Reboot
Vinte e Seis
— Wren. — O hálito de uma Callum fez cócegas na minha orelha, e eu me remexi, esfregando a testa no peito dele. — O sol está se pondo.
Espiei com os olhos entreabertos para ver o quarto banhado em uma luz alaranjada. A pele de Callum estava resplandecente e quase humana sob o brilho.
Estiquei as pernas na maciez dos lençóis. Segurava o edredom felpudo agarrado debaixo do queixo. Estava dentro de uma nuvem — uma nuvem luxuosa e borbulhante onde meu corpo afundava em uma cama mais macia do que qualquer coisa que eu já tivesse sentido. A nuvem tinha o cheiro de Callum. Como uma mistura de sabonete e tempero e calor e uma inconfundível pitada de Reboot.
Ele afastou o cabelo da minha testa e pressionou os lábios na pele, acendendo uma trilha de fogo até meu pescoço.
— Deveríamos partir logo. — Seus olhos escuros encontraram os meus, e não vi sentido em fingir que não estava com medo. Ele já podia ver isso. Esfregou o polegar na minha bochecha, e seu olhar firme sugeria que ele não se incomodava com meu medo.
Aceitei, mas não me mexi. Preferia ficar nessa cama com ele a noite toda, o dia todo, a semana toda. Esquecer Adina, esquecer a reserva inexistente, esquecer tudo a não ser os braços e o sorriso de Callum.
Mas ele estava tremendo. Seus dedos estremeceram ao me acariciar, e ele rolou para o outro lado, passando as pernas pela beirada da cama. Deu uma espiada furtiva em suas mãos trêmulas antes de se esticar para pegar suas roupas.
O pânico que rasgou meu peito tirou meu fôlego, e eu enfiei o rosto na cama com medo de gritar.
— Talvez eu tenha uma camisa menor para você — disse Callum, pulando para fora da cama e caminhando até o armário, do outro lado do quarto. — Algo de quando eu tinha uns quatro anos.
Eu ri contra o colchão, sentando-me e afastando o medo. Apoiei-me no peito, insistente, zombeteira.
— Pelo menos sete — rebati. — Não sou tão pequena assim.
— Tome — falou ele, jogando uma camisa azul-clara para mim. — Ainda vai ser grande demais, mas talvez você possa amarrar a parte de baixo.
Ele saiu do quarto para trocar de roupa, e eu vesti minha calça e a blusa dele, que chegava até o meio das minhas coxas. Tentei dar um nó, mas desisti e enfiei a camisa para dentro das calças. Peguei o moletom preto que ele havia jogado na cadeira da escrivaninha e sorri quando senti a maciez ao vesti-lo.
Callum voltou e colocou o visualizador de fotos e uma câmera pequena em uma mochila, junto com algumas peças de roupa.
— Podemos ver se meus pais deixaram alguma comida, mas eu duvido muito — disse ele, fechando o zíper da mochila e jogando-a nas costas.
A cozinha estava vazia a não ser por alguns pratos lascados deixados para trás. Callum encolheu os ombros e me estendeu a mão.
— Pronta?
Nunca.
— Pronta — falei, pegando a mão dele.
Dei uma última olhada em volta enquanto saíamos pelo corredor e entrávamos na sala de estar. Callum parecia se esforçar para não olhar, focando o chão e abrindo a porta da frente para mim. A temperatura havia caído muito desde a noite anterior, e o ar estava frio. Até Callum estremeceu.
— Uma parada antes de atravessarmos — disse ele, apontando para a casa ao lado. — Tenho que descobrir para onde minha família foi.
— O que vamos fazer? Ir até lá e perguntar?
— Isso mesmo — respondeu ele, puxando-me para os fundos da casa. Ele bateu em uma janela dos fundos antes que eu pudesse protestar.
As cortinas se abriram, e um garoto humano não muito mais novo do que nós espiou, soltou um grito e fechou-as quando nos viu.
— Eduardo! — gritou Callum. — Só preciso saber aonde meus pais e David foram!
Eduardo deu outra espiada, os olhos arregalados e a testa pressionada no vidro.
— Callum?
— Sim.
— É ruim?
A pergunta podia significar várias coisas, mas Callum assentiu.
— Sim, é ruim.
A respiração de Eduardo embaçou a janela enquanto ele piscava de horror.
— Você fugiu?
— Fugi. Sabe para onde minha família foi?
— Minha mãe disse que foram para o Tower Apartments.
— Obrigado — disse Callum, dando um passo para trás.
— Espere — pediu Eduardo, abrindo a janela. Callum deu mais um passo para trás. — Qual é o seu número?
— Vinte e dois — disse ele, erguendo o pulso.
Eduardo sufocou uma gargalhada.
— Ah, que fofo.
Eu ri e Callum sorriu para mim.
— Quem é ela? — perguntou Eduardo.
— Wren. Cento e setenta e oito. Não a chame de fofa.
— Cento e setenta e oito! — exclamou Eduardo alto demais. — Pelo amor do Texas!
— Obrigado — disse Callum, puxando-me para o seu lado e começando a nos virar.
— Esperem, esperem — chamou Eduardo outra vez. Ficamos de frente para ele de novo enquanto ele mordia o lábio nervosamente. — Depois que você morreu, minha mãe me perguntou o que eu iria querer fazer se ficasse doente.
— O que você iria querer? — repetiu Callum.
— É, você sabe. Se ela deveria garantir... — Fez uma arma com os dedos e a segurou na têmpora.
Eu ouvira falar nisso. Ninguém jamais pedira a minha opinião sobre o assunto e descobri que não saberia bem o que dizer. Olhei para Callum e vi uma expressão similar em seu rosto. Ele ergueu as sobrancelhas para mim inquisitivamente.
— Não — falei.
Eduardo olhou para Callum para confirmar e, por um tempo, achei que ele talvez discordasse.
— Não — respondeu ele, finalmente. — Arrisque a reinicialização.
— Está dizendo isso só porque o seu cérebro está todo bagunçado agora? — perguntou Eduardo.
— Talvez. — Callum balançou a cabeça, brincando, e Eduardo deu um sorriso largo.
Dei uma olhada perplexa para Callum enquanto ele ria e se virava de costas. Nunca havia presenciado uma troca tão amigável entre um humano e um Reboot.
— Você sabe onde ficam os Tower Apartments? — perguntou ele, passando um braço por cima dos meus ombros.
— Provavelmente posso nos levar até a área. — Virei-me para olhar a janela fechada de Eduardo. — Ele era seu amigo?
— Era.
— Não estava com muito medo de nós.
— A maioria dos garotos tem mais medo de virar Reboot do que dos Reboots em si.
— Isso faz sentido, eu acho.
Andamos pela parte de trás do bairro, em silêncio. A cada passo, o meu pavor aumentava, a favela que eu conhecera começava a tomar forma na minha cabeça.
Quando nos aproximamos do muro, parei e fiquei olhando. Alguém o pintara, um mural lindo de crianças brincando e pessoas correndo sob a luz do sol. Tive vontade de estrangular o artista.
Não havia oficiais desse lado do muro. Quem iria querer entrar escondido na favela?
— Wren — disse Callum, fazendo um gesto para que eu o seguisse.
— Estou com medo. — A confissão saiu da minha boca antes que eu pudesse impedir.
Ele olhou para o alto do muro.
— De voltar?
— É.
— Talvez seja melhor do que o que você se lembra.
Eu me aprumei o máximo que pude e respirei fundo. Não era como se eu tivesse opção. Eu tinha que ir.
— Deixe-me verificar antes — falei. Icei-me para o alto e espiei do outro lado. Não vi nada além de grama, até olhar para a esquerda e avistar um oficial posicionado a alguns metros de distância. — Em silêncio — sussurrei para Callum.
Pulei para baixo, e meus pés fizeram um barulho. O oficial se virou. Callum aterrissou ao meu lado, e saímos correndo. O silêncio nos seguiu. Ou o oficial era um rebelde ou não estava nem aí para dois garotos malucos do rico invadindo a favela.
Parecia familiar. O centro da favela ao longe, o centro médico à minha direita, as fileiras de barracos à esquerda.
Tinha cheiro de morte. O ar puro do rico havia sumido, o aroma de flores e de grama tornou-se apenas uma lembrança.
Parecia a minha casa. Estávamos na pior área da favela, na parte em que um dia eu havia morado, e apertei os olhos bem fechados quando reconheci um prédio grande cheio de apartamentos pequenos.
“Está tentando nos matar?”
Meu pé ficou preso em alguma coisa e meu rosto bateu na terra. Arfei, afastando as imagens dos meus pais da cabeça.
— Wren — disse Callum, abaixando-se ao meu lado.
Minha respiração escapou em arfadas curtas, como se eu fosse uma humana. Fiz esforço para ficar de pé e apoiei as mãos nas coxas.
Por que concordei em vir aqui? Por que fiz isso comigo mesma?
Callum me pegou do chão e me carregou nos braços. Afundei meu rosto em seu peito e tentei diminuir a velocidade da minha respiração, mas ela ainda vinha em arfadas que sacudiam meu corpo.
Ele se abaixou atrás do centro médico e me colocou gentilmente no chão. Agarrei as pernas junto ao peito e ele se agachou na minha frente, passando os dedos pelo meu cabelo.
— Não quero estar aqui — sussurrei, enterrando a cabeça nos joelhos de vergonha.
— Eu sei. — Ele continuou acariciando meu cabelo e isso me acalmou. Minha respiração começou a ficar mais lenta até meu corpo parar de tremer. — Conte-me uma lembrança boa — pediu ele.
— Não há nenhuma.
— Tem que haver pelo menos uma coisa boa.
— Se tem, não lembro — respondi.
— Pense melhor.
Parecia inútil, mas fechei os olhos e pensei mesmo assim. Nada me veio à mente, a não ser gritos e tiros.
— Minha mãe dizia que eu parecia um macaco — falei finalmente.
Ele olhou confuso para mim.
— Como?
— Ela dizia que, quando eu me encurvava, parecia um macaco, e que eu tinha um rosto bonito e não deveria escondê-lo.
— Você tem mesmo um rosto bonito — disse ele com um sorrisinho.
— Então isso é meio feliz, eu acho. De qualquer modo, não me faz sentir mal.
— Como ela era? — perguntou Callum.
— Não sei. Só me lembro de poucas coisas sobre ela.
— Mais agora? — adivinhou ele.
— Sim.
— Talvez isso signifique que você sente saudades dela.
— Talvez isso signifique que meu subconsciente é mau.
Ele riu, inclinando-se para beijar minha testa de leve.
— Você sente saudades dos seus pais — afirmei. Não era uma pergunta.
— Sinto. — Ele parecia quase envergonhado.
— Vamos encontrá-los, então — falei com um suspiro, levantando-me devagar. — Preciso chegar à Rua Guadalupe em breve para ver se há aeronaves. Adina deve estar em missão esta noite.
— Você está bem? Podemos descansar mais, se quiser.
— Nós descansamos o dia inteiro.
— Bem, não foi tudo descanso — falou ele com um sorriso provocador que me fez corar. Ele me agarrou pela cintura e me beijou. Era verdade que passamos boa parte do dia nos beijando mais do que dormindo. — Obrigado — acrescentou ele quando me soltou — por vir comigo. Por não encher meu saco por eu querer ver meus pais.
— Eu definitivamente enchi seu saco.
— Então, obrigado por encher meu saco só um pouquinho.
— De nada.
— Por ali? — perguntou ele, apontando.
Assenti e entrelacei meus dedos nos dele ao descer a rua. Não havia humanos fora de casa esta noite. Nem unzinho. Isso só confirmava a minha lembrança — o toque de recolher era rígido na favela de Austin.
Chutei a terra com minha bota, e o vento a soprava de volta nas minhas calças. A brisa gelada me esbofeteava. Passei um braço em volta da minha barriga e franzi o rosto para enfrentá-la.
Meus pés se arrastavam; o som das botas arranhando o chão era reconfortante e familiar.
— Quer parar? — indagou Callum, dando uma olhada divertida para meus pés.
— Não. Isso me lembra...
Ergui os olhos e vi a escola à minha direita. Os três prédios brancos pareciam iguais. Era maior do que a escola em Rosa, e definitivamente mais alegre. Eles os pintaram com os materiais que tinham. Alguém havia desenhado grandes flores pingando com alguma espécie de líquido preto grosso.
A lateral do prédio maior estava coberta de alguma coisa, e eu respirei fundo quando me lembrei do que era.
— Podemos fazer uma pausa por um minuto? — perguntei, soltando a mão de Callum.
— Claro. O que foi? — indagou ele, me seguindo.
— Eles fazem uma colagem de fotos. De todas as crianças que morreram.
O rosto dele se iluminou.
— Você está lá? Você humana? — Ele saiu pulando na minha frente.
— Provavelmente não. Acho que os pais que dão as fotos. Mas achei que talvez...
Parei na frente da parede. Centenas de fotos estavam coladas no prédio, protegidas por um plástico grosso. Todo mês, mais ou menos, os professores retiravam o plástico e colocavam as fotos novas, e nós nos reuníamos em volta e contávamos histórias sobre os garotos que havíamos perdido.
— Que tal esta aqui? — perguntou Callum.
Olhei para a garota loura e esguia.
— Não.
Meus olhos percorreram as fotos, mas não vi minha imagem humana em nenhuma delas. Duvidava de que meus pais tivessem muitas fotos minhas e achava difícil acreditar que alguém as tivesse procurado depois da minha morte.
Aí eu a vi.
A menininha não fizera uma careta para a câmera, mas estava visivelmente contrariada. Seu cabelo louro estava sujo e suas roupas eram grandes demais, mas ela parecia durona. Tão durona quanto uma humana de 11 anos podia parecer. Seus olhos eram azuis, a única parte bonita do seu rosto.
Era eu.
Coloquei meu dedo no plástico, tocando o rostinho feio da humana.
— É você? — indagou Callum, aparecendo ao meu lado. — Ah, não é, não.
— É, sim — falei, baixinho.
Ele apertou os olhos para a fotografia na escuridão. Talvez estivesse observando as bochechas cavadas, o queixo pontudo ou a forma como ela olhava para além da câmera.
— Tem certeza? — perguntou ele.
— Tenho. Uma professora tirou, eu me lembro.
— Você está diferente agora.
— Ela era tão feia.
— Você não era feia — disse ele. — Olhe só para você. Você era bonitinha. Não especialmente feliz, mas bonitinha.
— Ela nunca estava feliz.
— A forma como você não para de se referir a si mesma na terceira pessoa está me assustando.
Abri um sorriso.
— Desculpe. Eu não me sinto mais como aquela pessoa.
— Você não é. — Ele olhou para a foto de novo. — Nunca pensei nisso antes, mas fico feliz por você não ser humana. Isso é uma coisa esquisita de se dizer?
— Não. Também fico feliz por você não ser humano. — Estendi a mão para ele. — Vamos.
— Espere — disse ele, tirando a câmera da mochila. Ele a ergueu perto da fotografia e tirou uma foto. — Você precisa de pelo menos uma foto dela.
Guardou a câmera e segurou minha mão enquanto nos dirigíamos para a cidade. A rua ficou mais larga quando passamos pelo mercado e pelas lojas. O centro da cidade era uma rua comprida e reta, uma rua que eu substituíra na minha cabeça por uma de Rosa.
Não era igual. Os prédios de madeira eram todos pintados, como se fossem de gente rica com dinheiro sobrando. Mas não eram pintados de cores normais, como branco ou cinza. Eram pintados com desenhos elaborados — flores cor-de-rosa enormes, labaredas laranja e vermelho jorrando pelas portas, estilosos esqueletos coloridos dançando na lateral dos edifícios.
— É mais bonito aqui do que em Rosa — disse Callum, surpreso.
— Aqueles são os Tower Apartments — falei, apontando para o complexo de três andares no fim da rua.
Ele apertou minha mão. Havíamos chegado aos Tower Apartments mais rápido do que eu esperava. Fiquei surpresa por ter ido na direção certa, e mais ainda por ir diretamente para lá.
— Eles... podiam ser piores — disse Callum, olhando para eles.
Podiam ser piores. Pintaram um sol no topo do edifício e pequenas árvores e um céu entre as janelas dos apartamentos. Eu não me lembrava de nada disso, só que era o prédio mais alto na favela de Austin, com três andares.
Nós nos aproximamos da porta, e Callum estudou o Registro de Ocupação Humana afixado à parede.
— Apartamento 203 — falou, apontando para o nome Reyes.
Puxou a porta principal, mas estava trancada. Puxou com mais força, até o trinco ceder, e nós passamos.
Fui me arrastando pela escada até o segundo andar. As paredes eram de um branco comum, encardido, o piso de cimento sujo. Dava para ouvir sons abafados de humanos conversando, e Callum pressionou a orelha na porta com o número 203.
Ele gesticulou para que eu me aproximasse, mas só me movi alguns centímetros, com o pavor começando a subir. Eu deveria ter brigado mais com ele em relação a isso.
Callum bateu de leve, e eu ouvi as vozes se calarem.
— Mamãe? Papai? — sussurrou ele.
Um baque irrompeu do apartamento, e Callum pulou. Eu queria cobrir meus olhos com as mãos, me esconder até estar tudo acabado, mas me mantive firme.
Uma fresta foi aberta. Eu não conseguia ver ninguém, mas Callum sorriu. A porta se abriu mais um pouco.
O homem que a segurava entreaberta era muito parecido com Callum. Alto e esguio, com cabelo escuro desgrenhado como nas fotos antigas do filho.
Ele ficou boquiaberto com o choque, e seu corpo começou a tremer. Olhava Callum dos pés à cabeça, como se procurasse alguma coisa.
Uma mulher apareceu atrás dele, o cabelo escuro preso para trás em um coque desarrumado. Tinha a mesma pele morena de Callum, apesar da sua pele humana ser um pouco mais escura. Embora tivessem olhos escuros parecidos, os dela eram arregalados e enlouquecidos. Colocou a mão na boca, pronunciando estranhos sons guturais.
— Está tudo bem, sou eu — disse Callum, o sorriso sumindo.
Respirei fundo e, por um instante, torci pelo melhor.
As lágrimas podiam ser porque estavam muito felizes em vê-lo.
O choque podia ser porque não esperavam vê-lo novamente.
Eles iam abraçá-lo e dizer que haviam sentido saudades.
O pai soltou um soluço engasgado e apertou bem os olhos.
Ele não conseguia olhar.
— Ainda sou eu — continuou Callum, desesperadamente.
A mãe gemeu, e eu dei uma olhada rápida em volta. O humano no apartamento do outro lado do corredor espiava pela porta entreaberta.
Dei um passo para a frente e toquei no braço de Callum. Seus pais ficaram ainda mais histéricos quando me viram.
— Vamos — falei, baixinho.
— Mamãe! — exclamou Callum. Ela estava à beira das lágrimas. — Você não... — Ele pegou a mão dela. — Ainda sou eu, está vendo?
A mãe colocou a mão no rosto para chorar mais enquanto tentava arrancar a outra dele. Ela deve ter achado ele muito frio. Morto.
— Pai, olhe para mim — pediu ele, desistindo da mãe e tentando desesperadamente fazer com que seu pai o encarasse. — Apenas olhe!
Eles não olharam, nenhum dos dois. O pai começou a fazer acenos desesperados com as mãos. Seus olhos esquadrinharam o corredor ao tentar enxotar o filho.
— Vá. — A voz saiu baixa, estrangulada, enquanto ele empurrava sua esposa para trás. — Se eles o virem aqui...
A corporação podia prendê-los se encontrassem Callum ali.
— Mas... — Callum tomou fôlego, trêmulo, quando viu algo atrás deles.
Fiquei na ponta dos pés para ver além de sua mãe. Um garoto de cabelo escuro estava em pé ao lado do sofá. David, presumi. Ele fitava Callum, mas não fez nenhum movimento na direção do irmão.
— Vá — repetiu o pai, entrando no apartamento.
Ele bateu a porta.