Reboot

Amy Tintera · Capítulo 17 de 34

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Reboot

Dezessete

 

O oficial Mayer olhou para nós de sua cadeira, o rosto vermelho.

— Sentem-se — ordenou, e nós obedecemos. — Você. — Ele olhou para mim. — Esta foi a sua pior missão em campo. Juro que, em alguns momentos, achei que você só estava ali olhando.

Engoli, sem saber direito o que dizer, já que isso era inteiramente correto.

— Você. — Voltou-se para Callum. — Você desobedeceu a uma ordem direta e retirou seu comunicador dentro da aeronave. Havia algo que você queria falar e não queria que nós escutássemos?

— Não, só estava cansado de ouvir vocês gritando comigo — resmungou Callum.

O oficial Mayer bateu com o punho na mesa.

— Você não pode ficar cansado! Se eu quiser gritar com você, eu vou gritar com você! Sua treinadora não o mandou entrar na linha? Ela não disse que você tinha que obedecer todas as ordens?

— Sim — respondeu Callum.

— Então por que eu não deveria eliminá-lo?

— Não quero matar ninguém — falou Callum, baixinho.

— Eu não pedi que você matasse uma pessoa; pedi que você matasse um Reboot. Um Reboot louco que matou dois dos seus amigos. Achei que ficaria feliz em fazê-lo.

Callum fez que não com a cabeça.

— Então devemos eliminar você. — Ele balançou a cabeça, como se estivesse decidido, e senti como se alguém tivesse acabado de colocar a mão em volta do meu pescoço.

— Não, isso não é...

— Eu não estava falando com você. — O oficial Mayer explodiu comigo antes de se voltar para Callum. — Você foi advertido e optou por não seguir um comando direto. Não vejo nenhuma melhora e, infelizmente, não há lugar aqui para Reboots que não tenham bom desempenho.

— Mas ele melhorou — argumentei, ignorando o olhar que o oficial Mayer me lançou quando falei fora da vez de novo. — Foi ele quem finalizou a missão esta noite. Se não fosse por ele, eu provavelmente estaria morta e o alvo teria escapado.

O oficial Mayer apertou os lábios, olhando para Callum, e senti uma minúscula centelha de esperança em meio ao meu pânico.

— E eu não o preparei adequadamente para uma missão de assassinato — continuei.

— Por que não?

— Não estou acostumada a treinar um número tão baixo. Não pensei que ele fosse ser tão emocional em relação a isso. — A mentira escorregou com facilidade da minha boca. Se tivesse pensado um pouco mais, eu saberia que Callum não ia concordar em matar. — A culpa é minha.

— Não é...

— Fique calado até falarem com você — vociferou o oficial para Callum. Ele se virou para mim novamente. — Devo eliminá-la, em vez dele?

Engoli em seco, ainda que aquele comentário não fosse inteiramente inesperado, considerando que eu acabara de confessar que havia feito bobagem.

— Acho que, se continuarmos treinando, ele vai passar a seguir ordens.

— Então, não acha que eu deveria eliminá-la. — Mayer tinha um sorrisinho no rosto, e fui tomada pelo súbito impulso de tirá-lo de lá no tapa. Ele estava gostando de me ver sofrer.

— Eu preferiria que não o fizesse, senhor.

Ele deu um longo e exagerado suspiro ao se recostar novamente na cadeira e cruzar os braços. Olhou para mim e para Callum por vários segundos agonizantes, o único barulho no aposento era o zumbido do computador.

Finalmente, fez um gesto com a mão.

— Está bem. Vinte e dois, vá para os seus aposentos. Cento e setenta e oito, fique um minuto.

Dei um suspiro de alívio quando Callum saiu porta afora. O oficial Mayer se levantou, juntando alguns papéis e seu computador.

— Vou mandar vocês dois em uma missão de assassinato assim que localizarmos o outro Reboot adulto — continuou. — Estamos rastreando há vários dias, portanto, não deve demorar. Se o 22 se recusar a realizar a missão novamente, você vai eliminá-lo.

Um lampejo de raiva me atingiu com tanta força que eu quase arfei. Meu peito queimou tão forte que fechei os punhos, e fiquei olhando para o meu colo para não pular e quebrar o pescoço dele.

Eu iria eliminá-lo?

— Você precisa fazer isso em campo. Esta instalação está... inquieta esta noite, depois que aquela garota maluca foi morta.

Aquela garota maluca. Minha melhor amiga.

Eu podia ouvir na minha cabeça o estalo que iria fazer. Tec.

Mayer fez um gesto para que eu me levantasse, e eu obedeci, as pernas tremendo. Ele abriu a porta do escritório.

— Diremos que foi um humano. A última coisa de que precisamos é outra eliminação. Tivemos muitas ultimamente.

Tec.

Tec.

Tec.

O oficial Mayer fez um gesto para que eu o seguisse ao entrar a passos largos no corredor.

— Você fez o melhor que podia — disse ele, virando-se para seguir na outra direção. — Mas ele também está prejudicando você. Precisamos acabar com essa bobagem.

Observei suas costas enquanto ele descia o corredor. Eu podia fazê-lo tão rápido. Ele estaria morto antes de chegar ao chão. E aí eu estaria morta alguns minutos depois. Talvez só alguns segundos depois, dependendo de quão longe estivessem os guardas.

Forcei-me a andar para o lado oposto. Certamente não poderia ajudar Callum se estivesse morta.

Abri a porta da escada e parei ao lado de Callum, que estava sozinho no escuro.

Tum.

Tum.

Tum.

Virei-me na direção do barulho, que vinha do andar de baixo. O andar onde os Reboots dormiam.

— O que é isso? — perguntou Callum.

Desci a escada, fazendo um gesto para que ele viesse comigo. Empurrei a porta para abri-la e entrei no oitavo andar.

Tum.

Tum.

Tum.

Vinha da minha direita, da ala das meninas.

— Por que elas estão fazendo isso? — sussurrou Callum.

— Ever fez isso — respondi. — Quando ela...

Quando ela enlouqueceu.

Eles drogaram todas? De que serviam Reboots se estavam todos completamente loucos?

— Vão para seus aposentos — rosnou um guarda.

Eu entrei na ala das meninas e parei. Em quase todos os quartos as garotas estavam fora da cama, batendo metodicamente na parede.

Seus olhos me acompanharam enquanto eu andava até o meu quarto.

Elas não estavam drogadas.

Estavam se rebelando.