Reboot
Dezenove
A missão de assassinato veio no dia seguinte.
Eles me deram uma arma e disseram para entregá-la a Callum para matar o Reboot ou usá-la no novato eu mesma. Eu não ganhava uma arma para usar em campo havia alguns meses, e ela parecia fria e pesada no meu quadril.
Eu estava com o mapa no bolso, embora duvidasse de que Leb tivesse conseguido pôr as mãos em um localizador da corporação em um dia. Eu não ia fugir sem remover nossos rastreadores primeiro. Não fazia sentido.
Se Leb não fosse bem-sucedido naquele dia, Callum teria que realizar a missão de assassinato.
Ele olhou para a arma quando me juntei a ele no terraço. Uma brisa fria soprava, trazendo o fedor da favela, e eu o vi franzir o nariz. Se era por causa do cheiro ou pela arma, eu não sabia.
A aeronave aterrissou ao terraço com um baque, e a porta se abriu revelando Paul à nossa espera. Se Leb não estava nessa missão, talvez estivesse com o localizador, esperando por nós no ponto de encontro.
Eu não conseguia respirar. O ar havia sumido e meu peito doía. Esta podia ser minha última missão. Minha última vez na aeronave. O último dia no lugar que eu chamara de casa durante os últimos cinco anos.
Paul fez um gesto para nós nos sentarmos, e eu tropecei a caminho do meu assento.
Callum estava tremendo ao afivelar o cinto de segurança. Eu queria lhe dizer que estava tudo bem, que ele não teria que cumprir a missão, mas não tinha certeza disso.
A nave ficou em silêncio quando nos dirigimos para a favela. Paul enfiou a mão no bolso e retirou quatro balas, estendendo-as para mim.
— Antes de embarcar na aeronave, tire qualquer uma que não tiver sido usada — advertiu-me enquanto eu pegava as balas.
Assenti e segui Callum para fora, em direção ao ar frio da noite. Ele fitava a arma e eu carregava as balas. Não queria dar pistas para os oficiais da corporação que assistiam à nossa transmissão de vídeo. Eles tinham que acreditar que estávamos seguindo ordens pelo maior tempo possível.
Estendi a arma para Callum, mas seus braços permaneceram ao lado do corpo.
— Callum — disse, baixinho.
Ele passou os dedos em torno da arma, segurando-a longe de si como se estivesse contaminada. Seu olhar encontrou o meu.
— Sou obrigado? — perguntou, a voz tensa.
Não.
— É. — Limpei a garganta e balancei a cabeça para a direita. — Vamos por ali. É um atalho.
Callum franziu a testa para o mapa e a ficha da missão, e então ergueu os olhos para mim, a boca aberta, talvez para me dizer que estávamos na direção errada. Ele a fechou conforme foi compreendendo, e me virei de costas para que a corporação não visse a esperança ali.
Eu o guiei para o cruzamento da Holly com a Nelson, virando a cabeça para todos os lados à procura de Leb.
Nada.
A noite estava silenciosa, havia apenas o som do vento nas árvores e alguns grilos durante o tempo que ficamos no meio da estrada de terra cercada por barraquinhas.
Talvez ele não viesse naquela noite.
— Posso ver o mapa? — perguntei, para enrolar.
Callum o entregou para mim, e fingi olhar para as ruas retas que representavam as ruas de Rosa. Não tínhamos muito tempo até que os oficiais começassem a desconfiar. Eu raramente precisava olhar o mapa.
Dei outra espiada furtiva em volta, mas não havia ninguém além de mim e Callum. Soltei um longo suspiro.
— É melhor irmos por ali — falei, tentando ao máximo evitar a derrota na voz.
O rosto de Callum desabou, e ele baixou os olhos para a arma em suas mãos.
— Então tenho que dar um tiro na cabeça dela, certo? Matar uma da minha própria espécie? — Ele checou o papel da missão. — Danielle. Eu assassino a Danielle?
Estremeci com a escolha da palavra, e a raiva desferida em cada sílaba. A CRAH certamente tinha ouvido.
— Sim — respondi. — Mire na testa, não no rosto. Você quer destruir o cérebro. Dois tiros é melhor, para garantir.
— E depois o quê? Eu a arrasto de volta para a aeronave?
— Ou eu arrasto. — Dei as costas, incapaz de olhar em seus olhos acusadores.
Ele podia estar mais zangado com a CRAH, mas também havia o bastante para mim ali. Será que um dia seria capaz de me perdoar se eu o obrigasse a fazer aquilo?
— Eu... — Um guincho agudo no meu ouvido me interrompeu, e tanto eu quanto Callum fizemos uma careta e arrancamos nossos comunicadores.
— O que foi isso? — perguntou Callum, esfregando a orelha.
Meus olhos dispararam pela área. A esperança enchia tanto o meu peito que ficava difícil respirar.
Um homem espiou pela beirada de uma barraca, uma figura larga vestida de preto. Levantou-se e correu até nós, empurrando a aba do boné para cima ao parar na minha frente.
Leb. Ele segurava uma faca em uma das mãos e, com a outra, puxou um objeto preto do bolso. Callum deu um passo à frente, a arma semierguida para nos defender. Balancei a cabeça para Callum, que lentamente a abaixou, os olhos ainda grudados na faca de Leb.
— Fique parada — disse Leb, erguendo o objeto preto na frente do meu peito. Era um aparelhinho mais ou menos do tamanho da palma da mão dele, e uma luz vermelha se acendeu quando Leb o passou no alto do meu braço direito.
— Tire a jaqueta — ordenou.
— Como o conseguiu tão rápido? — perguntei, enquanto tirava o casaco.
— Pegá-lo não é o problema — murmurou ele. — O problema é a merda que vai dar quando descobrirem que sumiu.
Ergueu a faca e deu um talho alguns centímetros acima do meu cotovelo, usando a ponta da faca para jogar um aparelhinho de metal no chão. Passei os dedos em volta da ferida ensanguentada. Não era tão profunda a ponto de ser dolorosa, mas meus dedos ainda tremiam quando eu os encostava na pele.
Olhei para o rastreador prata ensanguentado. Liberdade. Podia fugir naquele momento e ninguém saberia onde estava. O que estava fazendo. O que estava dizendo.
Leb fez um gesto para Callum se aproximar, mas ele ficou parado, olhando para o sangue que escorria do meu braço. Parecia chocado, à beira da alegria, como se não conseguisse acreditar.
— Quer andar logo? — vociferou Leb, agarrando-o pelo braço e passando o localizador ao longo do corpo dele. — O oficial da aeronave provavelmente já está a caminho.
Leb girou Callum e passou o localizador por suas costas até ele ficar vermelho. Ergueu a camisa e cortou uma linha curta pelas costas logo abaixo da omoplata. Pegou o rastreador e o colocou cuidadosamente no chão.
O oficial saiu correndo pela rua, fazendo um gesto para que o seguíssemos. Corremos por dois quarteirões e paramos atrás de uma casa às escuras, com uma variedade de lixo e brinquedos quebrados no quintal dos fundos.
Enfiou alguma coisa na minha mão, e, quando baixei os olhos, vi alguns papéis, o localizador e um mapa das favelas de Austin. Eu achava que não precisava de mapa — lembrava-me das favelas bem o bastante —, mas ele marcara um local específico no meio de uma área residencial.
— O nome dela é Adina — disse, prendendo um envelope e uma fotografia de uma Reboot de cabelos escuros abaixo do mapa. — Ela está de serviço às terças e quartas à noite. A aeronave normalmente aterrissa no fim da Rua Guadalupe. Entreguem esta carta a ela. Marquei o endereço dos rebeldes no mapa. Se pegarem Adina, vão para lá e eles lhes dirão como chegar à reserva.
— Está bem — falei, enfiando tudo no bolso de trás. — Tem alguma bala? Nós só temos quatro.
Ele puxou a arma e esvaziou o pente na minha mão.
— Eles são combativos a respeito de manter essa localização secreta para a CRAH. Vá à noite. Não chamem atenção. — Largou a faca na minha outra mão.
— Fiquem com isso também. Vão.
— Obrigada — respondi, enquanto Leb se virava para correr. Ele acenou ligeiramente para mim por cima do ombro antes de desaparecer por um beco.
Eu estava congelada. Leb dissera para irmos. Para que lado? Para onde? Para alguma reserva Reboot mitológica que provavelmente nem existia?
O pânico tomou conta de mim quando eu percebi o que havia feito. Eu estava na favela, cercada de humanos, e não ia voltar para a CRAH.
Eu não ia para casa.
— Wren. — Ergui os olhos e vi o rosto entusiasmado de Callum me espiando. Ele tirou a câmera do meu capacete, pegou o comunicador da minha mão fechada e jogou os dois no chão. — Acho que é melhor a gente correr.