Reboot
Quatro
Manny fez os novatos marcharem até o ginásio para at seleção na manhã seguinte. Eles o seguiram pela porta em uma fila reta, os rostos tensos de medo e exaustão.
Foram seguidos por alguns médicos de jaleco. Os exames e os raios X continuaram naquele dia, contribuindo para o cansaço dos novatos. Eu me lembrava de ter que correr em uma esteira com inclinação íngreme conectada a todo tipo de engenhoca. Os médicos continuaram aumentando a velocidade até eu finalmente cair.
Grupos de Reboots se aglomeraram atrás dos treinadores, curiosos para saber quem ficaria com qual. Ever estava no canto à minha esquerda com vários -60, encostada na parede, observando os novatos se enfileirarem diante de nós.
Eu me virei, e meu olhar imediatamente pousou em 22. Ele fitava Lissy, mas, quando fui flagrada, um sorriso se abriu no rosto dele, seguido por um beicinho.
Por favor?, articulou com a boca.
Não adiantava implorar. Alvos humanos imploravam o tempo inteiro: “Por favor, não me leve.” “Por favor, não me toque.” Ou “Por favor, não me mate”. Não funcionava.
Aquele sorriso, no entanto... Quase deixei que um se formasse no meu rosto também.
Não. Isso era ridículo. Eu não podia deixar que esse garoto estranho e sorridente me convencesse a fazer algo idiota. Eu era a melhor treinadora; só pegava os melhores novatos.
Talvez eles sejam os melhores porque você os deixa assim. O pensamento vinha me incomodando desde a noite anterior.
A porta se abriu com um baque, e o ginásio ficou em silêncio enquanto o oficial Mayer, comandante das cinco instalações da CRAH, atravessava o aposento a passos largos. Ele parou perto da equipe médica e cruzou os braços por cima da barriga protuberante. Mayer passava a maior parte do tempo em Rosa, a maior das cinco instalações, e frequentemente aparecia para observar os novatos. Ele os estudava durante todo o processo de seis semanas, a fim de detectar os bons e arrancar qualquer um que pudesse ser um problema.
— Cento e setenta e oito — anunciou Manny.
Voltei meu olhar para o 121, que assentiu para mim. Ele já sabia que eu o escolheria. Os outros Reboots haviam lhe contado.
Olhei para o 22. Quanto tempo ele tinha com Lissy? Os Reboots estariam em campo em algumas semanas, e, com o histórico de Lissy, ele estaria morto dentro de dois meses.
Ele retribuiu meu olhar. Poucas pessoas me encaravam. Os humanos não queriam olhar para mim de jeito nenhum, e os Reboots ou tinham medo ou achavam que eu era superior.
E aquele sorriso. Aquele sorriso era estranho aqui. Novatos não chegavam sorrindo, e sim apavorados e infelizes.
Ele era definitivamente estranho.
— Cento e setenta e oito? — repetiu Manny, olhando para mim com expectativa.
— O 22. — Saiu da minha boca antes que eu pudesse mudar de ideia. Um largo sorriso se espalhou pelo rosto dele.
Os treinadores olharam perplexos a fila. O humor de Lissy já havia melhorado.
— O 22? — repetiu Manny. — Callum?
— Sim — confirmei.
Passei os olhos pelo ginásio e vi o oficial Mayer esfregando o queixo, a boca retorcida com algo beirando a decepção. Achei que ele reclamaria, me obrigaria a escolher um número mais alto, mas o agente permaneceu em silêncio.
— Está bem — disse Manny. — Cento e cinquenta?
Hugo abriu a boca, fechou e se virou para mim com as sobrancelhas franzidas.
— Tem certeza?
O 22 riu, e Manny fez um gesto para que ficasse quieto.
Não.
— Sim — respondi.
— Eu... O 121, então — disse Hugo, olhando para mim como se eu fosse protestar.
Não protestei. Fiquei ali parada enquanto os outros treinadores escolhiam seus novatos e se separavam para começar a discutir o processo. Estarrecida com a minha decisão, esperei o 22 vir até mim, as mãos enfiadas nos bolsos das calças pretas.
— Você gosta de mim então — falou.
Franzi o cenho. Eu não tinha certeza disso. Estava curiosa. Intrigada. Mas gostar? Isso era forçar a barra.
— Ou talvez não — disse ele com uma risada.
— Pensei no que você falou. Sobre eu não treinar os números mais baixos.
— Ah. Então não é por minha causa.
Ele sorriu, e eu tive a impressão de que ele não acreditava em nenhuma palavra que havia acabado de sair da minha boca. Desconfortável, mudei o pé de apoio. Queria me contorcer, e eu nunca me contorcia.
— Você é um bom corredor? — perguntei rapidamente.
— Duvido.
Suspirei.
— Vamos nos encontrar na pista coberta todos os dias às sete.
— Está bem.
— Tente não gritar quando eu quebrar seus ossos. Isso me incomoda. Você pode chorar se quiser, não tem problema.
Ele caiu na gargalhada. Eu não sabia que aquilo era tão engraçado.
— Entendi — falou, tentando sem sucesso cobrir o sorriso. — Gritar, não. Chorar, sim.
— Já usou alguma arma?
— Não.
— Habilidades?
— Sou bom com tecnologia.
— Tecnologia? — repeti, confusa, um vinco se formando entre as sobrancelhas. — Onde você viu computadores nas favelas?
— Eu não sou da favela. — Ele baixou a voz ao dizer isso.
Eu pisquei.
— Você é do rico?
Ele riu um pouquinho.
— Ninguém chama assim. É só Austin.
Ninguém do rico chamava assim. Do lado de fora, nas favelas, nós usávamos a palavra espanhola para nos referir ao lado abastado das cidades.
Dei uma olhada rápida pelo ginásio. Havia alguns Reboots do rico, mas certamente eram minoria. Eu nunca havia treinado um. Minha última aluna, Marie 135, morava nas ruas em Richards, e havia sido mais durona por causa disso. A vida nas favelas formava Reboots melhores, mais fortes. O 22 estava duplamente ferrado. Não sei se o teria escolhido se soubesse disso.
— Como você morreu? — perguntei.
— KDH.
— Achei que haviam praticamente erradicado o vírus na parte rica da cidade — falei.
— Quase. Sou só um dos poucos felizardos.
Fiz uma careta. O KDH era uma maneira horrível de morrer. Batizaram o vírus com o nome da cidade onde a epidemia começou, Kill Devil Hills, na Carolina do Norte. Era uma estirpe diferente de um vírus respiratório comum em crianças e matava a maioria dos humanos em poucos dias.
— Meus pais me levaram para um hospital da favela porque não tinham dinheiro para os remédios — continuou ele.
— Isso foi burrice. — Todo mundo sabia que o KDH era violento nas favelas. Ninguém estava sendo tratado ali.
— É, bem, eles estavam desesperados. E não perceberam...
— Você só vai ao hospital da favela para morrer e ser classificado.
— Sim. Como você morreu?
— Levei um tiro — respondi. — Alguma outra habilidade?
— Acho que não. Espere, quantos anos você tinha quando morreu?
— Doze. Não estamos falando sobre mim.
— Quem atiraria em uma criança de 12 anos? — perguntou ele com a inocência de quem só podia vir de uma vida inteira dentro de muros onde nada de mal acontecia.
— Não estamos falando sobre mim — repeti.
Qual era o propósito, de qualquer modo? Como eu explicaria uma vida de pais viciados e barracos sujos, e as brigas e os gritos de quando eles passavam tempo demais sem se drogar? Um garoto rico nunca entenderia.
— Novatos! — gritou Manny, fazendo um gesto para que se juntassem a ele perto da porta do ginásio.
— Não vamos começar agora? — perguntou o 22.
— Não, vocês têm mais testes para fazer — retruquei, fazendo um gesto para a equipe médica. — Vamos começar amanhã.
Ele soltou um suspiro enquanto passava a mão pelo rosto.
— Sério? Mais testes?
— Sim.
Ele olhou de mim para os outros novatos que já haviam se juntado a Manny.
— Está bem. Vejo você amanhã, então.
— Vinte e dois! — berrou Manny. — Ande!
Fiz um gesto para ele ir. O 22 correu pelo ginásio e desapareceu porta afora. Todos os treinadores me fitavam ao sair. Hugo e Lissy pararam na minha frente, com expressões igualmente confusas.
— O que há de errado com você? — perguntou Lissy. Estava com as mãos nos quadris, as sobrancelhas franzidas.
— Ele é especial ou algo assim? — perguntou Hugo.
Lissy revirou os olhos.
— É. Ele é muito especial, Hugo.
Eu dei de ombros.
— Talvez eu possa melhorá-lo.
— Não conte com isso — resmungou Lissy. Ela saiu pisando duro. Hugo me dirigiu outro olhar confuso e a seguiu.
Virei-me para sair, e meu olhar encontrou o de Ever. Ela estava sorrindo, a cabeça inclinada para o lado, então acenou como se dissesse bom para você.