Reboot

Amy Tintera · Capítulo 2 de 34

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Reboot

Dois

 

— Você acha que vai ter algum gostoso desta vez? — perguntou Ever enquanto eu alisava minha blusa preta para baixo.

— Você não achava o 72 gostoso? — perguntei, me virando para lançar a ela um olhar divertido. Ela gostava quando eu parecia estar me divertindo.

— Ele é meio babaca — disse ela.

— Concordo.

— Parece que estamos na maior seca.

Amarrei as botas, sentindo uma alegria genuína pulsando dentro de mim. Novos Reboots chegavam a cada seis semanas aproximadamente, um momento que muitos viam como uma oportunidade de renovar as opções de pretendentes.

Não tínhamos permissão para namorar, mas o chip contraceptivo que injetavam no braço das mulheres logo no primeiro dia sugeria que eles sabiam que havia chances de essa regra ser quebrada.

Para mim, novos Reboots significavam apenas um novo ciclo de treinamento. Eu não namorava.

O trinco da porta do nosso quarto fez um clique, como em todas as manhãs às sete horas, e a porta transparente deslizou.

Ever saiu, dando um nó no cabelo longo e castanho enquanto aguardava. Ela quase sempre me esperava para irmos juntas para o refeitório. Eu achava que era uma coisa de amigas. Outras garotas faziam o mesmo, então continuei com isso.

Juntei-me a ela no corredor, e uma humana pálida parada ali se encolheu ao me ver. Ela puxou a pilha de roupas que carregava mais para perto do peito, esperando que fôssemos embora para arrumar nosso quarto. Nenhum humano que trabalhava na CRAH queria entrar em um espaço pequeno e fechado comigo.

Ever e eu descemos o corredor, olhando para a frente. Os humanos haviam construído paredes de vidro para ver todos os nossos movimentos. Já os Reboots tentavam dar uns aos outros um pouco de privacidade. Os corredores ficavam silenciosos pela manhã — talvez os únicos sons fossem burburinhos ocasionais e o zumbido do ar-condicionado.

O refeitório ficava no andar de baixo, atrás de grandes portas vermelhas que advertiam sobre os perigos ali de dentro. Entramos na sala, que era ofuscante de tão branca, a não ser pelo vidro transparente na parte superior de uma das paredes. Oficiais da corporação estavam posicionados no outro lado, atrás das armas apoiadas no vidro.

A maioria dos Reboots já estava lá, centenas deles sentados em banquinhos redondos de plástico ao longo das mesas compridas. As fileiras de olhos que saltavam brilhantes da pele clara pareciam um fio de lâmpadas contornando as mesas. O cheiro de morte pairava no ar, fazendo com que a maioria dos humanos que entrava torcesse o nariz. Eu quase nem percebia mais.

Ever e eu não comíamos juntas. Depois de pegar a comida, ela ia com sua bandeja para a mesa dos -60, e eu me sentava à mesa dos +120. O único que chegava perto do meu número era Hugo, com 150.

Marie 135 balançou a cabeça para mim quando me sentei, assim como alguns outros, mas Reboots com mais de 120 minutos de morte não eram famosos por suas habilidades sociais. Raramente havia conversas. O restante da sala era barulhento, contudo; as conversas dos Reboots enchiam o refeitório.

Enquanto eu mordia um pedaço de bacon, as portas vermelhas abriram e um guarda entrou marchando, seguido pelos novatos. Contei 14. Ouvi rumores de que os humanos estavam trabalhando em uma vacina para evitar a reinicialização. Parecia que ainda não haviam obtido êxito.

Não havia adultos entre eles. Reboots com mais de 20 anos eram mortos assim que reinicializavam. Se reinicializassem. Era bem raro.

“Eles têm problemas”, dissera uma professora uma vez quando perguntei por que matavam os adultos. “Os garotos não estão mais lá por completo, mas os adultos... Eles têm problemas.”

Mesmo de longe, eu podia ver que alguns novatos tremiam. Havia desde crianças de 11 e 12 anos, até adolescentes mais velhos; no entanto, o terror que irradiava deles era o mesmo. Devia fazer menos de um mês desde que reinicializaram, e a maioria levava muito mais tempo para aceitar o que lhes acontecera. Eles eram deixados em uma ala no hospital de suas cidades natais durante algumas semanas para se adaptarem até a CRAH lhes designar uma cidade. Continuávamos a envelhecer como humanos normais, portanto, Reboots com menos de 11 anos eram mantidos nas alas até alcançarem idade útil.

Eu fiquei apenas alguns dias na carceragem, mas foi uma das piores partes da reinicialização. O prédio em que éramos mantidos não era ruim, era basicamente uma versão menor de onde eu morava. No entanto, o pânico era constante, avassalador. Todos sabíamos que, se morrêssemos, haveria uma boa possibilidade de reinicializarmos (era quase certo nas favelas), mas a realidade ainda era aterrorizante. Pelo menos no início. Depois que o choque passou e eu concluí o treinamento, percebi que estava muito melhor como Reboot do que jamais estivera como humana.

A reinicialização em si era apenas uma reação diferente ao vírus KDH. O KDH matava a maioria das pessoas, mas em outras — os jovens, os fortes — funcionava de forma diferente. Mesmo os que morriam por causas diversas podiam reinicializar, se houvessem contraído o vírus alguma vez na vida. Ele reinicializava o corpo após a morte, trazendo-o de volta mais forte, mais poderoso.

Mas também mais frio, sem emoção. Uma cópia maligna do que costumávamos ser, diziam os humanos. Muitos preferiam morrer completamente a ser um dos “sortudos” que reinicializavam.

Os guardas mandaram os novatos se sentar. Todos fizeram isso rapidamente, já informados de que, se não obedecessem às ordens, levariam uma bala no cérebro.

Os guardas saíram, apressados, batendo as portas. Nem os mais durões gostavam de ficar na presença de tantos Reboots de uma vez.

As risadas e as brigas começaram de imediato, mas voltei minha atenção para o café da manhã. O único novato que me interessava era meu próximo aluno, mas só seríamos divididos em pares no dia seguinte. Os Noventa gostavam de dar trote neles. Considerando a velocidade com que nos curávamos, eu não via problema em pegar um pouco pesado com os novatos. Era melhor começar a endurecê-los logo de início.

Os 90 estavam mais turbulentos do que o normal. Enfiei o último pedaço de bacon na boca enquanto a gritaria chegava a um nível irritante. Larguei minha bandeja em cima da lata de lixo e me dirigi para a saída.

Um borrão de cor varreu o chão branco, parando aos meus pés com um guincho. Era um novato, jogado pelo ladrilho escorregadio como um brinquedo. Por pouco não pisei em sua mão com a bota.

Sangue escorria do nariz, e um hematoma havia se formado embaixo de um dos olhos. Suas pernas compridas e esguias estavam abertas no chão, a camiseta branca fina colada na silhueta de um ex-humano subnutrido.

Seu cabelo preto cortado rente combinava com os olhos, tão escuros que eu não discernia as pupilas. Talvez fossem castanhos. Olhos castanhos normalmente adquiriam uma espécie de brilho dourado após a morte, mas eu gostava da negritude dele. Era um contraste gritante com o branco do refeitório, com o brilho dos olhos dos outros Reboots.

Ninguém se aproximou dele uma vez que ele entrou no meu espaço, mas gritaram “22!” e riram.

Vinte e dois? Não podia ser o número dele. Eu não via ninguém abaixo de quarenta havia alguns anos. Bem, houve uma 37 ano passado, mas ela morreu em um mês.

Cutuquei o braço dele com a bota para ver seu código de barras. Callum Reyes. Vinte e dois.

Ergui as sobrancelhas. Ele só ficou morto por 22 minutos antes de reinicializar. Era praticamente um humano. Meus olhos voltaram para o rosto dele e notaram um sorriso se formando nos lábios. Por que estava sorrindo? Não parecia uma boa hora para sorrir.

— Oi — falou, apoiando-se nos cotovelos. — Parece que me chamam de 22.

— É o seu número — respondi.

Ele deu um sorriso mais largo. Eu queria lhe dizer para parar de fazer aquilo.

— Eu sei. E o seu?

Puxei a manga e virei o braço para mostrar o 178. Os olhos dele se arregalaram, e eu senti uma onda de satisfação quando seu sorriso fraquejou.

— Você é a 178? — perguntou ele, levantando-se em um pulo.

Até os humanos já tinham ouvido falar de mim.

— Sou.

— Sério? — Seus olhos passearam por mim rapidamente. O sorriso havia voltado.

Franzi o cenho diante da dúvida, e ele riu.

— Desculpe. Achei que você seria... Sei lá... Maior?

— Não posso controlar minha altura — respondi, tentando crescer uns três ou quatro centímetros.

Não que isso ajudasse. Ele era muito mais alto, e eu tinha que levantar o queixo para fitá-lo nos olhos.

Ele riu, apesar de eu não fazer ideia do quê. Minha altura era engraçada? A risada dele era alta, genuína, e ecoava pelo refeitório então silencioso. Aquela risada não pertencia àquele lugar. Ele não pertencia àquele lugar, com os lábios cheios se curvando para cima de tanta felicidade.

Dei um passo para o lado para ir embora, mas ele agarrou meu pulso. Alguns Reboots arfaram. Ninguém tocava em mim. Eles nem se aproximavam, exceto Ever.

— Não vi seu nome — disse ele, virando meu braço para ver e ignorando o fato de que isso era algo estranho de se fazer. — Wren — leu e me soltou. — Eu sou Callum. É um prazer conhecê-la.

Franzi o cenho para ele por cima do ombro enquanto me dirigia para a porta. Não sabia como era conhecê-lo, mas prazer não era uma palavra que eu teria escolhido.

O dia dos novatos era o meu preferido. Mais tarde, naquela manhã, quando fui ao ginásio com os outros treinadores, o entusiasmo inflava meu peito. Eu quase sorri.

Quase.

Os novatos estavam sentados no chão brilhante de madeira no centro do grande aposento, ao lado de vários colchonetes pretos. Eles viraram de costas para o instrutor para olhar para nós, os rostos congelados de medo. Parecia que ninguém tinha vomitado ainda.

— Não olhem para eles — rosnou Manny 119.

Ele era responsável pelas disputas dos novatos em seus primeiros dias na corporação. Fazia isso desde antes de eu chegar, e eu achava que ele era assim porque se ressentia de ter perdido por um minuto a oportunidade de ser treinador.

Todos os novatos concentraram sua atenção em Manny, a não ser o 22, que me dirigiu aquele sorriso estranho antes de se virar.

A equipe médica da CRAH estava enfileirada na parede atrás de Manny, segurando suas pranchetas e um equipamento tecnológico que eu não conhecia. Havia quatro deles naquele dia, três homens e uma mulher, todos vestindo jalecos brancos, como de costume. Os médicos e cientistas sempre apareciam para observar os novatos. Mais tarde, levariam todos para um dos andares médicos abaixo para serem cutucados e examinados.

— Bem-vindos à Rosa — falou Manny, os braços cruzados e as sobrancelhas franzidas, como se estivesse tentando ser assustador. Não me enganava. Nem naquele momento nem quando eu tinha 12 anos e era uma novata. — Vocês serão escolhidos pelos treinadores amanhã. Hoje eles vão observá-los — continuou. Sua voz ecoou pelo ginásio. Era um aposento enorme e vazio, com paredes brancas encardidas que haviam sido manchadas de sangue muitas vezes.

Manny começou a listar os números, apontando-os para que nós pudéssemos identificá-los. O mais alto era o 121, um adolescente mais velho e musculoso que provavelmente parecia intimidador mesmo quando humano.

A CRAH cobiçava os números altos. Eu, acima de todos. Meu corpo teve mais tempo do que a maioria para se adaptar à mudança, por isso eu me regenerava e me curava mais rápido do que qualquer um no complexo. A reinicialização só ocorria depois que todas as funções corporais cessavam. O cérebro, o coração, os pulmões, tudo tinha que parar antes de o processo começar. Eu já tinha ouvido se referirem ao tempo de morte como um “descanso”, um período em que o corpo se reagrupa, se refresca e se prepara para o que vem a seguir. Quanto maior o descanso, melhor a reinicialização.

Naquele dia não era diferente. Manny formou duplas de novatos e ordenou que brigassem, dando-lhes uma chance de nos impressionar. O 121 entrou em combate rapidamente e deixou o parceiro todo ensanguentado em minutos.

Callum 22 passou mais tempo no chão do que de pé na frente de seu adversário mais baixo e mais jovem. Ele era desajeitado e seus membros compridos iam para todos os lados, menos para onde ele queria. Movia-se como um humano — como se nunca tivesse reinicializado. Os números mais baixos não se curavam tão depressa e eram muito influenciados pela emoção humana remanescente.

Quando os humanos começaram a se levantar da morte, eles foram chamados de “milagre”. Os Reboots eram a cura para o vírus que dizimara grande parte da população. Eram mais fortes e mais velozes e quase invencíveis.

Então, quando ficou claro que um Reboot não era o humano que haviam conhecido, mas sim uma espécie de cópia fria, alterada, eles nos chamaram de monstros. Os humanos expulsaram os Reboots, baniram-nos de suas casas e acabaram chegando à conclusão de que a única coisa a se fazer era executar cada um deles.

Os Reboots resistiram, mas estavam em número menor e perderam a guerra. Então nos tornamos escravos. O projeto Reboot começara havia quase vinte anos, alguns anos depois do fim da guerra, quando a CRAH percebeu que nos colocar para trabalhar era muito mais útil do que simplesmente executar cada humano que revivia. Nós não ficamos doentes. Podemos sobreviver com menos comida e água do que um humano. Temos mais tolerância à dor. Podemos ser monstros, mas ainda somos mais fortes, mais rápidos e muito mais úteis do que qualquer exército humano. Bem, pelo menos a maioria. Os números mais baixos tinham mais chances de morrer em campo, tornando o treinamento deles uma perda do meu tempo. Eu sempre escolhia o mais alto.

— Dou seis meses para o 22 — disse Ross 149 ao meu lado.

Ele raramente dizia alguma coisa, mas eu tinha a sensação de que gostava de treinar tanto quanto eu. Era emocionante a possibilidade de moldar um Reboot assustado e inútil em algo muito melhor.

— Três — rebateu Hugo.

— Maravilhoso — murmurou Lissy, baixinho. Com 124, ela era o número mais baixo entre os treinadores e, portanto, escolhia o novato por último. O 22 ia ser problema dela.

— Talvez, se você os treinasse melhor, todos os seus novatos não tivessem as cabeças decepadas — disse Hugo.

Ele fora meu aluno havia dois anos e estava terminando seu primeiro ano como treinador. Ele já tinha um histórico excelente em manter seus novatos vivos.

— Só um teve a cabeça decepada — respondeu Lissy, apertando as mãos contra os cachos rebeldes que pulavam de sua cabeça.

— Os outros levaram tiros — falei. — E o 45 levou uma facada na cabeça.

— O 45 era incorrigível — cuspiu Lissy. Ela ficou olhando fixamente para o chão, provavelmente por não ter coragem de se virar para me encarar.

— Cento e setenta e oito! — gritou Manny, fazendo um gesto para eu me aproximar.

Atravessei o ginásio até o meio do círculo que os novatos haviam formado no chão. A maioria evitou contato visual.

— Voluntários? — perguntou Manny a eles.

A mão do 22 levantou. O único. Duvido que ele tivesse se oferecido como voluntário se soubesse o que ia acontecer.

— De pé — disse Manny.

Ele se levantou, com um sorriso ignorante colado no rosto.

— Seus ossos quebrados vão levar de cinco a dez minutos para se recuperar, dependendo do seu tempo pessoal — falou Manny. Ele balançou a cabeça para mim.

Peguei o braço dele, torci para trás das costas e o quebrei com um golpe ágil. Ele soltou um grito e sacudiu o braço para longe, aninhando-o no peito. Os olhos dos novatos estavam arregalados, me observando com uma mistura de horror e fascínio.

— Tente dar um soco — ordenou Manny.

O 22 olhou para ele, a dor gravada por todo o seu rosto.

— O quê?

— Dê um soco nela — repetiu Manny.

O 22 deu um passo hesitante na minha direção. Ele desferiu um golpe sem força, e eu me inclinei para trás, desviando. Ele se dobrou de dor, um gemido discreto escapando de sua garganta.

— Vocês não são invencíveis — disse Manny. — Não importa o que ouviram quando eram humanos. Vocês sentem dor; podem se machucar. E, em campo, cinco a dez minutos é tempo demais para ficar incapacitado. — Ele fez um gesto para os outros treinadores, e os rostos dos novatos ficaram lívidos quando perceberam o que ia acontecer.

Os estalidos reverberaram pelo ginásio conforme os treinadores quebravam os braços deles.

Nunca gostei muito desse exercício. Gritos demais.

O objetivo era aprender a afastar a dor e lutar com ela. Cada osso quebrado doía tanto quanto o último; a diferença era como um Reboot aprendia a lidar com isso. Um humano se deitaria no chão, soluçando. Um Reboot não dava atenção à dor.

Olhei para o 22, que havia desabado no chão, o rosto franzido de dor. Ele ergueu os olhos para mim e achei que fosse gritar. Eles normalmente gritavam comigo depois que eu quebrava seus braços.

— Você não vai quebrar o resto, vai? — perguntou ele.

— Não. Não agora.

— Ah, mais tarde, então? Ótimo. Vou esperar ansiosamente. — Ele se retraiu enquanto olhava para o braço.

Manny apontou para os treinadores voltarem para a parede e gesticulou para que os novatos se aproximassem dele.

— Você deve se levantar — falei para o 22.

Ignorando o olhar de Manny, o 22 ficou de pé lentamente, erguendo uma sobrancelha para mim.

— Vamos quebrar minha perna a seguir? — perguntou. — Posso receber um aviso da próxima vez? Um breve “ei, vou quebrar seu osso com as mãos agora, prepare-se”?

Um dos treinadores atrás de mim fungou, e Manny estalou os dedos com impaciência.

— Venha para cá, 22, e sente-se. Em silêncio.

Eu me juntei aos treinadores, dando uma olhadela no 22 enquanto ele desabava no círculo. Ainda estava me observando, os olhos brilhando, e eu rapidamente desviei o olhar. Que novato estranho.