Portal do Destino

Agatha Christie · Capítulo 11 de 31

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Capítulo 3 - Seis coisas impossíveis antes do café da manhã

CAPÍTULO 3

 

 

Seis coisas impossíveis antes do café da manhã

 

I

 

– Que diabos?! – exclamou Tommy.

No retorno ao lar, ele estava acostumado a encontrar Tuppence em locais improváveis, mas, dessa vez, ficou mais perplexo do que de costume.

Não havia vestígios dela no interior da casa. Lá fora, o suave tamborilar da chuva não cessava. Será que ela estava entretida no jardim? Saiu para confirmar a hipótese. Foi então que observou:

– Que diabos?!

– Olá, Tommy! – saudou Tuppence. – Voltou mais cedo hoje.

– Que negócio é este?

– Truelove?

– O que você disse?

– Eu disse Truelove – explicou Tuppence. – É o nome dele.

– Vai tentar dar um passeio nele? É muito pequeno para você.

– Claro que sim. É uma espécie de brinquedo infantil... como os triciclos ou as bicicletas com rodinhas.

– Ele não anda de verdade, não é? – quis saber Tommy.

– Não exatamente – respondeu Tuppence. – Mas a gente leva até em cima da colina e então... A descer todo santo ajuda, e é só aproveitar o declive.

– E se esborrachar na chegada. Não é isso?

– Nem um pouco – discordou Tuppence. – É só ir freando com os pés. Quer uma demonstração?

– Melhor não – pediu Tommy. – A chuva está engrossando. Só queria saber por que está fazendo isso. É assim tão divertido?

– Na verdade assusta um pouco – falou Tuppence. Mas sabe, eu só queria descobrir e...

– E resolveu perguntar para esta árvore? Que árvore é esta, afinal? Um pinheiro chileno, não é?

– Exato – confirmou Tuppence. – Como sabe?

– Claro que eu sei – disse Tommy. – Sei o outro nome dela, também.

– E eu também – falou Tuppence.

Os dois se entreolharam.

– Agora me esqueci – reconheceu Tommy. – Termina com “cária”...

– Algo parecido com isso – completou Tuppence. – Isso já é o suficiente, não acha?

– O que está fazendo no meio de uma coisa espinhosa dessas?

– Ora, pelo simples fato de que quando você chega ao sopé da colina, se não dá tempo de parar, o jeito é amortecer numa dessas não-sei-o-quê-cárias...

– Não seria urticária? Não, isso tem a ver com urtiga – falou Tommy. – Enfim, gosto não se discute.

– Eu só estava fazendo uma investigaçãozinha sobre aquele problema mais recente.

– Problema seu ou meu?

– Não sei – disse Tuppence. – Espero que nosso.

– Não outro dos problemas de Beatrice ou coisa parecida?

– Ah, não. Fiquei imaginando que outras coisas poderiam estar escondidas nesta casa, então descobri um monte de brinquedos jogados numa esquisita espécie de estufa há muito, muito tempo. Entre eles, esta criatura e também Matilde, um cavalo de balanço com buraco na barriga.

– Buraco na barriga?

– Sim. As crianças enfiavam coisas dentro... Folhas sujas, papéis avulsos e retalhos de flanela usados na limpeza dos móveis.

– Vamos entrar – falou Tommy.

II

 

– Bem, Tommy – iniciou Tuppence, esticando as pernas junto ao calorzinho agradável da lareira da sala, que acendera para receber o esposo –, conte as novidades. Foi ver a tal exposição na Galeria do Hotel Ritz?

– Não deu tempo.

– Como assim? Pensei que tinha ido justamente para isso.

– Nem sempre a gente consegue fazer as coisas como planeja.

– Deve ter ido a algum lugar e feito alguma coisa – falou Tuppence.

– Descobri uma nova alternativa para estacionar o carro.

– Isso é sempre útil – falou Tuppence. – Onde fica?

– Perto de Hounslow.

– O que cargas d’água foi fazer em Hounslow?

– Na verdade não fui a Hounslow. Tem uma espécie de estacionamento lá. Então peguei o metrô.

– Para Londres?

– Sim. Pareceu-me o modo mais fácil.

– Está com jeito de quem tem culpa no cartório – sugeriu Tuppence. – Não vai me dizer que eu tenho uma concorrente em Hounslow?

– Não – garantiu Tommy. – Vai ficar contente ao saber o que eu andei fazendo.

– Ah, comprou um presente para mim?

– Não vamos exagerar – disse Tommy. – Mesmo porque nunca sei o que você quer.

– Às vezes acerta em cheio os palpites – falou Tuppence esperançosa. – O que andou fazendo, Tommy? Por que devo ficar contente?

– Porque eu também – explicou Tommy – estou fazendo minhas pesquisas.

– Todo mundo faz pesquisa hoje em dia – comentou Tuppence. – Adolescentes, sobrinhos e sobrinhas, filhos e filhas, todo mundo pesquisa. Não sei bem o que pesquisam hoje em dia, mas, seja lá o que for, nunca chegam a uma conclusão. Só pesquisam, gastam um bom tempo, ficam satisfeitos consigo, mas tenho minhas dúvidas se dá algum resultado.

– Como a Betty, a nossa filha adotiva, que foi para a África Oriental – lembrou Tommy. – Soube alguma notícia dela?

– Sim, ela está adorando... Adora pesquisar as famílias africanas e escrever artigos sobre elas.

– E as famílias apreciam o interesse dela?

– Não – afirmou Tuppence. – Na paróquia de meu pai, eu me lembro, ninguém gostava dos forasteiros... Os abelhudos, como eram chamados.

– Tem razão – concordou Tommy. – Isso salienta as dificuldades da minha pesquisa ou tentativa de pesquisa.

– Que pesquisa? Não sobre cortadores de grama, espero.

– Não tenho a mínima ideia do que cortadores de grama têm a ver com a história.

– Ué – disse Tuppence –, não é você quem vive olhando catálogos e mais catálogos? Está louco para comprar um cortador de grama.

– Aqui em casa o tipo de pesquisa é outro... Tem a ver com história... crimes e mistérios acontecidos há pelo menos sessenta ou setenta anos.

– Em todo caso, vamos lá. Conte um pouco mais sobre suas pesquisas, Tommy.

– Fui a Londres – contou ele – e fiz a coisa andar.

– Ah, uma pesquisa em andamento? – indagou Tuppence. – Faço a mesma coisa por aqui. Só que nossos métodos são diferentes. E remetem a tempos mais antigos.

– Está começando a se interessar mesmo pelo problema de Mary Jordan? Essa é a expressão que você utiliza ultimamente – disse Tommy. – Está tomando forma, não é? O mistério ou o problema de Mary Jordan.

– Por sinal, um nome tão comum. Se ela era mesmo alemã, talvez o nome não seja verdadeiro – ponderou Tuppence. – O pessoal dizia que ela era espiã germânica, mas poderia ter sido inglesa, imagino eu.

– Essa história de espiã germânica é pura lenda.

– Continue, Tommy. Não está contando nada.

– Bem, eu ativei certas... certas... certas...

– Chega de certas – pediu Tuppence. – Não estou entendendo nada.

– Às vezes é difícil de explicar as coisas – falou Tommy. – Mas existem certas maneiras de se fazer uma investigação.

– Sobre o passado?

– Sim. É possível descobrir informações concretas sem cavalgar brinquedos antigos, interrogar velhotas, jogar verde para colher maduro com um velho jardineiro que confunde tudo e atazanar as moças do correio para ver se elas lembram do que as tias-bisavós disseram um dia.

– Cada atividade dessas ajudou um bocadinho – defendeu-se Tuppence.

– E a minha também vai ajudar – previu Tommy.

– Então tem feito investigações? A quem dirigiu suas perguntas?

– Não é bem assim, mas você deve se lembrar, Tuppence, que numa época de minha vida estive em contato com pessoas que realmente sabem como lidar com esse tipo de coisa. Existem pessoas a quem você paga uma quantia para que façam a pesquisa para você nos meios e locais apropriados, de forma que os resultados obtidos são bem confiáveis.

– Que tipo de coisas? Que tipo de locais?

– Ora, muitas coisas. Para começo de conversa, pode-se mandar alguém pesquisar óbitos, nascimentos e casamentos.

– Ah, mandou alguém a Somerset House?[1] Lá é possível investigar óbitos e casamentos?

– E nascimentos... Mas não precisa ir pessoalmente, é só contratar alguém para ir em seu lugar. E descobrir quando alguém morreu, ler o testamento de alguém, checar os casamentos das igrejas ou verificar certidões de nascimento. Tudo isso pode ser investigado.

– Está gastando muito? – quis saber Tuppence. – O combinado era economizar depois das despesas da mudança.

– Levando em conta o seu interesse na solução desse problema, considero que é dinheiro bem investido.

– E então, descobriu alguma coisa?

– Não assim tão rápido. É preciso esperar até a pesquisa ficar pronta. Se eles conseguirem obter as respostas...

– Quer dizer então que alguém vai aparecer e nos dizer que Mary Jordan nasceu num lugarejo como Little Sheffield-on-the-Wold? E depois você vai até lá investigar mais? É por aí a coisa?

– Mais ou menos. Existem resultados do censo, atestados de óbitos com a causa da morte. Tem muita coisa que a gente pode descobrir.

– Parece interessante – reconheceu Tuppence –, o que já é alguma coisa.

– Sem falar nos arquivos dos jornais que o público pode acessar e pesquisar.

– Notícias... sobre assassinatos ou julgamentos?

– Não necessariamente. O importante é manter conexões com pessoas específicas. Pessoas por dentro das coisas... a quem se pode recorrer, fazer umas perguntinhas, reatar velhos laços. Como na época em que tocamos aquele

escritório de detetive particular em Londres.[2] Existem pessoas capazes de fornecer informações ou de nos dizer onde consegui-las. As coisas dependem um pouquinho de quem você conhece.

– Isso é a pura verdade – anuiu Tuppence. – Aprendi isso na pele.

– Nossos métodos são diferentes – falou Tommy. – Não quero dizer que os meus sejam melhores. Nunca vou esquecer o dia em que apareci de repente naquela estalagem Sans Souci. A primeira coisa com que me deparo é você

sentada tricotando e dizendo chamar-se sra. Blenkensop.[3]

– Pois é. Tudo porque não contratei ninguém para fazer o trabalho em meu lugar. Quer fazer bem feito, faça você mesmo – falou Tuppence.

– É – disse Tommy –, você fingiu que saiu e ficou escutando na salinha ao lado a minha interessante conversa com o homem do serviço secreto. Ficou sabendo exatamente para onde eu deveria ir e o que eu ia fazer. Então deu um jeito de chegar lá primeiro. Escutar às escondidas. Sem tirar nem pôr. Coisa mais vergonhosa.

– Com resultados bem satisfatórios – disse Tuppence.

– Sim – falou Tommy. – Você tem uma espécie de intuição para o sucesso. Ele vem a você ao natural.

– Um dia vamos descobrir tudo o que aconteceu aqui, só que faz tanto tempo... Não sai de minha cabeça que algo muito importante se esconde aqui, algo a ver com esta casa ou com o pessoal que morou nela... Mas ainda não entendo como. Enfim, já sei qual o nosso próximo passo.

– O quê? – quis saber Tommy.

– Acreditar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã[4], é claro – esclareceu Tuppence. – Agora são quinze para as onze, e quero ir dormir. Estou cansada, sonolenta e toda suja de tanto brincar com essas coisas velhas e enferrujadas. Imagino que ainda existam outras coisas naquele lugar chamado... Por sinal, por que será que se chama Kay-Kay?

– Não sei. Como é que se soletra?

– Acho que é k-a-i. Não apenas K-K.

– Assim soa mais misterioso?

– Soa japonês – falou Tuppence em dúvida.

– Nada a ver. Parece mais um prato. Um tipo de arroz, talvez.

– Vou para cama, mas antes vou tomar um bom banho e dar um jeito de tirar as teias de aranha dos cabelos – falou Tuppence.

– Lembre-se – disse Tommy –, seis coisas impossíveis antes do café da manhã.

– Aposto que o supero nesse aspecto – disse Tuppence.

– Às vezes você é imprevisível – alfinetou Tommy.

– Mas quase sempre quem tem razão é você – retorquiu Tuppence. – E isso é muito irritante. Enfim, a vida é um teste contínuo. Quem é que vive dizendo isso?

– Não importa – falou Tommy. – Vá tirar a sujeira dos tempos de antanho. Isaac é um bom jardineiro?

– Pelo menos pensa que é – respondeu Tuppence. – Acho que podemos dar uma chance a ele...

– Infelizmente não sabemos quase nada sobre jardinagem. Mas esse é outro problema.

[1] Palácio londrino que abrigou o Registro Geral desde 1837 até a década de 1970. (N.T.)

 

[2] Alusão a Sócios no crime (1929), segunda aventura de Tommy e Tuppence. (N.T.)

[3] Referência a M ou N? (1941), terceira aventura de Tommy e Tuppence. (N.T.)

[4] Em Alice no País do Espelho, Alice diz que não acredita em coisas impossíveis. A Rainha Branca responde que na infância já pensou em “seis coisas impossíveis antes do café da manhã”. (N.T.)