Reboot
Onze
Quando voltei aos meus aposentos naquela noite, me arrastei para a cama e fiquei de frente para a parede. Achei que havia uma boa chance de o oficial Mayer estar me observando naquele exato momento e não tinha certeza de que meu rosto não traía meus pensamentos.
Fugir?
Era ridículo. A CRAH havia planejado as instalações para tornar isso impossível. Éramos monitorados constantemente e cercados por guardas armados; o lugar onde nossos rastreadores ficavam era segredo; e todos os humanos nas cidades estavam mais do que dispostos a nos entregar para a corporação se nos vissem.
Bem, não todos os humanos, aparentemente.
Puxei meus joelhos até o peito e franzi as sobrancelhas, tentando entender aquilo. Minha primeira reação instintiva era achar que os rebeldes estavam criando uma armadilha para nós. Ajudar Reboots a fugir usando uma história sobre uma reserva e então matá-los. Mas eu não conseguia entender o sentido disso. Se realmente quisessem se livrar dos Reboots, por que não simplesmente matá-los quando estavam fora, em missão? Criar uma estratégia elaborada para tirá-los da corporação parecia estúpido, até mesmo para um humano.
Mas se não estavam armando para nós, se estavam realmente nos ajudando com a esperança de que prestássemos assistência, era um esquema inteligente. Era um tanto otimista da parte dos humanos contar com a cooperação dos Reboots, mas era um plano sólido se desejavam se livrar da CRAH.
Franzi o rosto. Não tinha uma opinião formada sobre a união de humanos e Reboots. Ficava mais difícil odiá-los quando eles começavam a introduzir bom senso na equação.
Mal dormi naquela noite, e, quando virei de lado na manhã seguinte, Ever estava encolhida, os dedos tremendo, com as cobertas até o queixo. Eu me sentei e deixei as pernas na beira da cama, desviando rapidamente o olhar quando ela percebeu que eu a estava encarando.
Queria conversar com ela sobre o que havia acontecido na noite anterior, mas parecia cruel. Se alguém precisava sair dali era ela, e Leb havia deixado claro que não estava interessado em ajudar nenhum de nós. O que eu diria mesmo? Alguns Reboots conseguem fugir, mas parece que não vai ser nem você nem eu?
Deslizei para fora da cama e vesti minha roupa de corrida, dando outra olhada nela antes de sair do quarto e descer o corredor. O 22 estava esperando na pista, os olhos grandes e redondos cheios de arrependimento.
— Wren, eu...
— Vamos só correr — interrompi, evitando seu olhar.
Fiquei me sentindo culpada de novo e não queria que isso acontecesse quando era ele quem achava que eu era um monstro.
Saí correndo, e ele me seguiu; permanecemos em silêncio enquanto percorríamos a pista. Ele ficou calado durante toda a corrida e o treinamento posterior naquela tarde. Continuava me olhando como se quisesse pedir desculpas, mas eu o ignorei, falando com ele apenas sobre o treinamento.
— Eu o encontro no terraço daqui a uma hora — falei, quando terminamos o treinamento do dia.
Tínhamos uma missão de extração de doente naquela noite, e eu estava grata pela folga. Extrair humanos doentes para entregá-los ao hospital era uma missão fácil, dificilmente surgiam complicações. E raramente envolvia violência.
O 22 assentiu, e eu me virei para sair quando vi Leb encostado na parede do ginásio, os olhos fixos em mim. Deixei o 22 ir na frente e andei mais devagar ao me aproximar da porta, parando com metade do corpo para fora.
— Obrigado — sussurrou Leb, a cabeça baixa como se estivesse falando com o chão.
— Você ainda tem? — perguntei, meu rosto virado na direção da porta — O localizador?
— Não. Devolvi para que eles não suspeitassem que alguém de dentro havia ajudado.
Agarrei a beirada da porta, o corpo trêmulo de Ever passando na frente dos meus olhos.
— E realmente não pode...
— Não.
— Mas...
— Não. — Os olhos dele fitaram a câmera na parede. — Vá. Mayer vai perceber que você está conversando comigo.
Ele estava certo, e eu suspirei ao empurrar a porta e entrar no corredor. Talvez nem fosse uma boa ideia tentar ajudar Ever a sair. Ela não estava em sua melhor forma, e eles certamente mandariam na mesma hora oficiais da corporação atrás de um Reboot fugido. Era muito arriscado para qualquer Reboot, especialmente para uma 56 que não estava numa boa fase. Mesmo que eu achasse um jeito de ir com ela, suas chances de sobreviver eram poucas. Talvez ela estivesse melhor aqui.
Enfiei o capacete na cabeça e apertei a faixa debaixo do meu maxilar, lançando um olhar nervoso para Ever.
Ela ajustou o comunicador com as mãos trêmulas, muito mais agitadas do que esta manhã.
— Você precisa de ajuda? — perguntei.
Ela balançou a cabeça, preparando o comunicador na frente da boca.
— Callum está melhor?
— Está ótimo — resmunguei.
— Ele está se sentindo muito mal, sabe. Talvez você possa pegar leve com ele. As primeiras semanas aqui são difíceis.
Dei de ombros, apesar de achar que ela podia estar certa. A imagem dos olhos grandes e tristes do 22 surgiu na minha cabeça, e eu soltei um suspiro.
Ever se levantou, e suas pernas cederam imediatamente. Ela desabou no chão, arfando.
— Você está... — Hesitei quando ela levantou a cabeça e fixou seus olhos vidrados em mim.
Ela ficou de pé em um pulo e voou para cima de mim. Caímos, e ela bateu com meus ombros no chão, prendendo-me com seu corpo.
Agitei as pernas, mas ela não se mexeu, só mostrou os dentes e rosnou para mim.
Dois humanos apareceram do lado de fora do nosso quarto, um segurando uma prancheta. A cabeça de Ever girou, e ela disparou sobre eles. O médico com a prancheta rapidamente apertou o botão para trancar.
Eu me levantei lentamente, mantendo o olhar baixo em vez de dirigi-lo aos humanos.
Tum.
Tum.
Tum.
Fechei os olhos, ouvindo a pulsação de Ever. Eu não queria fazer isso naquela noite. Queria a verdadeira Ever de volta, a que fazia eu me sentir melhor e que gostava de ir até o refeitório comigo.
Eu sentia falta dela.
Abri os olhos e soltei um suspiro. Ever virou-se devagar, fazendo uma careta para mim como se isso a tivesse ofendido.
— Tome cuidado, 178 — gritou o médico do lado de fora.
Ah, obrigada, humano. Isso ajuda muito.
Ela pulou em cima de mim como um animal, agarrando a minha blusa enquanto eu tentava me esquivar. Ouvi quando ela rasgou o pano nas costas, segurou o que sobrara e me puxou para si, passando um braço em volta da minha barriga. Senti os dentes dela arranharem meu pescoço e dei uma cotovelada na lateral do seu corpo, desvencilhando-me dela.
Pulei para a minha cama, mas ela foi rápida demais. Seus dedos envolveram meu pulso, torcendo-o enquanto ela me puxava para o chão. Ever pulou outra vez em cima de mim e prendeu os dedos em torno do meu pescoço.
Um gemido minúsculo escapou da minha boca. Apertei os lábios, envergonhada, e esperei que os humanos não tivessem ouvido.
Mas Ever ouvira. Seus olhos clarearam, e ela soltou meu pescoço de repente, o terror tomando conta do seu lindo rosto.
— Sinto muito — falou, afastando-se. Olhou para os humanos do lado de fora, seus olhos se enchendo de lágrimas.
— Tudo bem — falei com a voz meio rouca, sentando-me e apoiando as costas na cama. Meu braço estava pendurado de um jeito estranho. — Pode colocar no lugar?
Ever agarrou meu braço e o encaixou, mantendo a cabeça baixa enquanto lágrimas começavam a escorrer por suas bochechas.
— Sinto muito — sussurrou ela novamente quando os humanos entraram.
— Está tudo bem, Ever. Sério. — Sorri, mas ela não estava olhando para mim.
— Está se sentindo cansada? — perguntou o médico com uma voz gentil, como se não fosse ele quem tivesse feito isso com ela.
Ela assentiu em silêncio, e ele esticou uma seringa, indicando o braço dela.
— Isso vai ajudar. — Injetou o líquido e deu tapinhas na cabeça dela.
Ela fechou os olhos e respirou algumas vezes.
— Está melhor? — perguntou ele. — Acha que pode sair em missão esta noite?
Ela concordou, enxugando as bochechas com os dedos.
O humano mordeu o lábio, pensando por um momento.
— É só extração de doente, não é?
— É — respondeu Ever.
— Está bem. — Ele apontou para mim. — Troque de blusa. Está rasgada na parte de trás.
Eles saíram do quarto, e eu me levantei, puxando minha blusa preta e vestindo uma idêntica. Coloquei-a por cima da camiseta, ajeitando meu capacete e a câmera.
— Está pronta? — perguntei, oferecendo minha mão a Ever.
Ela manteve a cabeça baixa até o terraço, alheia aos muitos olhares que eu lhe lançava. Não podíamos conversar sobre aquilo naquele momento, com os comunicadores ligados e os humanos escutando cada palavra.
O 22 e os outros Reboots já estavam na aeronave, afivelados. Hugo e seu novato eram a única outra equipe de treinamento que ia sair esta noite; os outros eram Reboots veteranos. Eram na maior parte os -60, exceto Marie 135, que estava em sua segunda missão solo desde o fim do nosso treinamento. Missões de extração de doentes não exigiam muita habilidade. Olhei para os -60 ao entrar na nave, procurando sinais da insanidade que eu havia acabado de ver em Ever. Mas os olhos deles estavam desalentados, as expressões vazias.
Dois oficiais estavam no canto da aeronave. Um rapaz chamado Paul e outro que eu não conhecia. O estranho deu um sorriso de escárnio para nós e apontou a arma diretamente para mim, mostrando os dentes amarelos.
— Sente-se — ordenou.
Dois oficiais não eram um bom sinal.
Escorreguei para o assento ao lado do 22 e ignorei seus esforços para atrair meu olhar. Não estava no clima.
Viajamos para o coração da favela, em silêncio, formando fila para sair da nave quando Dentes Amarelos rosnou a ordem. A favela estava mais quente naquela noite, sem a brisa gelada dos últimos dias.
— Está com o mapa? — perguntei ao 22, entregando-lhe a ficha da missão enquanto a porta da aeronave se fechava atrás de nós.
Ele assentiu, levantando-o para mim.
— Missões de extração de doentes são mais fáceis — falei, ao vê-lo estudando o mapa. — Só vamos extrair os doentes que estão contaminando a cidade.
— Por que eles se importam? — perguntou, fazendo um gesto para a aeronave.
— Estão tentando livrar a população humana das doenças. Não podem fazer isso se esses humanos andarem por aí infectando todo mundo. Estão prevenindo uma segunda epidemia em massa.
Ele franziu o cenho, mas não disse nada.
— Por ali? — apontou.
— É.
Descemos uma rua de terra cercada de pequenas casas e barracos. Aquela área da cidade ainda não fora completamente edificada, com alguns humanos vivendo em locais improvisados até construírem algo mais consistente. Era a pior das favelas, e o cheiro de morte e doença fazia meu nariz coçar. O clima quente piorava o fedor, apesar de não ser nem de perto tão ruim quanto no verão, quando ficava tão forte que eu tinha que prender a respiração.
Parei na frente de um barraco construído com alguma espécie de plástico. Não era particularmente firme; na verdade, estava tão cheio de furos que eu duvidava que oferecesse muito abrigo. Os galhos de árvore que o sustentavam pareciam trêmulos, na melhor das hipóteses.
— Bell Trevis — chamei.
Ouvi uma tosse no lado de dentro; as laterais do barraco se abriram e uma moça saiu. Seu cabelo oleoso estava emaranhado na cabeça, os olhos fundos e pretos. Manchas vermelhas salpicavam seu queixo, provavelmente de quando ela tossiu sangue.
Ela esticou os braços para a frente. Os doentes raramente lutavam.
— Eu a peguei — disse o 22, segurando-a no colo.
— Você precisa algemá-la — falei.
— Por quê? O que ela vai fazer? Correr? — Ele olhou para a humana. — KDH?
A humana assentiu, a cabeça balançando de um lado para o outro como um recém-nascido. Ele a ajeitou cuidadosamente em seu peito.
— Não fale com ela, 22.
Ele só franziu o cenho em resposta e virou de costas, dirigindo-se para a aeronave.
— Vinte e dois! — Soltei um suspiro exasperado e falei no comunicador: — Wren 178 com 22. Estamos com o alvo.
— Voltem para a nave. Controle seu novato, 178.
Corri para alcançar o 22, que estava com a cabeça baixa, conversando com a humana.
— Vai chegar um momento em que você não vai sentir nada — disse ele.
— Vinte e dois!
— Fica tudo dormente. Nem vai perceber quando morrer... prometo.
— Você não pode conversar com os humanos — falei, agarrando o braço dele, que parou e me encarou.
Puxou o braço para longe, mas ficou em silêncio em seguida. Colocou a mulher gentilmente na aeronave com os outros doentes, fingindo não perceber minha expressão irritada enquanto nos arrastávamos para a nossa própria aeronave.
Os outros Reboots estavam em fila, e nós nos juntamos a eles. Senti meu estômago se revirar quando os oficiais fecharam a cara para nós. Algo estava errado. Olhei para Ever, mas ela estava com os olhos baixos, inexpressivos.
— Temos Reboots trazendo itens de campo e ameaçando oficiais — disse Paul. — Temos que revistar antes de embarcar agora.
Tirei minha camisa e abri os braços, como sempre.
— Tudo — falou Paul, balançando a mão. — Camiseta de baixo também. Puxem os bolsos para fora e abaixem as calças. Deixem as roupas de baixo, não precisamos ver isso.
Os outros Reboots seguiram a ordem imediatamente, camisas foram tiradas e calças caíram no chão com um silvo suave.
Passei o dedo no botão das minhas calças, olhando o peito nu dos Reboots na fila. Ninguém parecia perturbado pela ordem. Provavelmente já tinham visto uns aos outros de roupa de baixo. Pelo canto do olho eu podia ver que até o 22 havia obedecido.
Ninguém jamais me vira sem roupa.
— Ei.
Ergui os olhos e vi Dentes Amarelos apontar a arma para mim. Ele balançou a cabeça, indicando que eu obedecesse.
Meus dedos tremiam tanto que eu não conseguia abrir o botão das calças. Não conseguia passá-lo pela casa. E essa nem era a parte ruim. As calças, tudo bem.
Mas a blusa. Eu não podia tirar a blusa.
— Quem é esta? — perguntou Dentes Amarelos.
— É a 178 — disse Paul.
Eu não deveria ter que tirá-la. Salvei Leb. Não fui eu quem puxou a faca para um oficial.
— O que há de errado com você? — perguntou Paul, enfiando a arma nas minhas costas.
Todos os Reboots na fila se viraram para mim. Marie 135 franziu o cenho, quase preocupada, enquanto acenava com a cabeça para que eu seguisse as ordens deles.
Eu o salvei. Queria gritar isso para eles.
— Ei — vociferou o 22, agarrando o cano da arma. Soltei um arquejo minúsculo. — Quer parar com isso? Ela não deveria ser obrigada se não quiser fazer isso.
Paul puxou a arma e bateu com o cano na cabeça do 22. Eu me encolhi quando ele cambaleou e puxei o botão da calça novamente. Paul se afastou de mim, a arma então apontada para o 22.
Dentes Amarelos soltou um suspiro irritado e colocou a arma no coldre, indo a passos largos até mim. Ele me puxou pelo cós da calça, passou o botão pela casa e arriou-a.
— Qualquer outro teria levado um tiro no cérebro — resmungou, agarrando a bainha da minha camisa e puxando-a pela cabeça.
Apertei os braços contra meu sutiã branco e fino e tentei respirar, mas meus pulmões não cooperaram. Meu peito subia e descia depressa demais, minha garganta se apertava dolorosamente.
— Pelo amor do Texas — falou Dentes Amarelos, completamente exasperado, puxando meus braços para o lado. — Parece até que você é uma novata.
Dentes Amarelos fez uma careta ao ver as cicatrizes feias que se estendiam pelo meu peito e rapidamente desviou o olhar.
Mas os Reboots, não. Todos ficaram olhando fixamente.
Virei a cabeça para o outro lado, tentando não deixar meus braços tremerem. Não consegui.
O 22 não olhou para mim. Seu rosto estava virado para o lado, de forma que eu não pudesse ver nada além de sua nuca. Ele não havia olhado.
— Muito bem, vistam-se de novo. Para seus assentos — ordenou Paul.
Agarrei minhas duas blusas e as puxei por cima da cabeça o mais rápido possível, meus olhos no 22 — em Callum — o tempo inteiro. Ele ainda não havia olhado para mim.
Abotoei as calças e me sentei ao lado dele, afivelando imediatamente o cinto. Minhas mãos tremiam quando as coloquei no colo, virei para o lado e vi Callum fitando-as. Eu as apertei com força uma contra a outra para fazer o tremor parar, mas não funcionou.
Ever atraiu minha atenção quando levantei a cabeça e me lançou um olhar solidário que fez a pressão no meu peito piorar, não melhorar. Mantive o olhar no colo.
Quando a aeronave aterrissou, saí por último, atrás de Callum. Minhas pernas trêmulas não estavam mais funcionando direito. Fiquei para trás enquanto os outros Reboots marchavam pelo terraço e desciam a escada.
Callum ficou parado no alto da escada e esperou, segurando a porta aberta para mim. Agarrei o corrimão, cambaleando escada abaixo com minhas perninhas idiotas.
Senti algo quente na minha mão livre e baixei os olhos. Callum entrelaçou seus dedos nos meus. Sua pele era agradavelmente quente contra a minha carne fria e morta, e eu agarrei a mão dele em agradecimento, tentando sorrir. Seus olhos grandes cintilaram de preocupação e solidariedade, mas ele retribuiu o sorriso.
Descemos lentamente a escada e atravessamos o oitavo andar. Eu não queria soltá-lo, mas a ala dos homens era para a esquerda, e a das mulheres, para a direita. Ele apertou minha mão e eu a puxei, enfiando-a no bolso para tentar manter o calor.
Quando cheguei ao quarto, evitei os olhos de Ever ao despir minhas roupas de campo e vestir um moletom.
— Wren, não é nada... — começou ela.
Franzi as sobrancelhas para ela enquanto subia na cama, e Ever parou de falar. Puxei as cobertas para cima da cabeça e me encolhi até a escuridão me engolir.