Reboot
Trinta e Dois
Passei os braços sobre o peito, tremendo no ar frio da noite enquanto observava a CRAH do abrigo de árvores que cercava o prédio. Era alto e preto, nos limites da favela de Austin — 15 ou vinte andares. Quando criança, eu não saía tanto da favela para vê-lo.
Um grupo de cerca de dez rebeldes permanecia alguns metros à minha esquerda, vestindo os uniformes pretos da corporação. Eram falsos, mas esperávamos que ninguém percebesse isso durante o caos; assim, os rebeldes poderiam subir para roubar as armas e os medicamentos que a CRAH armazenava. Era um risco enorme, e eu podia ver o medo nos rostos tensos e pálidos deles.
Callum grunhiu atrás de mim quando Tony e Addie o amarraram com cordas em volta de uma pedra. Cavamos um buraco ao lado, de apenas alguns centímetros de profundidade, o suficiente para mantê-lo escondido enquanto estivéssemos lá dentro. Suas pernas estavam bem amarradas, o pano em volta da boca abafava ocasionais rosnados, e ele mal podia se mover.
Addie recolocou alguns galhos de árvore em cima do buraco e ela e Tony se arrastaram para fora. Não dava muito para perceber através dos arbustos densos, mas eu conseguia ver os olhos inexpressivos de Callum brilhando ao nos fitar. Ele não tinha voltado ao normal.
Eu estava apavorada que já fosse tarde demais.
Virei e andei alguns metros até enxergar o céu. O sol começava a nascer e o horizonte estava banhado de vermelho, laranja e azul.
“Fui para o norte uma vez quando criança, logo antes de a epidemia acontecer.” Fechei os olhos e a voz da minha mãe encheu a minha cabeça. “Dirigimos durante três dias, de Austin, e, quando chegamos lá, eu me lembro de olhar para o céu, imaginando para onde tinha ido o resto. Há mais céu no Texas, querida. Você nunca vai conhecer mais nada, mas olhe para cima e aprecie de vez em quando.”
— Wren.
Abri os olhos e segui os raios de cor até desaparecerem ao longe.
— Wren, vamos. Desmond deve desligar a energia elétrica em alguns minutos — disse Addie.
Peguei o capacete que ela estendia para mim. Prendi-o no queixo enquanto Tony observava Callum.
— Ele deve ficar bem até vocês voltarem — falou, balançando a cabeça. — Não vai haver ninguém por aqui. Vão perseguir vocês na direção oposta.
— Sabe quanto tempo vai levar para o antídoto funcionar? —perguntei. — Ele vai conseguir sair correndo na hora?
— Deve ser muito rápido. Quanto mais baixo o número, mais rápido funciona, até onde sei. — Ele fez uma pausa e pigarreou. — O que quer que eu faça com ele se você não voltar?
Evitei olhar para Callum. Precisava me manter concentrada, e toda vez que olhava para ele começava a entrar em pânico.
— Eu vou voltar.
Não havia outra opção.
Tony abriu a boca, pareceu pensar melhor e revelou um sorriso triste. Não era a expressão mais encorajadora.
— Está bem, querida. — Ele se virou para se juntar a Gabe e Zeke e os outros humanos.
Addie e eu andamos mais para perto da cerca que limitava as terras da corporação. Não era eletrificada, mas tínhamos que esperar a energia elétrica ser desligada para que as câmeras não nos pegassem.
Ficamos nas sombras, ouvindo apenas o trilar dos grilos e a brisa soprando por entre as árvores. Meu coração batia tão alto que com certeza Addie podia ouvir, mas ela só ficou ali, firme, observando o edifício e o único segurança à vista. Afastei o medo que gritava em meu peito, afastei a vozinha incômoda que me lembrava que esta era minha única chance de salvar Callum. Eu não precisava de medo ou dúvida naquele momento.
Só precisava me concentrar.
As luzes se apagaram e eu corri, o som de botas batendo na grama à minha volta. Agarrei o metal da cerca e pulei, voando por cima dela e aterrissando alguns segundos antes de Addie. Os humanos seguiram atrás de nós.
Estendi a mão ao nos aproximarmos do prédio e todo mundo atrás de mim parou. Puxei a pistola de tranquilizante das calças e me esgueirei pela grama até a laje de concreto. Minha bota rangeu quando dei um passo para a frente; o oficial de serviço se virou, a boca escancarada, enquanto eu apertava o gatilho.
O dardo se alojou em seu peito. Ele ainda deu um passo antes de sua cabeça começar a tombar, e eu o peguei, levantando-o contra o edifício na esperança de que a câmera não o gravasse.
Peguei a chave e o cartão de acesso o cinto do guarda e a enfiei na fechadura, abrindo a porta de supetão e gesticulando para que Addie se apressasse. Ela disparou e eu a segui, deixando a porta aberta para os rebeldes.
O saguão estava escuro e deserto, a mesa redonda no meio do aposento, vazia. Nunca tinha visto um saguão da CRAH antes. Os Reboots eram sempre deixados no terraço pela aeronave.
Eles tinham pôsteres nas paredes. Propagandas de seu brilhantismo.
Contem com a CRAH para a cura! A mulher no cartaz sorria, aparentemente curada do que quer que a tivesse afligido.
A CRAH protege! Este mostrava alguns Reboots, embora estivessem distantes e desfocados, ao lado de uma aeronave.
Addie virou-se e lançou um olhar perplexo para os pôsteres ao passarmos.
— Eles estão falando sério? — resmungou ela.
O ladrilho preto parecia um rio escuro enquanto andávamos apressadamente por ele até as escadas. Demos um passo para o lado e deixamos os humanos subirem primeiro, pois se dirigiam aos andares superiores, onde ficavam alimentos, medicamentos humanos e armamentos. Fiquei quase triste ao observá-los subindo as escadas. Era uma missão suicida para pelo menos metade deles, senão todos, e eles sabiam disso.
Deixei que a porta se fechasse devagar atrás de mim. Subimos rapidamente a escada escura como piche, de dois em dois degraus, até o quarto andar. Uma luz fraca foi acesa na escada. Os geradores tinham sido ligados.
Addie olhou para mim ao segurar a maçaneta da porta. Assenti.
Ela a abriu, o suficiente para dar uma espiada.
— Dois guardas no fim do corredor — sussurrou. — Pelo menos dois no aposento, até onde eu posso ver. — Abriu um pouco mais. — Está vendo aonde vamos?
O corredor branco se estendia à minha frente. Os guardas nos fundos estavam entediados, recostados na parede e conversando baixinho, apesar do blecaute momentâneo.
À esquerda ficava a sala de controle. As portas estavam abertas e um oficial se sentou diante de um grande computador enquanto outro espiava por cima de seu ombro. A julgar pelas expressões relaxadas — e pelo fato de nenhum deles ter sacado a arma —, eles ainda não tinham nos visto pelas câmeras.
Que bom.
Acenei para Addie com a cabeça.
— Fico com os dois na sala.
Ela abriu a porta. Agachei-me e disparei em direção à sala de controle; tiros explodiram do outro lado do corredor. Os guardas se viraram do computador e estenderam as mãos para pegar as armas. Mas foram lentos demais.
Atirei duas vezes, atingindo o peito de um e o pescoço do outro. Caíram no chão em segundos, um pouco antes de eu ouvir os baques dos dois humanos no corredor.
Soltei lentamente a respiração. Passo um: feito!
Virei-me para dar a Addie um sorriso vitorioso, mas esmoreci diante de sua expressão atordoada. Ela piscou e ergueu os dedos até a têmpora.
Havia sangue.
Pulei por cima de um dos oficiais e empurrei o capacete dela para trás. O sangue ensopava seu cabelo e cobriu meus dedos enquanto eu procurava pelo buraco de bala.
— Não, está tudo bem — disse ela. Ela tremia ao empurrar minha mão para longe e puxar o capacete de volta para o lugar. — Só passou de raspão.
Assenti, embora meu estômago tenha se revirado. A bala parecia tê-la atingido mais do que de raspão.
Addie limpou a testa ensanguentada e passou por mim para entrar na sala de controle, empurrando o humano mais próximo para longe com o pé. Sentou-se ao computador. Tocou o monitor algumas vezes, e eu fiquei andando de um lado para o outro atrás dela, checando com nervosismo o corredor. Esperava que mais guardas entrassem correndo pelas portas.
Eu tinha muita sorte por aquela bala não tê-la atingido mais diretamente. Tinha dúvidas de que conseguiria chegar ao laboratório médico e livrar os Reboots. Ficaria presa ali sem ela, e Callum ficaria preso naquele buraco até a corporação encontrá-lo.
Agarrei o batente da porta e observei enquanto Addie tocava na tela de novo. Ela parou de repente, recostando-se, e eu já ia perguntar qual era o problema.
Portas destrancadas piscou na tela em letras vermelhas, brilhantes.
— Consegui — disse ela, pulando da cadeira.
Corremos de volta para a escada — uma onda de energia atravessou meu corpo quando comecei a perceber que talvez conseguíssemos.
— Quanto tempo você quer que eu espere? — gritou Addie, voando escada acima. — Devo chegar primeiro às aeronaves.
— O máximo que você puder — falei ao passar pelo sexto andar. — Mas, se a corporação apertar o cerco, decole. Encontre outra pessoa para pilotar a segunda aeronave.
— Está bem.
Parei na frente da porta do sétimo andar e olhei para Addie enquanto ela subia até o oitavo. Ela retribuiu o sorriso encorajador, mas eu podia ver o sangue ainda escorrendo de seu capacete. Ela o enxugou de novo e disparou degraus acima.
— Boa sorte — gritei.
Ela riu.
— Acho que você vai precisar mais do que eu. Estou prestes a conseguir o reforço de cem Reboots.
Ela desapareceu. Segurei a pistola de tranquilizante com mais força enquanto me virava para ficar de frente para a porta de novo. Estava na hora. Se eu não conseguisse chegar ao laboratório médico, não havia esperança para Callum.
Estendi a mão para a maçaneta e passei meus dedos em volta do metal frio.
A porta se abriu pelo outro lado, e eu dei um pulo para trás, agarrando o corrimão antes de despencar escada abaixo.
Três oficiais irromperam na escada, as armas levantadas.
Eu me abaixei assim que o primeiro oficial puxou o gatilho. Mirei na perna e enfiei um dardo nela, pulando novamente para trás quando ele caiu de cabeça pela escada.
Disparei outro tiro, atingindo o segundo oficial na barriga, ao mesmo tempo em que uma bala do terceiro oficial entrava no meu ombro. Agarrei seu braço enquanto ele tentava atirar outra vez e o torci para trás. Pressionei a pistola de tranquilizante diretamente em suas costas e ele desabou para a frente.
A expectativa pela luta suplantou meu medo, e quase sorri ao passar pelos corpos dos oficiais e estender a mão para a porta. Abri-a para um corredor branco e comprido, deserto, a não ser por um único humano correndo para longe de mim. Um humano de jaleco branco.
Arregalei os olhos quando peguei a arma de verdade no meu quadril. Eu precisava daquele humano.
— Pare! — gritei, apontando a arma bem para a esquerda, de propósito, e disparando.
Mas ele continuou correndo. Seus sapatos rangiam no ladrilho à medida que ele se dirigia para a porta de saída do outro lado do corredor. Disparei atrás dele e mirei seu ombro direito. Puxei o gatilho.
Ele soltou um grito e cambaleou, grunhindo quando seus joelhos bateram no chão. Enxugou a testa e arregalou os olhos ao me ver na sua direção.
Ele pressionou a mão ensanguentada no chão, tentando ficar de pé, mas eu cheguei lá primeiro. Levantei-o pelas costas de seu jaleco e passei o braço em volta do pescoço dele. Olhei o nome costurado no bolso. Bishop.
— Bishop — disse, apertando mais o braço em seu pescoço enquanto ele se contorcia. — Vou fazer um acordo com você. Você me ajuda a entrar naquela sala — apontei para o laboratório médico, atrás de um vidro transparente à nossa esquerda — e eu não o mato.
Bishop não disse nada. Continuou a se contorcer e a engasgar, com lágrimas correndo pelo rosto. Era jovem, vinte e poucos anos, talvez, e tinha um rosto redondo e bonito. Era meio baixo para um homem, mas eu ainda precisava ficar na ponta dos pés para segurá-lo.
— Ei — continuei, afrouxando um pouco o aperto. — Fechado?
Ele assentiu. Um soluço estrangulado escapou de sua boca, e ele a abriu mais. Estava se preparando para gritar.
Pressionei a arma em sua têmpora enquanto o arrastava pelo corredor branco e deserto.
— Gritaria é a coisa que mais odeio.
Sua boca se fechou na hora.
Parei na frente do laboratório e estendi a mão para pegar a chave eletrônica de Bishop. Passei-a pela tranca e a porta se abriu. Bishop cambaleou e eu o arrastei para dentro do aposento.
O espaço estreito abrangia quase todo o comprimento do corredor. Monitores de computador cobriam as paredes e mesas de laboratório ficavam no centro. Tinha cheiro de desinfetante e Reboot. Alguém havia tentado amenizar o cheiro de morte, mas fracassou.
Tony dissera que o antídoto estaria nos fundos do laboratório, trancado em uma grande sala de vidro. Arrastei o humano pelo centro do laboratório, passando por computadores, mesas compridas e livros grossos.
Os frascos estavam enfileirados, organizados em caixas, exatamente como Tony dissera. Também estavam rotulados, como ele suspeitava, com letras e números aleatórios que eu não entendia. Não havia como saber de qual precisava.
Passei o cartão de Bishop pela tranca e as portas se abriram. Entrei no aposento frio e soltei meu braço do pescoço do humano, cutucando seu ombro bom com a minha arma.
— Qual deles é o antídoto?
Ele piscou para mim. Havia lágrimas em seus cílios enquanto ele franzia os olhos para meu código de barras.
— Cento e setenta e oito — confirmei. — Não é para mim.
Ele hesitou, olhando dos frascos para mim. Devia saber que podia mentir. Ele podia apontar uma droga horrenda que faria coisas terríveis com Callum. Eu estava contando muito com o medo que esse humano tinha de mim.
— Acabei de lhe dizer que sou 178 — continuei, apertando a arma com mais força em seu ombro. — Não me incomodo nem um pouco em matá-lo.
Bishop respirou fundo e apontou para as caixas na prateleira de baixo. Havia três, com cerca de cinquenta frascos por caixa. O líquido dentro era opaco, quase cinza.
— Tire elas daí — ordenei. — Todas elas.
Um som vindo de cima me fez parar e olhar para o teto. Corrida. O som de cem Reboots correndo. O teto tremia, com risos e gritos preenchendo o ar.
Addie havia conseguido.
Sorri, antes de me concentrar novamente no humano, que ainda estava ali, de pé, olhando para mim. Balancei a cabeça, e ele ficou de joelhos, puxando a primeira caixa da prateleira e olhando de soslaio na minha direção.
— Vocês mataram todos nós — sussurrou.
— Por que acha isso? — Fiz um gesto para todos aqueles frascos ao redor de mim. — Eu diria que os culpados são vocês, injetando essa merda na gente.
— Estamos tentando nos proteger de vocês — disse ele, passando a mão pelo nariz e colocando a segunda caixa em cima da primeira. — Agora vocês... — Ele apontou para o teto, para o oitavo andar, também reconhecendo o som de Reboots correndo. — Vocês soltaram todos eles.
— Nós os salvamos.
Bishop grunhiu, discordando, e colocou a terceira caixa no topo da pilha.
— Pronto. Aí está.
— Tem certeza de que são os frascos corretos? Porque vou sair e testá-los imediatamente. Vou vir atrás de você se estiver errado. Acredite, você não quer que eu volte.
Ele assentiu.
— São estes.
Eu queria sorrir e gritar e pular, mas me contive. Estava tão perto. Só o que precisava fazer era sair do edifício.
Inclinei-me para pegar os frascos.
Percebi o erro assim que tirei os olhos de Bishop.
Ele saiu correndo da sala de vidro. Girei e cambaleei atrás dele.
Tarde demais. Minhas mãos bateram no vidro.
Eu estava trancada do lado de dentro.