido, com frente para um

descampado não muito distante do local onde Keats[1] nascera. A arquitetura não tinha nada de artístico nem de relevante.

Tommy tocou a campainha. Uma idosa muito parecida com a ideia que Tommy tinha de uma bruxa, com nariz e queixo tão pontudos que quase se tocavam, abriu a porta com olhar hostil.

– Posso falar com o coronel Pikeaway?

– Vou ver – respondeu a bruxa. – Quem deseja?

– Meu nome é Beresford.

– O coronel comentou alguma coisa.

– Posso deixar o carro aqui na frente?

– Sim, se não for por muito tempo. Os guardas de trânsito não costumam xeretear muito nesta rua, afinal não há cordões pintados de amarelo. Mas é melhor chavear o carro. Nunca se sabe.

Tommy seguiu o conselho e acompanhou a bruxa casa adentro.

– Um lance de escadas – avisou ela –, não mais do que isso.

Já na escadaria lhe entrou pelas narinas o forte cheiro de tabaco. A bruxa bateu vivamente à porta, entreabriu-a e enfiou a cabeça na fresta:

– Este cavalheiro quer vê-lo. Disse que o senhor o esperava.

Ela deu passagem, e Tommy penetrou num ambiente semelhante ao que recordara. A fumaça quase de imediato o fez se sentir asfixiado e sufocado. Não fosse pela nuvem de fumaça e o cheiro de nicotina, não teria reconhecido o coronel. Um vulto envelhecido numa poltrona com buracos nos braços. Ergueu os olhos e mirou Tommy, pensativo.

– Feche a porta, sra. Copes – pediu. – Vai entrar o ar frio.

Tommy pensou que seria bom se entrasse, mas presumiu que obviamente ele não pensava assim. Ele não se importava em inalar toda aquela fumaça nem com o mal que ela fazia à saúde.

– Thomas Beresford – falou o coronel Pikeaway pensativo. – Ora, ora, há quanto tempo não nos vemos?

Tommy não fizera um cálculo apropriado.

– Faz muito tempo – falou o coronel Pikeaway. – Você apareceu junto com... como era o nome dele? Não vem ao caso. Um nome é tão bom quanto outro. Se a rosa tivesse outro nome, não deixaria de exalar perfume. Foi Julieta quem disse isso, não foi? As personagens de Shakespeare às vezes falam cada bobagem. Mas isso é inevitável, afinal ele era poeta. Nunca dei a mínima para Romeu e Julieta. Todos aqueles suicídios por amor. E o pior é que tem gente que imita. Sente-se, meu jovem, sente-se.

Um pouco perplexo por ser chamado de “meu jovem”, Tommy aceitou o convite.

– Com sua licença – falou ele, tirando uma enorme pilha de livros de cima da única cadeira disponível.

– Isso, jogue aí no chão. Estava pesquisando uma coisa. É uma satisfação revê-lo. Parece mais velho, mas com boa saúde. O coração?

– Em plena forma – disse Tommy.

– Ótimo! Tanta gente sofre do coração, pressão alta... Muito estresse. Ficam zanzando para lá e para cá, fazendo questão de frisar como são ocupados, como o mundo pararia sem eles, como são importantes e tudo mais. Você não se sente assim?

– Hoje não me sinto importante – confessou Tommy. – Sinto é uma grande vontade de descansar.

– Admirável – avaliou o coronel Pikeaway. – O problema é que muita gente em nossa volta não nos deixa descansar. Por que se mudaram? Qual é mesmo o nome da casa atual? Esqueci. Pode refrescar minha memória?

Tommy forneceu o seu endereço.

– Ah, sim. Então coloquei o nome certo no envelope.

– Recebi a carta.

– Então esteve falando com Robinson. O gordão amarelo continua na ativa como sempre. E cada vez mais rico! Também, não é para menos, ele conhece tudo sobre mercado financeiro. Por que o procurou, meu jovem?

– Compramos uma casa nova. Um amigo me encaminhou a ele, dizendo que o sr. Robinson poderia esclarecer um mistério que minha mulher e eu descobrimos sobre algo que aconteceu na casa tempos atrás.

– Agora me lembro. Nunca tive o prazer de conhecê-la, mas dizem que sua mulher é inteligente, não é? Trabalho sensacional naquele caso... Como se chamava? Sei que eram duas letras. M ou N, não é?

– Sim – confirmou Tommy.

– De volta aos velhos tempos, não? Investigando fatos suspeitos.

– Não é nada disso – corrigiu Tommy. – Estávamos cansados do imóvel em que morávamos. O aluguel não parava de subir.

– Golpe baixo – comentou o coronel Pikeaway. – Ganância infinita dos

proprietários. São como as filhas da sanguessuga...[2] Mas então foram morar lá. Il faut cultiver son jardin – disse o coronel Pikeaway, numa repentina e inesperada incursão na língua francesa. – Treinando um pouquinho o meu francês – explicou. – É preciso se adaptar ao mercado comum, não é mesmo? Movimentos estranhos acontecem na economia, a propósito. Por baixo dos panos. Bem diferente do que se enxerga na superfície. Por que foram morar em Swallow’s Nest, que mal lhe pergunte?

– Agora se chama The Laurels – repetiu Tommy.

– Nome ingênuo – afirmou o coronel Pikeaway –, mas muito popular em certas épocas. Isso lembra a minha infância, quando todos os vizinhos tinham grandiosas alamedas arborizadas subindo até a residência. Cargas de cascalho espalhadas no caminho e uma fileira de louros de cada lado. Às vezes, os loureiros eram da variedade lustrosa e às vezes da variedade rajada. Era a última moda. As pessoas que moravam lá colocaram o nome, e o nome ficou. Não é?

– Já foi chamada de Katmandu e outros nomes – contou Tommy.

– É, Swallow’s Nest nos remete a um bom tempo atrás. Mas às vezes é preciso. Sobre isso que eu quero falar com você. Voltar ao passado.

– Conhece a casa da qual estamos falando?

– Swallow’s Nest, também conhecida como The Laurels? Nunca estive lá. Mas teve destaque numa época de grande angústia neste país.

– Pelo que entendi, o senhor tem informações sobre Mary Jordan ou uma pessoa conhecida por esse nome.

– Quer ver como ela era? Em cima da lareira. No lado esquerdo.

Tommy se levantou, rumou até a lareira e apanhou uma charmosa fotografia em preto e branco. Uma garota vestindo um chapéu estampado, levando um buquê de rosas em direção ao rosto.

– Hoje ninguém tiraria uma foto tão inocente, não é? – disse o coronel Pikeaway. – Moça bonita, isso não há como negar. Meio azarada. Morreu jovem. Uma tragédia e tanto.

– Não sei nada sobre ela – afirmou Tommy.

– Ninguém sabe hoje em dia – disse o coronel Pikeaway.

– O pessoal da localidade diz que ela era uma espiã germânica – comentou Tommy. – O sr. Robinson me informou que não era bem assim.

– Sim, trabalhava para nós. Eficientíssima. Mas ficaram sabendo.

– Na época em que os Parkinson moravam na casa – disse Tommy.

– Talvez. Não sei os detalhes. Hoje ninguém sabe. Não estive envolvido pessoalmente. Tudo isso foi abafado. Cada país tem suas tensões. Hoje, há tensão no mundo todo, e não é a primeira vez. Retroceda séculos e vai encontrar tensão. Volte até as Cruzadas e vai encontrar todo mundo abandonando o país

rumo a Jerusalém, ou rebeliões espocando país afora. Wat Tyler[3] e coisas do tipo. Tensão por todo lugar.

– Quer dizer que hoje existe alguma tensão especial?

– Claro que existe. Estou dizendo, tensões sempre existem.

– Que tipo de tensão?

– Volta e meia – divagou o coronel Pikeaway – aparecem para ouvir a minha opinião, para saber se eu me lembro de alguém do passado. Às vezes temos que mergulhar no passado, saber o que aconteceu em outras épocas. Segredos, informações, trunfos, fingimento versus realidade. Você e sua esposa já fizeram bons trabalhos. Querem continuar?

– Não sei... – titubeou Tommy. – Será que podemos ajudar? Hoje não passo de um velho.

– Bobagem, a sua saúde é melhor que a da maioria das pessoas de sua idade ou até de pessoas mais jovens. E sua esposa sempre foi especialista em farejar pistas, não é? Boa como um cão bem treinado.

Tommy não conseguiu conter o sorriso.

– Quer me explicar melhor? – quis saber Tommy. – É claro que estou disposto a ajudar... Mas ninguém me contou nada.

– E ninguém vai contar – disse o coronel Pikeaway. – Não é conveniente. Aposto que Robinson não contou muita coisa. É um túmulo aquele gorducho. Mas eu posso contar os fatos nus e crus. Sabe como o mundo funciona... Estelionato, materialismo, rebeldia, amor pela violência e sadismo. Sadismo como nos dias de Hitler. Podridão não falta neste país nem no mundo. A salvação é o mercado comum. As pessoas precisam compreender isso com clareza. A Europa precisa se unir. Precisa existir uma união de países civilizados com ideias civilizadas e com regras morais e crenças civilizadas. Quando há algo errado, a primeira coisa a fazer é identificar onde está o erro, e nisso o cachalote amarelo é imbatível.

– O sr. Robinson?

– Sim. Tentaram lhe conferir um título de nobreza, mas ele não aceitou. Sabe o que ele representa?

– Imagino – falou Tommy – que ele represente... dinheiro.

– Acertou em cheio. Não é materialista, mas sabe tudo sobre dinheiro. De onde vem, para onde vai, por que troca de mãos, quem está por trás dos negócios. Por trás dos bancos, por trás das grandes corporações industriais e por trás das fortunas imensas construídas pelo tráfico de drogas. Sabe quem são os traficantes, a rota das drogas mundo afora. Veneração ao dinheiro! Dinheiro não só para comprar um palacete e dois Rolls-Royces. Dinheiro para acumular mais dinheiro, corroer e erodir as velhas crenças, na honestidade e no comércio justo. Os poderosos não querem igualdade: querem fortes ajudando fracos, querem ricos financiando pobres, querem bons e honestos sendo admirados. Finanças! Tudo gira em torno das finanças. Qual é o lucro, qual a conjuntura, qual o destino das verbas. No passado, pessoas com poder e esperteza direcionavam esses atributos para conseguir dinheiro e recursos para atividades secretas. E tínhamos que descobrir quem recebia e repassava os segredos e quem estava no comando. Swallow’s Nest era uma espécie de quartel-general. Um QG do mal. E em Hollowquay aconteceram outras coisas. Por acaso o nome Jonathan Kane lhe diz algo?

– Não me lembra nada em especial – falou Tommy.

– Ele encarnava o que em certas épocas foi alvo de admiração, e que mais tarde passou a se chamar de fascista. Isso antes de conhecermos a verdadeira natureza de Hitler e toda a cambada. Tinha gente que pensava que o fascismo era uma ideia excelente para revolucionar o mundo. Esse tal Jonathan Kane tinha seguidores. Inúmeros seguidores, jovens e pessoas de meia-idade. Tinha um plano maquiavélico e recursos para colocá-lo em prática. Sabia os segredos de muita gente, e o conhecimento aumentava seu poder. Chantagem era a praia dele. Queremos saber o que ele sabia e o que ele fazia. É possível que tenha deixado não só planos como também seguidores. Jovens defensores de ideologias ultrapassadas. Segredos. Sempre existem segredos que valem dinheiro, sabe? Não conto nada certo, porque não sei de nada certo. Ninguém sabe de verdade. A gente pensa que sabe tudo por tudo que já enfrentamos: guerra, agitação, paz, novas formas de governo. Mas será que sabemos tudo mesmo? Sabemos algo sobre guerra biológica? Sobre gases e os meios de induzir poluição? Os químicos têm segredos, a Marinha, a Aeronáutica... E alguns segredos do passado estiveram prestes a serem levados a cabo, mas não foram. Não houve tempo. Foram transformados em documento e entregues para certas pessoas. Essas pessoas tiveram filhos, e seus filhos tiveram filhos, e talvez esses segredos tenham passado de geração em geração. Em testamentos, em documentos, com advogados, para serem entregues no momento certo.

“Algumas pessoas não têm ideia do que têm em mãos, outras simplesmente acharam que era lixo e destruíram. Mas temos que descobrir um pouco mais do que sabemos, porque as coisas acontecem num ritmo vertiginoso. Em países exóticos, em lugares diferentes, no Vietnã, nas guerras, nas guerrilhas, na Jordânia, em Israel, até mesmo em países ditos neutros. Na Suécia e na Suíça... em todos os lugares. Essas coisas existem e queremos pistas delas. E temos indícios de que algumas pistas podem ser encontradas no passado. Sei que vocês não podem retornar no tempo, não podem ir ao médico e dizer ‘Hipnotize-me e deixe-me assistir ao que houve em 1914’. Ou em 1918 ou até mesmo antes. Em 1890 talvez. Algo estava sendo planejado e deixou de ser plenamente desenvolvido. Ideias. Basta olhar o passado. O homem já pensava em voar na Idade Média. Existiam teorias sobre o assunto. Os antigos egípcios alimentavam ideias nunca desenvolvidas. Mas à medida que as ideias vão passando às novas gerações, chega o tempo em que caem nas mãos de alguém com os meios e o cérebro capazes de desenvolvê-las. E aí tudo pode acontecer... Coisas boas ou ruins. Ultimamente temos a sensação de que novas invenções (guerra biológica, por exemplo) são difíceis de explicar, a não ser por meio de certas inovações secretas aparentemente insignificantes, mas que, na verdade, estão longe de serem isso. Mãos ocultas capazes de adaptações e resultados muito, mas muito assustadores. O dinheiro transforma a personalidade, transforma uma boa pessoa num demônio. Dinheiro e tudo o que o dinheiro compra e conquista. O poder que o dinheiro é capaz de desenvolver... O que me diz disso tudo, meu jovem Beresford?”

– É uma perspectiva assustadora – falou Tommy.

– Mas pensa que é besteira? Ideias fantasiosas de um velho?

– Penso que o senhor – disse Tommy – é um homem que sabe das coisas.

– Hum... Por isso sempre querem a minha colaboração, não é? Vêm aqui, reclamam da fumaça, falam que ela os sufoca, mas... lembra daquele caso... a conexão Frankfurt? Demos um jeito de estancar aquilo. Demos um jeito de estancar, capturando a pessoa por trás daquilo. Tem uma pessoa, talvez não apenas uma... várias pessoas por trás disso. Precisamos descobrir quem são elas e a natureza de suas atividades.

– Começo a entender – falou Tommy.

– Mesmo? Não acredita que tudo não passa de tolice? Fantasia?

– Nada é fantástico demais para ser verdade – disse Tommy. – Isso a experiência me ensinou. As situações mais espantosas e inacreditáveis são verdadeiras. Mas entenda, eu não sou qualificado. Não tenho conhecimento científico. Sou apenas um leigo interessado em assuntos de segurança.

– Mas – retorquiu o coronel Pikeaway – sempre teve capacidade de descobrir coisas. Você... e ela. Sua mulher. Estou dizendo, ela tem faro. Ela gosta de descobrir coisas e não aceita ficar de fora. Essas mulheres são assim. Conseguem desvendar segredos. Quem é jovem e bonito faz como Dalila. Quem é velho... Uma tia-avó minha, por exemplo. Não tinha segredo que não descobrisse. Sem falar no aspecto financeiro. É o métier de Robinson. Ele conhece as questões monetárias. Entende o fluxo de dinheiro, por que flui, para onde flui, de onde flui e com qual finalidade. E tudo mais. Entender de dinheiro é com ele mesmo. É como um médico sentindo o seu pulso. Onde ficam os quartéis-generais do dinheiro. Quem o está manuseando e com que objetivo. Estou lhe colocando a par disso porque você está no lugar certo. Está no lugar certo por acaso, não está lá pelo motivo que alguém poderia supor. Lá estão vocês, um casal comum, idoso, aposentado, à procura de uma casa boa para desfrutar o resto da vida, escarafunchando os cantos da casa, conversando com as pessoas do local. Quando menos esperarem, uma frase vai lhes dizer algo. É só o que eu desejo que façam. Fiquem de olhos e ouvidos bem abertos. Descubram lendas e histórias contadas sobre os bons e velhos tempos, ou maus e velhos tempos.

– Ouvi comentários sobre um escândalo naval e projetos de submarino – contou Tommy. – Várias pessoas tocaram no assunto. Mas ninguém sabe nada concreto.

– Esse é um bom ponto de partida. Isso foi mais ou menos na época em que Jonathan Kane morava na região. Ele tinha um chalé à beira-mar, de onde promovia sua propaganda ideológica. Os discípulos o endeusavam. Jonathan Kane. K-a-n-e. Mas prefiro escrever de outro jeito. C-a-i-m. Isso o descreveria melhor. Obcecado por destruição e métodos de destruição. Abandonou a Inglaterra, passou um tempo na Itália e percorreu países longínquos, é o que dizem. Esteve na Rússia, na Islândia e nas Américas. O quanto é boato ou verdade não sei. Por onde andou, o que fez, quem foi com ele e quem o escutou, não sabemos. Um sujeito simples, popular com os vizinhos, almoçava na casa deles e vice-versa. Mas tenho que fazer um alerta. Todo cuidado é pouco! Investiguem, mas pelo amor de Deus, tomem cuidado! Cuide bem de... como é o nome dela? Prudence?

– Ninguém a chama de Prudence – explicou Tommy. – Tuppence.

– Isso mesmo. Cuide bem de Tuppence e peça para ela cuidar bem de você. Tomem cuidado com o que comem e o que bebem. Escolham os lugares aonde vão. Desconfiem de pessoas cordiais... Fiquem atentos para qualquer informação singular. Uma história significante do passado. Descendentes, parentes, vínculos com o passado.

– Farei o que puder – disse Tommy. – Nós dois faremos. Mas somos limitados. Estamos velhos demais e temos pouco conhecimento.

– Mas vocês têm boas ideias.

– É, para Tuppence, ideia é o que não falta. Ela encasquetou que tem algo escondido na casa.

– Quem duvida. Outros já tiveram essa mesma ideia. Ninguém nunca achou nada, mas também ninguém procurou com tanta pertinácia. A casa passou na mão de várias famílias. Foi vendida, e veio outro pessoal, e depois mais outro e assim por diante. A família Lestrange, depois os Mortimer e então os Parkinson. Sobre os Parkinson só sabemos que havia um menino.

– Alexander Parkinson?

– Então já ouviu falar nele. Como ficou sabendo?

– Ele deixou uma mensagem num dos livros de Robert Louis Stevenson. “Mary Jordan não morreu de morte natural.” Encontramos a mensagem.

– “E a cada homem lhe penduramos ao pescoço o seu destino.” Não é esse o ditado? Perseverem, vocês dois. Cruzem o Portal do Destino.

 

[1] John Keats (1795-1821), poeta inglês nascido na rua Moorgate, 85, em Londres. (N.T.)

[2] Referência bíblica; Provérbios, 30:15: “A sanguessuga tem duas filhas, a saber: dá-me, dá-me”. (N.T.)

[3] Líder da revolta dos camponeses em 1381. (N.T.)