Reboot

Amy Tintera · Capítulo 10 de 34

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Reboot

Dez

 

O ar noturno estava parado quando abri a porta da escada e pisei no terraço da instalação. Os humanos esperavam por mim perto da beirada e andei na direção deles, ajeitando o capacete para que ficasse reto na minha cabeça.

— Confio em você, 178. — O oficial Mayer colocou as mãos nos quadris largos e me lançou um olhar como se esperasse uma resposta.

— Obrigada — respondi automaticamente. O oficial Mayer dizia que confiava em mim sempre que me via, como se tentasse se convencer. Eu era o único Reboot a ter contato regularmente com o comandante.

Duvidava que alguém sentisse inveja.

Eu o encontrava com frequência, já que Rosa era a maior instalação e ele tinha um escritório lá. Mas a mulher ao lado dele, Suzanna Palm, eu via muito raramente. Ela era a presidente da CRAH, e eu não sabia bem o que ela fazia, mas sua presença naquela noite não podia ser uma boa coisa.

— Acredito que tenham lhe dito que esta missão é confidencial? — perguntou Suzanna.

Ela apertava os olhos para mim de um modo que parecia desaprovador. Talvez só estivesse desconfortável em seus saltos ridículos. Ou talvez aqueles cachos castanhos e selvagens com fios grisalhos voando para todos os lados a irritassem. Teriam me irritado.

Assenti no momento em que a aeronave pousava no terraço. O oficial Mayer se afastou quando a porta se abriu e me lançou um olhar que deveria ser encorajador. Mas eu não me senti encorajada. A última coisa que eu queria fazer naquela noite era sair em uma missão solo de surpresa. Embora precisasse admitir que esperava que o alvo fosse um corredor. Não me importaria de arrebentar a cabeça de um humano naquele dia.

A imagem do rosto ensanguentado do 22 passou pelos meus olhos, e eu afastei-a. Mas ela não desapareceria por um bom tempo. Eu a via e sentia o peso no meu peito o dia inteiro. Queria ordenar que meu cérebro deixasse de ser burro. O 22 já tinha se recuperado fazia horas; não era como se eu tivesse causado algum dano permanente.

Leb torceu as mãos quando eu entrei na pequena aeronave e mal olhou para mim. Seu evidente desconforto quase me deixou nervosa. As missões solo do oficial Mayer dificilmente eram boas, mas Leb quase sempre era o oficial em serviço. Eles “confiavam” nele também, aparentemente.

Só tínhamos pegado uma aeronave naquela noite, portanto o prisioneiro voltaria conosco. Tomei um dos quatro assentos pequenos na frente de Leb e puxei os cintos por cima do corpo, tentando ignorar a ansiedade no rosto dele. Não gostava daquele olhar. Em vez disso, concentrei-me na ficha da missão, que só dizia Milo, cerca de 30 anos, 1,80m - 1,85m, cabelo castanho. Não mencionava o motivo de sua prisão. Eles sabiam que eu não perguntaria.

O comentário do 22 sobre como nós deveríamos saber o que os humanos fizeram para justificar a captura passou pela minha cabeça. Eu o afastei. Podia pensar sobre crimes dos humanos o quanto quisesse, mas a corporação nunca daria essa informação a um Reboot.

Voamos em silêncio sobre Rosa até a aeronave aterrissar. A porta deslizou, revelando o coração da favela, e soltei meu cinto para ficar de pé. Uma rua de terra serpenteava em torno de casinhas minúsculas de madeira, todas escuras e silenciosas, já que passava da hora do toque de recolher.

Paramos muito perto da casa do alvo. O oficial Mayer não arriscava, não gostava da perseguição como eu.

A casa era tão triste e caindo aos pedaços quanto as outras, com uma exceção notável. As janelas. Duas janelas quadradas, na frente da casa, sem cortinas. Qualquer um podia passar e ver tudo lá dentro. A maioria das casas em Rosa não tinha janelas ou, se tinham, eram pequenas e tapadas. Havia muitos assaltos. Janelas eram um convite.

Aquele humano era um completo idiota.

Saí da aeronave e corri pelo chão de terra até os degraus da frente da casa. As tábuas rangiam sob meus pés à medida que eu me aproximava da porta. Parei, inclinando a cabeça na direção da casa. Era silenciosa, o único som era o farfalhar de folhas da árvore ao lado.

Nas missões especiais do oficial Mayer, bater à porta do alvo não era uma exigência, então a chutei com toda a força e ela se abriu, revelando escuridão.

Entrei, passando os olhos pela esquerda, onde podia ver ligeiramente a silhueta de um sofá e algumas cadeiras. Havia um corredor logo depois da sala de estar, mas não avistei sinais de vida nos outros aposentos da casa. Talvez eu tivesse dado sorte, e o humano estivesse em um sono pesado.

Minhas botas fizeram barulho na madeira do piso quando eu me esgueirei pelo sofá e desci o corredor. A primeira porta à esquerda estava aberta: um banheiro. A porta seguinte ficava bem em frente. Pressionei as pontas dos dedos nela enquanto, com a outra mão, segurava a maçaneta, que rangeu quando a girei; estremeci com o som.

Empurrei a porta e apertei os olhos na escuridão, fitando a cama à minha frente. Estava vazia.

Vislumbrei um borrão de movimento pelo canto dos olhos e enterrei os dedos dos dois lados da moldura da porta.

Nenhuma janela neste quarto. Eu o havia encurralado.

A luz foi acesa, e eu pisquei, surpresa. O humano — Milo, presumi — estava ao lado da cama usando nada além de uma camiseta, cuecas samba-canção e meias.

Tinha um sorriso largo no rosto.

Inclinei a cabeça, confusa com aquela reação. O olhar dele passeou pelo meu corpo, e ele sorriu ainda mais, segurando alguma coisa. Era um cano de metal, de aproximadamente cinco centímetros de comprimento.

— Cento e setenta e oito, algeme-o! — gritou o oficial Mayer pelo comunicador.

Um som estridente horrível perfurou meu ouvido; perdi o fôlego e rapidamente puxei o aparelho. Esfreguei a orelha, franzindo o cenho para Milo.

— Quem é o oficial da aeronave? — Ele atravessou o aposento, vindo na minha direção. Dei um passo para trás, erguendo os braços para me defender. Ele fez um som exasperado. — Quer parar? Estou do seu lado.

Meu lado? Que lado era esse?

Eu me virei ao ouvir o som de passos, e Leb apareceu no canto, com os olhos arregalados e em pânico. Olhou para mim e para Milo, e eu logo estiquei a mão para pegar minhas algemas, incapaz de pensar em uma explicação para ainda não ter prendido o alvo.

Milo ergueu um equipamento prateado para Leb, e o rosto do oficial mudou do pânico para a raiva.

— O seu também não está funcionando, certo, Leb? — perguntou Milo.

Congelei. O humano o conhecia.

Leb abriu a boca, mas tornou a fechá-la e se virou para mim. Estava preocupado. Com medo. De mim? Leb nunca parecera ter medo de mim.

Ele soltou um suspiro, pressionando o osso do nariz com dois dedos.

— Você derrubou todos os vídeos e comunicações. Até na aeronave.

— Legal — disse Milo, largando o aparelho na cama. — Eu gostaria de ter recebido uma advertência, sabe.

— Não tive tempo — falou Leb. — Recebi a missão há meia hora.

Milo suspirou.

— Foi inteligente da parte deles, eu acho. Quer me compensar, deixando que eu vá embora? Você pode dizer que eu fugi.

— Ela não deixa as pessoas fugirem — disse Leb.

Isso era verdade. E por que Leb o deixaria?

— Em que diabos você estava pensando? — continuou Leb, zangado. — Eles vão saber por que você derrubou a comunicação. Vão matá-la. E a mim, talvez.

Pisquei, deixando meu comunicador cair, e Leb me lançou um olhar de desculpas enquanto eu o pegava. Por que me matariam? Eu havia seguido as ordens.

— Entre na aeronave — disse Leb para Milo. — Cento e setenta e oito, algeme-o.

— O quê? — gritou Milo quando eu dei um passo na direção dele. — Qual é, cara, você não pode me entregar!

— Não tenho escolha — falou Leb, fazendo um gesto para que o seguíssemos. — Se não entrarmos naquela aeronave agora e voltarmos para a corporação, eles vão matar a mim e a ela, e provavelmente vão caçá-lo alguns dias depois de qualquer maneira.

— Mas... — Milo desviou o olhar para Leb, e então para as algemas na minha mão.

O alvo disparou pelo corredor, empurrando Leb para fora do caminho. Estiquei a mão para agarrá-lo, mas só consegui pegar o pano da sua camiseta. Ele se contorceu, soltando-se, e disparou pela porta, escorregando no chão por causa das meias.

— Ah, é, boa ideia, Milo — disse Leb secamente. — Fuja da 178.

Corri para a sala de estar e me joguei sobre Milo. Caímos juntos no chão, e ele grunhiu, contorcendo-se embaixo de mim. Estiquei a mão para pegar as algemas enquanto ele tentava agarrar a beirada do sofá.

— Quer parar? — explodiu Leb, suas botas aparecendo ao meu lado. — Só deixe que ela o algeme.

Milo grunhiu, mas parou de se contorcer por tempo suficiente para que eu prendesse as algemas em seus pulsos. Eu o ergui, e ele soprou algumas mechas de cabelo para longe dos olhos ao se virar para olhar Leb.

— Mas eu acho...

— Apenas cale a boca até entrarmos na aeronave — disse Leb, parando no vão da porta com a mão na maçaneta. — Entendeu?

Milo assentiu mal-humorado, e Leb abriu a porta. O piloto estava de pé ao lado da porta da aeronave, o rosto curioso.

— Está tudo bem — falou Leb para ele enquanto abria a porta. — Vamos voltar.

O oficial assentiu e pulou para o assento do piloto. Gesticulei, ordenando que Milo entrasse. Os alvos humanos eram trancados em um compartimento separado nos fundos da aeronave, um modo de proteger o oficial em serviço. Milo passou pela pequena abertura, e eu fechei a porta.

Acomodei-me no assento, fitando Leb. Ele claramente evitava o meu olhar.

— Pode me ajudar? — Milo começou a falar o mais rápido que conseguia, a testa pressionada no compartimento de vidro. — Talvez durante o transporte. Você poderia me deixar fugir quando me despacharem para Austin, certo?

— Talvez — disse Leb.

— Ou talvez até mesmo esta noite. Conhece algum jeito de sair? Você...

— Pode me dar um minuto para pensar? — Leb franziu o cenho para ele e inclinou-se para a frente, descansando os cotovelos nos joelhos e passando as mãos pelo cabelo escuro.

O silêncio preencheu a aeronave; o único som era o zumbido do motor. Os olhos de Milo alternavam entre mim e Leb, o rosto curioso.

— Ela fala? — perguntou Milo depois de vários instantes de silêncio.

Leb não respondeu nem deu sinais de que o tivesse escutado.

— Você faz muitas missões solo com a 178? — perguntou Milo. — Tony teria gostado de saber desse detalhe. Já explicou as coisas para ela? Talvez ela possa me ajudar. Ou nos ajudar, em algum momento.

Leb levantou a cabeça e encarou Milo.

— Houve algum progresso com Adina?

— Não. Eles perderam mais três rebeldes dentro da CRAH no mês passado só em Austin e pararam de tirar Reboots por enquanto.

Os rebeldes. Eu ouvira sussurros sobre eles quando criança. Humanos nas favelas que formavam grupos para enfrentar a corporação, destruir os muros entre o rico e a favela e trazer de volta um governo gerido pelos cidadãos. Uma garota na escola alegara que seu pai fazia parte de uma equipe que atacaria as instalações da CRAH em Austin. A família inteira sumiu alguns dias depois.

Meus olhos se arregalaram, e Leb viu minha expressão. Ele soltou um longo suspiro, resmungando alguma coisa para si mesmo.

— O que quer dizer com pararam de tirar Reboots por enquanto? — perguntei.

— Ah, qual é? — disse Milo, dando uma olhada para Leb. — Você realmente não contou nada a ela?

— Não vou ajudá-los até tirarem Adina, então, realmente não vi motivo para fazer isso — respondeu Leb. — E agora você arriscou que eles a eliminassem, logo, não tem nenhuma importância.

Eu queria que Leb parasse de dizer aquilo. O enjoo no meu estômago estava começando a subir para a garganta, e eu tive que engoli-lo.

— Por favor — disse Milo, revirando os olhos. — Eles não vão fazer nada com sua preciosa 178. Acham que ela não passa de uma casca vazia mesmo. — Ele fez uma careta. — Desculpe, magrinha.

— É Wren — falei, fechando a cara. Casca vazia? Eu não sabia disso. Não era emoção pura, como uma -60, mas havia algo aqui dentro.

Eu tinha quase certeza de que havia algo aqui dentro.

— Escute — disse Milo, levantando a voz para que eu pudesse ouvir pelo vidro. — Reboots fogem.

Isso era ridículo. Eu lhe dirigi um olhar desconfiado, sem saber bem que tipo de jogo ele estava jogando.

— Eles fogem e formam uma reserva no norte do Texas, perto da fronteira. Sabe aqueles que dizem terem morrido em campo, mas misteriosamente não conseguem encontrar os corpos? Eles não morreram.

Eu não vi o corpo do meu treinador quando ele morreu.

Virei-me para Leb, meus olhos arregalados.

— O 157? — perguntei.

— Sim. Ele fugiu. — Leb se remexeu desconfortavelmente.

— Como?

Ele não me olhou nos olhos.

— Consegui pôr as mãos em um localizador da corporação e o tirei quando ele estava em uma missão.

— Por que você faria isso? — Por que qualquer humano ajudaria um Reboot? Nós éramos o maior inimigo da humanidade.

— Porque eles prometeram ajudar minha filha — continuou ele. — Ela é uma Reboot nas instalações de Austin e os rebeldes disseram que, se eu ajudasse a resgatar um número alto, alguém que a corporação achasse que nunca tentaria fugir, eles a resgatariam em troca. — O olhar dele ficou sério, então encarou Milo. — Eles mentiram.

— Não mentimos! — protestou Milo. — Mas acabamos de perder três pessoas, e, desculpe, mas resgatar uma 39 não é nossa maior prioridade no momento.

— Vocês ajudam os números mais altos a fugirem? — perguntei. Eu ainda não conseguia entender o motivo.

— Priorizamos os números mais altos porque eles são mais úteis para a corporação — disse Milo. — Mas temos números baixos também.

— Por quê? — perguntei.

— Se um dia tivermos a oportunidade de nos livrarmos da CRAH, vamos precisar de ajuda. Ajuda de verdade, treinada em combate. E pensamos que nem todos vocês iriam recusar a chance de fugir.

— Mas...

Não éramos humanos. Eu não queria contar para o cara, mas, se alguém tivesse me ajudado a fugir, eu provavelmente teria ido embora. Não ia ficar para ajudar um bando de humanos. Achava difícil acreditar que havia uma reserva de Reboots, muito menos uma reserva aliada aos rebeldes humanos.

— Ou, no mínimo, eles precisam que você vá embora para que tenham uma chance — falou Leb, como se soubesse o que eu estava pensando.

A aeronave começou a descer, e Milo olhou para Leb com olhos arregalados.

— Você pode me ajudar, certo? Pode me tirar dessa?

— Talvez — disse Leb, passando uma das mãos pelo rosto. — Posso tentar armar alguma coisa quando você for transferido para Austin. Mas estão com Suzanna Palm em Rosa esta noite. Você vai ter que aguentar o interrogatório por enquanto.

A cor sumiu do rosto de Milo, mas ele concordou.

— Mas pode me tirar mais tarde, certo? Porque...

— Falei que vou tentar — vociferou Leb. Ele se virou para mim. — Vão lhe perguntar o que aconteceu durante o silêncio. Você precisa dizer a verdade, mais ou menos.

Eu pisquei, confusa. Todos os humanos haviam enlouquecido.

— Uma versão da verdade. Diga que Milo começou a tagarelar sobre a reserva de Reboots e pessoas fugindo. Diga que ele falou que o 157 fugiu. E que ele queria ajudá-la. Diga que você acha que ele é louco. Que, mesmo que não fosse, você não iria. Faça daquele jeito: você fica impassível, como se não tivesse nenhum sentimento.

— Acho que é só o meu rosto.

— Tudo bem. Você tem que dar algo a eles. Nunca vão acreditar que ele ficou calado enquanto o seu comunicador estava com defeito. — Ele olhou para mim, suplicante. — Mas, por favor, não lhes conte sobre mim ou Adina. Pode só dizer que eu a mandei ficar calada? Tenho outros dois filhos e minha mulher morreu. Não posso ser pego.

A aeronave balançou até aterrissar, e eu assenti. Ele não parecia inteiramente convencido de que eu não iria entregá-lo.

— E não pode contar a nenhum outro Reboot sobre isso — sussurrou Leb, as palavras saindo apressadas. — Não posso tirar mais nenhum deles neste momento. Cheguei muito perto de ser pego da última vez. Não vou arriscar de novo. — Ele se virou para olhar Milo. — Especialmente quando certas pessoas não cumprem sua palavra.

Milo o encarou também enquanto a porta deslizava revelando o oficial Mayer no terraço, as mãos nos quadris, a raiva irradiando pelo corpo gorducho. Suzanna estava ao lado dele, com a raiva sob controle, se é que sentia alguma. Simplesmente ergueu as sobrancelhas para mim. Um canto de sua boca se levantou ao olhar para Milo.

Não culpei o humano por se encolher.

— Leve-o para que seja interrogado por Suzanna — latiu o oficial Mayer para Leb, fazendo um gesto para Milo. — Então desça para a sala de relatórios e espere por mim. Você, venha cá! — gritou a última frase para mim, e eu disparei para fora da nave.

Ele me agarrou pelo braço e me arrastou escada abaixo como se eu fosse uma criança que havia fugido. Só me largou quando chegamos ao seu escritório no nono andar, para enfiar a chave na fechadura.

Bateu a porta ao passar e virou-se para me encarar, o rosto tão perto que eu podia sentir o hálito azedo.

Ele gritou algo para mim. Eu não fazia ideia do que era.

Sério. Todos os humanos haviam enlouquecido.

— Desculpe-me, não entendi, senhor. — Tentei parecer calma.

Ele suspirou em alto e bom som.

— Por que desligou o comunicador? — perguntou, entre dentes, apontando para o aparelho ainda na minha mão.

— Guinchou no meu ouvido. Está com defeito. — Eu o estendi para ele. Ele deu um tapa para afastar a minha mão, e o aparelho de plástico escorregou no chão de ladrilho e parou debaixo da longa mesa de vidro.

— E a câmera? — Saliva voava no meu rosto enquanto ele falava, e eu resisti ao ímpeto de limpar as bochechas.

— Não sei. Não está funcionando? — perguntei, inocentemente.

— O que aconteceu naquela casa?

— O criminoso começou a tagarelar sobre uma reserva de Reboots. Falando bobagens sobre querer resgatar todos nós. O oficial entrou, já que havíamos perdido contato, e juntos nós levamos o alvo para a aeronave.

Ele passou uma das mãos em volta do pulso. Achei que podia estar se preparando para me dar um soco.

— E?

— Ele continuou falando na aeronave. Disse que o 157 não morreu; que fugiu.

— E? — rosnou ele.

— Só isso. O oficial pediu que eu não falasse. O humano continuou gritando sobre uma reserva de Reboots.

— Ele disse onde ficava?

— Não. — Não exatamente, de qualquer maneira. O norte do Texas não era uma descrição detalhada. Tudo ao norte era um terreno baldio, até onde eu sabia.

— Ele falou que iam ajudá-la a fugir?

— Sim, mencionou que queria me ajudar. Mas eu acho que ele simplesmente estava maluco, senhor.

O oficial Mayer franziu os olhos para mim, bufando e arquejando, os únicos sons na sala durante vários segundos.

— Você acha que ele estava maluco — falou, lentamente.

— Reboots não fogem. Eu os vi tentar. Eles são mortos. Mesmo que fugissem, não há para onde ir.

— E quanto à reserva de Reboots?

— Acho difícil acreditar nisso, senhor. — Não era mentira. Eu não conseguia imaginar. Como eles viviam? Onde conseguiam comida? Por que os humanos os deixariam em paz?

Ele olhou fixamente para mim, procurando por uma mentira em meu rosto.

— Eu não sabia que ia ficar tão difícil. Mas eu a enviei porque confio em você. — Ele respirou fundo, dando um passinho para trás. — Essas pessoas... Sei que você pode não entender isso, mas nós as salvamos. Somos o único estado que sobreviveu, porque fechamos nossas fronteiras cedo e paramos com todo o deslocamento de civis. E essas pessoas acham que podem ir aonde quiserem e fazer o que quiserem. Nós criamos essas regras por um motivo! Nós os protegemos, e esses rebeldes — ele cuspiu a palavra — acham que estão em uma espécie de missão para salvar o mundo. Estão nos matando mais rápido. Viajando de uma cidade à outra, infringindo as leis! Este lugar — ele apontou para a sala — é para proteger os humanos. É isso o que você faz. Sabe disso, não é?

Proteger não é a palavra que eu usaria, mas quase conseguia entender seu ponto de vista. Os humanos escolheram deixar os Reboots mais jovens viverem para que eles ajudassem a limpar as cidades. Acabar com os criminosos e os doentes sem correr o risco de se infectarem e espalharem ainda mais o vírus.

— Sei — respondi.

Ele deu um passo para a frente, tão perto de mim que eu senti vontade de bater no peito dele e jogá-lo para o outro lado da sala.

— Vou observar cada movimento seu. Diga uma palavra sobre isso para qualquer um e está morta. Entendido?

Eu assenti.

Isso em nada se parecia com confiança para mim.