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Capítulo 4 - Possibilidade de cirurgia em Matilde
CAPÍTULO 4
Possibilidade de cirurgia em Matilde
– O que vai fazer hoje à tarde, Tuppence? Ajudar com a lista de nomes, datas e fatos?
– Estou farta disso – afirmou Tuppence. – É cansativo anotar tudo. E de vez em quando eu cometo um deslize, não é?
– Não é de se surpreender. Você tem cometido alguns erros.
– Por que você é assim tão meticuloso, Tommy? Às vezes isso é tão irritante.
– O que vai fazer então?
– Uma soneca seria uma boa pedida, mas não posso me dar o luxo de descansar – disse Tuppence. – Vou arrancar as entranhas de Matilde.
– Como é que é?
– Vou arrancar as entranhas de Matilde.
– Que bicho te mordeu? Violência gera violência.
– Matilde... ali na KK.
– Como assim?
– A casinha das quinquilharias. Matilde, a égua de balanço com buraco na barriga.
– Hum... Vai examinar o estômago dela, é isso?
– A ideia é essa – falou Tuppence. – Não quer ajudar na cirurgia?
– Não, obrigado – disse Tommy.
– Não quer ter a bondade de me ajudar? – sugeriu Tuppence.
– Nesses termos – conformou-se Tommy num suspiro –, não há outro jeito senão aceitar. Não é pior do que fazer listas. Isaac não veio?
– Não. Hoje é sua tarde de folga. Mas não o queremos por perto. Já consegui todas as informações que ele é capaz de fornecer.
– Esses dias – falou Tommy pensativo – ele me contou um monte de histórias antigas. Histórias das quais ele não poderia se lembrar por conta própria.
– Deve ter quase noventa anos de idade – falou Tuppence.
– Eu sei, mas ele contou coisas de épocas bem mais remotas.
– O pessoal sempre ouve falar muita coisa – disse Tuppence. – A gente nunca sabe se o que ouviram falar é ou não exato. Mas chega de conversa, vamos lá arrancar as entranhas de Matilde. Primeiro é melhor trocar de roupa. Tem muita poeira e teia de aranha lá na KK, e vamos ter que abrir as tripas dela. Pensando bem, seria bom se Isaac aparecesse para virá-la de pernas para cima. Daí seria mais fácil mexer na barriga dela.
– Você foi cirurgiã na última encarnação?
– Quem duvida? Não deixa de ter um pouco de cirurgia. Vamos extrair material estranho, cuja presença é perigosa para a preservação da vida de Matilde, ou pelo menos o que ainda resta dela. Podíamos mandar restaurar para os filhos de Débora cavalgarem nas férias.
– Ah, nossos netos já têm bastantes brinquedos e presentes.
– Isso não importa – falou Tuppence. – As crianças preferem brinquedos simples. Brincam com pedaços velhos de mola, com bonecas esfarrapadas ou com um ursinho que na verdade não passa de um tapete de lareira transformado num fardo com dois grandes botões pretos no lugar dos olhos. As crianças têm ideias próprias quando o assunto é brinquedo.
– Bem, vamos lá – disse Tommy. – Marchando em direção à Matilde. Ao teatro das operações.
Virar Matilde até uma posição adequada para realizar a operação necessária não foi tarefa fácil. Ela era uma potranca pesada, bem guarnecida de pregos com pontas salientes para regular a posição. Tuppence cortou a mão, que começou a sangrar. Tommy, por sua vez, praguejou ao enroscar o blusão, que se rasgou de modo desastroso.
– Maldito cavalo de balanço! – esbravejou Tommy.
– Deveria ter virado lenha há muito tempo – concordou Tuppence.
Neste instante, o alquebrado Isaac apareceu de repente.
– O diabo que me carregue! – exclamou surpreso. – O que cargas d’água querem com este velho pangaré? Querem tirá-lo daqui?
– Não é bem isso – explicou Tuppence. – Queremos virá-lo de cabeça para baixo para ver o que tem dentro do buraco na barriga.
– Na barriga? Quem colocou essa ideia em sua cabeça?
– É isso mesmo que vamos fazer – confirmou Tuppence.
– O que pretendem achar lá?
– Nada além de lixo, imagino – falou Tommy. – Mas seria bom – falou numa voz incerta – limpar um pouco as coisas, sabe. Queremos guardar outras coisas aqui. Talvez um kit para jogar croqué.
– Tinha um campo de croqué na propriedade na época da sra. Faulkner. Lá onde é o canteiro das rosas. Claro, não era de tamanho oficial...
– Que época foi isso? – perguntou Tommy.
– O campo de croqué? Bem antes de meu tempo. Sempre tem gente que conta causos antigos... Sobre coisas escondidas, quem escondeu e por que escondeu. Nem tudo é lorota sem pé nem cabeça.
– Você é mesmo muito esperto, Isaac – elogiou Tuppence. – Não tem assunto que não saiba. Até campos de croqué!
– Não sei se sobrou, mas aqui no canto ficava uma caixa de croqué.
Afastou-se e caminhou até um canto onde havia um estojo comprido de madeira. Com certa dificuldade soltou a tampa, emperrada devido ao desuso. O resultado do esforço: uma bola vermelha e outra azul, desbotadas, um taco empenado e teias de aranha.
– A sra. Faulkner participava de torneios – informou Isaac.
– Em Wimbledon? – perguntou Tuppence, incrédula.
– Não exatamente em Wimbledon. Em torneios locais. Vi fotos lá no teliê do fotógrafo...
– Ateliê?
– No centro. Conhece o Durrance, não conhece?
– Durrance? – indagou Tuppence vagamente. – Vende filmes, não é?
– Isso. Mas quem cuida não é mais o velho Durrance, é o neto ou bisneto dele. Vende cartões-postais, cartões de Natal e de aniversário. Esse tipo de coisa. E tem um monte de fotos antigas bem guardadas. Esses dias eu estava por lá e apareceu uma senhora. Tinha rasgado ou queimado a foto da bisavó e queria saber se o negativo estava guardado. Não sei se encontrou. Mas tem um monte de álbuns antigos.
– Álbuns – repetiu Tuppence pensativa.
– Posso ajudar em mais alguma coisa? – ofereceu-se Isaac.
– Venha dar uma mãozinha aqui com a Jane – pediu Tommy.
– Não é Jane! Sempre se chamou Matilde, por alguma razão. Influência francesa, talvez.
– Francesa ou americana – disse Tommy, pensativo. – Matilde, Louise, coisas do gênero.
– Lugar bacana para esconder coisas, não acha? – falou Tuppence, enfiando o braço na cavidade estomacal de Matilde. Tirou uma bola de borracha outrora vermelha e amarela, cheia de rasgos na superfície. – Essa criançada! – exclamou. – Sempre inventando esconderijos.
– Enxergam esconderijo em tudo – falou Isaac. – Um rapazola guardava correspondência aí dentro. Como se fosse uma caixa postal.
– Cartas? Para quem?
– Pra namorada. Mas não é da minha época – repetiu Isaac.
– Tudo sempre aconteceu antes da época de Isaac – comentou Tuppence, assim que Isaac, tendo acomodado Matilde numa boa posição, deixou-os sob o pretexto de consertar os caramanchões.
Tommy tirou a jaqueta.
– É incrível – ofegou Tuppence, ao tirar o braço arranhado e sujo do ferimento aberto na barriga de Matilde – como tem coisa aqui dentro! Parece que nunca ninguém limpou antes.
– Por que alguém ia querer se dar o trabalho de limpar?
– É verdade – concordou Tuppence. – Mas nós queremos!
– Só porque não temos nada melhor para fazer. Não acredito que tenha alguma utilidade. Ei!
– O que houve? – quis saber Tuppence.
Retirou um pouco o braço, mudou a posição e mexeu lá dentro outra vez. A recompensa foi um cachecol de tricô. Era óbvio que fora o substrato para a sobrevivência de traças durante algum tempo e depois disso descera a um nível ainda mais baixo de vida social.
– Que nojo – Tommy fez uma careta.
Tuppence o empurrou para o lado, de leve, e introduziu o braço, inclinando-se sobre Matilde enquanto tateava lá dentro.
– Cuidado com os pregos – recomendou Tommy.
– O que será isto?
Trouxe o achado ao ar livre. Parecia a roda de um brinquedo infantil, um ônibus ou uma carroça.
– Acho – concluiu ela – que estamos perdendo tempo.
– Não acho – falou Tommy –, tenho certeza.
– Agora vamos até o fim – decidiu Tuppence. – Ai, meu Deus, tem três aranhas caminhando no meu braço. Só falta uma larva. Odeio larvas!
– Não acredito que existam larvas dentro de Matilde. Quero dizer, larvas gostam de ficar embaixo da terra. Não creio que adotariam Matilde como casa de pensão, e você?
– Em todo caso, o buraco já está quase vazio – disse Tuppence. – Opa, e essa agora? Minha nossa, parece um estojo de agulhas. Que coisa mais inusitada para se achar. E ainda tem agulha dentro, tudo enferrujado.
– Uma criança que não gostava de cerzir a roupa – concluiu Tommy.
– Boa ideia.
– Acabo de tocar em um tipo de livro – falou Tommy.
– É mesmo? Parece útil. Em qual parte de Matilde?
– Perto do fígado – especificou Tommy com ar profissional. – No lado direito do corpo. Cirurgia em andamento! – exclamou.
– Tudo bem, cirurgião. É melhor extrair logo, seja lá o que for.
O suposto livro, que só com muita boa vontade podia ser chamado assim, pertencia a uma linhagem ancestral. Tinha as páginas soltas e manchadas; a encadernação se despedaçava.
– Parece um manual de francês – falou Tommy. – Pour les enfants. Le Petit Précepteur.
– Entendo – disse Tuppence. – Tive a mesma ideia que você. A criança não queria estudar francês; então veio aqui e “perdeu” o livro de propósito, enfiando-o em Matilde. A velha e boa Matilde.
– Na posição certa deve ser difícil inserir objetos na barriga de Matilde.
– Não para uma criança – ponderou Tuppence. – A criança tem a altura certa. É só se ajoelhar e rastejar por baixo. Ops, aqui tem uma coisa escorregadia. Parece a pele de um animal.
– Coisa desagradável – comentou Tommy. – Um coelho morto?
– Não tem pelos e não parece coisa boa. Ai, meu Deus, está pendurado num prego com um pedaço de barbante. Engraçado não ter apodrecido, não é?
Retirou o achado com cautela.
– Uma carteira – disse ela. – Feita de couro legítimo.
– Vamos ver o que tem dentro, se é que tem algo – instigou Tommy.
– Tem sim – informou Tuppence. – Quem sabe não é um maço de notas de cinco libras? – acrescentou esperançosa.
– Não creio que seriam utilizáveis. O papel apodreceria, não acha?
– Não sei – falou Tuppence. – Objetos esquisitos duram. Notas de cinco libras eram de papel excelente. Fininho, mas duradouro.
– Não é um maço de notas de vinte? Vai nos ajudar nas despesas.
– Se for dinheiro antigo, é incrível que Isaac não tenha encontrado. Enfim, imagine! Podem ser notas de cem! Oxalá estivesse cheia de soberanos de ouro. Soberanos eram guardados nas niqueleiras. A minha tia-avó Maria tinha uma enorme niqueleira cheia de soberanos. Gostava de nos mostrar quando éramos crianças. Dizia que era seu pé-de-meia, caso os franceses nos invadissem. Acho que eram os franceses. De qualquer modo, era uma reserva para ocasiões extremas ou perigosas. Soberanos dourados, encantadores e pesados. Eu achava fabuloso e ficava pensando como seria fantástico ter uma niqueleira cheia de soberanos quando eu crescesse.
– Quem ia lhe dar uma niqueleira cheia de soberanos?
– Eu não pensava que alguém me daria – explicou Tuppence. – Imaginava que me pertenceria por direito, assim que eu crescesse. Uma dama de verdade vestindo capa, estola e boina, carregando a niqueleira gorda e apinhada de soberanos e sempre dando um soberano para o neto favorito antes de ele ir para escola.
– Mas e as meninas? As netas?
– Não ganhavam soberanos – reconheceu Tuppence. – Mas às vezes minha vó me mandava pelo correio meia nota de cinco libras.
– Meia nota de cinco libras? Isso não teria lá muita serventia.
– Aí que você se engana. Ela rasgava a nota de cinco libras ao meio, me enviava uma das metades e daí, em outra carta, a metade que faltava. Usava a tática para não roubarem o dinheiro.
– Puxa vida, tem cada precaução que as pessoas inventam.
– É verdade – disse Tuppence. – Ei, o que vem a ser isto?
Naquele instante ela remexia o interior da carteira de couro.
– Vamos sair de KK – sugeriu Tommy – e pegar um pouco de ar.
Saíram de KK. A céu aberto, os dois viram melhor o troféu. Carteira grossa de ótima qualidade. Enrijecida com o tempo, mas em bom estado.
– Pelo jeito escapou da umidade dentro de Matilde – considerou Tuppence. – Ah, Tommy, sabe o que eu penso que é?
– Não. O quê?
– Não são notas – explicou Tuppence. – São cartas. Não sei se podem ser lidas. Estão velhas e apagadas.
Com todo o cuidado, Tommy desdobrou o papel amarelado e amarrotado de uma carta escrita com letra grande em tinta azul-marinho outrora bem forte.
– “Local de encontro mudou” – leu Tommy. – “Ken Gardens perto de Peter Pan. Quarta, dia 25, três e meia da tarde. Joanna.”
– Enfim algo concreto! – comemorou Tuppence.
– Encontro marcado em Londres, nos Kensington Gardens? Entrega de documentos e planos, talvez. Quem será que colocou isso em Matilde?
– Não uma criança – disse Tuppence. – Alguém que morava na casa e conseguia se locomover na propriedade sem ser notado. Conseguiu coisas do espião da Marinha e as levou para Londres.
Tuppence tirou o cachecol do pescoço e embrulhou com ele a velha carteira de couro, e os dois voltaram para casa.
– Pode ter mais documentos dentro dela – disse Tuppence –, mas a maioria deve estar deteriorada. Vai praticamente se desmanchar quando tocarmos. Ué, o que será isto?
Na mesa do hall, um pacote volumoso. Albert veio da sala de jantar.
– Foi mandado entregar hoje de manhã – explicou. – Para a senhora.
– Ah, o que será? – perguntou curiosa Tuppence ao apanhar o pacote.
O casal entrou junto na sala de jantar. Tuppence desfez o nó do barbante e desembrulhou o papel pardo.
– Parece um álbum. Ah, tem um bilhete junto. É da sra. Griffin.
Querida sra. Beresford,
foi muita bondade sua me trazer o livro de aniversário aquele dia. Adorei folheá-lo e recordar das várias pessoas dos tempos antigos. É fácil esquecer as coisas. É comum nos lembrarmos apenas do primeiro nome de alguém e não do sobrenome, ou às vezes o contrário. Há pouco tempo me deparei com este velho álbum. Na verdade não é meu. Acho que pertenceu à minha avó. Mas ele tem fotos ótimas. Entre elas, algumas da família Parkinson, porque minha avó conhecia os Parkinson. Pensei que talvez a senhora pudesse gostar de vê-las, já que demonstrou tanto interesse na história de sua casa e das pessoas que moraram nela no passado. Por favor, não se preocupe em me devolver; para mim não tem valor sentimental, eu lhe garanto. A gente tem tanta velharia em casa, trastes que pertenceram a tias e avós... Dia desses, eu estava vasculhando um velho baú no sótão e encontrei vários porta-agulhas velhíssimos. Acho que a minha tataravó tinha o costume natalino de presentear as empregadas com porta-agulhas. Ela deve ter comprado numa liquidação e iria dar de presente em outro ano. Claro que hoje não prestam mais. Às vezes a gente fica triste só de pensar em tanto desperdício.
– Um álbum de fotografias! – exclamou Tuppence. – Pode ser divertido. Vem comigo dar uma olhada, Tommy.
Sentaram-se no sofá. O estilo do álbum era antiquado. A maioria das fotos estava apagada, mas de vez em quando Tuppence conseguia distinguir ambientes que se encaixavam nos jardins de sua própria casa.
– Lá estão os pinheiros chilenos. Sim... e olhe ali o Truelove. Foto antiquíssima. Um garoto a bordo do Truelove. A trepadeira de flores roxas e a moita de capim-dos-pampas já existiam. Essa foi tirada num chá. Uma porção de gente sentada em volta da mesa no jardim. Olhe, tem nomes escritos a lápis. Mabel. Mabel feiosa. E quem é aquele?
– Charles – falou Tommy. – Charles e Edmund. Jogadores de tênis. Raquetes bem esquisitas. E este é William, seja quem for, e o major Coates.
– E esta aqui é... Tommy! Esta é Mary!
– Sim. Mary Jordan. Nome escrito ao pé da foto.
– Linda, ela! Lindíssima, eu diria. A foto está velha e apagada, mas... Puxa, Tommy, não é maravilhoso ver Mary Jordan?
– Fico me perguntando quem será que tirou a foto.
– Talvez o fotógrafo da vila mencionado por Isaac. Talvez ele tenha outras fotos antigas. Um dia vou lá perguntar.
A esta altura, Tommy colocara o álbum de lado e abria uma das cartas do correio do meio-dia.
– Algo interessante? – indagou Tuppence. – A maioria é de contas a pagar, já percebi. Mas essa é diferente. Não vai me responder se é interessante? – insistiu Tuppence.
– Talvez – falou Tommy. – Vou ter que ir a Londres para descobrir.
– Os contatos de sempre?
– Não é bem isso – esclareceu Tommy. – Outra pessoa. Na região metropolitana de Londres. Perto da autoestrada de Harrow.
– Quem é? – quis saber Tuppence. – Até agora só me enrolou.
– O coronel Pikeaway.
– Que nome – disse Tuppence.
– Estranho, não é?
– Já ouvi falar nele? – perguntou Tuppence.
– Talvez eu já tenha mencionado sobre ele. Mora numa perene atmosfera fumacenta. Por acaso tem pastilha para tosse, Tuppence?
– Pastilha para tosse! Não sei. Pensando bem, tenho sim. Sobraram umas na latinha que comprei no inverno passado. Mas você não está tossindo... Não que eu tenha notado, pelo menos.
– Mas é melhor levar para o encontro com Pikeaway. Até onde consigo me lembrar, você mal entra lá dentro e já começa a sufocar; olha angustiado para as janelas cerradas, mas Pikeaway não é o tipo de pessoa que tem desconfiômetro.
– Por que razão ele quer vê-lo?
– Não tenho ideia – falou Tommy. – Tocou no nome de Robinson.
– O sujeito sigiloso de rosto rechonchudo e amarelo?
– O próprio – confirmou Tommy.
– Talvez nossa investigação também seja sigilosa.
– Dificilmente, levando em conta que aconteceu (se é que aconteceu) há muitos e muitos anos, tanto que nem Isaac se lembra.
– “Novos pecados têm sombras velhas” – falou Tuppence –, como diz o ditado. Não o entendo muito bem. “Novos pecados têm sombras velhas”. Ou seria “Velhos pecados têm sombras grandes”?
– Nenhum dos dois me parece certo – falou Tommy.
– Estou pensando em ir lá naquele fotógrafo hoje à tarde. Quer me acompanhar?
– Não – falou Tommy. – Acho que vou tomar um banho de mar.
– Banho de mar? Está horrível de frio!
– Não importa. Será ótimo um banho frio e revigorante para remover toda essa teia de aranha. Estou cheio de teias subindo nas orelhas e no pescoço. Estou com teia de aranha até no meio dos dedos dos pés.
– Essa missão parece mesmo suja – falou Tuppence. – Bem, vou falar com o sr. Durrell ou Durrance. Faltou abrir uma carta, Tommy.
– Ah, não tinha visto. Hum... pode ser importante.
– De quem é?
– De minha investigadora – anunciou Tommy, numa voz imponente. – Está vasculhando a Inglaterra, entrando e saindo de Somerset House à procura de mortes, casamentos e nascimentos, consultando arquivos de jornais e dados do censo. Ela é ótima.
– Ótima e bonita?
– Não de uma beleza que chame a atenção – falou Tommy.
– Tanto melhor – disse Tuppence. – Sabe, Tommy, na sua idade, uma ajudante bonita poderia provocar ideias muito perigosas.
– Certas mulheres não sabem valorizar o marido fiel que têm – limitou-se a dizer Tommy.
– Todas as minhas amigas são unânimes: com maridos sempre é bom ficar com o pé atrás.
– Precisa com urgência reavaliar suas amizades – retrucou Tommy.