Portal do Destino

Agatha Christie · Capítulo 13 de 31

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Capítulo 5 - Métodos de investigação

CAPÍTULO 5

 

 

Métodos de investigação

 

– Afinal por onde andava, Tuppence? – questionou o marido ao retornar para casa no dia seguinte.

– Por último estive no porão – respondeu Tuppence.

– Dá para notar – observou Tommy. – O seu cabelo está cheio de teias de aranha.

– Ora, não poderia ser diferente. No porão, teia de aranha é o que não falta.

Afora isso – falou Tuppence –, só uns frascos de bay rum. [1]

– Bay rum? – indagou Tommy. – Interessante.

– Mesmo? – respondeu Tuppence. – Alguém consegue beber aquilo? Não me parece nem um pouco palatável.

– Acho – disse Tommy – que o pessoal usava como tônico capilar. Quero dizer homens, não mulheres.

– Tem razão – disse Tuppence. – Lembro de um tio meu que aplicava. Um amigo dele trazia da América.

– É mesmo? Que interessante – disse Tommy.

– Não acho – desdenhou Tuppence. – Não nos ajuda em nada, pelo menos. Não é possível esconder nada num frasco desses.

– Então é assim que você passa o seu tempo.

– É preciso começar por algum lugar – falou Tuppence. – Se o que seu amigo disse é verdade, algo pode estar escondido nesta casa, mesmo sendo difícil imaginar onde está ou o que é. Afinal, quando você vende uma casa, morre ou se muda, a casa é então esvaziada, não é mesmo? Os herdeiros tiram a mobília e a vendem, ou, se a mobília fica, o próximo morador a vende. Por isso, pela lógica, as coisas que sobraram na casa até hoje não pertencem a moradores antigos e sim aos mais recentes.

– Mas então por que alguém ia querer nos ferir ou tentar nos expulsar daqui? Isso só faria sentido se houvesse algo que não querem que a gente descubra.

– Essa é a sua teoria – falou Tuppence. – Pode não ser verdade. Em todo caso, o dia não foi totalmente perdido. Encontrei algumas coisinhas.

– Tem a ver com Mary Jordan?

– Não em especial. O porão, como disse, não é uma fonte muita boa. Velharias fotográficas, uma lâmpada de quarto escuro que se usava antigamente, de vidro vermelho, e os frascos de loção. Mas nenhum ladrilho com a aparência de ter sido removido para esconder algo embaixo. Alguns baús estragados e duas malas antigas, tudo coisa sem muita utilidade. É só dar um chute que se desmancham. Fracasso quase total.

– Que frustrante – disse Tommy.

– Para falar a verdade, no fim encontrei umas coisinhas interessantes. Então falei com meus botões (é sempre bom falar com os seus botões!)... Pensando bem, antes de contar, é melhor subir e tirar as teias de aranha.

– Faça isso – concordou Tommy. – Ficará mais agradável aos olhos.

– Se quer um sentimento puro como o de Darby e Joan[2] – falou Tuppence –, deve sempre me achar provocante, não importa a idade.

– Tuppence, minha queridinha – falou Tommy –, para meus olhos você é provocante até demais. E, com esse cachinho fofo de teia de aranha enfeitando a orelha esquerda, fica ainda mais atraente. Parece aquele cachinho dos retratos da imperatriz Eugênia, sabe, descendo pelo pescoço. Com a diferença de que nos cachinhos da imperatriz não tinha uma aranha.

– Aranha? – gritou Tuppence passando a mão no cabelo.

Ela subiu e mais tarde voltou à presença de Tommy. Uma taça a esperava. Olhou para ela desconfiada.

– Não vai querer que eu beba o bay rum, vai?

– Nem eu quero.

– Bem – reiniciou Tuppence –, se eu puder continuar com o que estava falando...

– Por favor, continue – pediu Tommy. – Vai continuar de qualquer jeito, mas quero ter a sensação de que foi porque eu a incentivei.

– Como eu ia dizendo, falei com meus botões: “Se eu fosse esconder algo nesta casa para ninguém achar, que tipo de lugar escolheria?”

– Nada mais lógico – ponderou Tommy.

– E então pensei: “que lugares existem por aqui onde é possível esconder coisas?” Um deles é a barriga de Matilde.

– Como é? – disse Tommy.

– A barriga de Matilde. O cavalo de balanço. Eu contei a você sobre o cavalo de balanço. É americano.

– Quanta coisa veio da América – concluiu Tommy. – O rum também, pelo que você disse.

– O cavalo de balanço tem um buraco na barriga. Foi o velho Isaac que me contou. Um buraco na barriga com uma porção de papéis esquisitos dentro. Nada de atrativo. Mas é um bom esconderijo, não acha?

– É possível.

– E o Truelove, é claro. Examinei Truelove de novo. Ele tem um assento impermeável todo estragado, mas ali não tinha nada. E também não achei pertences pessoais de ninguém, é claro. Então pus a cabeça para funcionar de novo. Afinal de contas, ainda faltava a estante cheia de livros. As pessoas escondem coisas nos livros. E não chegamos a terminar a biblioteca lá em cima, não é?

– Achei que tínhamos terminado – comentou Tommy com esperança.

– Ainda não. Falta a prateleira de baixo.

– Mas essa não precisa ser mexida. Pelo menos não é necessário pegar uma escada e ficar baixando os livros.

– Pois é. Então subi no sótão, sentei no chão e examinei a prateleira inferior. A maioria dos livros era de sermões. Escritos em outras épocas por um pastor metodista. Nada de estimulante. Daí eu derrubei todos os volumes da prateleira no chão e, então, descobri um buraco camuflado embaixo dos livros. Não dá para saber quando foi feito. Sei que alguém abriu um buraco e empurrou lá para dentro tudo que é coisa. Até um livro meio rasgado, grande, de capa parda. Puxei para dar uma olhada. Nunca se sabe, não é? E o que você pensa que era?

– Não tenho a mínima ideia. A primeira edição de Robinson Crusoé?

– Não. Um livro de aniversário.

– Um livro de aniversário?! E o que vem a ser isso?

– O pessoal fazia antigamente. É bem velho. Da época dos Parkinson, acho. Ou até mesmo antes. Bem dilapidado e rasgado. Nada que valha a pena guardar, e não acredito que alguém tenha dado importância a ele. Mas é bem antigo mesmo, e é possível achar algo nele, penso eu.

– Entendo. Quer dizer que alguém pode ter guardado algo no meio das páginas.

– Sim. Mas ninguém fez isso, é claro. Nada assim tão simples. De todo modo, vou continuar procurando com bastante cuidado. Ainda não o examinei com a atenção necessária. Pode ter nomes interessantes nele.

– Imagino que sim – falou Tommy, sem esconder o ceticismo.

– Esse item foi o único com que me deparei no setor de livros. Não tinha mais nada na prateleira de baixo. Então, é claro, só faltava examinar os armários.

– E o resto da mobília? – indagou Tommy. – Gavetas secretas.

– Não, Tommy, está vendo tudo errado. Toda a mobília da casa agora é nossa. A casa estava vazia quando trouxemos a mudança. A única coisa que encontramos aqui de tempos antigos é aquela confusão toda na estufa KK, todos aqueles brinquedos e bancos de jardim velhos e enferrujados. Não existe na casa algo que se possa chamar mesmo de mobília antiga. Seja lá quem morou aqui ultimamente levou as coisas ou senão pôs à venda. Depois dos Parkinson várias famílias moraram aqui, então é difícil ter ficado algo daquela época. Mas, por incrível que pareça, encontrei uma coisa que pode ser útil.

– O quê?

– Cardápios de porcelana.[3]

– Cardápios de porcelana?

– Sim, naquele velho armário em que não tínhamos entrado ainda. Aquele ao lado da despensa, que tinham perdido a chave. Pois bem, achei a chave numa caixa velha. Lá fora, na KK. Coloquei um pouco de óleo na chave e consegui abrir a porta do armário. Não tinha nada nele. Só um armário sujo com uns cacos de porcelana dentro. Vestígios das últimas pessoas que estiveram aqui. Mas, jogado na prateleira de cima, tinha um montinho de cardápios de porcelana vitoriana, que o pessoal usava nas festas. De dar água na boca, as coisas que eles comiam... Refeições fascinantes. Depois do jantar eu leio para você. De dar água na boca! Duas sopas, uma leve e outra mais substanciosa e, a seguir, dois tipos de peixe. Isso tudo antes das entrées! Então você tinha uma salada ou coisa que o valha. E daí vinha a carne e daí... não tenho bem certeza o que vinha depois. Torta de sorvete! E para encerrar, salada de lagosta! Dá para acreditar?

– Chega, Tuppence – pediu Tommy –, não aguento mais.

– Para mim é interessante. São coisas antigas. Bem antigas!

– E o que pretende extrair de todas essas descobertas?

– O único item promissor é o livro de aniversário. Nele há menção sobre uma pessoa chamada Winifred Morrison.

– E...?

– E Winifred Morrison, pelo que sei, era o nome de solteira da velha sra. Griffin, aquela que fui visitar esses dias na hora do chá. Ela é uma das moradoras mais antigas da aldeia e se lembra ou ficou sabendo de fatos das gerações passadas. Quem sabe ela não lembra ou ouviu falar de alguns dos outros nomes do livro de aniversário?

– Quem sabe – falou Tommy com ar de dúvida. – Ainda acho que...

– O que você acha? – quis saber Tuppence.

– Não sei bem o que acho – finalizou Tommy. – Vamos para a cama e dormir. Não acha que é melhor deixarmos de lado toda essa história? Que diferença faz descobrir quem matou Mary Jordan?

– Não quer descobrir?

– Não, não quero – garantiu Tommy. – Pelo menos... ah, desisto. Conseguiu me enredar também, eu admito.

– E você não descobriu nada? – indagou Tuppence.

– Hoje não deu tempo. Mas consegui novas fontes de informações. Contratei a mulher de quem lhe falei, aquela especializada em pesquisas... Está investigando pistas.

– Então – disse Tuppence – ainda há esperança. Pode até ser uma tolice, mas que é divertido, ah, isso é.

– Não tenho certeza se vai ser tão divertido quanto você pensa – considerou Tommy.

– Isso não importa – retorquiu Tuppence. – O que importa é que estou fazendo o meu melhor.

– Não tente fazer o melhor sozinha – recomendou Tommy. – É justamente isso que me deixa tão preocupado... Nem sempre estou por perto.

 

[1] Destilado das folhas e frutos de Pimenta racemosa, planta do Caribe. (N.T.)

[2] Na Inglaterra, “Darby e Joan” é o protótipo de uma união harmônica e duradoura. (N.T.)

[3] Peças de porcelana em que se escrevia o cardápio com lápis cinza. (N.T.)