Reboot

Amy Tintera · Capítulo 15 de 34

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Reboot

Quinze

 

Olhei de soslaio para Ever e vesti um suéter por cima da minha camiseta. Ela parecia mais normal naquele dia. Equilibrada, calma, enquanto amarrava os sapatos.

Calma demais.

Achei que ela não tivesse dormido na noite anterior. Estava acordada quando voltei para o quarto, e sentada com as costas eretas quando acordei. Continuava na mesma posição, olhando para a parede, quando voltei da corrida com Callum.

— Está pronta? — perguntei, indo até a porta.

Ela estava me assustando. Seus olhos estavam escuros e gélidos, e eu meio que esperava que ela desse um pulo e dilacerasse a minha garganta.

Ela se levantou lentamente, soltando um pequeno suspiro quando nossos olhos se encontraram.

Então deu um passo para a frente e me abraçou.

Eu enrijeci, esperando a pegadinha, a verdadeira razão para o abraço, mas ela só apertou mais forte.

Passei lentamente os braços em torno de suas costas, pressionando de leve as mãos contra o algodão macio de sua blusa.

Ela estava quente — não quente como Callum, mas certamente mais do que eu, apesar de seu corpo tremer com a intensidade de alguém que estava morrendo de frio.

Ela se afastou e respirou fundo, tentando dar um sorriso em meio às lágrimas que encheram seus olhos.

— Sinto muito — sussurrou.

Ouvi o estalido primeiro. Caí no chão antes de perceber que ela enfiara o pé no meu joelho, quebrando a rótula.

— Ever, o q... — Apertei os lábios para deter um grito enquanto ela agarrava meu tornozelo e quebrava a outra perna com um giro horrível.

Releguei a dor a uma parte do meu cérebro que eu não reconhecia. Ela me fez cócegas, recusando-se a ser completamente ignorada, mas eu era mestre em anestesiar meu corpo.

Ever lançou um olhar de desculpas para mim e saiu correndo pela porta. Ela estava consciente. Por que faria isso então?

Agarrei o colchão e me esforcei para ficar de pé. Um grunhido escapou da minha boca conforme um novo tipo de dor corria pelas minhas pernas. Tive que me segurar na beirada da cama para ficar ereta.

Tiro.

Minha cabeça girou para a porta, e vi os Reboots que estavam passando congelarem.

Silêncio.

Silêncio nunca era bom ali.

Soltei a cama e caí imediatamente no chão, minhas pernas quebradas incapazes de aguentar meu peso. Enfiei os dedos no azulejo frio e rastejei até o corredor, virando a cabeça para um lado e para o outro.

O guarda no fim do corredor estava morto — esparramado no chão, uma bala na cabeça. O coldre estava vazio.

— Quem fez isso? — Arfei, apesar de saber a resposta.

A jovem Reboot de pé a alguns metros de distância olhou tristemente para mim.

— Ever.

Agarrei sua mão, e ela pulou, os olhos arregalados de medo, enquanto eu a usava como apoio para ficar de pé.

Meus ossos estavam começando a colar, mas eu ainda cambaleava.

Abri a boca para perguntar se ela me ajudaria a andar quando outro tiro soou. Ela se livrou da minha mão e disparou em outra direção.

Não dava para me escorar na parede, então, apoiei as costas nela, arrastando-me pelo corredor. Reboots passavam voando por mim, todo mundo na direção contrária do barulho. Outros tiros ressoaram e eu abri a porta para a escada. Podia andar mais rápido segurando firme no corrimão, e manquei escada abaixo o mais depressa que pude.

— Ei — falei, agarrando o braço de Hugo, que subia correndo a escada. — Onde está ela?

— Estava indo para o refeitório — respondeu ele, a testa enrugada enquanto me analisava. — O que há de errado com você?

Senti uma das rótulas entrar no lugar à medida que terminava de cicatrizar e disparei escada abaixo, arrastando a outra perna.

— Aonde você vai? — gritou Hugo. — Ela está matando guardas, você vai levar um tiro!

A advertência dele foi sumindo conforme eu corria para o sétimo andar. Tiros explodiram, e eu olhei freneticamente da esquerda para a direita.

Havia dois guardas mortos no chão. Ever estava no vão da porta do refeitório, o capacete de um deles em sua cabeça. Várias balas a haviam atingido e a camiseta branca dela estava coberta de sangue.

Um guarda voou pela curva, e Ever girou para encará-lo, a arma apontada. Ela disparou antes que ele pudesse reagir. Seu rosto estava duro, seus lábios, franzidos, os olhos esquadrinhavam a área atrás de outra ameaça.

Mas ela ainda estava consciente.

Levantou a mão e soltou o capacete, deixando-o cair no chão ao pressionar a mão na porta do refeitório.

O que estava fazendo? Eles a matariam no minuto em que ela entrasse.

Minhas pernas haviam cicatrizado e saí correndo, tentando gritar seu nome, enquanto ela abria a porta. Minha voz não funcionou.

— Wren! — Senti um puxão no braço, virei-me e vi o rosto preocupado de Callum. Soltei-me e disparei atrás de Ever, que entrava no refeitório.

— Wren, pare! — Callum me seguiu.

Irrompi pela porta, e vi Ever subindo em uma mesa. Ela jogou a arma de lado e fez um gesto para os oficiais da salinha acima do refeitório como se dissesse, o que estão esperando?

Corri para ela, esticando o braço para pegar sua mão.

— Ever, abai... — Minha voz se perdeu em uma barragem de tiros.

Senti o sangue dela espirrar em meu rosto.

Sua cabeça voou para trás.

E aí eu estava no chão, os braços de alguém apertados em volta de mim, o corpo me protegendo. Acho que ele estava falando, mas suas palavras soavam deturpadas. Seu cheiro era familiar.

Callum.

— Esvaziem o refeitório. — O som do interfone me fez pular, a voz humana inexpressiva perfurando a névoa.

Os braços dele se afastaram, mas eu não conseguia me mover.

Esvaziem o refeitório. Eu tinha que andar.

Eu não conseguia andar. Não conseguia me mover.

Callum me agarrou pelos braços e me colocou de pé. Senti um pano no meu rosto; abri os olhos e o vi usando sua camisa para limpar o sangue de Ever.

— Ande — disse ele.

Pisquei e tentei colocar um pé na frente do outro. Tropecei.

Callum passou um braço em volta da minha cintura e me segurou contra seu corpo, arrastando-me pela porta rumo ao corredor.

Ele me puxou para dentro do banheiro dos meninos e me escorou ao lado de uma pia, tirando lentamente o braço da minha cintura. Encostei-me na parede fria de ladrilhos e fechei os olhos, me apoiando na beirada da pia.

Senti algo quente e molhado no meu rosto e pescoço e, quando abri os olhos, ele estava me limpando com um pano.

— Está usando uma camiseta por baixo?

Eu não conseguia compreender a pergunta. Toquei minha blusa e minha mão voltou molhada, vermelha. Respirei profundamente.

Ele levantou minha blusa nas costas para verificar. Estava. Sempre.

Callum tirou a blusa preta de cima e a descartou, esfregando meus dedos ensanguentados até eles ficarem limpos. Jogou o pano no lixo.

Esticou os braços para mim, e eu o empurrei. Achei que poderia gritar se ele me abraçasse, se me desse um abraço apertado como Ever fizera alguns minutos antes.

Nada de gritos. Essa era a minha própria regra.

Ele tocou as minhas bochechas e me fez encarar seus olhos negros.

— Sinto muito — sussurrou, quase chorando.

Eu devia estar quase chorando. Ever estaria. Um humano estaria aos prantos.

Chorar era a coisa normal a fazer. Ela merecia lágrimas.

Sacudi as mãos, pressionando a palma na minha boca para deter o grito se formando em meu peito. Eu não podia desmoronar na frente dele.

Saí correndo do banheiro, mantendo a mão na frente dos lábios enquanto subia a escada aos pulos e me dirigia ao alojamento. Encolhi-me na cama, puxando as cobertas por cima do rosto para não ver a de Ever vazia.

Mas, ainda assim, nenhuma lágrima veio.