Reboot

Amy Tintera · Capítulo 33 de 34

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Reboot

Trinta e Três

 

 

Bishop abriu um sorriso largo ao olhar para mim do outro lado do vidro. Ele remexeu no bolso e tirou um comunicador. Quase o deixou cair enquanto o segurava na frente da boca.

— Bishop — falou. — Laboratório médico no sétimo andar. Diga ao oficial Mayer e a Sra. Palm que venham a Austin imediatamente. Estou com a 178.

Estou com a 178. As palavras ressoaram nos meus ouvidos, e minha garganta se fechou. Eles não podiam me pegar. Eu estava fracassando por causa desse humano idiota.

Puxei minha arma do bolso. O vidro não podia ser à prova de balas.

Não podia.

Dei um tiro. A bala passou direto, deixando uma teia de rachaduras em volta do buraco. Bishop arregalou os olhos e deu vários passos para trás, trombando com uma mesa do laboratório.

Sorri e ergui a arma novamente.

Nada.

Estava sem balas. Estendi a mão para pegar a pistola de tranquilizantes, que ainda continha muitos dardos, mas seria inútil com o humano do outro lado do vidro.

Bishop soltou um suspiro de alívio e falou no comunicador.

— Não, está tudo bem. Mas venham rápido.

— Não saia daí — ouvi a voz do outro lado. — Fique de olho nela.

Bishop engoliu em seco e assentiu, dando mais alguns passos para longe do vidro.

Baixei os olhos para os frascos aos meus pés. Não. Eu não ia deixar que Callum morresse como um robô inexpressivo e frio da corporação.

Eu ia escapar.

Levantei a perna e chutei o vidro com o máximo de força possível.

Uma rachadura serpenteou do buraco de bala até o teto.

Chutei novamente. Outra rachadura.

Bishop tropeçou enquanto corria para chegar ao outro lado do laboratório.

— Ei! — gritou no comunicador. — Rápido! Ela está...

O vidro estilhaçou. Soltei um grito e corri pelo laboratório, deixando os frascos de lado. Bishop andava em direção à porta, e eu não ia cometer o mesmo erro duas vezes.

Agarrei-o pelo cabelo, e ele berrou quando puxei sua cabeça para trás. Ele arfou, emitindo sons estrangulados.

— Por favor, não me mate — soluçou.

Eu não queria provar que ele tinha razão; em vez disso, lhe dei um soco. Bati nele com tanta força que ouvi um estalido. Bishop desabou no chão. Disparei um dardo em seu pescoço, para garantir, e seu corpo caiu.

Corri de volta para pegar os frascos, coloquei-os nos braços e disparei para fora do laboratório, pelo corredor. Ainda estava vazio, e eu abri com força a porta da escada.

Reboots desciam correndo, pulando e rindo. Todos tinham seus capacetes e equipamentos de campo, e eu não vi um único guarda em meio à multidão.

Misturei-me a eles e deixei que me carregassem junto escada abaixo. Explosões e tiros balançavam o edifício, mas o entusiasmo e a alegria não se abalaram. Não podia deixar de sorrir.

Estávamos quase livres.

Quando saí pela porta do térreo, vi que o saguão estava cheio de fumaça, com oficiais mortos ou inconscientes. Segurei as caixas junto de mim enquanto irrompíamos pela porta dos fundos.

O sol do início da manhã queimou meus olhos, mas disparei pela grama em direção ao abrigo de árvores onde estava Callum.

Duas aeronaves grandes da CRAH estavam estacionadas logo à minha esquerda. Addie se encontrava na frente de uma, direcionando Reboots.

Ela sorriu quando me viu. O sangue sumira da sua testa, e senti uma pequena onda de alívio por ela estar bem.

— Eu levo isso! — gritou ela, correndo até mim. Larguei as caixas em seus braços esticados e tirei um frasco para Callum. — Traga-o rápido. Temos que ir!

Addie se virou para as aeronaves outra vez, e eu corri para a cerca, agarrando o metal e passando o corpo por cima. Corri rumo ao bosque, pulei por cima de uma tora caída, ainda segurando firme o antídoto. O buraco estava logo à frente, e eu rapidamente joguei as folhas e os galhos que o cobriam para o lado.

Callum estava deitado, embolado, na terra, os olhos semiabertos. Ele não se mexeu ou deu qualquer indicação de que tinha me ouvido.

Entrei no buraco e o coloquei sentado. Ele estava mole, como uma casca vazia.

Enfiei a agulha no braço dele e injetei o líquido.

Nada aconteceu.

Ia levar um minuto. Era só isso. Rejeitei as alternativas ao desamarrá-lo e me sentar em seu colo. Coloquei as mãos em suas bochechas, minhas tentativas de respirar preenchendo o silêncio. A cabeça de Callum balançava para a frente e para trás enquanto ele olhava para o nada ao longe.

— Callum — sussurrei, passando meus dedos devagar pelo cabelo dele.

E se fosse tarde demais? E se não fosse o antídoto certo? Minha garganta se fechou, apertei os lábios para conter um grito. E se aquele humano tivesse me dado outra coisa? E se...

Callum respirou fundo e ergueu a cabeça de repente. Piscou algumas vezes, a cor voltando ao seu rosto.

A risada escapou da minha boca como um arquejo estranho; passei meus braços em volta do pescoço e pressionei meus lábios contra os dele. Fiz uma trilha de beijos por suas bochechas até ele rir também.

Levei as mãos à sua nuca e olhei em seus olhos.

— Está se sentindo bem? Está se sentindo normal de novo?

Um sorriso se espalhou pelo rosto dele. O sorriso grande, feliz e esperançoso que eu amava. Ele assentiu e se inclinou até seus lábios roçarem a minha bochecha.

— Você é surpreendentemente boa às vezes, sabia?

Eu ri e lhe dei outro beijo rápido antes de me levantar.

— Temos que sair daqui. — Enfiei meus dedos na terra e pulei para fora do buraco, virando-me para ajudar Callum.

Ele já havia escalado o buraco e estava de pé, vendo a cena diante de si com olhos arregalados.

Reboots corriam pelo gramado e oficiais estavam inconscientes no chão. Os fundos do prédio da CRAH estavam crivados de buracos de bala. Fumaça saía de várias janelas nos andares mais altos.

Estiquei o braço para pegar a mão de Callum. Saímos do bosque, pulamos a cerca e corremos pela grama.

— Para dentro! Para dentro! — berrou Addie. — Todo mundo, agora!

Não vi Tony nem os outros rebeldes em lugar nenhum. Parei perto de Addie a caminho da segunda aeronave.

— Tony? — gritei.

— Já foi. Eles conseguiram sair. — Ela bateu a porta traseira da aeronave e jogou o localizador da corporação para mim.

— Tenho outro aqui dentro para a minha aeronave.

— Obrigada. — Entreguei o localizador para Callum enquanto abria a porta do piloto da segunda aeronave. Fiz um gesto para que ele entrasse. Ele ergueu uma sobrancelha.

— Você vai pilotar?

— Só entre — respondi, com uma gargalhada. Ele subiu para o assento do carona, e eu entrei em seguida, fechando a porta com um clique. O painel à minha frente se parecia muito com o diagrama que Tony havia desenhado. A alavanca no meio nos fazia subir ou descer; os botões de ambos os lados serviam para a aterrissagem e a comunicação. Alguém já havia ligado a aeronave, portanto, tudo na minha frente estava iluminado, pronto para a decolagem.

Balas ricochetearam na porta, e eu olhei pela janela. Alguns oficiais perdidos cambaleavam pelo gramado. Agarrei rapidamente a alavanca do meio, como Tony havia ensinado, e a empurrei para cima.

Decolamos. Eu a empurrei mais e demos uma guinada. Ouvi os Reboots atrás, gritando e se chocando uns contra os outros, e Callum se agarrava ao painel à frente, mas me concentrei em voar, empurrando a alavanca para a frente para aumentar a velocidade.

— Tome — falei, puxando minha faca. — Dê o localizador para eles. Todos precisam tirar seus rastreadores o mais depressa possível.

Ele assentiu e desapareceu na parte de trás da aeronave. Empurrei a alavanca para a direita até poder ver a outra aeronave pairando não muito longe de nós. Segui sua liderança conforme ela virava para o norte.

Alguém tocou meu queixo, e eu pulei, virando-me para ver Callum. Ele sorriu ao desafivelar meu capacete e beijou minha bochecha.

— Estou pilotando — falei com uma risada enquanto ele me beijava de novo.

— Eu percebi. Que exibida — disse ele, com uma risadinha. — Só me salvar não era o bastante para você?

Dei um sorriso largo e ele me beijou. Callum se jogou no assento ao meu lado, nossos dois capacetes em seu colo. Atrás de mim, eu podia ouvir os tinidos à medida que os rastreadores caíam no chão da aeronave e os Reboots comemoravam.

— Nós sabemos para onde estamos indo? — indagou Callum, inclinando-se para olhar lá fora. A favela estava embaixo de nós, e alguns humanos já começavam a perambular.

— Addie está com o mapa; nós vamos segui-la — falei. — Mas sei mais ou menos a direção, caso a gente se separe.

A porta lateral da aeronave de Addie se abriu e pecinhas prateadas refletiram a luz do sol enquanto caíam. Rastreadores.

— Ei! — berrei, virando-me na cadeira. — Joguem seus rastreadores pela porta! — Alguns Reboots assentiram e eu me ajeitei.

Passamos por cima da cerca da corporação nos limites de Austin, e eu me virei para olhar pela janela, à direita. O céu estava claro, e o prédio da CRAH ficava cada vez menor.

Soltei um longo suspiro ao observar Callum. Um sorriso começou a aparecer no meu rosto diante do entusiasmo dele. Concentrei-me no céu à minha frente de novo, agarrei a alavanca e empurrei-a só mais um pouco para a frente. Estávamos a certa distância de Addie, e eu apertei o botão cruzeiro. A nave seguiu avançando, e eu larguei a alavanca.

— Entããõooo...

Virei-me e vi uma garota mais ou menos da minha idade segurando os dois lados da porta do piloto, sorrindo. Ela inclinou a cabeça, seu rabo de cavalo escuro balançando.

— Estávamos meio que imaginando para onde iríamos. — Ela olhou de mim para Callum. — E quem são vocês.

Um Reboot mais jovem ficou na ponta dos pés para espiar por cima do ombro dela.

— Ouvi Addie dizer que ela era a 178.

— Sim — falei, estendendo a mão. — Wren 178.

Ela ergueu as sobrancelhas ao apertar a minha mão.

— Beth 142.

— Callum — disse ele. Não revelou seu número, mas eu percebi que ela olhou o pulso dele e franziu o cenho, confusa.

— Estamos indo para o norte — expliquei. — Na direção da antiga fronteira do Texas. Supostamente existe uma reserva Reboot lá.

Os Reboots atrás dela ficaram quietos, alguns se aproximaram para escutar.

— Onde os Reboots estão vivendo sozinhos? — perguntou Beth.

— É. Pelo menos foi o que ficamos sabendo. Nós temos um mapa.

Beth percorreu a aeronave com os olhos.

— Não acha que vai assustá-los, chegando, assim, em duas aeronaves da corporação?

— Vamos aterrissar a alguns quilômetros da reserva e andar até lá. — Omiti que foram os rebeldes humanos que sugeriram isso, para evitar que fôssemos abatidos a tiros. Podia lhes contar sobre eles mais tarde.

Beth olhou para mim e para Callum. O modo como todos ficavam em silêncio atrás dela me fez pensar que ela era um dos números mais altos nas instalações de Austin, se não o maior.

Ela soltou uma risadinha, recuando alguns passos.

— É um plano interessante. Espero que dê certo. — Ela balançou a cabeça na direção da janela da frente. — Vocês deveriam dar uma olhada.

Voltei minha atenção para a dianteira enquanto alguns Reboots entraram na área do piloto. As aeronaves não eram projetadas para voar muito alto, portanto, não estávamos muito acima das árvores. O terreno aberto se estendia à nossa frente, um lago cintilando ao longe. Podia ver trechos de velhas estradas desertas, onde folhagens invadiam o asfalto preto.

Callum inclinou-se, piscando para a cena à sua volta. Ele ainda estava um pouco pálido, mas, tirando isso, parecia normal.

— Está se sentindo bem? — perguntei, baixinho, aproximando-me até pousar a mão na perna dele.

Ele se virou, pegou minha mão e a beijou.

— Estou ótimo.

Callum deslizou uma das mãos pelo meu pescoço e se acercou até pressionar seus lábios contra os meus. Peguei sua mão, me derretendo com o beijo. Atrás de mim, alguém pigarreou.

— Vamos beijar ou voar? — indagou Beth, sua irritação com uma pitada de divertimento.

Eu me afastei de Callum com um sorriso largo.

— Certo. Voar.

A aeronave ficou um pouco mais silenciosa enquanto nos dirigíamos para o norte. Às vezes, um Reboot ia até mim para dar uma olhada na vista. A paisagem era quase toda de árvores e grama, mas, de vez em quando, havia um ou dois animais. Em certo momento, voamos por cima de um grupo grande de vacas e fiquei imaginando como os Reboots da reserva conseguiam comida. Caçavam? Cultivavam?

Os Reboots de Austin não ficaram muito tempo comigo e com Callum. Na maior parte do tempo sussurravam e lançavam olhares desconfiados na nossa direção. Eu, realmente, não podia culpá-los.

Muitos deles me fitavam, mas não se aproximavam para conversar. Passei o dedo por cima do 178 impresso no meu pulso.

— Você acha que os números vão ter importância lá? — indaguei, baixinho.

— Espero que não — disse Callum, recostando-se com um suspiro. — Quero dizer, acho que não. Foi a corporação que começou tudo isso.

Mas nós aceitamos. Nós nos separamos em grupos e agimos de acordo. Olhei para Beth, que estava de pé com duas garotas e um cara. Nem precisava perguntar para saber que eles faziam parte dos +120 das instalações de Austin. Seus rostos estavam sérios, as sobrancelhas franzidas ao escutar Beth. Os outros Reboots perambulavam ao redor, mas ninguém se aproximava muito.

Eu não fazia ideia de como os Reboots se dividiriam por conta própria. Talvez não o fizessem. Talvez Callum tivesse razão, e os números não importassem sem a CRAH por perto.

Ergui os olhos para ele e sorri, virando meu pulso para baixo para não ver meu número. Eu esperava que sim.

Callum se aprumou de repente, apontando para a frente.

— Olhe.

Virei-me para sua janela e vi os restos de uma cidade. Era maior do que qualquer uma que eu tivesse conhecido e ficava bem no meio de um círculo de rodovias. De longe, partes da cidade pareciam intocadas, mas, ao chegar mais perto, vi os prédios destruídos.

— Que cidade era esta? — perguntei.

— Não sei. Acho que estamos muito a oeste para que seja a Dallas ou Fort Worth originais. — Ele me olhou com um sorriso. — Talvez vejamos uma delas a qualquer momento. Ouvi dizer que são gigantescas.

Nunca havia pensado em ir a nenhuma das velhas cidades. Não pensei que fossem atraentes, mas senti uma faísca de entusiasmo com a perspectiva.

— Talvez.

A aeronave de Addie começou a descer cerca de vinte minutos depois, e eu estendi a mão para Callum.

— Capacete. Coloque o seu também. — Olhei para os Reboots na parte de trás. — Coloquem os capacetes e se segurem!

— Mas não estou vendo nada — disse Callum em tom preocupado enquanto me entregava o meu capacete e afivelava o dele.

Percorri com os olhos a área à nossa frente. O terreno era bem plano, mas eu não conseguia enxergar tão longe.

— Vamos aterrissar a alguns quilômetros de distância — falei. — Ainda temos que andar uma boa parte.

Ele assentiu, dando mais uma olhada em volta ao nos dirigirmos para a terra.

— Vamos cair com certeza, não vamos?

Abri um sorriso largo para ele.

— Provavelmente.

Empurrei a alavanca para baixo e tentei descer a aeronave suavemente, mas o chão apareceu de repente, e batemos nele. Abracei o painel ao capotarmos uma, duas, três vezes. Acabamos de lado; Callum ficou amassado contra a janela. Quando soltei meu cinto de segurança, caí em cima dele.

— Desculpe — falei, com uma risada, agarrando as beiradas do assento do piloto para me impulsionar até a porta. Empurrei-a para abrir e rastejei para fora, aterrissando na terra vermelho-alaranjada. A aeronave de Addie escorregou alguns metros adiante, e eu apertei os olhos para ela, contra o sol. Ela também fizera uma aterrissagem forçada, mas, pelo menos, não capotaram. O terreno era plano e seco, e o céu se estendia infinitamente acima da terra vermelha.

Um vento forte bateu no meu rosto. Estendi a mão para Callum e ele pulou para fora. Quando abri a porta traseira da aeronave, os Reboots estavam todos uns em cima dos outros, mas sorrindo e arregalando os olhos, tentando absorver a cena atrás de mim. Conversavam alegremente ao saírem.

— Ei, bela aterrissagem! — gritou Addie. Eu me virei e a vi de pé, ao lado de sua aeronave, sorrindo.

Ri e encolhi os ombros.

— Ainda estão todos vivos!

— É uma meta meio baixa para si mesma, não é? — perguntou Beth, socando meu ombro de brincadeira quando eu a ajudei a sair da nave.

Eu ri novamente, e o som ecoou no silêncio. As conversas e as risadas cessaram de uma só vez. Todo mundo ficou em silêncio.

Callum tocou meu braço; eu me virei e o vi sorrindo.

Ele apontou para a frente, para uma grande placa de madeira.

TERRITÓRIO REBOOT

HUMANOS, VÃO EMBORA