Portal do Destino

Agatha Christie · Capítulo 28 de 31

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Capítulo 14 - Explorando o jardim

CAPÍTULO 14

 

 

Explorando o jardim

 

I

 

– Entendeu, Albert? – perguntou Tommy.

Na copa, Albert lavava a bandeja de chá trazida do quarto de Tuppence.

– Sim, senhor – garantiu Albert. – Entendi.

– Fique tranquilo, tem alguém para lhe avisar do perigo... Hannibal.

– Ele não é um cachorro tão mau assim – falou Albert. – Só não vai com a cara de todo o mundo, é claro.

– Essa – falou Tommy – não é a missão da vida dele. Não é o tipo de cachorro que dá as boas-vindas aos ladrões e balança o rabo para pessoas erradas. Hannibal não nasceu ontem. Fui bem claro, não fui?

– Sim. Mas não sei o que vou fazer se a dona Tuppence... Não sei se a obedeço ou conto a ela o que o senhor disse...

– Use uma boa dose de diplomacia – aconselhou Tommy. – Ela precisa descansar. Vou confiá-la a seus cuidados.

Albert abriu a porta da frente para um senhor em traje de tweed. Lançou um olhar de suspeita a Tommy. O visitante entrou e deu um passo à frente, com um sorriso amigável no rosto.

– Sr. Beresford? Ouvi falar que precisa de ajuda no jardim... Faz pouco tempo que se mudaram, não é? Notei quando subi o caminho que a grama está um pouco alta. Fiz alguns trabalhos na vizinhança há uns dois anos. Para o sr. Solomon. Talvez tenha ouvido falar nele.

– Sr. Solomon, sim, já ouvi falar nele.

– Meu nome é Crispin. Angus Crispin. Estou curioso para conhecer o jardim.

II

– Está na hora de alguém tomar as rédeas desse jardim – falou o sr. Crispin, enquanto Tommy o conduzia num passeio de reconhecimento por entre os canteiros de flores e as fileiras da horta.

– Ali que plantavam espinafre, ali naquele canteiro da horta. Atrás dele havia alguns caramanchões. O pessoal também cultivava melões.

– Pelo visto o senhor está bem informado.

– A gente ouve muita coisa sobre o que acontecia por aí antigamente. As velhinhas contam sobre os canteiros de flores, e Alexander Parkinson contou para muitos amigos sobre as folhas de erva-dedal.

– Ele deve ter sido um menino extraordinário.

– Era criativo e interessado em crimes. Fez uma mensagem em código em uma obra de Stevenson: A flecha negra.

– Por sinal, que livro, não? Só li há uns cinco anos. Antes disso nunca tinha ido além de Raptado. Quando trabalhei para... – Ele hesitou.

– O sr. Solomon? – sugeriu Tommy.

– Sim, é esse o nome. Ouvi coisas do velho Isaac. Até onde eu sei, a menos que eu tenha escutado os boatos errados, Isaac se encaminhava para completar um século de vida e andou trabalhando aqui com vocês.

– Sim – falou Tommy. – Para a idade dele tinha ótima saúde, é verdade. Sabia muitas histórias e gostava de nos contar, também. Coisas que ele não tinha como lembrar.

– Não, mas ele apreciava as fofocas dos tempos antigos. Ele tem amigos que ouviram as histórias dele e averiguaram sua veracidade. Imagino que vocês mesmos tenham escutado várias coisas.

– Até agora – falou Tommy – tudo acaba numa lista de nomes. Nomes do passado que naturalmente não significam nada para mim.

– Só diz que diz que?

– A maior parte. Minha mulher escutou muita coisa e fez uma lista. Não sei se significa algo. Eu mesmo consegui uma lista. Chegou a minhas mãos ontem, inclusive.

– Ah. Lista de quê?

– Do censo – explicou Tommy. – Sabe, teve um censo (tomei nota da data e depois lhe passo) com as pessoas que estiveram aqui naquele dia. Aconteceu uma grande festa. Um jantar.

– Então o senhor sabe quem estava aqui em certa data... talvez numa data bem significativa?

– Sim – confirmou Tommy.

– Pode ser valioso. Faz pouco que se mudaram, não é?

– E já estamos pensando em ir embora – disse Tommy.

– Não gostaram? É uma casa bonita. E o jardim pode ficar lindo também. Tem arbustos magníficos... É preciso podar e retirar árvores e arbustos supérfluos, que deveriam florir, mas não estão florindo e nem vão florir mais pelo aspecto deles. Não entendo por que querem ir embora.

– As ligações com o passado não são lá muito agradáveis por essas bandas – falou Tommy.

– O passado... – disse o sr. Crispin. – Como o passado se conecta ao presente?

– Tem gente que pensa que o passado não tem mais importância, que é água que já passou embaixo da ponte. Mas sempre sobram resquícios e desdobramentos. Está mesmo disposto a...

– Cuidar do jardim? Estou. A jardinagem é mais do que um hobby para mim, é uma paixão.

– Ontem apareceu aqui a srta. Mullins.

– Mullins? Ela é jardineira?

– Algo nessa linha. Foi a sra. Griffin, se não me engano, que falou dela para minha esposa e a enviou aqui para falar conosco.

– Vocês a contrataram ou não?

– Não em definitivo – falou Tommy. – Para ser sincero, temos um cão de guarda bem espevitado por aqui. Um Manchester terrier.

– É, quando o assunto é proteger a casa, eles são muito espevitados. Aposto que ele pensa que deve proteger sua esposa e nunca a deixa sair sozinha. Está sempre por perto.

– Isso mesmo – falou Tommy –, sempre pronto para arrancar braços e pernas de quem ousar tocar num fio de cabelo dela.

– Boa raça de cães. Afetuosos e leais. Teimosia afiada e dentes afiados também. É melhor eu tomar cuidado com ele.

– Agora ele não vai fazer nada. Está dentro de casa.

– Srta. Mullins – falou o sr. Crispin, pensativo. – Interessante.

– Por que interessante?

– Acho que a conheço por outro nome. Cinquenta e poucos anos?

– Sim, e veste traje de tweed. Parece adaptada ao meio rural.

– E tem conexões no interior, também. Isaac pode ter contado ao senhor algo sobre ela, imagino. Ouvi falar que ela recentemente voltou a morar aqui. As coisas estão se encaixando.

– O senhor sabe coisas que eu não sei sobre este lugar – falou Tommy.

– Não diria isso. É mais provável que Isaac soubesse de algo e tenha contado a vocês. Ele sim sabia das coisas. Histórias antigas, como se diz, mas a memória dele era boa. E o pessoal gosta de falar. Nesses clubes para idosos, o pessoal gosta de falar. Histórias mirabolantes ou verídicas... mas todas curiosas. E talvez Isaac soubesse demais.

– É uma pena o que aconteceu com Isaac – falou Tommy. – Gostaria de acertar as contas com quem o matou. Era um velhinho legal, muito bom para nós, e fazia tudo que podia para nos ajudar por aqui. Venha, vamos continuar a explorar o jardim.