Reboot

Amy Tintera · Capítulo 27 de 34

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Reboot

Vinte e Sete

 

 

A decepção inflava dentro de mim enquanto Callum piscava para o lugar onde seus pais estiveram. Talvez eu tivesse pensado que ele estava certo sobre eles.

Estendi-lhe a mão, mas ele estava sozinho em outro mundo e esquecera que eu existia. Coloquei minha mão dentro da dele, e ele pulou.

— Vamos — falei, puxando de leve seu braço.

Ele me deixou guiá-lo pelo corredor e escada abaixo, mas continuou olhando para trás, mesmo depois que a porta não era mais visível. Fiquei com medo de que saísse correndo para longe de mim e tentasse falar com eles de novo, por isso agarrei seus dedos com mais força e corremos para o ar frio da noite.

Callum parou na frente do prédio, e sua jaqueta se abriu com o vento quando ele se virou para olhar para mim. Estava tão imóvel, tão calmo, que fiquei com medo de me mexer, temendo quebrá-lo.

Mas estávamos do lado de fora, cercados por prédios de apartamentos com humanos curiosos pressionando os rostos nas janelas. Eu podia ver David dois andares acima, suas mãos contra o vidro encardido, a boca bem aberta.

Puxei suavemente a mão de Callum, e ele me seguiu quando comecei a correr. Descemos outra vez a rua comprida e passamos pelas casas coloridas mais uma vez. Eu não sabia para onde estava indo, mas, quando nos aproximamos do mercado, Callum virou na rua. Apertou a nuca enquanto andava até a lateral da construção de madeira, e eu silenciosamente o segui.

Callum estendeu a mão e tocou a parede com as pontas dos dedos, soltando um suspiro profundo.

— Preciso de um minuto.

Ele havia fechado os olhos, mas eu assenti de qualquer modo, porque não sabia mais o que fazer. Já deveria ter pensado em maneiras de reconfortá-lo. Eu esperava por isso. Por que não refletira a respeito?

Ficar parada ali, encarando-o, sem dúvida não era a coisa certa a fazer. Passei um braço em volta de sua cintura e pressionei minha bochecha em seu ombro.

— Sinto muito — sussurrei.

Algumas lágrimas caíram quando ele abriu os olhos e plantou um beijo de leve na minha testa. Limpou a garganta ao se afastar de mim e enxugou os olhos com os dedos, um pouco constrangido, tentando remover os indícios de choro.

Eu achava mais constrangedor ser incapaz de chorar.

— Precisamos pegar Adina, certo? — perguntou ele.

Entendi isso como um sinal de que ele não queria falar a respeito. Não podia culpá-lo.

Sua mão estava tremendo violentamente quando eu a toquei. Respirei fundo. Podia ser porque ele estava arrasado por causa dos pais.

Ou porque estava prestes a ficar louco.

De qualquer modo, eu me recusava a deixar que ele visse o meu medo. Apertei sua mão com mais força enquanto nos esgueirávamos para fora do beco e andávamos rápido pela rua. As casinhas minúsculas estavam alinhadas lado a lado naquela parte da cidade, um complexo de apartamentos no fim de uma rua. Eles também eram pintados com desenhos coloridos ou com palavras. Palavras de ordem. Palavras que resultariam em prisão imediata em Rosa.

Retomem o Texas.

Texanos pela Liberdade.

Callum franziu o cenho ao passarmos por elas.

— É esquisito aqui — balbuciou.

Ele estava certo. Eu não me lembrava de nada limpo, colorido ou rebelde sobre a Austin na qual crescera. Algo havia mudado.

O rugido da aeronave me fez virar. Ela aterrissou no fim da Rua Guadalupe, e nós nos escondemos na lateral de uma casa enquanto cinco Reboots saltavam. Pareciam todos iguais, com suas roupas pretas e capacetes, mas eu vi um rabo de cavalo escuro e comprido.

— Acho que aquela pode ser Adina — falei, espiando pelo canto da casa conforme os Reboots se separavam.

A garota de cabelo escuro se dirigiu para a First Street e desapareceu de vista.

Fomos atrás dela em ritmo lento, correndo por trás das casas para sair do campo de visão dos outros Reboots. Atravessamos para a First Street, e vi Adina de pé na frente de uma casa, olhando a ficha da missão.

Callum desabou contra uma cerca de arame, respirando pesado e passando os braços sobre o estômago.

— Acho melhor não entrar lá com um humano.

Hesitei, olhando dele para ela. Talvez ele tivesse razão.

— Tudo bem. Não saia daí, está bem? Grite se começar a se sentir... esquisito. E esteja pronto para correr quando voltarmos.

Ele assentiu, gesticulando para que eu fosse. Adina ainda estava na frente da casa, batendo, e eu corri silenciosamente pelo gramado. Ela ergueu o pé e derrubou a porta.

Não houve gritos humanos enquanto eu me esgueirava pela escada atrás dela. Ela ficou no meio da pequena sala de estar, as mãos nos quadris, examinando o aposento da esquerda para a direita. A casa parecia estar vazia.

Agarrei-a pela cintura, e um arquejo escapou de sua boca. Encontrei a câmera do capacete e arranquei-a, jogando-a na parede.

Ela se desvencilhou do meu braço e tentou me dar um soco, errando por pouco o meu rosto. Tentei fazê-la olhar para mim, mas ela me atacou de novo, ágil e com força. Eu me abaixei e lhe dei uma rasteira. Ela pulou e bateu com o punho direito na minha bochecha.

Pisquei, surpresa. Adina era boa para uma 39.

Desviei-me do soco seguinte, agarrando o braço dela e torcendo-o nas costas. Eu a puxei mais para perto de mim, até seu rosto estar a centímetros do meu. Não queria falar enquanto seu comunicador ainda estivesse no ouvido, então olhei firme em seus olhos.

Seu rosto demonstrou confusão, e ela me empurrou para longe, erguendo os braços como se fosse continuar lutando comigo. Ergui as mãos, me rendendo, apontando com um dedo para o meu código de barras.

Hesitante, Adina deu um passo à frente, empurrando o capacete mais para cima e revelando mechas de cabelo castanho comprido. Arregalou os olhos castanho-dourados cheios de suspeita e curiosidade.

Levei a mão ao bolso e ela agarrou o meu pulso, afundando os dedos na minha pele. Lancei-lhe um olhar irritado e a afastei com um safanão, puxando o bilhete de Leb. Estendi-o na direção dela, que o observou, o cenho franzido, por vários segundos antes de arrancá-lo dos meus dedos.

Seus olhos passaram rapidamente pelas palavras, com uma expressão indecifrável. Quando olhou para mim novamente, estiquei a mão para o comunicador em seu ouvido. Ela me deixou retirá-lo, e eu o segurei com o punho fechado.

— Você quer vir comigo? — sussurrei.

— Para esse negócio da reserva? — perguntou ela, olhando para o bilhete.

— É. — Dei uma olhada breve para trás, pela porta da frente. Callum ainda estava caído na cerca, o rosto virado para o céu.

Ela ficou calada por um tempo. Apertou os lábios e franziu as sobrancelhas, pensando. Quando os ergueu, tive quase certeza de que ela ia recusar. Algumas semanas antes, antes de Callum, eu teria recusado.

Ela mal assentiu.

— Quer? — perguntei.

— Quero — respondeu, dobrando cuidadosamente o bilhete e enfiando-o no bolso.

Quebrei o comunicador na minha mão e joguei os pedaços no chão. Puxei o localizador do bolso e o passei pelo corpo dela, até que ele se acendeu, acima da clavícula esquerda.

— O seu rastreador — sussurrei ao tirar a faca do bolso e cortar sua pele logo abaixo do pescoço. Ela não se retraiu enquanto eu puxava o rastreador para fora e o colocava cuidadosamente no chão.

— Wren — falei.

— Addie — disse ela. — Você conhece meu pai?

— Conheço, mas temos que correr. Eles...

Um grito cortou a noite, estrangulado e apavorado. Corri para a frente da casa, procurando por Callum.

Ele havia sumido.

Disparei porta afora. Addie me seguia enquanto eu voava pelos degraus até a grama.

O portão da casa ao lado estava aberto.

A porta da frente, arrombada.

Corri pelo jardim e pelo que restava da entrada. A cozinha estava totalmente bagunçada, cadeiras espalhadas pelo aposento, a mesa virada.

— Callum? — berrei.

Um grunhido veio do cômodo dos fundos, e eu corri até lá. Parei subitamente à porta do quarto.

O humano estava esparramado no chão, as mãos de Callum em volta de seu pescoço. O homem olhava inexpressivamente para trás.

Estava morto.

Callum afrouxou sua pegada e abriu bem a boca, posicionado para tirar um grande naco do pescoço do humano.

Atravessei o quarto e empurrei Callum para longe antes que ele pudesse enterrar os dentes. Caímos juntos no chão, e ele arranhou meu braço, rosnando e se debatendo. Empurrei-o contra a madeira e fiquei em cima dele.

— Callum — gritei, com os dentes cerrados, batendo seus braços no chão ao lutar contra mim.

Olhei do homem morto para Callum. Não podia deixar que ele visse aquilo. Se conseguisse tirá-lo do quarto, não teria que lhe contar. Ele não precisava saber.

— Pegue os pés dele — falei para Addie, pegando Callum por baixo dos braços.

Ela fez o que eu mandei, puxando os pés de Callum juntos quando ele tentou chutá-la.

— Ele é um -60? — indagou ela, ao mesmo tempo em que o levantávamos do chão.

— É. Vinte e dois.

— Ela fugiu! A 39 fugiu!

O grito do homem na casa ao lado fez nossas cabeças se erguerem. Tínhamos que nos apressar. Addie correu de costas pelo quarto até a porta traseira da casa, girando a cabeça para enxergar o caminho enquanto carregávamos Callum.

A porta da frente foi aberta com um estrondo no minuto em que saímos pela porta dos fundos. Procurei desesperadamente um esconderijo. Não havia como correr com Callum naquele estado e com os outros bem atrás de nós.

O quintal era cercado por uma madeira podre, e eu disparei pelo gramado, com Callum balançando. Ele não estava mais se debatendo tanto. Piscava e sacudia a cabeça, como se tentasse clarear seus pensamentos.

Addie abriu o portão, e corremos para o beco, gritos e passos muito perto de nós. Enterrei meus dedos nos ombros de Callum ao correr. Eu não podia vir tão longe e ser capturada.

Addie fez uma curva fechada quando nos aproximamos de uma rua mal pavimentada, salpicada de casas caindo aos pedaços e algumas lojas. Deixei-a guiar, já que ela conhecia melhor a cidade e eu não tinha nenhuma outra ideia brilhante.

Os gritos ficaram mais altos à medida que ela disparava por um jardim e contornava uma casa. Uma luz fraca cintilava lá dentro, e tentei correr o mais silenciosamente possível.

Estávamos indo em direção a um barraco, um barraco minúsculo em formato retangular que mal parecia caber nós três. Addie largou as pernas de Callum, que escorregaram na terra até ele conseguir se equilibrar. Ele se sacudiu suavemente para longe de mim quando Addie abriu a porta do barraco.

Entramos correndo, e eu tropecei em um ancinho e uma caixa de ferramentas antes de encontrar um lugar junto à parede. Callum deslizou para o chão ao meu lado. Eu quis lhe dizer que não se sentasse, que estivesse preparado para correr, mas ele parecia tão apavorado que não consegui encontrar as palavras.

Addie tentou fechar a porta, mas aparentemente ela havia quebrado o trinco, então desistiu e ficou segurando a maçaneta, mantendo-a fechada enquanto se inclinava para a frente para ouvir. Havia gritos próximos e logo posicionei a mão na arma no meu quadril.

— Essa é Adina? O que aconteceu? — sussurrou Callum, virando-se para mim. Arregalara os olhos e tinha uma expressão preocupada, como se já suspeitasse de alguma coisa.

— Você surtou por um minuto lá — sussurrei, quando as vozes do lado de fora começaram a ficar mais distantes.

— E sim, eu sou Addie — disse ela.

Callum olhou para ela, mas Adina continuou concentrada no lado de fora. A cabeça dele balançou de volta para mim, e eu tive que baixar os olhos porque não queria que ele visse o medo ali.

— Wren. — A voz dele estava firme, controlada. — O que acabou de acontecer?

Eu deveria ter inventado uma mentira. Uma história que preenchesse as lacunas. Talvez pudesse lhe dizer apenas que ele atacara alguém e que eu o puxara a tempo.

Mas a mentira me deixava doente. Ele iria me agradecer, e sua gratidão me faria vomitar.

Esperei tempo demais para responder, e ele me olhava como se já soubesse que algo terrível havia acontecido. Eu estava tremendo um pouco quando cruzei os braços na frente do peito.

— Desculpe — murmurei. — Eu não deveria ter deixado você.

— Machuquei alguém?

Assenti. Minha garganta ardia de novo e tentei engolir. Não ajudou.

— Matei alguém?

— Sim — falei, engasgando. Ele se calou, e eu olhei para cima. Callum ficou imóvel, o horror cruzando seu rosto.

— Não é culpa sua — disse Addie. — Já vi o que as injeções fazem, eu mesma já passei por isso e...

Callum levantou a mão, e ela calou a boca, dando de ombros para mim como se não soubesse mais o que dizer.

Eu também não sabia. Os passos nas imediações haviam sumido, portanto escorreguei pela parede ao lado dele. Seus olhos estavam fechados, as mãos unidas na nuca.

— Sinto muito — sussurrei. — A culpa é minha. Eu disse que não ia deixar você machucar ninguém, mas deixei.

O que era mais um corpo para acrescentar à minha conta? Queria que ele observasse isso, queria que ele lembrasse que eu já havia matado mais gente do que ele jamais mataria. Mas duvidei de que isso fosse reconfortá-lo.

Ele balançou a cabeça, tirando as mãos do pescoço e me encarando bem nos olhos. Achei que estaria triste, mas sua expressão estava severa, zangada. Preparei-me, pensando que ele ia gritar comigo, mas Callum só deslizou a mão para dentro da minha e a apertou.

— Não é sua culpa — disse. — É culpa da CRAH.

Addie resmungou algo, parecendo concordar. Levantei a cabeça rapidamente quando me ocorreu que ela podia estar na mesma situação que Callum.

— Você está bem? — perguntei. — Eles lhe deram injeções?

— Deram. Mas estou bem por enquanto. Estou entre séries.

— O que quer dizer? — indagou Callum.

— Eles dão várias séries — respondeu Addie. — Você deve estar na primeira.

— Acho que sim. Só fiquei lá algumas semanas.

— É, então, provavelmente, está na primeira. Você começa a enlouquecer e eles lhe dão algo para que você se sinta normal novamente. Um tipo de cura ou antídoto, sei lá. Aí começam de novo.

Callum arregalou os olhos de esperança ao mesmo tempo que eu.

— Não tenho certeza disso — disse Addie depressa. — Mas meus amigos disseram que eu estava um caos semana passada. Agora estou ótima. Boa hora, por falar nisso. Obrigada.

— Seu pai devia saber — acrescentei.

Talvez por isso ele tenha conseguido arrumar o localizador da corporação tão rápido. Fechei o punho e enterrei os dedos na palma da mão. Leb não se dera ao trabalho de verificar a condição de Callum.

— Se existe um antídoto, talvez os rebeldes tenham — disse Callum, esperançoso. — Ou o consigam para nós.

Olhei para ele, cética. Mal conseguira persuadir Leb a nos ajudar, e só em troca de alguma coisa.

— Não posso continuar assim — continuou ele, diante da minha expressão. Engoliu em seco, virando-se para Addie. — Só vai piorar, certo?

— É bem provável — disse ela baixinho. — Aqueles que não fizeram várias séries, os que eles deixaram seguir até o fim... É, eles nunca melhoraram.

O caroço na minha garganta era inesperado e tive que engolir várias vezes antes de conseguir falar.

— Temos pelo menos que perguntar aos rebeldes — falou ele.

Concordei.

— Vamos sim. E, quando eles se recusarem, vamos arrumá-lo nós mesmos.

Addie ergueu as sobrancelhas.

— Sério? Vocês sabem que vão ter que entrar na corporação para pegá-lo.

— Sabemos.

Ela apertou os lábios e deu um passo na minha direção.

— Acabaram de me tirar de lá e agora querem...

Um barulho do lado de fora nos fez virar. A porta se abriu de supetão.

Era um oficial da CRAH.

Apontando uma arma para nós.