Reboot

Amy Tintera · Capítulo 16 de 34

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Reboot

Dezesseis

 

 

Callum e eu recebemos uma missão naquela noite.

Por pouco eu não fui. Queria rastejar para a cama de novo e esperar para ver se eles teriam pena de mim e designariam um Reboot diferente para a missão idiota.

Mas eu nunca vira a corporação ter pena de alguém e não parecia certo desertar Callum. Então me vesti, enfiei o capacete na cabeça e me arrastei pelas instalações.

A CRAH encontrara um Reboot adulto morando em Rosa e precisava que ele fosse trazido imediatamente. Não nos deram dados específicos, mas eu suspeitava que iriam utilizá-lo para testes e depois o matariam. Os hospitais se asseguravam de que os adultos não reinicializassem, mas, se um adulto morresse na cidade e reinicializasse, nós tínhamos que pegá-lo antes que ele começasse a matar as pessoas.

Lissy e o 93 nos encontraram no terraço. Quatro Reboots adolescentes para um adulto. Era necessário.

— Como ele está indo? — perguntou Lissy para mim, apontando para Callum.

Pisquei para ela. Não conseguia falar. Tudo à minha volta parecia de mentira, muito distante, como se eu me esticasse para tocar e minha mão fosse cair no meio do caminho.

Lissy olhou para mim como se eu fosse uma idiota. Quando a aeronave se aproximou, senti a mão de Callum no meu braço e percebi que ele estava preocupado. Ele havia me olhado daquele jeito o dia todo durante o treinamento enquanto trocávamos socos desanimadamente. Ele podia ter me atingido várias vezes, se quisesse. Eu não conseguia me concentrar, não conseguia ficar no presente. A porta da nave se abriu, e nós formamos a fila, sentando quando Leb fez um gesto para que o fizéssemos. Prendi meu cinto de segurança e me recostei, deixando que meus olhos se fechassem.

Sinto muito.

Respirei fundo e abri os olhos de repente, ao som da voz de Ever. Quase esperei que ela estivesse ali, a voz era tão clara, mas só Leb olhava para mim.

Ele estava de pé bem na minha frente, e eu franzi o cenho diante de sua proximidade. Por que ele não estava no assento?

— Você está bem, 178? — perguntou, baixinho.

Callum pairava ao lado. Os assentos de Lissy e do 93 estavam vazios. Nós havíamos aterrissado.

Leb se ajoelhou e desafivelou o cinto para mim. Eu me levantei lentamente, confusa com o passar do tempo. Nada fazia sentido.

Cambaleei para fora da aeronave, voltando meu olhar para o chão quando vi a irritação nos rostos de Lissy e do 93.

Callum puxou seu mapa e apontou para oeste. Lissy e o 93 viraram-se para mim, para confirmar.

Eu não fazia ideia.

Lissy ergueu as sobrancelhas e espiou por cima do ombro de Callum. Ela assentiu e começou a andar para oeste com o novato. Eles nos deixaram na Main Street, e Lissy saiu da rua pavimentada e desapareceu na estrada de terra atrás de uma casinha.

Callum entrelaçou seus dedos quentes nos meus, e eu comecei a olhar para eles enquanto os seguíamos. Lembrei bem a tempo e levantei a cabeça rapidamente, antes que minha câmera gravasse aquilo. O oficial Mayer não aprovaria.

— Há alguma coisa que eu deveria saber? — perguntou ele, apertando a minha mão. — Sobre esta noite?

Eu não sabia o que ele queria dizer.

— Lutar contra um Reboot adulto. — Ele olhou para a ficha da missão. — Gregor, Reboot adulto.

Senti uma emoção apertando meu peito e dessa vez sabia exatamente o que era. Culpa. Eu deveria tê-lo preparado. E não ficar ali, muda, escutando a voz de Ever na minha cabeça.

— Ele não vai correr como um humano; vai ficar e lutar se nos aproximarmos dele — falei, minha voz funcionando pela primeira vez no dia inteiro. — Em um adulto, a reinicialização causa insanidade e agressividade extrema. Temos ordens para capturá-lo se pudermos, matá-lo se precisarmos. A força dele vai depender de como era sua força quando humano, porque ele provavelmente não é um Reboot há muito tempo. Mas ele vai ser rápido. Os reflexos de Reboot começam a funcionar imediatamente. Não tente falar com ele. Não se pode argumentar com um Reboot adulto. Quem quer que ele tenha sido antes já era.

— Por que os adultos são diferentes? — perguntou ele.

— Dizem que tem a ver com o fato de nossos cérebros não estarem completamente desenvolvidos. O cérebro de um adulto não aguenta a reinicialização como o de um jovem. — Dei de ombros. — Sei lá. Acho que tem mais a ver com mudança.

— Mudança?

— Meus pais sempre começavam a gritar um com o outro quando alguma coisa mudava. Como quando tínhamos que nos mudar ou se a corporação impusesse outra vacina que eles não podiam pagar. Mas eu sempre aceitava. Acho que nós nos adaptamos melhor.

A sombra de um sorriso cruzou o rosto dele.

— Faz sentido.

Lissy parou na frente de uma casa com um telhado torto e lençóis cobrindo as duas janelas da frente. Larguei depressa a mão de Callum quando ela se virou. Senti falta do calor no mesmo instante e quis que ela apontasse sua câmera para outra direção, para que eu pudesse passar meus dedos pelos dele de novo.

— Vocês dois vão pelos fundos — disse ela. — Nós cuidamos da frente.

Assenti e contornei a casa, esticando-me para pegar a mão de Callum assim que estávamos fora de vista. Ele manteve o rosto apontado diretamente para a frente, mas me puxou mais para perto, até meu ombro encostar em seu braço.

Fechei meus olhos brevemente, deixando o calor formigar pela minha pele. Eu podia ver Ever na escuridão, sentir sua mão pressionando as minhas costas.

Sinto muito.

Meus olhos se abriram de repente quando soltei um arquejo minúsculo. Callum me encarava, cheio de preocupação, e eu rapidamente desviei o olhar.

— Esteja preparado para lutar — falei, limpando a garganta e tentando afastar a voz de Ever da cabeça.

Minha mão estava posicionada na maçaneta da porta dos fundos quando ouvi Lissy gritar.

— Cento e setenta e oito! — berrou o 93.

Saí correndo, com Callum logo em seguida, chegando à frente da casa em segundos.

Gregor era enorme, tão grande que Lissy parecia uma boneca pendurada em suas costas, os braços dela em volta do pescoço. Os olhos dele não focavam direito, como todos os Reboots adultos que eu vira, e sua boca ficava caída, mesmo quando ele não estava rosnando. Ele brandiu uma grande faca, tentando loucamente acertar Lissy a suas costas.

O 93 pulou em cima dele, e Gregor girou a faca na direção do novato.

Vi a cabeça do 93 voar para trás quando a lâmina entrou, mas tapei os olhos antes de vê-lo desabar no chão.

— Lissy, aba... — As palavras de Callum foram interrompidas pelo grito dela, então houve outro baque.

Tire as mãos dos olhos.

Mexa-se.

Meu cérebro não se comunicava com meu corpo, não fazia nada do que eu mandava. Enfiei os dedos na pele, tentando soltar minhas mãos, mas eu estava congelada.

Um grunhido do Callum quebrou o feitiço. Larguei as mãos e o vi arrancar a faca da mão de Gregor e jogá-la o mais longe possível. Lissy e o 93 permaneceram imóveis no chão, e Callum cambaleou por cima do 93 quando Gregor lhe deu um soco no maxilar.

Callum olhou para mim ao se levantar, sua expressão clara.

Me ajude.

Meus pés funcionaram, mas o restante não. Corri pelo chão de terra e enfiei o pé na barriga de Gregor. Ele mal cambaleou, seus olhos escuros de Reboot cintilando com o desafio da luta.

Descobri que tinha isso em comum com os Reboots adultos: eles pareciam gostar de lutar, ansiosos para liberar a agressividade e a raiva reprimidas. Eu entendia isso. Mas naquela noite eu não conseguia encontrar essa energia.

Gregor deu um soco. Eu me abaixei, mas outro se seguiu imediatamente. Ele fora treinado para combate quando humano.

Seu punho bateu no meu rosto, e eu caí no chão com um grunhido.

Queria me levantar mais rápido e me refestelar no fogo de uma luta queimando dentro de mim, mas meus membros eram de chumbo, movendo-se como se eu fosse uma humana.

Eu mal havia conseguido ficar de joelhos quando ele me chutou de novo.

O alvo ergueu o pé para mais um, mas Callum se lançou com tudo para cima dele, e os dois caíram. Tentou prendê-lo no chão, mas o alvo agarrou sua camisa e o jogou do outro lado do gramado.

Consegui me levantar antes que Gregor chegasse até mim, erguendo os punhos para me defender. Tinha que ser mais ligeira do que ele. Ele era mais forte, então eu tinha que ser mais ágil.

Quando Gregor atacou, corri atrás dele, dando um chute forte no traseiro. Ele bateu com os joelhos. Estiquei a mão para pegar minhas algemas, o alívio tomando conta de mim.

Puxei um braço para trás de suas costas, mas ele virou e agarrou meu tornozelo, jogando-me no chão. Gregor enfiou o pé no meu capacete, destruindo a câmera.

— Cento e setenta e oito! — gritou o oficial Mayer no meu ouvido. — Perdemos a visão da sua câmera.

Dois braços agarraram a minha cintura, arrastando-me para longe enquanto Gregor se lançava novamente sobre mim. Callum me contornou e deu um soco direto no rosto do alvo.

— Cento e setenta e oito! — berrou Mayer outra vez.

— Ele... ele a quebrou — arfei. O mundo girava quando me levantava.

Callum virou-se ao ouvir minha voz, e Gregor desferiu um soco pesado em sua barriga e puxou a sua cabeça. O 22 conseguiu tirar o capacete, jogando-o para o lado com um rosnado.

— Cento e setenta e oito! Coloque aquele capacete de volta na cabeça do 22! Só estamos vendo o chão!

Corri até eles, lutando contra o impulso de arrancar o comunicador do ouvido. Joguei-me entre os dois e fiz Gregor soltar Callum. Estava desordenada, em pânico, meus olhos procurando meu novato para saber se ele estava bem. Não vi os golpes que estavam por vir. Só senti o estalido quando ele esmagou meu nariz.

Meu rosto estava no chão de novo. Eu não conseguia lembrar por que deveria me levantar.

— Cento e setenta e oito!

A voz de Mayer estava distante dessa vez. Apertei os olhos e vi meu comunicador no chão.

— Cento e setenta e oito, relate...

Bati com o punho, o aparelhinho de plástico fazendo um estalido agradável. Quase sorri, mas a mão de alguém agarrou o colarinho da minha blusa, e esfreguei os olhos para ver Gregor se preparando para desferir outro golpe.

Eu não me importava.

Callum agarrou o punho, e Gregor me soltou. Caí de volta no chão. Callum socou Gregor, o soco mais forte que eu já tinha visto meu novato dar. O alvo cambaleou, e Callum o acertou de novo.

— Quer calar a boca? — berrou Callum. Considerando que nem Gregor nem eu havíamos dito uma palavra, eu podia adivinhar com quem ele estava falando.

Ele ia dar o terceiro soco, mas Gregor agarrou o seu braço e o quebrou.

Callum nem se encolheu. Empurrou o osso para o lugar certo enquanto chutava Gregor na barriga. O alvo se dobrou de dor, e Callum deu uma joelhada no rosto dele.

Gregor caiu com um grito, e Callum passou as algemas e as tornozeleiras nele. Seus pés se debateram, mas ele não ia a lugar algum.

Callum ajoelhou-se ao meu lado, e eu me forcei a sentar, passando a manga no meu rosto ensanguentado.

— Sinto muito — sussurrei, incapaz de olhar para ele.

— Vinte e dois! — Eu podia ouvir o oficial Mayer gritando em seu ouvido. — O que está acontecendo?

Senti a mão de Callum na minha bochecha e ergui os olhos para seu rosto machucado. Ele me deu um sorrisinho. Abriu a boca para dizer alguma coisa, mas logo depois franziu as sobrancelhas quando Mayer começou a gritar de novo.

Removi gentilmente o comunicador de seu ouvido e o coloquei no chão.

— Que rebelde — disse ele, baixinho. Callum chegou mais perto e me pegou em seus braços. Eu me senti como uma criancinha de colo, mas quando pressionei meu rosto em seu peito e senti o cheiro de sua pele fresca através das roupas, não me importei.

— Sinto muito — repeti. — Eu fui inútil...

— Não, não foi — falou ele, passando os dedos debaixo do meu capacete e pelo meu cabelo. Eu gostava de seus dedos quentes ali, gostava das sensações que mandavam pelo meu pescoço abaixo. — Sinto muito pela Ever. Ela era sua melhor amiga?

Nunca havia pensado nela desse jeito.

— Era — respondi.

Ele passou os dois braços pela minha cintura, me abraçando apertado. Eu podia ouvir os berros abafados do oficial Mayer no comunicador a alguns metros de distância. Fechei os olhos e bloqueei o som. Ninguém podia nos ver ou ouvir. Em todos os minutos dos últimos cinco anos eu estivera sob a vigilância de um guarda ou oficial da corporação.

Eu me sentia livre.

Era uma liberdade falsa, é claro, já que o rastreador entregava minha localização exata, mas me afundei em Callum e aproveitei o momento.

Quando me afastei, ele tentou me puxar de volta, mas eu balancei a cabeça e apontei para o comunicador.

— É melhor você colocá-lo — falei. — Se não se apresentar, eles vão mandar mais Reboots. Vai ser ruim se mandarem mais e nós estivermos vivos.

Ele suspirou e enfiou relutantemente o comunicador no ouvido.

— Callum 22 com 178. Alvo preso. Lissy 124 e Raul 93 estão mortos. — Ele escutou e olhou em volta. — Está bem. — Colocou o capacete na cabeça e ajeitou a câmera. — Está vendo? Ela está bem. Seu comunicador só foi esmagado. — Callum piscou para mim. Ele sabia exatamente como aquilo havia acontecido.

Parou por um momento, então olhou, triste, para mim.

— Não podem mandar... — suspirou. — Está bem. — Ele acenou com a cabeça na direção do 93 e da Lissy. — Querem que os levemos de volta.

Concordei, sufocando o nojo.

— É procedimento padrão quando Reboots morrem em campo. Eu os levo.

— Eu posso fazer isso, Wren...

— Tudo bem — disse, prendendo uma correia nos pulsos do 93 e nos de Lissy. — Leve ele.

Callum prendeu Gregor, uma careta cruzando seu rosto enquanto ele tentava levantar o Reboot.

— Não.

Franzi o cenho, confusa.

— Não — repetiu ele, no comunicador.

— O que estão dizendo? — perguntei.

— Nada. Tem certeza de que pode levá-los? Eu posso levar um.

— Está tudo bem. Estão mandando você fazer alguma coisa?

— Não. Vamos. — Ele empurrou Gregor para a frente.

— Callum, você não pode ignorá-los.

Ele lançou um sorriso divertido para mim.

— Vamos, está tudo bem.

Eu duvidava, mas fui atrás dele, arrastando os dois Reboots mortos atrás de mim.

Leb dobrou a esquina correndo, parando quando nos avistou. Ele estremeceu quando seu olhar me alcançou, e eu encontrei sangue ao limpar o rosto.

— Onde está seu equipamento? — perguntou ele.

— Destruído — respondi.

Ele puxou seu walkie-talkie do bolso e o levou até os lábios, virando-se de costas para nós.

— Estou com o 22 e a 178. Equipamento destruído. Voltando agora.

Callum e eu empilhamos o Reboot adulto, Lissy e o 93 na aeronave de carga e fomos para a nossa. Desabamos nos assentos, e Leb se acomodou na nossa frente quando a nave decolou.

Callum soltou um suspiro irritado, dando um empurrão em seu capacete de tal forma que a câmera apontou para o teto. Ele tirou o comunicador do ouvido e sentou-se em cima dele.

— Eles não calam a boca — reclamou, diante de nossos olhares horrorizados.

— O que eles estão... — hesitei, olhando para Leb enquanto a nave decolava.

— Não há nenhuma outra câmera ou equipamento de áudio aqui, se o seu não funciona. Só os dele — disse Leb. Ele acenou para o comunicador no bolso. — Não podem ouvir tudo no meu. Ele fica mudo a não ser que eu o esteja usando.

Callum olhou de Leb para mim, surpreso.

— O que eles estão dizendo? — perguntei, ignorando o olhar.

— Me mandaram matar Gregor.

Arfei, tapando a boca para deter a onda de náusea que me abateu.

— Não deveria ter feito isso, garoto — explicou Leb. — Eles não pareciam felizes.

O tom solidário do Leb fazia as pancadas no meu estômago piorarem. Obriguei-me a tirar a mão da boca e agarrei o assento.

— Não pode simplesmente desobedecer a uma ordem — falei, com a voz tremendo.

— Posso e desobedeci. Não podem me obrigar.

— Mas você sabia! Eu lhe disse que era uma missão do tipo capture-se-possível, mate-se-necessário.

— Não era necessário. Ele estava preso. O único momento em que é necessário matar é em legítima defesa. Eles não podem me fazer matar alguém.

— Mas...

Mas eles vão matar você.

Não consegui dizer isso a ele.

— Sei o que podem fazer comigo — disse ele, baixinho. — Não vou matar ninguém para eles.

Pulei do assento, sem saber o que pretendia fazer até dar um tapa na cabeça dele. Callum ergueu os braços para se defender enquanto eu o atacava novamente. A raiva por sua idiotice me queimava por dentro.

Eu queria gritar com ele, perguntar como podia ser tão imprudente quando eu havia acabado de perder Ever, mas nenhuma palavra saiu da minha boca. Minha garganta havia se contraído dolorosamente.

— Sinto muito — declarou ele, tentando segurar minhas mãos enquanto eu batia desanimadamente nele.

— Cento e setenta e oito — disse Leb. Senti seu toque nos meus braços, puxando-me para longe, e deixei que meus ombros desabassem.

— Sinto muito — repetiu Callum, os olhos grandes e suplicantes. — Não fique zangada. Eu simplesmente não podia.

Virei-me de costas, observando Leb se sentar com um suspiro em seu assento.

Seu olhar encontrou o meu e ele respirou fundo, balançando a cabeça quase imperceptivelmente.

Ele sabia o que eu estava pensando.

Abaixei-me diante dele e coloquei as mãos nas laterais do assento do Leb. Ele se espremeu contra a parede.

— Pode nos ajudar? — sussurrei.

— Não — respondeu automaticamente.

Pelo canto do olho vi Callum se inclinando para a frente, tentando nos ouvir, então lhe lancei um olhar. Ele se afundou de volta no assento.

— Pode ajudar só a ele?

— Não.

— Por favor. Eles vão matá-lo.

Uma careta se formou no rosto dele.

— Sinto muito, mas, mesmo que quisesse ajudar, eu precisaria de mais tempo. Tempo que ele não parece ter.

— Acho que posso convencer o oficial Mayer a deixá-lo continuar o treinamento. Eu assumo a culpa. Direi que não o preparei direito.

— Então ele vai ficar bem.

— Não, não vai — sussurrei. — Quanto tempo você acha que ele tem aqui, de verdade? Ele vai desobedecer de novo, e eles vão eliminá-lo.

Ou um humano iria matá-lo. Ou a corporação começaria a lhe aplicar injeções.

O olhar do Leb se voltou para Callum por um momento.

— Não posso. É arriscado demais.

— Por favor. Faço o que você quiser. Diga o que quer.

O cenho franzido sumiu ao mesmo tempo em que algo passava por seus olhos. Prendi a respiração enquanto ele pensava a respeito, mas o semblante de antes voltou, e ele baixou os olhos.

— Não — falou firmemente, a aeronave atingindo o chão. — Vá para seu assento.

É claro que não. O que eu tinha para barganhar mesmo? Não conseguia pensar em nada que um humano pudesse querer de um Reboot.

Eu me sentei enquanto a porta da nave se abria, revelando o oficial Mayer furioso.

— Vocês dois, no meu escritório. Agora.