Portal do Destino

Agatha Christie · Capítulo 14 de 31

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Portal do Destino

Capítulo 6 - Sr. Robinson

CAPÍTULO 6

 

Sr. Robinson

 

I

 

– O que será que Tuppence está fazendo agora? – perguntou Tommy num suspiro.

– Vai me desculpar, não escutei bem o que o senhor disse.

Tommy virou a cabeça e observou a srta. Collodon com mais calma. Magra e macilenta. O cabelo grisalho se recuperava de uma tintura oxigenada cujo objetivo (não alcançado) era rejuvenescer o aspecto. Mais recentemente, testara várias tonalidades artísticas (cinza, fumaça, névoa, azul-metálico e outras colorações sedutoras) adequadas a uma senhora passando dos sessenta anos, dedicada ao ofício da pesquisa. O semblante estampava superioridade ascética e autoconfiança suprema.

– Não foi nada, srta. Collodon – disse Tommy. – Só uma coisa em que estava pensando. Mais nada.

“O que será”, pensou Thomas, tomando o cuidado de não verbalizar, “que ela está inventando hoje? Tolices, aposto. Quase se suicidando colina abaixo naquele fantástico e obsoleto brinquedo que ainda vai se desintegrar todo com ela em cima. Vai acabar quebrando algum osso. A bacia, por exemplo, é um risco sério hoje em dia, embora eu não saiba por que ela fica tão vulnerável com o tempo.” Tuppence, pensou ele, naquele instante estava aprontando alguma das suas tolices ou bobagens. Na melhor das hipóteses, não seria tolice nem bobagem, mas algo bem perigoso. Como era difícil manter Tuppence longe do perigo! Lembrou de incidentes do passado. Um poema lhe veio à mente e declamou em voz alta:

Portal do destino (...)

Se for passar, ó caravana, não passe cantando. Por acaso já ouviu

No silêncio dos pássaros mortos, um pio

Ecoando?

Para a surpresa de Tommy, a srta. Collodon respondeu de imediato:

– Flecker – disse ela. – Flecker. E continua assim: “Portão do Deserto, Caverna do Desastre, Fortaleza do Medo...”

Tommy a encarou, então se deu conta: a srta. Collodon pensou que era uma charada poética. Já estava pronta para pesquisar a obra e outras informações sobre o poeta citado. O problema com a srta. Collodon era a amplidão do campo de pesquisa.

– Só estava pensando em minha esposa – desculpou-se Tommy.

– Ah – disse a srta. Collodon.

Mirou Tommy com uma expressão nova no olhar. Problemas conjugais, ela deduziu. O próximo passo seria oferecer o endereço de um escritório de consultoria matrimonial onde Tommy pudesse harmonizar as questiúnculas do casamento.

Tommy apressou-se a dizer:

– A senhora conseguiu descobrir algo sobre aquele pormenor de que lhe falei anteontem?

– Ah, sim. Foi moleza. Somerset House sabe ser útil quando o assunto é pesquisa. Sabe, não tem nada especial, mas consegui dados sobre certos nascimentos, casamentos e mortes.

– De quem? De todas as Marys Jordan?

– Jordan, sim. Uma delas é Mary, a outra é Maria, e tem uma Polly. E Molly também. Não sei se tem a que o senhor quer. Quer ver os dados?

Ela lhe entregou uma folhinha datilografada.

– Ah, obrigado. Muito obrigado.

– Consegui os endereços também. Aqueles que o senhor me pediu. Só falta o endereço do major Dalrymple. Hoje em dia as pessoas mudam de endereço com frequência. Mas daqui a uns dois dias consigo essa informação. Este é o endereço atual do dr. Heseltine. Mora em Surbiton.

– Muito obrigado – disse Tommy. – Posso começar com ele.

– Mais alguma investigação?

– Tenho aqui uma lista de meia dúzia de pessoas. Talvez não sejam da sua alçada.

– O meu trabalho – explicou a srta. Collodon, com total segurança – é tornar as coisas da minha alçada. É fácil descobrir o que se quer descobrir. Sei que é uma forma tola de se expressar, mas explica as coisas, sabe. Eu me lembro... Ah, faz um tempão, quando comecei a trabalhar nisso e descobri o escritório de consultoria Selfridge. Você pode fazer as perguntas mais espantosas, sobre as coisas mais espantosas, e eles sempre são capazes de dizer algo ou indicar onde obter as respostas com rapidez. Mas claro que hoje é diferente. A maioria das investigações acontece quando a pessoa quer cometer suicídio e está com problemas psicológicos. Teleaconselhamento. E questões jurídicas sobre testamentos, além de um monte de fontes extraordinárias para escritores. E cargos no exterior e problemas de imigração. Meu campo de ação é bem amplo.

– Tenho certeza que sim – falou Tommy.

– E ajudo alcoólatras também. Existem muitas associações especializadas nisso. Umas bem melhores que as outras. Tenho uma lista e tanto... bem abrangente... de instituições confiáveis...

– Vou me lembrar disso – disse Tommy – se um dia eu estiver precisando. Vai depender de até onde vou conseguir chegar hoje.

– Ah, mas o senhor não apresenta nenhum sinal de alcoolismo.

– Nem nariz vermelho? – perguntou Tommy.

– É pior nas mulheres – vaticinou a srta. Collodon. – Mais difícil, sabe, de livrá-las do vício, como se diz. Os homens têm lá suas recaídas, mas não tão fortes. Falando sério, as mulheres numa hora estão muito felizes tomando limonada e tudo o mais; de repente, numa bela noite, no meio de uma festa... vai tudo por água abaixo.

Em seguida, consultou o relógio.

– Minha nossa, tenho que ir andando. Tenho um compromisso na Upper Grosvenor Street.

– Por enquanto – disse Tommy –, muito obrigado por tudo.

Abriu a porta com polidez, ajudou a srta. Collodon a vestir o casaco, despediu-se, voltou à sala e disse:

– Esta noite não posso me esquecer de contar a novidade a Tuppence! A pesquisadora pensou que eu tenho uma esposa alcoólatra e que meu casamento está acabando. Era só o que faltava!

II

 

O que faltava era um encontro num restaurante de preços módicos na vizinhança de Tottenham Court Road.

– Ora, veja só – disse um senhor de idade, saltando num pulo da cadeira onde estivera esperando – se não é o Tom Cabeça de Cenoura! Não o teria reconhecido.

– É bem possível que não – concordou Tommy. – Não sobrou muito cabelo cor de cenoura para contar a história. Agora é o Tom versão grisalha.

– Ah, não é só você. Como vai de saúde?

– Igual, como de costume. Um fio prestes a rebentar. Cada vez mais perto da decomposição.

– Há quanto tempo não nos víamos? Dois, oito, onze anos?

– Não precisa exagerar – falou Tommy. – Nos encontramos naquele jantar lá no Maltese Cats outono passado, não lembra?

– É mesmo. Pena que quebrou. Sempre pensei que quebraria. Lugar chique, mas a comida era uma droga. O que tem feito, rapaz? Ainda nos meandros da espionagem moderna?

– Que nada – disse Tommy –, não tenho mais nada a ver com espionagem.

– Meu bom Deus, que desperdício de talento!

– E você, Suíça-de-carneiro?

– Ah, já estou velho demais para servir meu país dessa maneira.

– Muita espionagem em andamento?

– Como sempre. Mas hoje as missões ficam a cargo da meninada brilhante, que sai da universidade com diploma na mão, louca por emprego. Por onde tem andado? Enviei um cartão no Natal. Pra falar a verdade, só enviei em janeiro. Voltou com o carimbo “Destino ignorado”.

– Sim. Estamos morando no litoral. Hollowquay.

– Hollowquay? Esse lugarejo me atiça uma lembrança. Algo da sua especialidade aconteceu por lá, não foi?

– Não na minha época – explicou Tommy. – Só fiquei sabendo dessa história depois que cheguei lá. Lendas de mais de sessenta anos.

– Um submarino, não? Projetos de submarinos vendidos para alguém. Esqueci para quem. Talvez japoneses ou russos... ou outros mais. Sei que um dos lugares de encontro com agentes inimigos era o Regent’s Park. Em geral, um funcionário subalterno da embaixada. Nada de espiãs excitantes como nos livros de ficção.

– Tenho umas perguntinhas a lhe fazer, Suíça-de-carneiro.

– Ah, é mesmo? Fique à vontade. Não que eu tenha algo para contar, minha vida é bem tediosa. Margery... lembra dela?

– Claro que lembro de Margery. Quase fui ao seu casamento.

– Sei. Mas pegou o trem errado, até onde me lembro. O trem ia para a Escócia e não para Southall. Não perdeu muita coisa.

– O casamento não saiu?

– Ah, sim, o casamento saiu, mas por um motivo ou outro, acabou não funcionando. Não durou mais que um ano e meio. Ela casou de novo. Eu não, mas vou bem, obrigado. Moro em Little Pollon. Lá tem um campo de golfe bem ajeitado. Minha irmã mora comigo. Ela é uma viúva bem de vida, e nos damos muito bem. É um pouco surda, de modo que não escuta o que eu falo, a menos que eu grite um pouquinho.

– Você disse que já ouviu falar de Hollowquay. Algo relacionado com espionagem?

– Pra falar a verdade, meu velho, faz tanto tempo que não lembro muita coisa. Sei que causou o maior tumulto na época. Excelente jovem oficial da Marinha, acima de qualquer suspeita, inglês da gema, confiável até embaixo d’água. Mas, no frigir dos ovos, nada disso. Trabalhava para... hum, não me lembro agora para quem ele trabalhava. Os alemães, suponho. Antes da guerra de 1914. Acho que era isso.

– Não tinha uma mulher ligada ao caso? – perguntou Tommy.

– Se não me engano sim... Uma tal de Mary Jordan. Mas não tenho certeza quanto a esse detalhe. Saiu nos jornais, e acho que era esposa dele... digo, do oficial da Marinha acima de qualquer suspeita. A mulher dele entrou em contato com os russos e... não, isso aconteceu bem depois. A gente mistura as coisas... É tudo tão parecido. A esposa pensou que ele não ganhava dinheiro suficiente, o que equivale a dizer, imagino, que ela não ganhava dinheiro suficiente. E então... Mas por que desenterrar toda essa velha história? Que interesse pode ter após tanto tempo? Já que o assunto é coisa antiga, lembro de sua atuação naquele caso do Lusitania, o navio que naufragou, não é? Foi você ou sua mulher quem resolveu o caso?

– Nós dois – contou Tommy. – Isso já faz tanto tempo...

– Tinha uma jovem na história, não tinha? Jane Fish ou coisa semelhante. Ou era Jane Whale?

– Jane Finn – disse Tommy.

– Onde ela está agora?

– Casou com um americano.

– Ah, entendo. Tudo perfeito. No fim das contas, a conversa sempre recai nos amigos e no que aconteceu com eles. Quando descobrimos que estão mortos, ficamos incrivelmente surpresos. Afinal, não passava por nossa cabeça que pudessem estar mortos. Mas quando descobrimos que nossos amigos estão vivos, isso acaba nos surpreendendo ainda mais. Complicado este mundo.

Tommy concordou e, nesse meio-tempo, o garçom se aproximou. Qual o pedido... A conversa então passou a ser gastronômica.

III

 

À tarde, Tommy compareceu a outro encontro, por indicação do amigo. Desta vez, com um homem triste e grisalho enfurnado num escritório, aborrecido por perder tempo com Tommy.

– Não poderia afirmar com certeza. Claro que sei meio por cima do que você está falando... O caso foi muito comentado na época, causou uma grande convulsão política, mas, na verdade, não tenho informações sobre esse tipo de coisa, sabe. Não. Essas coisas não duram, não é verdade? A gente esquece tão logo a imprensa arruma outro escândalo picante.

Discorreu com brevidade sobre situações instigantes em que algo insuspeito de repente viera à tona devido a um fato especial. Então disse:

– Sei de alguém que pode ajudá-lo. Está aqui o endereço. Já marquei uma hora. Sujeito legal. Sabe de tudo. Ele é o melhor, sem dúvida. Padrinho da minha filha. Por isso, é sempre tão simpático comigo e sempre quebra meus galhos quando está ao alcance dele. Perguntei se ele poderia lhe atender. Contei que você precisava de informações de cúpula, expliquei que você era um bom amigo, e ele disse que já ouviu falar em você. “Claro que ele pode vir.” Às 15h45, se não me engano. O endereço é este. Um escritório no centro financeiro. Já o conhece?

– Acho que não – falou Tommy, olhando o nome no cartão com o endereço. – Não.

– Quem olha para ele nem imagina o quanto ele sabe. Grande e amarelo.

– Grande e amarelo – ecoou Tommy.

A informação não ajudava muito.

– Ele é o melhor – afirmou o amigo grisalho de Tommy. – Sem dúvida o melhor. Não deixe de ir lá. Pelo menos ele vai ser capaz de lhe dizer algo. Boa sorte, amigo velho.

IV

Tommy localizou com sucesso o mencionado escritório no centro financeiro. Um homem beirando os quarenta anos de idade o encarou com cara de poucos amigos. Teve a sensação de que o homem suspeitou de várias coisas: de que Tommy carregava uma bomba escondida, preparava um sequestro ou estava prestes a render todos os funcionários com um revólver. A sensação deixou Tommy bastante inquieto.

– Tem hora com o sr. Robinson? Qual horário, o senhor disse? Ah, 15h45. – Ele consultou uma agenda. – Sr. Thomas Beresford, não é mesmo?

– Sim – confirmou Tommy.

– Ah, por gentileza, assine aqui.

Tommy assinou onde indicado.

– Johnson!

Um jovem de seus 23 anos, de aparência nervosa, surgiu como um fantasma detrás de uma repartição de vidro.

– Pois não, senhor?

– Leve o sr. Beresford até o quarto andar, no escritório do sr. Robinson.

– Pois não, senhor.

Levou Tommy ao elevador, o tipo de elevador que parece ter ideias próprias de como lidar com as pessoas que entram nele. As portas se abriram. Tommy entrou; as portas se fecharam bruscamente, quase esmagando suas costas.

– Tarde gelada – puxou papo Johnson, em atitude amigável para alguém que claramente se aproximava do poderoso chefão.

– Como sempre – respondeu Tommy.

– Uns dizem que é a poluição, outros que é todo aquele gás sendo drenado do Mar do Norte – comentou Johnson.

– Essa eu não tinha ouvido falar – surpreendeu-se Tommy.

– Mas acho que não tem nada a ver – sentenciou Johnson.

Passaram pelo segundo e pelo terceiro, chegando, enfim, ao quarto andar. Tommy escapou outra vez por um triz das portas que se fechavam, e Johnson o guiou por um corredor até chegar a uma porta. Bateu, alguém mandou entrar, ele abriu a porta, introduziu Tommy no recinto e anunciou:

– O sr. Beresford, senhor. Com hora marcada.

Saiu e fechou a porta atrás de si. Tommy deu alguns passos. Uma escrivaninha colossal dominava o ambiente. Sentado atrás dela, um colosso de muitos quilogramas e o dobro de centímetros. Como havia sido descrito: grande e amarelo. Tommy não adivinhou sua nacionalidade. Poderia ser qualquer uma. Dava a impressão de ser estrangeiro. Alemão? Austríaco? Talvez japonês. Mas bem podia ser inglês.

– Ah, sr. Beresford.

O sr. Robinson levantou-se para um aperto de mãos.

– Sinto muito por tomar seu valioso tempo – iniciou Tommy.

Teve a impressão de que o conhecia de algum lugar ou de que alguém já lhe apontara o sr. Robinson. O certo é que na ocasião anterior, seja lá qual tenha sido ela, ficara evidente que o sr. Robinson era importante, e Tommy se comportara com timidez. E agora se dava conta (ou melhor, estava na cara) que o sr. Robinson continuava importante.

– O senhor quer informações, pelo que soube. O seu amigo, como é o nome dele?, já introduziu o assunto.

– Talvez eu não devesse lhe incomodar com esse assunto. Não é relevante. Foi só...

– Só uma ideia?

– Em parte ideia de minha mulher.

– Ouvi falar de sua mulher. E do senhor também. Deixe-me ver, a última missão foi o caso M ou N, não foi? Hum... Lembro sim. De todos os fatos e detalhes. Capturaram aquele tal comandante, não foi? Aquele supostamente da Marinha Britânica, mas na verdade um huno de alto escalão. Continuo os chamando de hunos de vez em quando, sabe. Se bem que agora tudo mudou com o mercado comum. É como se todo mundo fosse junto ao jardim de infância, por assim dizer. Eu sei. Fez um bom trabalho. Um trabalho excelente. E sua mulher também. Eu que o diga. Todos aqueles livros infantis... Lembro. “Gansinho, tolinho...”: não foi essa canção de ninar que revelou o segredo? “Perdeu-se no caminho? Sobe e desce a escada toda hora, e no quarto de minha senhora?”

– E pensar que o senhor se lembra disso – falou Tommy com grande respeito.

– Sei como é. A gente se surpreende quando alguém se lembra das coisas. Lembrei agora mesmo. É tão bobo, não é? Ninguém jamais suspeitaria de algo por trás, não é mesmo?

– Valeu a pena o esforço.

– Mas e agora, qual o problema?

– Nada, não – falou Tommy. – É só...

– Vamos lá, conte-me sem floreios. Não tenha medo. Só conte a história. Sente-se. Tire o peso das pernas. Não sabe (se não sabe, vai saber daqui a alguns anos) que é importante relaxar os pés?

– Sou velho o suficiente para saber – reconheceu Tommy. – Não vou demorar muito para esticar as canelas.

– Não fale assim. Vou lhe contar uma coisa: depois que a gente ultrapassa certa idade podemos viver praticamente para sempre. Mas então me conte, de que se trata?

– Resumindo – disse Tommy –, minha mulher e eu nos mudamos e passamos por toda aquela função de entrar numa casa nova...

– Sei bem como é – disse o sr. Robinson. – Eletricistas embaixo do assoalho... Fazem buracos e caímos dentro deles. E...

– A família que nos vendeu a casa nos vendeu um lote de livros. Uma

coleção de livros infantis. Henty[1] e coisas do tipo.

– Henty fez parte de minha infância.

– Num livro que minha esposa estava lendo, encontramos letras sublinhadas. Quando colocadas em sequência, formavam uma frase. E... o senhor vai achar uma grande tolice o que vou dizer agora...

– Isso é alvissareiro – incentivou o sr. Robinson. – Se parece tolice, daí mesmo que eu gosto de ficar sabendo.

– Dizia: “Mary Jordan não morreu de morte natural. Foi um de nós. Acho que sei quem foi.”

– Muito interessante – falou o sr. Robinson. – Eu nunca me deparei com algo parecido antes. Então era isso que dizia? Mary Jordan não teve morte natural. E quem foi que escreveu? Alguma pista?

– Tudo indica que um menino em idade escolar. Parkinson, o nome da família. Moraram na casa e ele era um dos Parkinson, ao que parece. Alexander Parkinson. Pelo menos tem alguém com esse nome enterrado no cemitério da igreja.

– Parkinson – repetiu o sr. Robinson. – Espere um pouco. Deixe-me pensar. Parkinson... Às vezes sabemos que um nome tem conexão com o caso, mas nem sempre lembramos direito.

– E ficamos curiosos para descobrir quem foi Mary Jordan.

– Que não morreu de morte natural. Bem a praia de vocês. Mas parece estranho mesmo. O que descobriram sobre ela?

– Nada de nada – disse Tommy. – Ninguém se lembra muito nem fala muito dela. Uma pessoa disse que ela era o que hoje chamamos de moça au pair, uma babá ou coisa que o valha. Ninguém lembra direito. Uma mamoselle ou uma fraunlein. É difícil conseguir informações, sabe.

– E ela morreu... de que mesmo?

– Alguém trouxe por acidente algumas folhas de erva-dedal junto com o espinafre da horta. Mas, vou ser sincero, isso não mataria ninguém.

– É verdade – concordou Robinson. – Não seria suficiente. Mas, se a pessoa aplicasse uma dose forte do alcaloide digitalina no café e se assegurasse de que Mary Jordan o ingerisse na hora do lanche, então... como se diz, a erva-dedal seria o bode expiatório, e tudo seria considerado um acidente. Mas Alexander era muito inteligente para engolir essa. O menino tinha ideias ousadas, não tinha? Algo mais, Beresford? Quando foi isso? Na Segunda ou na Primeira Guerra? Ou antes disso?

– Antes. Corria o boato entre antigos habitantes do lugar de que ela era uma espiã germânica.

– Lembro do caso... Provocou grande comoção. Qualquer alemão trabalhando na Inglaterra antes de 1914 era considerado espião. O tal oficial inglês envolvido era “acima de qualquer suspeita”. De minha parte, sempre desconfio de pessoas acima de qualquer suspeita. Tudo isso faz muito tempo. Não deve existir relatório recente sobre o tópico. Pelo menos não do jeito que as coisas são divulgadas hoje, só para agradar ao público.

– É tudo muito nebuloso.

– Não poderia ser diferente a estas alturas. Sempre teve ligação, claro, com segredos submarinos roubados naquela época. E novidades da área da aviação. Material nessa linha. Foi bem isso que despertou o interesse do público. Mas as coisas têm vários prismas, sabe. Tinha também o lado político. Muitos de nossos políticos importantes. O tipo de sujeito de quem as pessoas dizem: “Ele tem as mãos limpas”. Ter as mãos limpas é tão perigoso quanto estar acima de qualquer suspeita quando o assunto é o funcionalismo público. Mãos limpas uma ova! – desdenhou o sr. Robinson. – Na última guerra deu para perceber isso. Certas pessoas não tinham a integridade que era atribuída a elas. Como aquele sujeito que tinha um chalé na praia. Fez inúmeros discípulos elogiando Hitler. Pregava que nossa única chance era fazer aliança com ele. Nobre cidadão de ideias altruístas, tão preocupado com a extinção de toda a pobreza, iniquidade e injustiça... Pois sim! Fascista enrustido, bajulador de Franco, na Espanha, e de toda aquela cambada. Também do querido Mussolini na crista da onda. Inúmeras facetas paralelas antes das guerras. Detalhes que nunca vieram à tona. Ninguém nunca ficou sabendo direito.

– O senhor está por dentro de tudo – não se conteve Tommy. – Me desculpe, não considere rudeza de minha parte, mas é mesmo empolgante conhecer alguém que sabe de tudo.

– Confesso que costumo enfiar o nariz onde não sou chamado, como se diz. Deparo-me com circunstâncias colaterais nos bastidores. A gente escuta muita coisa. A gente escuta também muita coisa de velhos amigos, envolvidos até o pescoço, que conheciam a turma. Imagino que o senhor já tenha descoberto como funciona, não é verdade?

– É verdade – confirmou Tommy. – Eu me encontro com velhos amigos que têm visto outros velhos amigos. Existe muita coisa que nossos amigos sabiam, e a gente sabia. Na época não trocamos informações, mas é só usar essa rede que a gente fica sabendo de coisas bem interessantes.

– Percebo – falou o sr. Robinson – aonde quer chegar... Peguei o fio da meada, como se diz. É interessante que tenha se deparado com isso.

– O problema – falou Tommy – é que eu não tenho certeza se... Quero dizer, talvez seja tudo bobagem nossa. Compramos essa casa para morar, a casa de nossos sonhos. Reformamos até deixá-la do jeito ideal e tentamos embelezar o jardim. Mas não quero me envolver com espionagem outra vez. É pura curiosidade. Alguma coisa que aconteceu há muito tempo, mas que não sai de sua cabeça, que você deseja saber por quê. Mas não tem objetivo. Não vai fazer bem a ninguém.

– Sei. Querem apenas saber. A essência do ser humano. É isso que nos leva a explorar a lua, realizar descobertas submarinas, procurar gás natural no Mar do Norte, descobrir que as algas marinhas fornecem mais oxigênio que as florestas. Sempre descobrimos mais e mais novidades. Tudo por conta da curiosidade. Sem curiosidade os humanos seriam jabutis. Vida confortável, a do jabuti. Dorme o inverno todo e não come nada além de grama para passar o verão. Não chega a ser uma vida fascinante, mas é bem tranquila. Por outro lado...

– Por outro lado, humanos são mangustos.

– Que bom. O senhor lê Kipling.[2] Fico muito feliz com isso. Hoje Kipling não é tão apreciado quanto deveria. Sujeito admirável. Um autor maravilhoso para se ler hoje em dia. Seus contos são de uma qualidade espantosa. Acho que as pessoas ainda não lhe deram o valor merecido.

– Não quero botar os pés pelas mãos – disse Tommy. – Não quero me envolver com um monte de coisas que não me dizem respeito, que hoje não dizem respeito a ninguém.

– Isso a gente nunca sabe – ponderou o sr. Robinson.

– Não estou apenas – falou Tommy, sentindo-se culpado por incomodar figura tão ilustre – brincando de desvendar mistérios.

– Desvendar mistérios para agradar a mulher, não é? Ouvi falar nela. Ainda não tive o prazer de conhecê-la pessoalmente. Pessoa realmente maravilhosa, não é mesmo?

– Pode-se dizer que sim – respondeu Tommy.

– É bom escutar isso. Gosto de pessoas que permanecem juntas e desfrutam seu casamento desafiando o tempo.

– Na verdade somos jabutis. Tuppence e eu. Velhos e cansados. Temos uma saúde invejável para alguém de nossa idade, mas não queremos nos envolver com nada. Não queremos nos intrometer em nada. Apenas...

– Não precisa ficar se desculpando – ponderou o sr. Robinson. – Quer apenas investigar. Farejar como o mangusto. E a sra. Beresford também. Pelo que ouvi falar dela, aposto que vai dar um jeito de descobrir.

– Pensa que ela tem mais chances de descobrir do que eu?

– Talvez o senhor não seja tão incisivo quanto ela, mas é inegável que tem facilidade em descobrir fontes. Não é fácil descobrir fontes para coisas tão antigas como essa.

– É por isso que eu me sinto mal por ter vindo aqui lhe incomodar. Mas não foi ideia minha. Foi coisa do Suíça-de-carneiro. Indicou uma pessoa que lhe indicou...

– Sei a quem o senhor se refere. Tinha costeletas grossas e orgulhava-se delas, por isso ele era chamado assim. Um bom sujeito. Realizou um bom trabalho na ativa. Ele sabe que eu me interesso muito por esses assuntos. Comecei cedo, sabe, a bisbilhotar e a descobrir coisas.

– E agora – disse Tommy – está no topo.

– Quem foi que disse isso? – quis saber o sr. Robinson. – Bobagem.

– Não penso assim – falou Tommy.

– Tem gente – ponderou o sr. Robinson – que conquista o topo, e tem gente que é obrigada a ocupá-lo. Guardadas as proporções, a segunda alternativa é a que mais se encaixa no meu caso. Tópicos de relevância inadiável surgiram em meu caminho.

– A operação Frankfurt, não foi?

– Escutou os boatos? Mas não penso mais nisso. Quanto menos se falar no assunto melhor. Fique à vontade para fazer suas perguntas. Talvez eu seja capaz de responder. Se eu disser que eventos antigos podem dar pistas para descobrir possíveis desdobramentos atuais, isso até pode ter seu fundo de verdade. Eu não me surpreendo com ninguém nem com nada. Mas não sei que sugestão eu possa lhe dar. É o caso de se deter, escutar as pessoas, garimpar pistas de décadas atrás. Se aparecer algo que na sua avaliação possa ser de meu interesse, não pense duas vezes para me ligar ou entrar em contato. Vamos criar códigos, deixar nos envolver pela empolgação outra vez. Ter a ilusão de que somos mesmo importantes. Que tal geleia de maçã silvestre? O senhor me liga dizendo que sua mulher preparou geleia de maçã silvestre e me oferece um pote. Então vou saber o que isso significa.

– Que eu descobri informações sobre Mary Jordan... Mas não vejo o objetivo de continuar com isso. Afinal de contas, ela está morta.

– Sim, está morta. Mas, sabe, às vezes temos ideias equivocadas porque ouvimos inverdades. Ou porque lemos coisas a respeito.

– Ideias equivocadas sobre Mary Jordan? Então ela não tem importância?

– Não quis dizer isso. Ela tem importância sim. – O sr. Robinson olhou o relógio. – Meu tempo se esgota. Vou receber outra pessoa em dez minutos. Um maçante com trânsito no alto escalão governamental. Sabe como é a vida hoje em dia. Governo... É preciso suportar a presença do governo em tudo. No escritório, no lar, no supermercado, na tevê. Vida privada: é disso que precisamos hoje. Por exemplo, essa divertida investigação só é possível para quem desfruta da vida privada e encara a vida do prisma privado. Quem sabe vocês não conseguem descobrir a verdade? Sim. Pode ser que sim ou pode ser que não. Por enquanto, não posso afirmar mais nada, mas sei de alguns fatos que talvez mais ninguém saiba. Com o tempo talvez eu possa contar. Enquanto o assunto estiver encerrado, na prática isso não é exequível. Mas vou lhe contar uma coisa que pode ajudar nas investigações. Deve ter lido sobre o comandante fulano de tal (esqueci o nome dele agora), julgado e condenado por espionagem. Traiu a nação e mereceu ver o sol nascer quadrado. Não há como negar. Mas Mary Jordan...

– Sim?

– Vou contar uma coisa que, como eu disse, pode alterar o seu ponto de vista. Mary Jordan... Bem, ela até podia ser chamada de espiã, mas não uma espiã germânica, não uma espiã inimiga. Escute bem, meu rapaz. Não posso ficar lhe chamando de “meu rapaz”.

O sr. Robinson baixou o tom de voz e inclinou o corpo sobre a escrivaninha.

– Ela estava do nosso lado.

 

[1] George Alfred Henty (1832-1902), romancista inglês especializado em aventuras históricas. (N.T.)

[2] Rudyard Kipling (1865-1936), vencedor do Nobel de Literatura, autor de O livro da selva e Kim. (N.T.)