Portal do Destino
Capítulo 7 - Mais problemas
CAPÍTULO 7
Mais problemas
– Posso falar um minutinho com a senhora?
– Ai, meu santo – disse Tuppence. – Mais problemas?
Vinha do sótão, descendo as escadas, batendo o pó da roupa. Trajava o seu melhor conjunto de casaco e saia; pensava em colocar um chapéu de pena e sair para o chá na casa da nova amiga, conhecida na feira do Elefante Branco. O momento parecia inoportuno para escutar as desventuras de Beatrice.
– Não chega a ser um problema. Só uma coisinha que talvez a senhora goste de saber.
– Ah – falou Tuppence, ainda com o pressentimento de que poderia ser outro problema disfarçado. Desceu os degraus com cuidado. – Estou meio apressada, tenho um chá para ir.
– Só queria falar uma coisa sobre a moça que a senhora me perguntou. Mary Jordan, não era? Só que o pessoal achou que era Mary Johnson. Tinha uma Belinda Johnson que trabalhava no correio, mas isso foi há muito tempo.
– Sim – concordou Tuppence. – E também tinha um policial chamado Johnson, já me disseram.
– Bem, em todo caso, essa minha amiga (a Gwenda) trabalha naquela loja que fica junto ao correio e vende envelopes, cartões e badulaques, sem falar nos bibelôs de porcelana na época do Natal...
– Sei – cortou Tuppence –, o nome é Mrs. Garrison’s ou algo parecido.
– Sim, mas hoje a loja não é mais da sra. Garrison. Bem, minha amiga Gwenda achou que a senhora ia gostar de saber. Parece que ela ouviu falar numa Mary Jordan que morou aqui há muito tempo. Muito tempo mesmo. Morou aqui nesta casa, quero dizer.
– Aqui em The Laurels?
– Bem, na época não tinha esse nome. Gwenda ficou sabendo de algo sobre ela. Algo que talvez fosse de seu interesse. Uma história bem triste até. Morreu numa espécie de acidente.
– Quer dizer que ela estava morando nesta casa quando morreu? Ela era da família?
– Não. A família se chamava Parker, um nome assim. Aqui morava um monte de Parker, Parker ou Parkinson... Ela só estava hospedada aqui. Acho que a sra. Griffin sabe essa história. Conhece a sra. Griffin?
– Ah, muito pouco – disse Tuppence. – Por coincidência, é na casa dela o chá de hoje à tarde. Falei com ela no outro dia na feira, quando fomos apresentadas.
– É bem velha, mais até do que aparenta, mas dizem que tem uma memória excelente. Acho que um dos meninos dos Parkinson era afilhado dela.
– Como ele se chamava?
– Alec, se não me engano. Um nome parecido. Alec ou Alex.
– O que aconteceu com ele? Cresceu... foi embora... tornou-se soldado, marinheiro ou coisa do tipo?
– Ah, não. Ele morreu. Acho que está enterrado no cemitério local. Morreu de uma doença daquelas, acho, que as pessoas não conheciam muito. Uma daquelas doenças com nome de gente.
– Quer dizer uma doença com nome próprio?
– Mal de Hodgkin ou coisa do tipo. Não, não era esse, mas outro parecido. Não sei como é, mas dizem que o sangue da gente muda de cor. Hoje em dia parece que tiram o sangue da pessoa e fazem uma transfusão com sangue bom, ou coisa parecida. Mas até mesmo assim a pessoa quase sempre acaba morrendo, dizem. A menina da sra. Billings (aquela da confeitaria) morreu disso aos sete anos. Dizem que mata gente bem jovem.
– Leucemia?
– Bem que achei que a senhora sabia. Sim, era esse o nome, tenho certeza. Mas eles falam que um dia vão achar a cura, sabe. Assim como hoje o pessoal toma vacina e outros remédios contra tifo e o diabo a quatro.
– Muito interessante – disse Tuppence. – Pobre menino.
– Ah, ele nem era tão pequeno. Já estava na escola. Devia ter treze ou catorze anos.
– Bem – insistiu Tuppence –, é tudo muito triste. – Fez uma pausa e então disse: – Minha nossa, estou atrasada. Preciso me apressar.
– Aposto que a sra. Griffin vai saber de algo. Não digo coisas acontecidas com ela, mas, como mora aqui desde criança, já escutou muitas histórias sobre as famílias antigas. Algumas histórias escabrosas. Escandalosas! Claro, isso na época que o pessoal chama de eduardiana ou vitoriana. Não sei qual. A senhora deve saber. Acho que é vitoriana, porque a velha rainha era viva. É, deve de ser vitoriana mesmo. Outros dizem que é da época eduardiana, o “círculo da Marlborough House”. Isso que eu chamo de alta sociedade!
– Sim – concordou Tuppence –, sim. Alta sociedade.
– E escândalos – disse Beatrice, com certo fervor.
– Uma boa dose de escândalos – reforçou Tuppence.
– Meninas fazendo o que não deviam – disse Beatrice, relutante a se despedir da patroa no bom da conversa.
– Não – discordou Tuppence. – As meninas levavam vidas muito... puras e austeras. Casavam cedo e, em geral, entravam na nobreza.
– Puxa! – exclamou Beatrice. – Que bom para elas. Roupa bonita, turfe, danças e bailes.
– Sim – falou Tuppence –, baile é o que não faltava.
– Uma vez uma amiga me contou que a vó dela trabalhou de empregada numa daquelas casas sofisticadas, sabe, que recebiam a nobreza, e o príncipe de Gales (aquele mesmo que depois se tornou Eduardo VII) estava lá e foi tão simpático... Atencioso com os empregados e com todo mundo. E, quando ela foi embora, levou o sabonete que ele tinha usado para lavar as mãos e guardou sempre com ela. Mostrava para a gente quando éramos crianças.
– Que emocionante – comentou Tuppence. – Devem ter sido tempos inesquecíveis. Talvez ele tenha se hospedado aqui em The Laurels.
– Não, nunca ouvi falar nisso, e eu teria ouvido. Não, aqui só os Parkinson. Nem condessa, nem marquesa, nem lorde, nem dama. A principal atividade dos Parkinson era o comércio. Gente muito rica e tudo o mais, mas não há nada de empolgante no comércio, não é?
– Depende – ponderou Tuppence. E acrescentou: – É melhor eu...
– É melhor a senhora ir andando, senão vai se atrasar, madame.
– Sim. Bem, muito obrigada. É melhor colocar um chapéu. Meu cabelo ficou todo desarrumado.
– Também! A senhora roçou a cabeça naquele canto onde ficam as teias de aranha. Vou lá limpar para a senhora não fazer isso de novo.
Tuppence desceu correndo as escadas.
“Alexander correu nestes degraus”, pensou ela. “Muitas vezes. E ele sabia que tinha sido ‘um deles’. Isso me deixa intrigada. Mais intrigada do que nunca.”