Reboot

Amy Tintera · Capítulo 29 de 34

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Reboot

Vinte e Nove

 

 

O endereço dos rebeldes que Leb nos dera ficava depois da escola, em uma área da cidade que eu conhecia bem quando criança. A rua fazia uma curva e as casas eram tristes e malcuidadas, algumas caindo aos pedaços. Aquela parte da favela de Austin era mais parecida com Rosa, embora muitas casas tivessem sido pintadas de cores vibrantes, alegres.

Meio trotando, meio correndo pela cidade, disparávamos para trás de prédios e árvores a cada barulho. Estava completamente escuro, mas o sol ia começar a nascer a qualquer minuto, e eu queria chegar aos rebeldes antes que ficasse claro.

— Aquela ali — falei, apontando quando nos aproximamos de uma estrada de terra.

Diminuí a velocidade para uma caminhada à medida que entrávamos nela, olhando a fileira de casas marrons. De acordo com o mapa, era a última casa à direita.

No fim da rua, nos arrastamos pela grama marrom e irregular até a porta da frente. A casa não era pintada. Era de madeira, sem janelas na frente e mais estreita do que as outras casas, mas era mais comprida para os fundos. Se a intenção era não se destacar, eles haviam conseguido.

Olhei a lateral da casa e vi uma cerca baixa de madeira. Fiz um gesto para Addie e Callum me seguirem.

— Porta dos fundos — sussurrei, contornando rapidamente. Pulamos a cerca e aterrissamos em um quintalzinho minúsculo. Esgueirei-me até a porta traseira da casa e bati de leve na madeira com os nós dos dedos.

Nada.

Bati de novo, um pouco mais forte, lançando um olhar nervoso para Callum. Lidar com humanos me deixava inquieta. Odiava depender deles para qualquer coisa e conseguia ver nos olhos dele a esperança de que aquelas pessoas tivessem as respostas.

— O que é? — Ouvimos um homem murmurar do outro lado da porta.

— Somos nós — respondi, baixinho. — Hmm, Leb nos mandou.

Silêncio se seguiu às minhas palavras, e então um burburinho. Eles sussurravam uns com os outros e corriam.

Larguei a mão de Callum e toquei a arma no quadril. Ainda não ia sacá-la. Eu lhes daria uma chance.

Levou pelo menos um minuto, mas a porta finalmente se abriu, revelando um menino de olhos turvos e cachos escuros e despenteados apontando uma arma para a minha cabeça.

Dar uma chance aos humanos era uma ideia idiota.

Agarrei a arma, mas o humano logo estendeu a mão para eu parar. Ele estava tremendo.

— Não quero usá-la — disse. — Só somos cautelosos aqui. Se quiserem entrar, vamos precisar de todas as suas armas.

— Mas vocês podem continuar com as suas? — perguntou Callum.

O tom tranquilo e relaxado de Callum abalou o humano. Dava para perceber isso na maneira como os olhos dele se moviam de um Reboot para outro, engolindo em seco ao analisar Callum de cima a baixo. Ele era muito menor do que Callum — quase tão pequeno quanto eu, na verdade — e parecia ridículo apontando a arma para ele. Talvez tivéssemos a mesma idade, embora ele parecesse um pouco mais novo.

— Se quiserem entrar, vão ter que entregar suas armas — repetiu.

— Tudo bem — cedi, estendendo a minha.

Eu não precisava dela mesmo. Do jeito que o cara tremia, em dois segundos exatos, eu podia tomar a dele, quebrar seu pescoço e dançar em cima do seu corpo.

Sorri enquanto a entregava.

— Mais alguma? — indagou ele, abaixando a pistola. Olhou diretamente para Addie.

— Eu não tenho nada — falou ela, erguendo as mãos.

Tirei a faca do bolso e também a entreguei. Ele a pegou, olhando por cima do ombro. Transferiu o peso do corpo de um pé para o outro, obviamente inseguro sobre o que fazer em seguida.

Um homem apareceu atrás dele. Era muito mais alto do que o menino e segurava a beirada da porta com uma mão enorme. Também parecia ter acabado de acordar e passou a mão pelo cabelo grisalho, franzindo o cenho para nós.

— Quem é Wren? — perguntou.

— Eu.

— Adina, então? — indagou ele, e ela assentiu. Ele se concentrou em Callum. — E você é o 22.

— Callum.

— Tony — disse ele, e botou a mão no ombro do menino. — Este é Gabe. Leb nos garantiu que vocês não nos matariam. Esse plano ainda está valendo?

A pergunta foi dirigida a mim.

Callum chegou a rir um pouco e um sorriso retorceu os cantos da minha boca.

— Está.

Tony balançou a cabeça, e Gabe deu um passo para trás, mantendo a arma em punho enquanto eu atravessava o vão da porta.

O piso de madeira rangeu, e eu franzi o cenho na escuridão. Tony nos guiou por um corredor até a sala de estar, com algumas pequenas luminárias. A única janela, na cozinha à esquerda, estava coberta por cortinas escuras.

Havia outro humano, esguio, e cujo cabelo castanho e grosso ia até os ombros, sentado no sofá marrom felpudo, as sobrancelhas franzidas. Parecia ser mais ou menos da mesma idade de Tony, e me observou cuidadosamente quando entrei.

Percorri a cozinha com o olhar, mas parecia que eles eram os únicos humanos na casa.

Tony atravessou a sala a passos largos e parou à mesa da cozinha, pegando um pedaço de papel. Voltou até mim e o estendeu.

— Como prometido.

Era um mapa. Peguei-o e olhei o desenho do Texas e as instruções escritas embaixo. A reserva Reboot ficava centenas de quilômetros ao norte, não muito longe do que costumava ser a fronteira do Texas.

— Podemos ajudá-los em uma parte do caminho — disse ele. — Vocês ficam aqui até amanhã à noite, aí...

Ele parou, encarando Callum intensamente. Eu me virei e o vi encostado na parede, a mão cobrindo o nariz e a boca. Seu corpo inteiro estava tremendo.

— Ah, Deus. Ele recebeu injeções, não foi? — perguntou Tony.

— Sim. Vocês...

— Desmond, vá pegar a corda — ordenou ele.

O cara esguio se levantou em um pulo e entrou no corredor apressadamente. Apareceu um instante depois com dois pedaços de corda e se dirigiu até Callum.

— O que estão fazendo? — indaguei, pulando na frente dele.

— Sente-se — falou Tony para Callum. — Mãos atrás das costas.

Callum deu um passo à frente como se fosse obedecer, e eu agarrei seu braço, puxando-o mais para perto de mim.

Desmond continuou se aproximando como se fosse passar por cima de mim, e eu lhe lancei um olhar desafiador. Tony esticou o braço para detê-lo.

— É para nossa segurança — explicou Tony. — Os -60 não podem ser controlados sob o efeito dessas drogas malucas que a CRAH dá pra eles.

— Está tudo bem, Wren — disse Callum, passando a mão pelo meu braço antes de se aproximar de Desmond e Tony.

Desmond gesticulou para que ele se sentasse, e Callum escorregou para o chão atrás do sofá com as mãos nas costas. O humano começou a amarrá-las.

— Você ainda está entre uma série e outra, não é? — perguntou Tony para Addie.

— Estou. — Ela olhou para mim. — Eu disse a eles que talvez haja um antídoto. Ou algo para fazê-lo melhorar.

Desmond amarrou bem firme os pulsos de Callum e passou para os tornozelos.

— Existe, sim. Mas nós não o temos.

— Quem tem? — indaguei. — Está na corporação?

— Querem se sentar? — perguntou Tony, fazendo um gesto para a mesa da cozinha. — Querem água, café, alguma coisa?

Hesitei. Qual era o problema desses humanos? Eles queriam mesmo tomar água e café com um bando de Reboots?

Addie começou a andar na direção da mesa, mas eu não ia deixar Callum amarrado sozinho no chão enquanto tomava uma xícara de café. Sentei-me ao lado dele, que deu um sorrisinho para mim.

— Só quero saber como arrumar o antídoto. — Cruzei as pernas e olhei nos olhos do Tony.

Ele chegou a parecer triste por um instante, e sua solidariedade me deixou desconfortável. Eu não sabia como lidar com aquele sentimento na maioria dos casos, muito menos quando em um humano.

— Está nos laboratórios médicos na CRAH. É... impossível. Sinto muito.

Era impossível para ele.

— Vocês não têm gente infiltrada? — perguntou Addie. — Como meu pai?

— Eu estou infiltrado — disse Tony, apoiando-se na parede. — Sou guarda da corporação há anos.

Adina lhe lançou um olhar confuso.

— Onde? Nunca vi você lá.

— Trabalho nos andares humanos, nas salas de controle. — Ele se virou para mim. — Posso afirmar que é impossível que um dos nossos consiga tirar o antídoto de lá. Não temos ninguém na parte médica, e eles revistam todo mundo antes de ir embora. — Ele me deu aquele olhar solidário outra vez. — Sinto muito.

Se ele dissesse isso mais uma vez, eu ia quebrar seu pescoço.

— Tudo bem — declarei. — Só vou ter que entrar lá e pegá-lo eu mesma.

Gabe riu, mas logo parou quando olhei para ele, e engoliu em seco.

— Ah. Você está falando sério.

Tony e Desmond se entreolharam, confusos. Tony virou-se para mim e pareceu pesar as palavras cuidadosamente.

— Querida, você passou cinco anos na corporação, não?

— Sim. Não me chame de querida.

— Desculpe. Então, se você acabou de sair, conhece a segurança. Você pode conseguir entrar. E este é um pode muito grande. Mas nunca conseguiria sair.

— E no meio da noite? — indagou Addie. — Equipe reduzida.

— Mesmo assim ela está em número muito menor. E eles simplesmente trancariam as portas. Câmeras a veriam.

— Vamos encontrar uma maneira de cortar a energia elétrica — garanti.

— Geradores de emergência — disse Tony. — São acionados em aproximadamente um minuto. Você não vai conseguir a tempo.

Entrelacei as mãos enquanto uma pedra começava a se formar no fundo do meu estômago. Não me importava o que eles diziam. Eu ia encontrar um jeito de pegar aquele antídoto.

— Uma bomba — sugeri. — E se explodíssemos uma parte do lugar? Ninguém deixaria de ver.

Desmond fungou.

— Eu gosto dessa ideia.

— Eu não — disse Addie, franzindo o cenho. — Você pode acabar matando os Reboots.

— Sem falar que estamos meio sem bombas aqui — continuou Tony. — Ouça, querida... Desculpe... Wren... Se eu achasse que há um modo de conseguir, eu lhe diria. Mas não há nada que você possa fazer. — Ele soltou um longo suspiro. — Quero dizer, talvez, se você tivesse um exército de Reboots. Mas, tirando isso, não tenho ideia.

Congelei, e olhei diretamente para Addie. Nós havíamos pensado a mesma coisa.

— Quantos há lá dentro? — perguntei.

— Uns cento e pouco. — Ela olhou para Tony, seus olhos cintilando de entusiasmo. — Certo? Um pouco mais de cem?

— Vocês querem dizer nas instalações de Austin? É, há mais ou menos uns cem Reboots lá. Mas eles não são um exército; são prisioneiros.

Olhei para Callum, que tinha a sobrancelha erguida, descrente. Pousei minha mão em seu joelho e apertei de leve antes de encarar Tony.

— Então vamos soltar todos eles.