Reboot

Amy Tintera · Capítulo 21 de 34

Páginas do PDF

Reboot

Vinte e um

 

 

— Wren.

A voz suave fez com que eu me mexesse, e estremeci com a dor que subiu pelo meu pescoço. Estava encostada em algo, minha bochecha pressionada contra um objeto adoravelmente quente e sólido e forcei minhas pálpebras a se abrirem.

Minha cabeça estava no ombro de Callum. Eu havia pegado no sono. Respirei, surpresa, e empurrei o corpo para cima para me sentar, girando ao redor para ver se estávamos a salvo. As ruas estavam desertas, claras com a luz do começo da manhã.

— Achei que você poderia querer ir embora antes que todo mundo comece a acordar — disse Callum, um sorriso puxando o canto de sua boca.

— Eu adormeci? — perguntei, estupidamente.

— É.

— Sinto muito. — Não podia acreditar que havia apagado. Durante horas. Qualquer um poderia ter nos pegado de surpresa.

— Tudo bem — falou Callum, se espreguiçando. — Fiquei acordado, vigiando. Além do mais, você fica toda bonitinha e não letal quando dorme.

Um rubor subiu pelas minhas bochechas, e ele se inclinou para a frente para me beijar, me fazendo corar ainda mais.

— Hmm, é — falei quando ele chegou para trás. — Provavelmente é melhor irmos antes que as ruas fiquem cheias demais. — Eu não tinha certeza sobre o melhor lugar para nos escondermos, mas precisávamos chegar ao outro lado da cidade, mais perto da cerca nos seus limites.

— Devemos tentar arrumar algumas roupas? — perguntou Callum, pegando seu capacete para afivelá-lo. — Não me incomodo de ficar de cuecas e shorts, mas pode atrair atenção indesejada.

— Talvez — respondi, contendo um sorriso. Olhei em volta e me levantei para espiar dentro da caçamba de lixo aberta.

— Está realmente procurando roupas no lixo?

Ergui um saco sujo de papel.

— Podemos fazer buracos nisso.

— Acho que se eu usar um vestido de saco de papel na verdade vai atrair mais olhares — disse ele, sério.

Eu o joguei de volta e estiquei a mão para pegar meu capacete, olhando ao redor. Não conseguia enxergar nenhum humano, mas podia ouvir alguns se arrastando por ali. Em algum momento íamos precisar de comida — meu estômago estava parecendo um pouco vazio —, mas minha prioridade era atravessar a cidade antes que ela ficasse lotada.

— Ninguém veio até aqui recentemente? — perguntei.

— Não. Ouvi oficiais de vez em quando, mas já faz algumas horas.

— Obrigada — falei, encostando de novo na parede e sorrindo para ele. — Por ter ficado de vigília.

Ele passou os dedos no meu cabelo, até o meu rabo de cavalo.

— É claro. Você pode dormir em cima de mim quando quiser.

Os olhos dele estavam suaves, diferentes, e eu quis rastejar imediatamente para o colo dele e aceitar a oferta. Quando ele se inclinou para me beijar, eu deixei, só por um instante.

Afastei-me e dei uma olhada rápida em volta, afivelando meu capacete enquanto ficava de pé em um pulo.

— Está na hora da nossa corrida matinal — comuniquei. — Talvez a gente consiga chegar ao outro lado da cidade sem sermos vistos.

Ele assentiu e se levantou, e eu passei os dedos em volta de seu pulso enquanto disparávamos de detrás da caçamba de lixo e corríamos beco abaixo. Chegamos à estrada de terra, e eu larguei Callum para impulsionar meus braços e nos afastarmos do centro da cidade, rumo aos barracos e a pior parte da favela. Meus pés chutavam a terra, e virei-me para Callum para ver se ele estava bem.

Ele havia sumido.

Derrapei até parar, minha respiração saindo em longos arquejos enquanto eu girava a cabeça freneticamente. Corri de volta para a caçamba.

Não havia nada. Nem mesmo um humano. Roupas esvoaçavam no varal do quintal de uma casa ao lado, e eu corri para longe do barulho, esforçando-me para escutar algum sinal dele.

Pânico subiu pelo meu peito com tanta força que tive que sufocar um grito. Entregar minha localização não era uma coisa inteligente a fazer.

Fechei os olhos e escutei. Podia ouvir pessoas correndo, alguns gritos, mas nada que parecesse Callum.

Mas humanos gritando e correndo não podia ser bom, especialmente com um Reboot à solta. Disparei no sentido dos gritos, parando rapidamente na esquina de um prédio quando percebi que eram oficiais da CRAH gritando ordens uns para os outros. Eu não podia vê-los, mas eles estavam perto, não mais do que um ou dois quarteirões de distância.

E se já o tivessem encontrado?

O que eu faria se não conseguisse encontrá-lo? Iria simplesmente para Austin e esperaria que Callum chegasse sozinho?

A ideia era tão ridícula que eu quase ri. Entrei em uma rua aleatória e comecei a correr. Nunca teria fugido sem ele. Teria ficado na minha celinha branca, feliz, entorpecida, até morrer.

Eu não ia a lugar nenhum sem Callum.

Parei de repente, todos os pensamentos que envolviam ficar escondida e segura longe da minha mente. Gritei o nome dele tão alto que minha garganta doeu em protesto. Gritei de novo, tentando desesperadamente escutar uma resposta.

— Wren!

O grito veio da escola, e eu parti em velocidade máxima, ignorando os humanos de queixo caído saindo de suas casas.

Reconheci os sons ao passar pela escola e me dirigir ao centro da cidade. A histeria, os berros raivosos. Eu já os ouvira antes, quando humanos capturavam um Reboot.

Dobrei uma esquina e vi Callum correndo na minha direção o mais rápido que conseguia. Suas calças surradas esvoaçavam, os joelhos e coxas expostos e ensanguentados.

Atrás dele, uma horda de cidadãos irados. Havia cerca de 15 deles, a maioria desarmados, mas se juntavam de todos os lados conforme humanos saíam correndo de suas casas para ver o motivo da comoção. Não era sempre que conseguiam ver um Reboot sem a proteção da CRAH e queriam claramente tirar vantagem disso. Eles chutavam terra enquanto corriam, e o ar estava cheio de poeira, obscurecendo seus rostos e fazendo alguns deles tossir.

Callum já havia levado uma surra. Seu rosto estava machucado, um braço dobrado em um ângulo estranho, e eu corri até ele.

Um garoto mais ou menos da nossa idade pegou seu braço não machucado e o puxou para baixo, mas Callum o chutou no peito com tanta força que ele voou para o outro lado da estrada. Se não estivesse concentrada em protegê-lo, poderia ter dado um sorriso de orgulho com a velocidade com que ele reagiu.

Ele se levantou rapidamente, defendendo-se de uma mulher que tentava esmagar sua cabeça com um bastão de beisebol. O alívio inundou seus olhos quando me lancei para a frente e peguei o bastão, arrancando-o da mão dela e jogando-o o mais longe que podia. Uma mão se fechou no meu ombro, e ouvi arquejos de vários humanos enquanto caía estatelada de costas.

Todos tentaram me pegar, berrando coisas que eu não conseguia entender. Uma mão veio em direção ao meu pescoço e eu a abocanhei, meus olhos queimando nos do homem. Chutei e peguei a arma das minhas calças, as mãozinhas ávidas tentando alcançá-la para enfiarem uma bala nos nossos cérebros.

Callum empurrou para o lado um homem que estava na minha frente e me puxou, até que eu ficasse de pé, arrastando-me para fora do alcance deles.

Eu me virei, apontando a arma para eles. Alguns recuaram, as mãos erguidas em sinal de rendição, mas a maioria continuava correndo.

Só me restavam algumas balas, então dei um tiro na perna do humano que parecia ser mais rápido e saí correndo na direção oposta com Callum.

— Vocês são monstros! — gritou uma mulher. — São monstros sem alma!

Os humanos estavam cansando, ficando cada vez mais para trás conforme seus pulmões e pernas se exauriam. Corremos ruas abaixo, pelas estradas de terra, para dentro da parte mais feia da cidade. Ao nos aproximarmos do velho edifício médico, olhei para trás novamente e percebi que havíamos nos livrado de vez deles.

Parei ao lado do prédio de um andar e apoiei as mãos nas coxas enquanto arfava.

— Sinto muito — disse Callum, encostando-se no edifício, seu peito subia e descia. — Eu deveria... — Ele balançou a cabeça, encolhendo os ombros de leve.

Olhei para ele, a ansiedade de antes, apesar de ele estar de pé na minha frente. Tentei esconder meu medo, afastar a sensação de enjoo que continuava emergindo quando eu percebia que havia chegado muito perto de perdê-lo, mas devo ter fracassado, porque ele me deu um olhar questionador, confuso. Desviei o olhar. Eu não sabia como formular a frase, dizer-lhe que tinha ficado apavorada com a possibilidade de algo acontecer a ele. Parecia patético na minha cabeça. Soaria ainda mais patético em voz alta.

Limpei a garganta.

— O que aconteceu?

— Alguns caras me pegaram. Tentei gritar, mas estavam me segurando pela cabeça. Me arrastaram para um beco para... — Ele franziu o cenho para mim. — Para que todos pudessem me bater, eu acho. Eles realmente nos odeiam, não é?

Hesitei e logo depois assenti, porque era verdade. Ele encarou o chão, decepcionado.

— Sinto muito — falei, baixinho. — A culpa é minha. Trabalhei nesta área por muito tempo. Eles me desprezam. Provavelmente queriam a mim.

Ele deu de ombros.

— Não é culpa sua. — Ele esticou o braço, esfregando a mão na cabeça. — Mas ficaram com meu capacete.

Eu nem havia percebido; estava tão distraída pelos meus sentimentos ridículos. Não havia sentido em disfarçar o meu horror.

— É, não é nada bom — falou ele com um suspiro.

Definitivamente não era nada bom. Os oficiais iriam mirar em sua cabeça e não haveria nada para bloquear as balas.

— Você sabe onde eles o tiraram? — perguntei.

— Quando chegamos ao centro da cidade, eu acho.

Olhei para trás, como se fosse realmente capaz de vê-lo daqui.

— Você não pode voltar — protestou ele.

O alarme soou, provando que ele estava certo. O rugido de aeronaves se aproximando preencheu o ar. Enfiei a arma no bolso e me encostei na lateral do prédio com Callum.

— O que devemos fazer? — perguntou ele, olhando para o céu.

— Shhh.

O barulho veio de dentro do prédio, seguido de uma fungada, e Callum e eu nos viramos para trás. A madeira era velha, a tinta branca descascava em todos os lugares, e eu vi movimento do lado de dentro através das fendas. Inclinei-me mais para perto e alguém arfou.

A porta ao meu lado se abriu, e eu me afastei da menininha que apareceu. Ela piscou para mim com olhos cansados, apertando-os por causa da luz do sol.

— Grace! — chamou uma voz aterrorizada, mas a menininha continuou parada, olhando para mim.

Uma adolescente com o cabelo desgrenhado correu para a porta e pegou Grace nos braços.

— Nós não fizemos nada — disse ela, chegando para trás enquanto abraçava a criança junto ao peito.

— Não estamos aqui para pegá-las — falou Callum, a voz beirando a irritação.

Os olhos dela se ergueram para as aeronaves no céu, aí voltaram para nós.

— Vocês não podem ficar aqui.

Olhei para o espaço aberto à nossa frente. A grama irregular levava a um pequeno agrupamento de árvores a vários metros de distância, mas elas eram finas e não tinham metade das folhas; não nos dariam nenhuma cobertura, e certamente seríamos vistos se passássemos muito tempo a céu aberto.

— Vocês fugiram? — perguntou ela.

Não respondemos, e eu senti uma pontada de orgulho por Callum não confiar na humana.

— Não podem ficar aqui — repetiu ela. — Sinto muito. Eu sei que vocês... não podem evitar isso — gesticulou para nós —, mas vocês têm que ir. — Ela apontou para a esquerda. — Há uma vala ali. É meio coberta por algumas árvores. Podem tentar se esconder lá.

Olhei surpresa para ela enquanto Callum puxava o meu braço.

— Vamos — falou ele, analisando o céu. — Temos uma brecha.

Deixei que ele me puxasse, olhando para a adolescente.

— Obrigada.

— Tudo bem. Boa sorte.

Comecei a correr lentamente atrás de Callum, de olho nas aeronaves. Elas estavam espalhadas por outras áreas, mas uma estava parcialmente voltada na nossa direção.

Corri pela grama para o trecho de árvores, rezando para que eles não tivessem nos visto. O pequeno buraco dava a impressão de que alguém começara a cavar uma cova, mas mudara de ideia. Não era muito fundo, mas talvez servisse.

Callum pulou para dentro, e eu o segui, escorregando pela terra. A vala não era grande o bastante para nos esticarmos, então puxei as pernas para junto do peito.

Apertei o rosto contra os joelhos conforme uma aeronave zumbiu mais perto, fazendo força mental para que continuassem em frente. Se eles nos vissem, estaríamos mortos. Um capacete, espaço aberto e uma arma com apenas algumas balas sobrando.

A aeronave aterrissou com um baque, e eu tentei afastar o pavor crescente.

— Eu disse obrigado? — sussurrou Callum. — Por me tirar de lá? Se nós morrermos, eu só queria dizer obrigado.

Apertei os lábios e olhei para o chão. De nada parecia uma coisa idiota a dizer, já que podíamos estar a segundos da morte. Sinto muito podia ser mais apropriado.

Botas esmigalharam a grama, livrando-me de ter que falar qualquer coisa.

— Aquele prédio está abandonado — disse um oficial da CRAH. — Verifique se estão escondidos lá dentro.

Soltei um longo suspiro quando percebi que eles não nos viram correr para a vala.

— Há só algumas crianças lá — respondeu outra voz. — Disseram que não viram nada.

— O que estão fazendo lá?

— Morando, ao que parece.

— Está bem, pegue-os. Vamos deixá-los no orfanato no caminho de volta.

Fechei os olhos, um peso se instalando no meu peito. Havia poucos lugares piores na favela do que o orfanato. Quando criança, eu havia feito planos elaborados para evitá-lo a todo custo caso meus pais morressem.

— Não! — ouvi o grito estridente. — Nós estamos bem! Vocês não podem!

Fechei a mão em volta de um punhado de terra, sufocando o estranho ímpeto de sair do buraco e ajudá-las.

Os gritos continuaram por muito tempo, enquanto os oficiais vasculhavam a área. Eu queria tapar os ouvidos com as mãos como fazia quando era pequena, mas tive medo de que parecesse esquisito e patético para Callum.

Quando eles se amontoaram na aeronave e decolaram, dei um suspiro de alívio, mais pelo fim dos gritos do que pela minha própria segurança.

Callum apoiou a cabeça na terra e me deu um sorriso hesitante.

— Você está bem? Ficou com uma expressão tensa por algum tempo.

— Estou ótima.

Levantei e espiei para fora do buraco. Estava silencioso e deserto, a porta do prédio médico aberta e balançando com o vento. Só uma aeronave permanecia no céu, a uns oitocentos metros de distância. As outras deviam ter aterrissado em Rosa.

— Preciso arrumar um capacete para você — constatei.

— O quê? Não. Temos que ficar aqui. Provavelmente estaremos seguros até a noite.

— E aí teremos que correr pelos limites da cidade, onde vai haver guardas armados. As chances de conseguirmos atravessar são bem baixas com capacetes. Sem...

— O que você vai fazer? Voltar para a cidade e procurá-lo? — perguntou ele.

— Acho que tenho mais chance de pegar um de um dos oficiais.

Ele gemeu.

— Esse plano parece pior.

— É melhor você ficar aqui — acrescentei. Não queria me arriscar a perdê-lo novamente, e ele tinha razão. Havíamos encontrado um lugar bem seguro.

— Acho que você não está realmente me escutando — disse ele com uma ponta de divertimento.

— Estou ouvindo, só não estou respondendo.

Ele balançou a cabeça, um sorriso torcendo seus lábios.

— Está bem. Vou ficar aqui. Tente não morrer.

— Se tiver que sair por qualquer motivo, volte assim que puder. Esperarei por você aqui.

— E se você não voltar?

Hesitei, sem ter certeza.

— Eu vou voltar.

— Excelente plano B. — Ele riu, passando a mão trêmula pelo rosto. Franzi o cenho, e ele olhou curioso para mim. — O que foi?

— Por que você está tremendo?

— Ah. — Ele baixou os olhos. — Sei lá. Talvez esteja com fome.

Olhei para sua outra mão, tremendo no colo. O pânico me envolveu tão de repente que virei o rosto para que ele não pudesse vê-lo.

Tremendo.

Como Ever.

Respirei fundo, determinada a não apavorá-lo. Podia ser só fome. Ele só estava na CRAH havia algumas semanas. Provavelmente ainda não haviam começado a lhe dar as injeções.

Não podiam ter começado.

— Vou tentar arrumar comida — falei, enterrando meus dedos na terra para me içar para fora do buraco.

— Não se preocupe com isso. Eu estou bem.

Passei as pernas por cima e me levantei, virando-me para encará-lo. Ele parecia pequeno, seu peito nu sujo e ensanguentado, a pele de suas pernas compridas aparecendo em lugares estranhos através de suas calças rasgadas.

— Talvez eu também possa lhe arrumar algumas roupas.

— Claro. Traga um livro também enquanto está fora. Alguma coisa engraçada.

Achei que ele estava falando sério, até um sorriso largo se espalhar por seu rosto.

— Só volte, está bem? Não preciso de mais nada.

Sorri e assenti. Suspirei ao voltar meus olhos na direção da qual viéramos.

Todos os humanos estariam à procura de Reboots naquele momento. Olhei para minhas roupas. Mesmo aqueles que não tivessem me visto iriam reconhecer as roupas pretas de um Reboot.

Puxei a blusa pela cabeça, virando de costas para Callum, assegurando-me de que minha camiseta branca cobria meu peito. Cobria. Passei a blusa para ele, tirei meu capacete e removi o elástico, jogando o cabelo para frente e sacudindo-o.

— Vai fazer um strip-tease antes? Estou dentro. — Callum sorriu para mim.

— Estou tentando me misturar. Pareço humana?

— Só mantenha os olhos cobertos. É realmente a única diferença entre nós e eles.

Não era, mas concordei mesmo assim e puxei a arma das calças, inclinando-me para baixo para entregá-la para ele.

— Só use isto se precisar. Não restam muitas balas.

— Talvez você deva ficar com ela.

Balancei a cabeça, afastando-me enquanto ele tentava entregá-la para mim.

— Pelo menos atire se estiver em perigo, está bem?

— Está bem.

— E coloque meu capacete — falei, jogando-o para ele.

— Não, é melhor você levá-lo. De qualquer modo, é pequeno demais.

— Tudo bem. Não posso usá-lo sem chamar atenção — admiti enquanto ele o afivelava. Ficava alto demais em sua cabeça, mas funcionaria bem o suficiente.

Dei alguns passos, esforçando-me para ir mais devagar e acrescentar um molejo ao meu andar. Os humanos eram mais desajeitados, desarticulados e casuais, mas eu tinha que fazer um esforço para esconder meu andar. Olhei por cima do ombro para Callum e tentei retribuir o sorriso dele. Respirando fundo, fui em frente, a cabeça abaixada.

Virei na rua pavimentada que separava a favela, abaixando ainda mais a cabeça apesar de não ter visto nenhum humano. As casas ficavam maiores e mais robustas à medida que eu voltava para o centro da cidade.

Eu havia pegado alvos de várias casas daquela rua. Era ligeiramente menos deprimente durante o dia. Sempre pensei em todas as casas de Rosa como um monte de porcaria feia, mas elas pareciam quase bonitinhas à luz do sol. Eram, na maioria, idênticas, casas pequenas de dois quartos com uma janelinha na frente, mas algumas tinham flores no jardim ou uma horta ao lado.

Eu nunca havia notado os jardins antes.

Passos soaram no asfalto atrás de mim, e dei uma olhada rápida para trás. Era só um idoso, balançando uma sacola enquanto andava.

Apressei o passo, meus pés mal roçando na calçada, até me lembrar de que isso iria atrair mais atenção. Diminuí a velocidade e enfiei as mãos nos bolsos, deixando meus ombros subirem até as orelhas.

“Você parece um macaco quando faz isso”, a voz risonha da minha mãe encheu minhas lembranças.

“Fique reta, Wren. Levante esse rosto bonito. Não sei de onde você puxou esse rosto, querida, mas não precisa escondê-lo.”

Fechei os olhos e deixei o velho passar por mim, o rosto da minha mãe enchendo a escuridão. Ela tinha razão: não era bonita. Era esquelética mesmo antes de cair no vício, nunca tivera as bochechas cheias ou os quadris redondos que eram admirados em outras mulheres.

Cheguei a uma transversal e olhei para a esquerda. Humanos passavam apressados, provavelmente indo para suas casas. Dois soldados apareceram por trás de um prédio, as armas prontas.

Disparei pelo outro lado do prédio de tijolos, espiando ao redor para ver os oficiais examinando cuidadosamente a rua.

Minha mão foi instintivamente para a minha cabeça, para me assegurar de que meu capacete estava reto, mas tocou o meu cabelo. Certo. Eu o deixara com Callum.

Um tiro bem dado dos oficiais, e ele ia esperar para sempre.

Deveria ter dito a ele que fosse sem mim caso eu não voltasse. Talvez ele devesse ir de qualquer maneira.

Uma palpitação estranha de nervosismo se espalhou pelo meu peito e tentei afastá-la respirando fundo. Então eu não tinha capacete. Ainda era mais forte e mais rápida do que aqueles humanos. Podia derrotá-los antes que eles atirassem.

Ouvi alguém se aproximando e respirei fundo ao me virar para olhar bem nos olhos da mulher.

Sua boca formou um O enquanto ela recuava, e, por um momento, achei que ela não fosse gritar.

Mas é claro que ela gritou.

Corri para o outro lado do prédio, parando por tempo suficiente para deixar os oficiais verem aonde eu estava indo. A mulher foi embora enquanto eles me perseguiam.

Ataquei no momento em que eles dobravam a esquina, mirando meu pé no pescoço do soldado mais baixo. O outro ergueu a arma, e eu dei dois socos em seu rosto antes que ele pudesse apertar o gatilho. O homem caiu no chão com um grunhido ao lado do outro humano.

Inclinei-me para baixo, os dedos posicionados para quebrar o pescoço dele, quando ele ergueu as mãos em rendição e sacudiu freneticamente a cabeça.

Hesitei, olhando para o outro oficial respirando ruidosamente, de joelhos. Eu deveria matá-los mesmo assim. Rendição não significava nada. Estiquei as mãos para seu pescoço novamente, mas parei quando ele apertou os olhos e virou para o outro lado. Não parecia certo com ele caído daquele jeito.

Em vez disso, agarrei a faixa em seu queixo e soltei seu capacete, arrancando-o de sua cabeça. Enfiei-o debaixo do braço e peguei suas armas do chão.

— Por favor — pediu, baixinho.

Franzi a testa e me aprumei, enfiando as armas no cós traseiro das calças.

— Tire sua camisa.

Ele olhou para mim de um modo estranho, mas desabotoou a camisa preta e a entregou para mim. Afastei-me devagar, encarando-os, mas nenhum dos dois fez nenhum movimento para me seguir.

Eu me arrependi da decisão assim que desapareci atrás do prédio e comecei a correr. Deveria tê-los matado. Eles provavelmente estavam falando em seus comunicadores, contando aos outros oficiais minha localização exata.

Corri outro quarteirão e me agachei na lateral de uma casa, tentando ouvir os sons de oficiais chegando.

Nada. Estava tão silencioso, como se os humanos tivessem se trancado em suas casas.

Endireitei as pernas e ergui o nariz, procurando por mais uma coisa antes de voltar para Callum.

Comida.

Não queria me arriscar a voltar para as lojas no centro da cidade. Roubar de uma das casas provavelmente era a melhor opção.

Pressionei a orelha na casa bem ao meu lado, mas podia ouvir vozes lá dentro. Corri pelo gramado até a casa seguinte, e a próxima, tentando ouvir silêncio.

A quarta casa estava silenciosa. Fui até os fundos e me inclinei para escutar de novo, mas nada ainda. Puxei a porta traseira até a tranca quebrar e ela se abrir. A cozinha minúscula estava deserta, mas havia um pão na bancada de madeira. Peguei-o e olhei na geladeira, mas não tinha carne. Deveria ter esperado isso. A maioria das pessoas em Rosa a considerava uma despesa frívola.

— Procurando alguma coisa?

Pulei, empurrando a porta para fechá-la e mirando a minha arma para a moça na minha frente. Os olhos dela me fitaram calmamente enquanto eu recuava para a porta.

— Não grite — falei. — Só vou pegar isso e vou embora. — Abracei o pão junto ao peito.

Ela levantou as mãos.

— Não estou gritando. Mas...

Fiz um gesto para ela ficar calada no momento em que os sons de gritos e correria passavam do lado de fora. Oficiais berravam ordens uns para os outros, e eu segurei a arma com mais força, meus olhos vasculhando o rosto dela à procura de um sinal de que deveria colocar as mãos ao redor de seu pescoço para sufocar um grito.

Ela só ficou olhando para mim.

As vozes foram sumindo, e eu espiei pela porta para vê-los se dispersando em todas as direções. Voltei-me para a mulher.

— Vai ficar quieta por alguns minutos? — perguntei.

— Pode me deixar metade desse pão? Meu filho vai estar com fome quando chegar da escola. Não temos muito mais, como você deve ter percebido.

Abaixei a arma, constrangida diante do olhar dela. Não estava acostumada com humanos me olhando nos olhos, e os dela estavam fixos nos meus.

A culpa que apertou meu peito foi a pior que eu já havia sentido, e soltei um suspiro, colocando o pão na bancada. Eu teria ficado felicíssima de voltar da escola e encontrar um pão na bancada. Apesar de achar que ficava felicíssima com qualquer comida quando criança.

A mulher pegou uma faca da gaveta e a segurou em cima do pão, até eu balançar a cabeça.

— Não precisa — falei, empurrando a porta para abri-la. — Mande consertar sua tranca; eu a quebrei.

Ela ficou olhando para mim de novo, o rosto impossível de decifrar. Não havia nenhum traço de medo ou hostilidade, ou de qualquer coisa, na verdade. Ela só olhava.

Virei-me para ir embora, enfiando a arma nas calças.

— Garota, espere — disse a mulher.

Ela cortou uma fatia generosa de pão, enrolou-a em um pano e a entregou para mim. Eu a peguei lentamente, segurando-a com os braços esticados por um momento para lhe dar a oportunidade de mudar de ideia, mas ela não mudou.

— Obrigada — falei.

— De nada.