Portal do Destino

Agatha Christie · Capítulo 30 de 31

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Portal do Destino

Capítulo 16 - Os passarinhos migram para o sul

CAPÍTULO 16

 

 

Os passarinhos migram para o sul

 

– São eles?

Tuppence apareceu na porta e perscrutou a curva do caminho, ansiosa pela chegada da filha Débora com os três filhos.

Albert surgiu pela porta lateral.

– Ainda não. Era da mercearia. A senhora não vai acreditar. O preço dos ovos subiu de novo. Nunca mais voto nesse governo, eu é que não. Na próxima eleição eu voto nos liberais.

– Quer que eu passe na cozinha para dar uma olhada no purê de ruibarbo com morango ao creme?

– Já providenciei tudo. Já observei muito a senhora fazer e aprendi direitinho.

– Nesse ritmo vai se tornar um chef cordon bleu, Albert – elogiou Tuppence. – É o doce predileto de Janet.

– E preparei também torta de melaço... Andrew adora.

– Tudo arrumadinho nos quartos?

– Sim. A sra. Shacklebury veio hoje de manhã cedinho. Eu coloquei o sabonete de sândalo Guerlain no banheiro da dona Débora. Sei que é o preferido dela.

Tuppence soltou um suspiro de alívio ao saber que tudo estava preparado para a chegada dos familiares.

Escutou-se o som da buzina de um carro; pouco depois, o veículo apareceu, subindo o caminho com Tommy na direção. No instante seguinte, os hóspedes apearam no pórtico – a filha, Débora, ainda bonita aos 39 anos, Andrew, 15, Janet, 11, e Rosalie, 7.

– Oi, vó! – gritou Andrew.

– Cadê o Hannibal? – perguntou sem demora Janet.

– Estou com fome – choramingou Rosalie.

Trocaram saudações, e Albert encarregou-se de desembarcar todas as mascotes da família, incluindo um papagaio australiano, um aquário com peixes dourados e um hamster numa gaiola.

– Parabéns pela casa nova – falou Débora, abraçando a mãe. – Muito aconchegante.

– Podemos dar uma volta no jardim? – perguntou Janet.

– Depois do chá – falou Tommy.

– Estou com fome – reiterou Rosalie, com uma expressão que significava: não vamos colocar o carro na frente dos bois.

Passaram à sala de jantar, onde o chá foi servido e consumido com satisfação geral.

– Quer me explicar tudo isso que me contaram, mãe? – intimou Débora, encerrada a refeição. As duas estavam na varanda, admirando as crianças correndo e explorando os prazeres do jardim ao lado de Thomas e Hannibal, que não perdeu tempo para sair e participar das brincadeiras.

Débora, que sempre adotara uma linha severa com a mãe (que, em seu ponto de vista, carecia de meticulosa proteção), enfatizou:

– Mãe, o quê andou aprontando?

– Ah. Agora já conseguimos resolver tudo de modo satisfatório – falou Tuppence.

A afirmação não convenceu Débora.

– Andou aprontando, não é? Não é verdade, pai?

Tommy aproximou-se com Rosalie em cima dos ombros, enquanto Janet fazia o reconhecimento do novo território e Andrew perscrutava o ambiente de modo avaliador. Débora insistiu:

– Sei que tem aprontado. Brincando de sra. Blenkensop outra vez. O problema é que não tem como segurar a senhora... M ou N... Tudo aquilo de novo. Derek ouviu falar e me escreveu contando. – Ela meneou a cabeça ao mencionar o nome do irmão gêmeo.

– Derek... O que ele pensa que sabe? – questionou Tuppence.

– Derek sempre dá um jeito de ficar sabendo das coisas.

– E você também – Débora dirigiu-se ao pai. – Você também tem se metido em assuntos perigosos. Pensei que iam vir para cá, os dois, para se aquietarem, desfrutarem uma vida tranquila e companhia mútua.

– A ideia era essa – falou Tommy –, mas o Destino não quis assim.

– “Portal do Destino” – citou Tuppence. – “Caverna do Desastre, Fortaleza do Medo...”

– Flecker – disse Andrew, com erudição deliberada. Viciado em poesia, sonhava um dia tornar-se poeta. Completou a citação:

Damasco tem quatro portões imponentes (...)

Portal do Destino, Portão do Deserto (...)

Se for passar, ó caravana, não passe cantando.

Por acaso já ouviu

No silêncio dos pássaros mortos, um pio

Ecoando?

De repente, com inusitada cooperação, passarinhos desprenderam voo do telhado da casa e passaram por cima de suas cabeças.

– Que passarinhos são esses, vovó? – quis saber Janet.

– Andorinhas migrando para o sul – explicou Tuppence.

– Elas vão retornar algum dia?

– No próximo verão.

– E vão cruzar o Portal do Destino! – exclamou Andrew com intensa alegria.

– Antigamente esta casa era chamada de Ninho das Andorinhas – falou Tuppence.

– Mas vocês vão continuar morando aqui? – indagou Débora. – O pai me disse numa carta que estavam procurando outra casa.

– Por quê? – perguntou Janet, a Rosa Dartle[1] da família. – Eu gosto desta casa.

– Vou dar boas razões – disse Tommy, puxando uma folha de papel do bolso e lendo em voz alta:

A flecha negra

Alexander Parkinson

Oxford e Cambridge

Banquinhos de porcelana vitoriana

Grin-hen-lo

KK

Barriga de Matilde

Caim e Abel

Valente Truelove

– Silêncio, Tommy... Essa lista é minha – reclamou Tuppence.

– Mas o que ela quer dizer? – indagou Jane, continuando com seu questionário.

– Parece a lista de pistas de uma história de detetives – diagnosticou Andrew, que nas ocasiões menos poéticas era aficionado desse gênero literário.

– É uma lista de pistas. É a razão pela qual estamos procurando outra casa – explicou Tommy.

– Mas eu gosto desta – falou Janet. – É encantadora.

– É uma casa bonita – disse Rosalie. – Um biscoito de chocolate – acrescentou, lembrando o chá recém-consumido.

– Gostei dela – anunciou Andrew, com o ar superior de um czar russo.

– Por que não gosta dela, vovó? – perguntou Janet.

– Mas eu gosto! – exclamou Tuppence num entusiasmo inesperado e repentino. – Quero continuar morando aqui...

– Portal do Destino – falou Andrew. – Nome palpitante.

– Era chamada de Ninho das Andorinhas – contou Tuppence. – Podemos rebatizá-la assim...

– Todas essas pistas... – comentou Andrew. – Bem que vocês podiam fazer uma história com elas... Um livro...

– Tem nomes demais, é muito complicado – falou Débora. – Quem ia ler um livro desses?

– Você ficaria surpresa – falou Tommy – com o que o pessoal lê... e gosta!

Tommy e Tuppence se entreolharam.

– Posso comprar um galão de tinta amanhã? – perguntou Andrew. – Ou Albert pode me dar uma mãozinha para pintar o nome novo no portão.

– E daí as andorinhas vão saber que podem voltar no verão – disse Janet.

Ela relanceou o olhar para a mãe.

– Boa ideia, filha – incentivou Débora.

– La Reine le veult[2] – falou Tommy, fazendo uma reverência para a filha, que sempre considerou prerrogativa sua dar o assentimento real na família.

 

[1] Personagem de David Copperfield, de Charles Dickens. (N.T.)

[2] “A Rainha consente”, em francês no original. (N.T.)