Portal do Destino

Agatha Christie · Capítulo 2 de 31

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Portal do Destino

Capítulo 2 - A flecha negra

CAPÍTULO 2

 

 

A flecha negra

 

A sra. Beresford repôs O relógio de cuco na lacuna da terceira prateleira de baixo para cima, junto com os demais livros da sra. Molesworth. Tuppence puxou O quarto da tapeçaria e, pensativa, segurou o volume nas mãos. Ou era melhor começar pelo Sítio dos quatro ventos? Não se lembrava de Sítio dos quatro ventos tão bem quanto se lembrava de O relógio de cuco e O quarto da tapeçaria. Os dedos vaguearam pela estante... Logo Tommy estaria de volta.

O serviço progredia devagar. Sem dúvida ela estava dispersiva. Se pelo menos não perdesse tempo folheando os livros prediletos da sua infância. Aprazível, mas tomava tempo demais. Quando Tommy chegasse à noitinha e perguntasse como iam as coisas, ela responderia “Tudo bem”, sem esquecer de uma boa dose de tato e finesse para evitar que ele subisse as escadas e conferisse com os próprios olhos se o serviço nas prateleiras progredia. A mudança não acabava nunca. Fazer mudanças sempre foi bem mais demorado do que se imagina. E que gente irritante. Eletricistas, por exemplo. Descontentes com o serviço realizado na última vez, arrancavam, com um sorriso estampado no rosto, partes enormes do assoalho, criando mais e mais armadilhas, só para a desprevenida dona de casa pisar em falso e ser amparada bem a tempo pelo eletricista invisível que rastejava às apalpadelas sob o piso.

Enquanto folheava o livro, Tuppence lembrou da conversa com o marido.

– Às vezes – suspirou Tuppence – sinto saudades de Bartons Acre.

– Lembre-se da sala de jantar – retorquiu Tommy –, lembre-se do sótão e lembre-se do que aconteceu com a garagem. Quase destruiu o carro.

– Era só ter consertado – ponderou Tuppence.

– Não – redarguiu Tommy. – Seria necessário praticamente reconstruir tudo. A alternativa era nos mudarmos. Um dia esta casa vai se tornar um lar aconchegante. Tenho certeza disso. Sobra espaço para fazer tudo que desejarmos.

– Quando você fala em espaço – retrucou Tuppence –, quer dizer lugar para um monte de tralhas.

– Concordo plenamente – disse Tommy. – Sempre guardamos mais coisas do que o necessário.

Naquela altura, Tuppence perguntou a si mesma: “será que algum dia aquele casarão se tornaria um lar?” O que antes parecia simples agora se tornava complicado. Em parte, é claro, devido àquela montanha de livros.

“As meninas de hoje”, falou Tuppence com seus botões, “não aprendem a ler tão cedo nem com tanta facilidade. Hoje tem criança de quatro, cinco, seis anos que não consegue ler. Só vão aprender aos dez ou onze anos. Não sei explicar por que era tão fácil para nós. Toda a turma sabia ler. Eu, meu vizinho Martin, Jennifer do outro lado da rua, Cyril e Winifred. Todo mundo. Não que fôssemos capazes de soletrar com perfeição, mas conseguíamos ler qualquer coisa que quiséssemos. Continuo sem saber como aprendemos. Pedindo às pessoas, imagino. Os dizeres dos cartazes, as pílulas de Carter... Nós costumávamos ler tudo sobre elas nos outdoors ao longo da ferrovia, perto de Londres. Eu sempre me perguntava qual era afinal a serventia delas. Minha nossa! É melhor retomar o trabalho.”

Organizou mais alguns livros. Três quartos de hora se passaram com ela absorta primeiro em Alice no País do Espelho, depois com A História

desconhece, de Charlotte Yonge[1], sobre o cativeiro de Maria da Escócia. As mãos de Tuppence deslizaram sobre a capa do volume grosso e esfarrapado de A corrente de margaridas, da mesma autora.

– Preciso reler isto – murmurou Tuppence. – Faz um século que eu li. Era fascinante torcer para Norman ser crismado. Lembro da Ethel, e... como era mesmo o nome do lugar? Coxwell ou coisa que o valha. E a mundana Flora. Por que naquela época rotulavam as pessoas de “mundanas”? E hoje? Somos todos mundanos ou não?

– A senhora chamou?

– Não – disse Tuppence, relanceando o olhar ao leal colaborador Albert, que acabara de aparecer na soleira da porta.

– Pensei ter ouvido a sineta.

– Ela tocou sozinha quando eu subi na cadeira para pegar um livro – explicou Tuppence.

– Quer que eu apanhe para a senhora?

– Quero sim – aproveitou Tuppence. – Daqui a pouco levo um tombo dessas cadeiras. Elas têm as pernas bambas e escorregam bastante.

– Algum em especial?

– Falta quase toda a terceira prateleira de cima para baixo.

Albert subiu na cadeira e foi baixando os volumes, batendo para sacudir a poeira acumulada. Tuppence os amparava com enlevo.

– Imagine só! Tinha me esquecido da maioria. A história do amuleto e

também Os caçadores de tesouros.[2] Adoro estes. Não os coloque de volta na prateleira ainda, Albert. Quero reler primeiro. O que temos aqui? O cocar vermelho. Revolução Francesa... romance histórico. Gênero empolgante! E olhe só: O poder de Richelieu. Outro do Stanley Weyman. Outros e mais outros. Eu li isso quando tinha dez ou onze anos. Só falta encontrarmos O prisioneiro de

Zenda![3] – Soltou um suspiro de imenso prazer. – O prisioneiro de Zenda. Isso que chamo de introdução à novela romântica. A saga da princesa Flávia. O rei da Ruritânia. E o mocinho Rudolph Rassendyll, então? Impossível não sonhar com ele à noite.

Albert baixou outra mancheia de livros.

– O que temos aqui? – perguntou Tuppence. – A ilha do tesouro. Já li mais de uma vez, sem falar que vi pelo menos duas adaptações para o cinema. Esses filmes nunca me convencem. Olhe só... Raptado! Sempre gostei deste.

Albert se esticou e exagerou na quantidade de livros da braçada. Tuppence recebeu Catriona na cabeça.

– Sinto muito, senhora.

– Tudo bem – disse Tuppence –, não foi nada. Catriona. Sim. Mais algum

do Robert Louis Stevenson[4] aí em cima?

Albert entregou os livros com mais cuidado. Tuppence soltou uma exclamação de incomensurável deleite:

– A flecha negra! Ora, ora! A flecha negra! Um dos primeiros livros a cair na minha mão e eu ler todinho. Você não deve ter lido este, Albert. Afinal, nem era nascido, não é? Agora deixe-me pensar. A flecha negra. Sim, é claro, aquele retrato na parede com olhos (de verdade) espiando através dos olhos do retrato. Emocionante. Espetacular. A flecha negra. Qual era o enredo? Tudo girava em torno... Ah, sim! “O gato, o rato e Lovell, o nosso cão. Governavam a Inglaterra

no reinado do porcão.”[5] É isso. O porco era ninguém menos que Ricardo III. Mas hoje em dia está na moda escrever livros enaltecendo o rei incrível que ele era. Longe de ser um canalha. Mas eu não acredito nisso. Muito menos Shakespeare. Afinal de contas, Ricardo avisa logo no começo da peça Ricardo

III: “Estou decidido a agir como um canalha”.[6] A flecha negra.

– Mais algum?

– Não, obrigada, Albert. Estou meio cansada para continuar.

– Ah, o patrão ligou avisando que vai chegar meia hora atrasado.

– Não tem importância – disse Tuppence.

Sentou-se, abriu A flecha negra e mergulhou na leitura.

– Nossa, é sensacional! Esqueci quase tudo. Vai ser ótimo reler. Só lembro que a história era empolgante.

A casa caiu no silêncio. Albert voltou à cozinha. Tuppence apoiou as costas na poltrona e nem viu o tempo passar. Aninhada na poltrona um tanto surrada, a sra. Beresford buscou os prazeres do passado na leitura atenta de A flecha negra, de Robert Louis Stevenson.

Na cozinha, Albert também não viu o tempo passar, entretido ao redor do fogão. Um carro estacionou. Albert saiu pela porta lateral.

– Quer que eu guarde o carro na garagem, senhor?

– Não – disse Tommy. – Pode deixar. Você está ocupado com a janta. Estou muito atrasado?

– Não, senhor. Dentro do horário previsto. Um pouco antes até.

Tommy guardou o veículo na garagem e então entrou na cozinha, esfregando as mãos.

– Que frio está lá fora. Cadê Tuppence?

– Lá em cima com os livros.

– O quê?! Ainda às voltas com aqueles famigerados livros?

– Sim. Hoje ela continuou o serviço e passou boa parte do tempo lendo.

– Tédio – resmungou Tommy. – Qual o cardápio, Albert?

– Filé de linguado ao limão. Logo ficará pronto.

– Ótimo. Uns quinze minutos? Vou aproveitar e tomar um banho.

No sótão, afundada na poltrona um tanto puída, absorta na leitura de A flecha negra, Tuppence enrugou a testa levemente. Ela se deparara com um fato curioso. A partir da página... 64 ou 65? Deu uma olhadela rápida para conferir. Apareciam palavras sublinhadas. Tuppence passou um quarto de hora estudando o fenômeno. Não entendia por que as palavras haviam sido sublinhadas. Não formavam sequência lógica nem citações. Só trechos pinçados isoladamente e sublinhados em tinta vermelha. Leu baixinho:

– “Matcham não conteve um grito abafado. ‘Lady!’ Dick pulou de surpresa, escorregando o arpéu e a aljava entre os dedos. Mas para os companheiros, esse era o sinal esperado. Todos se puseram de pé ao mesmo tempo, prestes a sacar espadas e adagas das bainhas. Ellis ergueu a mão. Seus olhos brilharam.”

Tuppence balançou a cabeça. Não fazia sentido.

Foi até a mesa em que deixava o material de escrever, escolheu umas folhas recém-enviadas pela gráfica para os Beresford selecionarem o papel de carta a

ser estampado com o novo endereço: The Laurels.[7]

– Nome bobo – disse Tuppence –, mas se mudarmos o nome as cartas acabam extraviadas.

Copiou as palavras. Então notou algo que antes não notara.

– Isso muda tudo – comentou Tuppence.

Rabiscou letras no papel.

– Então você está aí – disse Tommy de súbito. – O jantar está quase pronto. Como vão os livros?

– Curioso – disse Tuppence. – Incrivelmente curioso.

– O quê?

– Encontrei esta edição de A flecha negra, de Stevenson, e me deu vontade de reler. Tudo ia bem quando de repente... As páginas ficaram estranhas, com uma porção de palavras sublinhadas em tinta vermelha.

– Ora, tem gente que faz isso – arguiu Tommy. – Não digo com tinta vermelha, mas é comum sublinhar uma citação para se lembrar depois.

– Mas não é isso – respondeu Tuppence. – São letras.

– Como assim, letras?

– Venha cá – pediu Tuppence.

Tommy aproximou-se, sentou no braço da poltrona e leu:

– “Matcham grito Lady aljava dedos companheiros espadas adagas bainhas.” Que maluquice é essa?

– Primeiro também pensei isso. Mas não é maluquice, Tommy.

A sineta soou lá embaixo.

– A ceia está pronta.

– Antes escute. Não chega a ser urgente, mas é extraordinário.

– Qual é a invenção mirabolante desta vez? – perguntou Tommy.

– Não é invenção coisa nenhuma. Preste atenção: em “Matcham”, a letra M e a letra A estão sublinhadas. Depois outras palavras foram escolhidas propositalmente e, penso eu, sublinhadas com o objetivo de marcar letras específicas. As próximas são o R em “grito” e o “Y” em “Lady”. Depois o J de “aljava”, o “O” em “dedos”, o “R” de “companheiros”, o “D” em “espadas”, o “A” de “adagas” e o “N” em “bainhas”.

– Pelo amor de Deus, pare! – rogou Tommy.

– Só um minuto – pediu Tuppence. – Percebe agora por que eu anotei estas letras? Não vê que, se pegarmos estas letras em sequência, elas formam uma palavra? M-A-R-Y. Quatro letras sublinhadas.

– E isso forma o quê?

– Mary.

– Certo – disse Tommy. – Uma menina chamada Mary. Uma criança de natureza inventiva avisando que o livro é dela. As pessoas escrevem seus nomes nos livros e nas coisas.

– Mary – disse Tuppence. – E as próximas letras sublinhadas formam a palavra J-O-R-D-A-N.

– Não disse? Mary Jordan – falou Tommy. – Perfeitamente normal. Agora sabe o nome e o sobrenome da menina. Mary Jordan.

– Aí é que está: o livro não pertencia a ela. No começo do livro, está escrito “Alexander” em caligrafia infantil. Alexander Parkinson.

– E que importância tem isso?

– Muita importância – disse Tuppence.

– Vamos logo, estou faminto – apressou-a Tommy.

– São apenas quatro páginas – disse Tuppence. – Letras pinçadas em locais aleatórios ao longo das páginas. Não seguem uma lógica. As palavras em si não têm importância... só as letras. Então observe. Temos M-a-r-y J-o-r-d-a-n. Até aí tudo bem. Sabe quais as duas palavras seguintes? N-ã-o (não) e m-o-r-e-u. Claro, era para ser “morreu”, mas pelo jeito a pessoa engoliu um dos erres. Três palavras completam a frase: d-e m-o-r-t-e n-a-t-u-r-a-l. Que frase forma? “Mary Jordan não morreu de morte natural”. Que tal? – indagou Tuppence. – E não é só isso. Tem mais duas sentenças: “Foi um de nós. Acho que sei quem foi”. E termina. Fim das palavras sublinhadas. Empolgante, não acha?

– Olhe aqui, Tuppence – ponderou Tommy –, não está pensando em levar isso a sério, está?

– Como assim, levar isso a sério?

– Criar uma névoa de mistério.

– Ora, é um mistério para mim – retrucou Tuppence. – “Mary Jordan não morreu de morte natural. Foi um de nós. Acho que sei quem foi”. Ah, Tommy, há de concordar comigo que isso é bem intrigante.

 

[1] Prolífica romancista inglesa (1823-1901). (N.T.)

[2] Obras de Edith Nesbit (1858-1924), escritora e poetisa inglesa de histórias infantis. (N.T.)

[3] Romance do londrino Anthony Hope (1863-1933). (N.T.)

[4] Escritor escocês (1850-1894), autor de O médico e o monstro e O clube dos suicidas. (N.T.)

[5] Ricardo III era chamado de hog (porco grande), pois tinha javalis no brasão de armas. (N.T.)

[6] Tradução de Beatriz Viégas-Faria (Ricardo III, L&PM, 2006, cena 1, ato I). (N.T.)

[7] Os Loureiros. (N.T.)