Reboot
Vinte e Três
O Silêncio me cercava. Nunca havia vivenciado tanta quietude. Conhecia os sons da cidade, das aeronaves ou da respiração de Ever tentando dormir, mas esse tipo de silêncio me era completamente estranho. Eu me sentia uma intrusa naquele mundo. Ainda estávamos bem na periferia de Rosa, mas eu estava em um novo planeta, um no qual não havia nada além de Callum e uma brisa soprando de leve contra a minha pele.
As árvores davam uma cobertura sólida, mas o chão era irregular, cheio de folhas, buracos e galhos caídos. Eu pulava, me desviava e tropeçava. Minha respiração ficou mais regular durante a cicatrização, equiparando-se à de Callum, enquanto nossos pés batiam no chão.
A recuperação nos aliviou apenas por um momento, logo, diminuí a velocidade quando meu estômago se revirou em protesto. Só havíamos corrido uns seis quilômetros, mas meu rosto estava quente e minhas pernas, trêmulas. Callum olhou para mim, franzindo as sobrancelhas. Andou mais devagar, puxando minha mão para que eu parasse.
— Você está bem? — perguntou.
Eu assenti.
— Estou. Só estou com fome, acho.
Eu não havia comido uma refeição de verdade há mais de 24 horas e meu corpo não gostou de correr tanto com tão pouco combustível. Meu corpo não gostava nada de tão pouco combustível, na verdade. Estava acostumado a ser bem alimentado, e regularmente, nos últimos cinco anos.
Eu me sentia pior quando parada e estremeci quando estiquei a mão para meu ombro esquerdo. Podia sentir o caroço duro de uma bala alojada ali. Minha pele havia se fechado por cima dela.
Tentei ignorar a dor latejante, mas era mais difícil quando eu estava fraca. Franzi o cenho. Era irritante.
— O que foi? — perguntou Callum, esticando a mão para meu ombro.
Eu o afastei com um gesto, virando o rosto para o outro lado. Era constrangedor que alguém pudesse ler as emoções no meu rosto. Eu achava que ninguém jamais fosse capaz de fazer isso, mesmo quando eu era humana.
— Não é nada — resmunguei. — Tem uma bala aí dentro.
Ele esticou a mão novamente, e eu deixei que pressionasse o local.
— Quer que eu tire para você?
Hesitei, olhando em volta. Estava escuro, deserto. Ainda estávamos bem longe de Austin e havíamos saído de Rosa o suficiente para despistar quaisquer aeronaves ou oficiais. Uma brisa levou algumas mechas soltas de cabelo do meu rabo de cavalo para meu rosto, e eu as afastei.
— Talvez seja melhor só irmos em frente.
Callum sorriu afetadamente ao estender a mão.
— Só me dê a faca.
Eu a puxei da calça e a entreguei. Senti uma pequena onda de alívio por ele não ter concordado em continuar correndo. Era a última coisa que eu queria fazer.
— Provavelmente vai ser mais fácil se você se sentar — disse ele enquanto eu tirava minha jaqueta.
Olhei em volta uma última vez antes de escorregar devagar para a terra e cruzar as pernas. Fechei os olhos brevemente e tudo em mim desabou em uma pilha de exaustão. Os dedos de Callum roçaram meus braços quando ele se sentou atrás de mim, e estremeci com seu toque. Seus dedos encontraram o buraco que a bala havia feito na minha blusa e, quando ele falou, pude sentir sua respiração no meu pescoço.
— Você precisa tirar isso.
Puxei meus braços pelas mangas da camisa e a deixei pendurada em volta do pescoço por cima da camiseta.
— Hmm, só enfio a faca ali? — perguntou ele, segurando meu ombro firmemente com uma das mãos.
— É. Não precisa ser cuidadoso. Rápido é melhor.
— Está bem. — Ele soltou a respiração, e eu senti a ponta da faca cutucar minha pele. Fechei os olhos quando ele apertou com mais força. Era mais fácil bloquear a dor com a respiração dele no meu pescoço e seu calor atrás de mim.
A bala bateu no chão com um baque, e Callum colocou a faca de lado, as mãos escorregando pelos meus braços.
Ele se inclinou para a frente até sua bochecha roçar meu rosto, a barba rala fazendo cócegas na minha pele. Entrelaçou os dedos, virando a cabeça de tal forma que seus lábios roçaram minha têmpora.
— Isso foi a coisa mais nojenta que já fiz — sussurrou, uma ponta de divertimento em sua voz.
Eu ri e ele apertou minha mão, seus lábios formando um sorriso contra minha pele. Eu me virei e nossos olhares se encontraram, e depois nossos lábios, por um breve momento. Foi ele quem chegou para trás, a expressão preocupada de volta.
— Quer procurar comida? — perguntou. — Você parece exausta.
Afastei-me dele, enfiando os braços na blusa.
— Estou bem. Vamos continuar.
Callum parecia querer discutir, mas, quando vesti minha jaqueta e comecei a andar, ele seguiu sem dar uma palavra. Considerei tentar pegar um animal, mas não vi nenhum, e não podíamos fazer fogueira para cozinhá-lo mesmo. A corporação poderia ver a fumaça.
Era diferente ficar sem comida como Reboot. Como humana, fora desconfortável, doloroso, desgastante. A fome tomava conta até eu não conseguir pensar em mais nada.
Minha mente estava mais clara como Reboot. Eu podia me concentrar em outras coisas, mas a corrosão no meu estômago era pior. Era como se um monstro estivesse me comendo por dentro.
Não havia pensado na comida quando estava planejando nossa fuga. Não havia pensado em muitas coisas, como onde iríamos dormir ou encontrar água e roupas limpas. No desespero de tirar Callum de lá, eu não havia pensado que talvez estivéssemos em pior situação do lado de fora. Possivelmente a CRAH tinha razão e eles estavam nos fazendo uma gentileza ao nos dar abrigo e nos alimentar. Sim, tecnicamente, éramos seus escravos, mas talvez isso fosse melhor do que o que iríamos enfrentar ali fora.
Sinto muito. A voz de Ever soou em meus ouvidos, tão clara quanto no dia em que ela morreu. Ela não estaria em pior situação do lado de fora. Na verdade, se eu tivesse prestado mais atenção, se tivesse me esforçado mais para fugir quando fiquei sabendo que era possível, ela ainda poderia estar viva.
Fechei os olhos para a culpa que esmagava meu peito. Ever teria gostado dali de fora, com fome ou não.
— A reserva é naquela direção, certo? — perguntou Callum, puxando-me para fora dos meus pensamentos. Ele olhava para o céu preto e apontava para o norte.
— É.
— Então todas as aeronaves da corporação foram naquela direção. Acha que eles sabem onde ela fica?
— Acho. Isso parece lógico.
— Não acredita mesmo que haja uma reserva, não é? — perguntou ele.
— Não, nunca acreditei. Se houver alguma coisa, provavelmente são só alguns Reboots fugindo de um lugar para o outro, escondendo-se da CRAH. — Suspirei quando o rosto dele desabou de decepção. — Sinto muito. Isso é o tipo de coisa sobre a qual eu deveria mentir para fazê-lo sentir-se melhor?
Ele riu.
— Não. Eu gosto de você sempre dizer a verdade.
— De fato, não vejo vantagem em mentir.
— Isso é muito legal.
— Obrigada — falei, e um calor começou a se espalhar pelo meu peito e pelo meu rosto.
Ao menos ele não parecia alarmado por não termos ideia do que estávamos fazendo. Seu otimismo era reconfortante, e estiquei o braço para pegar sua mão enquanto andávamos.
Quando o sol começou a nascer, as árvores densas deram lugar a um terreno aberto, a grama verde e marrom se espalhou à nossa frente. Ainda estávamos a uns bons quinze quilômetros de Austin, e seríamos facilmente vistos de qualquer aeronave da corporação.
Passei a mão no rosto ao parar. Deveríamos ter corrido. Se tivéssemos corrido, já estaríamos lá e poderíamos ter encontrado comida com mais facilidade em Austin.
— Devemos descansar um pouco? — perguntou Callum.
— Acho que somos obrigados a parar até o sol se pôr — falei, e me arrastei de volta para uma área mais densa de árvores. Caí sentada contra uma, esticando as pernas na frente do corpo. Callum ficou onde estava, virando a cabeça para examinar a área.
— A que distância de Austin nós estamos? — perguntou ele.
— Mais ou menos na metade do caminho. Uns quinze quilômetros.
— Vou procurar comida — disse ele, encarando-me. — Quer esperar aqui? Não vou muito longe.
— Procurar comida onde? — perguntei, olhando perplexa para as árvores ao nosso redor.
— Vou naquela direção — falou ele, apontando. — Hmm... — Ele se virou algumas vezes. — Leste. Certo? Para lá é leste?
Confirmei.
— O que espera encontrar lá?
Ele arqueou uma sobrancelha para mim.
— Existe comida fora de um refeitório, Wren.
Tentei conter um sorriso, mas ele repuxou os cantos da minha boca de qualquer modo.
— Já ouvi falar nisso. Acha mesmo que vai encontrar comida lá?
— Eu trabalhei no campo. Sei o que procurar. Eu e alguns dos outros costumávamos pilhar no caminho de volta para a cidade quando os fazendeiros da corporação não estavam olhando.
Comecei a me levantar, mas ele balançou a cabeça.
— Pode descansar — falou. — Não vou muito longe. Não há mais ninguém por aqui mesmo.
Ergui o olhar para o céu. Ele tinha razão: estava azul e claro e não havia nenhuma aeronave à vista. Para ser sincera, meu corpo não tinha mesmo a menor condição de andar.
— Só não se perca — recomendei, recostando minha cabeça na árvore. — Grite, se estiver em perigo.
Ele assentiu e virou-se para partir, lançando um sorriso para mim, apesar de seus passos estarem lentos e pesados. Ele também devia estar cansado e com tanta fome quanto eu, mas disfarçava melhor. Eu admirava sua habilidade de manter aquele sorriso no rosto, mesmo quando as coisas estavam péssimas.
Franzi os olhos quando o sol apareceu por trás das folhas, e minha cabeça começou a tombar para o lado. Queria manter os olhos abertos, mas eles não paravam de se fechar, e acabei me deixando levar.
Acordei com um sobressalto, minhas pernas estremecendo na terra enquanto meus olhos se abriam de repente. Uma folha fazia cócegas no meu braço, e eu a empurrei para longe, virando-me rapidamente para olhar o sol. Ele estava mais alto, bem acima das árvores.
— Callum? — chamei, baixinho, me levantando. Andei em círculos, mas estava sozinha. O único som era o bater de asas de um pássaro que saiu voando sobre mim.
Apertei mais a jaqueta no corpo, olhando para o sol novamente. Onde ele estava antes? Eu não podia ter dormido tanto tempo. Talvez uma hora. Menos, provavelmente. Tinha sido burrice deixá-lo ir sozinho. Ficar separado era a pior coisa que podia acontecer naquele momento. E eu havia permitido que ele saísse para o meio da selva assim.
Um pássaro guinchou, e eu pulei de susto, enfiando as mãos frias nos bolsos. Fugir da CRAH no verão teria sido um plano muito mais inteligente. Na verdade, qualquer plano teria sido mais inteligente do que aquele.
Engoli em seco, tentando não entrar em pânico com os minutos que se passavam sem sinal de Callum. Transferi o peso de um pé para o outro, enquanto reprimia o ímpeto de correr pelas árvores e ir ao encontro dele. Ele estava bem. Se eu continuasse repetindo isso para mim mesma, acabaria acreditando.
Algo farfalhou atrás de mim, e fiquei tensa, colocando logo a mão na arma. O rosto triunfante de Callum apareceu um segundo depois, e eu soltei o ar, retribuindo seu sorriso largo.
— Desculpe ter levado tanto tempo — disse ele. — Fui um pouco mais longe do que tinha planejado.
Callum segurava a camisa na frente do corpo; franzi o rosto quando ele caiu de joelhos e esvaziou o conteúdo da camisa na minha frente. Eu me ajoelhei e peguei um objeto pequeno, preto e redondo.
— Um negocinho preto molinho? — perguntei, com as sobrancelhas levantadas. Olhei para as bolas duras e marrons misturadas. — Isso são nozes?
— Wren — falou ele com uma risada, chegando mais perto e pegando a noz. — É uma noz-pecã. Nunca viu?
— Ah. Nunca com casca, eu acho.
Ele olhou em volta, pegou uma pedra e colocou a pecã no chão.
— Vamos ter que ser um pouco criativos, já que não temos um quebra-nozes. — Ele bateu com a pedra e a casca se partiu. Pegou os pedaços da noz e os jogou na minha mão livre.
— E isso é um caqui — disse ele, apontando para a fruta vermelha. — Você meio que o espreme na boca. Não é o meu preferido, mas vai servir.
Comi alguns pedaços de pecã enquanto Callum continuava a quebrá-las no chão, então espremi o caqui com os dedos e o segurei acima da minha boca. Era doce e melado, e minhas mãos ficaram vermelhas com o sumo quando eu joguei a casca de lado.
Comemos em silêncio, e enxuguei as mãos nas calças quando demos cabo de tudo. Callum se recostou em uma árvore, abriu os braços, e eu rastejei feliz para o lado dele.
— Obrigada — falei, descansando minha cabeça em seu peito.
— De nada. — Ele descansou o queixo no topo da minha cabeça ao acariciar meu braço. Ficou calado por um bom tempo, e eu fechei os olhos; minha cabeça subia e descia com sua respiração.
— Você sempre teve intenção de ir para Austin?
— Como assim? — Abri os olhos de súbito, sobressaltada com o som de sua voz.
— Quando prometeu ao Leb que iria resgatar a filha dele. Estava falando sério? Ou estava pensando só em fugir?
— Eu não sabia para onde iria — respondi. — Se a reserva existe mesmo, eu gostaria de saber onde fica. Obviamente não estou muito preparada para sobreviver na floresta.
Ele deu uma risadinha.
— Acho que você vai se sair bem.
— E não quero provar que ele estava certo — falei, baixinho. — Sei que Leb espera que a gente fuja. Eles não confiam em nós e não quero provar que estão certos.
Ele esticou o braço e pressionou a mão na minha bochecha. Senti-o beijar o topo da minha cabeça de leve.
— Bom argumento — sussurrou ele.