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Capítulo 11 - Hannibal em ação
CAPÍTULO 11
Hannibal em ação
I
Tommy sentou-se em um gabinete da delegacia de polícia. O inspetor Norris meneou a cabeça suavemente.
– Com sorte vamos obter resultados, sr. Beresford – afirmou ele. – Você disse que o dr. Crossfield está atendendo a sua esposa...
– Não é nada sério – informou Tommy. – A bala pegou de raspão. Sangrou um bocado, mas ela não corre perigo, segundo o dr. Crossfield.
– Ela não é mais tão moça, imagino – comentou o inspetor Norris.
– Já passou dos setenta – disse Tommy. – Eu também já não sou mais nenhum garoto.
– Depois que vocês se mudaram para cá, o pessoal comenta bastante sobre ela – falou o inspetor. – E sobre as missões de que vocês participaram.
– Não imaginava – limitou-se a dizer Tommy.
– A fama nos precede, boa ou má – afirmou o inspetor Norris numa voz bondosa. – Criminosa ou heroica, nossa ficha corrida é implacável. Mas uma coisa eu lhe garanto: faremos tudo que estiver a nosso alcance para esclarecer esse atentado. Consegue descrever o autor dos disparos?
– Não – falou Tommy. – Quando o avistei, ele fugia com o nosso cão nos calcanhares. Não parecia velho. Pelo menos sua corrida era ágil.
– Um adolescente?
– Acho que não – afirmou Tommy.
– Ninguém ligou ou escreveu pedindo dinheiro? – sugeriu o inspetor. – Chantageando para vocês deixarem a casa?
– Nada parecido – falou Tommy.
– E... há quanto tempo estão aqui?
Tommy contou ao inspetor.
– Hum... É pouco tempo. O senhor vai a Londres todos os dias úteis?
– Quase todos – confirmou Tommy. – Se quiser detalhes...
– Não precisa – garantiu o inspetor Norris. – Só aconselho a não se ausentar tanto, ficar em casa e cuidar pessoalmente da sra. Beresford.
– Já pensei nisso – falou Tommy. – É uma boa desculpa para não comparecer aos compromissos londrinos.
– Vamos ficar de olho para apanhar essa pessoa, seja quem for...
– O senhor... – Tommy titubeou – suspeita de alguém?
– Sabemos bastante sobre indivíduos da região. Mais do que eles pensam. Não deixar transparecer é a melhor maneira de os capturarmos. Nesse meio-tempo, descobrimos quem os financia e se agem por conta própria ou a mando de alguém. Tudo indica que não é gente daqui.
– Por que pensa isso? – indagou Tommy.
– Às vezes as informações chegam de onde a gente menos espera.
Tommy e o inspetor se entreolharam. Um longo minuto de silêncio.
– Entendo – disse Tommy por fim.
– Se me permite dizer uma coisa... – falou o inspetor Norris.
– Pois não? – respondeu Tommy, com olhar duvidoso.
– O jardim de vocês. Precisa de cuidados profissionais, imagino.
– Nosso jardineiro foi assassinado, como o senhor deve saber.
– Sim, sei de tudo. O velho Isaac Bodlicott, não é? Sujeito bonachão. Vivia contando histórias fantásticas sobre as coisas maravilhosas de antigamente. Uma pessoa conhecida na comunidade. E confiável, também.
– Não tenho ideia por que ele foi assassinado nem quem o matou – falou Tommy. – E ninguém descobriu nada.
– Quer dizer que nós não descobrimos. Mas essas coisas levam tempo, sabe. Não surgem logo no inquérito, nem após o juiz afirmar que houve “Assassinato de autoria desconhecida”. Esse é só o começo. Como eu dizia, talvez alguém se ofereça para trabalhar no jardim de vocês. Dois ou três dias por semana, talvez mais. Como referência, vai informar que trabalhou para o sr. Solomon. É importante não esquecer esse nome.
– Sr. Solomon – repetiu Tommy.
Por um instante, percebeu um brilho nos olhos do inspetor Norris.
– O sr. Solomon está morto, é claro. Mas todo mundo sabe que ele morou aqui e empregou vários jardineiros eventuais. Não tenho certeza sobre que nome o candidato vai lhe dar. Vamos dizer que não lembro direito. Talvez Crispin. Entre trinta e cinquenta anos, e trabalhou para o sr. Solomon. Se alguém aparecer para trabalhar como jardineiro e não mencionar o sr. Solomon, não recomendo contratar. Só um pequeno aviso.
– Entendo – disse Tommy. – Pelo menos, acho que entendo.
– No seu ramo, para um bom entendedor, meia palavra basta, não é, sr. Beresford? Algo mais em que eu possa ajudar?
– Não – falou Tommy. – Já perguntei tudo que tinha para perguntar.
– Vamos empreender investigações não apenas locais, sabe. Quem sabe em Londres ou em outros lugares. Todos ajudam a investigar. Deve saber disso melhor do que eu.
– Quero evitar que Tuppence se envolva demais nisso... mas é difícil.
– Mulheres sempre são difíceis – sentenciou o inspetor Norris.
Mais tarde, ao sentar-se na cama ao lado de Tuppence, Tommy repetiu essa observação, enquanto ela degustava um cacho de uvas.
– Você e sua preguiça de tirar as sementes.
– Dá um trabalhão – falou Tuppence. – E elas não fazem mal.
– Pelo jeito não, afinal, você faz isso desde criança!
– O que disse a polícia?
– O esperado.
– Algum suspeito?
– Dizem que não é ninguém daqui.
– Com quem falou? Inspetor Watson, não é mesmo?
– Inspetor Norris.
– Esse eu não conheço. O que mais ele disse?
– Que as mulheres são seres difíceis de dominar.
– Mesmo?! Desconfiou que você ia me contar?
– Talvez não – disse Tommy, levantando-se. – Preciso fazer algumas ligações para Londres. Não vou ir à capital por uns dias.
– Não vejo por que não ir a Londres. Estou muito segura por aqui. Alfred e todos os outros cuidam de mim. O dr. Crossfield é incrivelmente amável. Mais parece uma galinha chocando o ovo.
– Vou comprar umas coisas para o Albert. Você quer alguma coisa?
– Melão! – exclamou Tuppence. – Estou com desejo de comer frutas. Frutas e mais frutas.
– Certo – falou Tommy.
II
Tommy fez uma ligação para Londres.
– Coronel Pikeaway?
– Sim. Olá. Ah, é o senhor, Thomas Beresford, não é?
– Ah, reconheceu a minha voz. Eu queria avisar...
– Sobre Tuppence? Estou sabendo – contou o coronel. – Fique por aí na próxima semana. Não venha a Londres. Relate tudo que acontecer.
– E se tivermos algo importante para levarmos ao senhor?
– Mantenha em seu poder por enquanto. Diga a Tuppence para inventar um lugar e esconder até nova ordem.
– É boa nisso. Como o nosso cachorro, que esconde ossos no jardim.
– Ouvi falar que ele correu atrás do homem que atirou em vocês...
– Então o senhor já sabe de tudo.
– Sempre sabemos – afirmou o coronel Pikeaway.
– Hannibal deu uma mordida nele e trouxe um pedaço das calças do homem na boca.