Portal do Destino
Capítulo 6 - Portal do destino
CAPÍTULO 6
Portal do destino
A loja do sr. Durrance ficava a caminho do vilarejo. As fotos na vitrine mostravam dois casamentos, um bebê pelado num tapetinho chutando o ar, rapazes barbados com as namoradas, grupos de banhistas. Nenhuma foto era muito boa; algumas pareciam antigas. No interior da loja, cartões-postais, cartões de aniversário dispostos nos expositores conforme o parentesco (“Para meu marido”, “Para minha esposa”), carteiras de qualidade suspeita, material de escritório e envelopes estampados, sem falar nos bloquinhos de anotações decorados com flores.
Tuppence perambulou, olhou os variados artigos e esperou terminar uma conversa sobre como usar a câmera – perguntas triviais de uma anciã grisalha de olhos opacos. Então um loiro bem alto, com barba por fazer, saiu detrás do balcão e aproximou-se de Tuppence com olhar indagador.
– Posso ajudar?
– Quero dar uma olhada nos álbuns de fotografias – disse Tuppence.
– Aqueles com cantoneiras para as fotos? Desses a gente não recebe mais. Hoje em dia o pessoal prefere guardar em plásticos transparentes.
– Mas eu coleciono álbuns antigos, sabe. Como este aqui.
Tuppence mostrou o álbum, como quem tira um coelho da cartola.
– Bem antigo – diagnosticou o sr. Durrance. – Deve ter mais de cinquenta anos. Comum naquela época, não é? Todo mundo tinha igual.
– E livros de aniversário também – falou Tuppence.
– Livros de aniversário... Sim, lembro de alguma coisa sobre eles. Minha avó tinha um livro de aniversário, as pessoas escreviam o nome nele. Temos cartões de aniversário, mas o pessoal não compra muito. Os que mais saem são os cartões do Dia dos Namorados e os natalinos, é claro.
– O senhor não consegue outros álbuns antigos? Sou colecionadora.
– Hoje em dia todo mundo tem mania de colecionar tudo que é coisa – comentou Durrance. – A senhora mal acreditaria no que as pessoas colecionam. Não tenho álbuns antigos, mas tenho fotos.
Passou para trás do balcão e abriu uma gaveta.
– Fotos avulsas – disse. – Pensei em expor, mas não teria mercado. Casamentos só procuram na época. Depois ninguém mais quer saber.
– Ninguém aparece e diz: “Minha avó casou aqui na cidade. O senhor não tem foto do casamento dela?”
– Nunca ninguém me perguntou isso – falou Durrance. – Mas às vezes surgem pedidos excêntricos. Aparecem querendo saber se guardamos os negativos das fotos de um bebê. Sabe como são as mães. Querem fotos dos filhos quando eram pequenos, quase sempre horrorosas. De vez em quando até a polícia vem aqui. Identificar alguém que morou aqui quando menino. E a polícia quer ver como ele é... ou melhor, como ele era, e se por acaso não é a pessoa procurada. Isso alegra o ambiente – sorriu Durrance.
– Pelo que vejo o senhor se interessa por crimes – falou Tuppence.
– A gente lê todo dia nos jornais. Como aquele suspeito de ter matado a esposa há meio ano. Uns diziam que ela estava viva, outros que ele enterrou o corpo numa cova rasa. E uma foto do suspeito pode ser útil.
– Sim – falou Tuppence.
Embora o papo estivesse fluindo com o sr. Durrance, ela sentiu que não estava rendendo como queria.
– O senhor não tem fotos de uma pessoa chamada... Se não me engano o nome dela é Mary Jordan. Mas já faz muito tempo. Mais ou menos sessenta anos. Acho que ela morreu aqui.
– Bem antes de meu tempo – falou o sr. Durrance. – Meu pai guardava tudo... Não jogava nada fora. Lembrava de todo mundo, em especial se existia uma história por trás. Mary Jordan. Hum... Ligada à Marinha, não é? Um submarino? O pessoal dizia que era espiã, não é isso? Meio estrangeira. A mãe russa ou alemã... ou até mesmo japonesa.
– Só queria saber se o senhor não tinha alguma foto dela.
– Acho que não. Vou dar uma olhada quando eu tiver um tempinho. Aviso se aparecer algo. É escritora, não é? – perguntou esperançoso.
– Não em tempo integral – falou Tuppence –, mas estou pensando em lançar um livro fininho. Rememorando os últimos cem anos. Fatos curiosos, crimes e aventuras. E, é claro, fotografias antigas dariam belas ilustrações.
– Farei tudo que estiver a meu alcance, pode ter certeza. O seu trabalho deve ser muito cativante.
– A família Parkinson – disse Tuppence – morou em nossa casa.
– A casa da colina, não é? The Laurels ou Katmandu... Já foi chamada de Swallow’s Nest. Não tenho ideia por quê.
– Talvez porque havia um ninho de andorinhas no telhado – sugeriu Tuppence. – Por sinal ainda há.
– Quem sabe. Nome engraçado para uma casa.
Tuppence fizera amizade; sem esperança de conseguir informações, comprou cartões-postais e bloquinhos floridos. Despediu-se do sr. Durrance, ganhou a estrada, chegou ao portão e contornou a trilha lateral para dar uma olhada em KK. Ao ver a estufa, parou bruscamente. Um fardo de roupas junto à porta? Panos tirados de Matilde, imaginou.
Apertou o passo até quase correr. Chegou perto da porta e estacou de repente. Não era só um monte de roupas velhas. Um corpo as vestia. Tuppence inclinou-se e levantou-se, amparando-se na porta.
– Isaac! – exclamou ela. – Pobre Isaac!
Deu passos vacilantes rumo à casa. Acudindo a seus chamados, alguém veio em sua direção pela trilha.
– Ai, Albert. Algo horrível aconteceu com o velho Isaac. Está ali deitado. Acho... que alguém o matou.