Reboot
Cinco
Um som me acordou no meio da noite.
Eu pisquei até que o sonho no qual estivera perdida se apagasse, soltando o lençol que estava agarrando com todas as forças. Estava no canto de um apartamento minúsculo, observando meus pais gritarem com as pessoas na sala. No sonho, eles gritavam algo a meu respeito. Na realidade, não tenho certeza de que gostavam de mim o suficiente para esse tipo de atenção.
Rolei e vi Ever sentada na cama, seus dentes à mostra enquanto ela soltava um rosnado baixo. O barulho ficou mais alto conforme ela se balançava para a frente e para trás no colchão.
— Ever — falei, sentando.
Violação das regras, mas eles certamente iam querer que alguém a acordasse e parasse com aquele barulho.
Ela se virou para mim. Seus olhos brilhantes não deram sinais de que me reconheciam. Na verdade, ela rosnou.
— Ever — chamei novamente, jogando minhas cobertas para o lado e pisando no chão frio. Estiquei a mão para tocar seu ombro, e sua cabeça virou para mim. Ela abriu a boca, e os dentes arranharam a pele da minha mão.
Eu a puxei para trás. Que merda era essa?
Segurei a mão perto do peito, meu coração batendo estranhamente. Eu estava nervosa, acho. Raramente ficava nervosa.
Meus olhos dispararam para o corredor. Através da parede de vidro na frente da nossa cela eu podia ver um guarda se aproximando, a lanterna mirando na nossa direção. Ele parou diante do nosso quarto e espiou, esticando a mão para seu comunicador. Virou de costas enquanto falava, e eu olhei de volta para Ever, que estava se balançando na cama e rosnando. Eu queria tapar sua boca para conter o barulho, para fazer o guarda ir embora antes que ela arrumasse problema.
Ouvi o barulho dos passos e me virei a tempo de ver um cientista de jaleco branco vindo rapidamente pelo corredor. Respirei fundo ao vê-lo falar freneticamente com o guarda, as volumosas sobrancelhas enrugadas de preocupação enquanto observava Ever.
Humanos não se preocupavam com Reboots. Eles não corriam para ajudá-los.
O cientista puxou uma seringa do bolso, e meu estômago se revirou quando entendi o que estava acontecendo.
Eles fizeram alguma coisa com ela e naquele momento perceberam que haviam ferrado tudo. Que haviam ferrado Ever.
Ela pulou da cama atingindo uma altura e velocidade que eu nunca tinha visto e bateu com o corpo contra a parede. Eu arfei, cambaleando para trás até minhas pernas tocarem a cama.
Ever deu uma cabeçada no vidro, um fio de sangue escorrendo pelo rosto quando se endireitou. Mostrou os dentes para os humanos e os dois pularam para longe, o cientista quase deixando sua seringa cair.
— Cento e setenta e oito.
Virei os olhos para o guarda que gritava do outro lado da parede.
— Domine-a.
Ever começou a bater com a mão na parede, uma martelada lenta e rítmica.
Tum.
Tum.
Tum.
Com uma expressão determinada, ela olhou para os humanos como se fosse arrancar seus rostos se tivesse meio segundo.
— Eu disse para dominá-la, 178. Jogue-a no chão. — O guarda olhou fixamente para mim.
Eu me levantei lentamente da cama, cerrando os punhos, quando percebi que estava tremendo.
Não estou com medo.
Repeti na minha cabeça. Não havia motivo para ter medo de uma 56. Ela não podia me machucar.
Ou podia? Eu nunca tinha visto um Reboot agir daquela maneira. Não havia nenhum vestígio da Ever que eu conhecia.
Não estou com medo.
Estiquei a mão para pegar seu braço, mas ela foi mais rápida, disparando para o outro lado do quarto e pulando em sua cama. Quicou de um pé para o outro em cima do colchão, olhando para mim como se aceitasse meu desafio.
— Ever, está tudo bem — falei.
O que havia de errado com ela?
Ela se lançou para fora da cama e aterrissou em cima de mim. Caí com força no chão, a nuca batendo no concreto. Pisquei para parar de ver pontos brancos enquanto ela segurava meus pulsos acima da minha cabeça e abria a boca, curvando-se para baixo como se quisesse morder um pedaço do meu pescoço.
Sacudi as pernas, tirando Ever de cima de mim, e ela voou contra a cama com um grunhido. Pulei em cima dela, pressionando meu corpo em suas costas enquanto ela se debatia e rosnava.
A porta se destrancou com um clique e deslizou para o lado; os passos dos dois humanos ecoaram no quarto.
— Mantenha ela no chão — ordenou o guarda.
Cerrei os dentes, aproximando o rosto do ombro de Ever para que o homem não visse o olhar enojado que eu queria lançar sobre ele.
O cientista se ajoelhou e enfiou a seringa no braço dela. Seus dedos tremiam.
O que aquele idiota estava fazendo? Nós não precisávamos de remédio.
— Vai ajudá-la a dormir — falou, olhando para mim. — Ela só está tendo um pesadelo.
Não a ajudaria a dormir nada. Os Reboots processavam tudo depressa demais. O corpo dela iria metabolizá-lo antes que ele tivesse a chance de funcionar.
Ever ficou mole, e eu olhei surpresa para ela. Quando me virei para os humanos, os dois me dirigiram expressões duras, com a intenção de me assustar.
É difícil ficar com medo de alguém quando eu podia quebrar seus pescoços antes que percebessem que eu estava de pé.
— Não deve contar a ninguém sobre isso — falou o cientista severamente. — Entendeu?
Não. Eu não entendia. O que eles tinham dado a ela?
O que deram a ela antes?
O que fizeram com ela?
Os humanos olharam para mim para confirmar que eu acreditei naquela explicação ridícula.
Reboot idiota — seu cérebro não funciona direito.
Um guarda disse isso para mim uma vez.
Eu assenti.
— Entendi.
Eles saíram do quarto, e a porta se fechou. Saí de cima de Ever e estudei o rosto dela. Os olhos estavam fechados, a respiração profunda e regular.
Dormindo. Eu raramente a vira dormir nos últimos tempos.
Eu a rolei gentilmente, levantei-a por debaixo dos braços e a coloquei na cama. Coloquei o edredom sobre suas pernas e o puxei sobre o corpo.
Sentei-me na minha cama, incapaz de parar de olhar para ela.
Eu não dormi. Em vez disso, passei a noite alternando entre olhar para Ever e para o teto. Quando ela começou a se agitar, eu me apressei em vestir minhas roupas de corrida e disparei porta afora, escondendo o rosto quando achei que ela se virou para olhar para mim.
O 22 estava me esperando na pista de corrida coberta, olhando os outros Reboots correndo pela sala.
— Bom dia — cumprimentou, animadamente.
Só acenei, porque não era um bom dia. Eu não conseguia pensar em nada além de Ever e seus olhos zangados e vazios. Será que ela voltaria ao normal naquele momento? Será que se lembraria?
Recebi ordens de não dizer nada.
Eu nunca havia desobedecido.
— Vamos — falei, pisando na borracha preta.
A pista coberta era uma das partes que eu menos gostava nas instalações da CRAH: um círculo de quatrocentos metros com um guarda no meio, isolado em uma caixa de plástico à prova de balas. As janelas podiam ser baixadas rapidamente para deter uma briga com uma bala no cérebro.
Destruir o cérebro. A única maneira de matar um Reboot.
A luz fraca iluminou minha pele pálida, dando-lhe um tom verde-vômito. A pele morena do 22 parecia basicamente a mesma, quase bonita sob o brilho. Desviei o olhar, afastando pensamentos sobre como meu cabelo louro devia parecer ali dentro.
O 22 mal conseguia correr quatrocentos metros sem parar, o que não era nada bom para escapar de humanos zangados. Com sorte, evitaríamos isso por algum tempo.
Alguns outros Reboots estavam na pista conosco, incluindo Marie 135, que olhou por cima do ombro dando uma risada enquanto passava voando por nós, o cabelo escuro balançando. Ela era uma das alunas mais velozes que eu já tivera.
— Vamos fazer dois minutos de caminhada e um de corrida — sugeri. Soltei um suspiro quando o ritmo do 22 diminuiu para uma corridinha insuportavelmente lenta.
Ele assentiu, ofegante. Eu tinha que admitir: não estava a fim de correr esta manhã. Uma folga era bem-vinda.
— Você era boa corredora quando veio para cá? — perguntou ele quando recuperou o fôlego.
— Era decente. Melhor do que você.
— Bem, isso não é difícil. — Ele sorriu para mim. — Quantos anos você tem?
— Dezessete.
— Eu também. Quanto tempo ficamos aqui? Há uma instalação para adultos em algum lugar? Não vi nenhum Reboot mais velho.
— Não sei. — Eu duvidava. Quando os Reboots se aproximavam dos 20 anos, paravam de voltar das missões. Talvez fossem transferidos para outra instalação.
Talvez não.
— De onde você é?
— Austin.
— Eu também. — Ele sorriu como se tivéssemos algo em comum.
— Não somos da mesma Austin — falei, secamente.
Ele franziu o cenho.
— Como disse?
— Você é do rico. Eu sou da favela. Não somos da mesma Austin. — Eu nunca tinha visto o rico de Austin, com exceção das luzes que brilhavam sobre o muro que nos separava, mas vira algumas outras Cidades Unidas do Texas. Nova Dallas. Richards. Bonito (uma ironia, pois era tudo menos isso). Alguns quilômetros no meio do Texas era só o que restava do grande país que meus pais haviam conhecido quando criança. A CRAH conseguiu salvar apenas o Texas do vírus e dos ataques dos Reboots que se seguiram.
— Ah. Eu nunca estive nas favelas de Austin — disse o 22. — Quero dizer, exceto quando meus pais me levaram para o hospital. Mas, àquela altura, eu estava delirando demais para me lembrar. Acha que vão me mandar para alguma tarefa lá? Eu gostaria de ver meus pais. E meu irmão. Você viu seus pais depois que reinicializou?
— Meus pais morreram comigo.
— Ah, sinto muito — disse ele, o rosto ficando sério. — Eles... Eles também levaram tiros?
— Levaram — falei, ríspida, sem interesse em conversar sobre os meus pais. — E você não quer ver os seus. Eles não mandam Reboots para as cidades natais. Deixa as pessoas confusas.
— Alguma vez os Reboots saem e vão até lá mesmo assim?
Fechei a cara para ele.
— É claro que não. Mesmo que quisessem, você recebe um rastreador na carceragem. Eles sempre sabem onde você está.
Ele esticou os braços na frente do corpo.
— Onde? Eu não me lembro disso.
— Essa é a questão. Não sabemos onde fica.
— Ah — disse ele, com uma pontada de tristeza. — Mas você viu as outras cidades?
— Vi.
— Isso é bom, certo? Nunca veríamos nada além de Austin se não tivéssemos reinicializado.
— Você vai a trabalho — falei. Os novatos sempre tinham perguntas sobre viagens para outras cidades. Era uma das únicas vantagens de se tornar um Reboot: viajar ocasionalmente para outros lugares para tarefas especiais. Anos antes, a corporação instituiu uma política de proibição de viagens para deter o alastramento do vírus KDH, e isso ainda estava em vigor. Mas as perguntas dele eram demais esta manhã. Faziam minha cabeça girar. — Aumente o ritmo — ordenei, começando a correr.
O 22 não conseguia falar enquanto corria, mas, quando diminuímos a velocidade para uma caminhada, ele voltou com mais perguntas.
— Acredita na teoria da evolução?
Talvez. Eu lhe dei um olhar cortante.
— Não.
— Mas meio que faz sentido, não é? Que os Reboots sejam apenas humanos evoluídos? Encontramos uma imunidade para o vírus. Uma forma de não morrer. Ouvi teorias sobre o KDH ser um vírus criado em laboratório e acho...
— Vinte e dois! — explodi. A CRAH tinha câmeras de um lado ao outro. Eles ouviam e viam tudo o que fazíamos e não toleravam esse tipo de conversa. — Já chega.
— Mas...
— Pode parar com as perguntas, por favor? — O pedido soou mais cansado e triste do que eu pretendia, e ele me olhou com preocupação.
— Ah. Sim, claro. Desculpe.
— Só estou cansada — falei. Eu não lhe devia uma explicação. Não deveria ter dito aquilo.
— Desculpe. Vou ficar quieto. — Abriu um sorrisinho solidário. Algo que eu não podia identificar fisgou meu peito. Culpa? Era isso?
Ele ficou em silêncio durante o restante da corrida — os únicos sons emitidos eram os arquejos da respiração. Quando terminamos, balancei a cabeça para ele e fui embora. Passei no quarto para pegar as roupas e me dirigi ao chuveiro.
Apertei o bolo de roupa e a toalha contra o peito e entrei no cômodo enfumaçado, os sons de risos e gemidos enchendo meus ouvidos. Os chuveiros ficavam mais barulhentos após a chegada de uma nova fornada de Reboots, e a festa estava com tudo naquela manhã. Duas Reboots passaram correndo por mim — uma mal se cobria com a toalha e guinchava de entusiasmo. Um Reboot segurou a cortina do chuveiro aberta e uma das meninas entrou lá com ele.
Os chuveiros eram primeiro para sexo. Depois, banho.
Tecnicamente, não eram mistos, mas o chuveiro dos homens ficava bem ao lado e não havia nada além de uma cortina para separar os dois. De vez em quando, os guardas entravam e expulsavam os garotos, mas, em geral, eles não se importavam. Os Reboots faziam quase tudo que mandavam, exceto isso.
Para um humano, sexo estava ligado a amor. Minha mãe não era muito de falar sobre qualquer coisa importante, mas eu me lembrava vagamente da conversa. Sexo e amor andavam juntos.
Não aqui. Os hormônios adolescentes ainda vigoravam, mas as emoções haviam sumido. A atitude geral era a de que nada daquilo importava. Nós nem éramos humanos.
O ladrilho estava escorregadio, então, passei cuidadosamente pelas cortinas fechadas e me enfiei em um dos últimos chuveiros, ainda vestida. Antigamente me lançavam olhares estranhos por isso, mas, depois, todo mundo ficou sabendo. Eu não ficava perambulando de toalha. Não tinha o menor interesse em sexo. Certamente não queria ser tachada de aberração.
Algumas meninas tinham cicatrizes da morte humana, mas não como as minhas. Fiquei morta por tanto tempo que, quando resolveram costurar os três buracos do tiro, meu corpo achou que era assim que minha pele deveria ficar. Resultado: tenho quatro grampos prateados e feios agarrando a pele no meio do peito e duas cicatrizes esgarçadas em direções opostas — uma se estendia por cima do meu seio esquerdo e havia ficado ainda mais disforme depois que meus seios cresceram.
Ninguém precisava ver meu peito horrivelmente mutilado. Não que alguém fosse me abordar para transar mesmo.
Ninguém queria tocar uma 178. Mutilada ou não.