Se eu Morrer Antes de Você

Allison Brennan · Capítulo 1 de 1 · parte 1/17

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Se eu Morrer Antes de Você

1. Um

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 17 partes.

Univ er so do s Liv r o s Edito r a Ltda.

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Love me to death

Copyr ight © 1999, 2011 by Chr istine Feehan

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Dir eto r -Edito r ial: Luis Matos

Edito r a-Chefe: Mar cia Batista

A ssistente-Edito r ial: Noele Rossi Tr adução : Cr istina Tognelli

Pr epar ação : Fer nanda Duar te

Rev isão : Julio Domingas e Mar ina Constantino A r te: Camila Kodair a, Fr ancine C. Silva e Stephanie Lin Capa: Zuleika Iamashita

Co nv er são par a epub: Danielle For tunato

Dado s Inter nacio nais de Catalo g ação na Publicação (CIP) (Câm ar a Br asileir a do Liv r o , SP, Br asil)

Br ennan, Allison.

Se eu mor r er antes de você / Allison Br ennan; tr adução de Cr istina Tognelli ]. – São Paulo : Univer so dos Livr os, 2011.

Coleção Love me to death

B838m

Tr adução de: Love me to death

ISBN 978-85-7930-388-3

1. Ficção. 2. Policial. 3. Suspense.

I. Título. II. Sér ie

CDD 813.6 22

SUMÁRIO

1. UM

2. DOIS

3. TRÊS

4. QUATRO

5. CINCO

6. SEIS

7. SETE

8. OITO

9. NOVE

10. DEZ

11. ONZE

12. DOZE

13. TREZE

14. CATORZE

15. QUINZE

16. DEZESSEIS

17. DEZESSETE

18. DEZOITO

19. DEZENOVE

20. VINTE

21. VINTE E UM

22. VINTE E DOIS

23. VINTE E TRÊS

24. VINTE E QUATRO

25. VINTE E CINCO

26. VINTE E SEIS

27. VINTE E SETE

28. VINTE E OITO

29. VINTE E NOVE

30. TRINTA

31. TRINTA E UM

32. TRINTA E DOIS

33. TRINTA E TRÊS

34. TRINTA E QUATRO

35. TRINTA E CINCO

36. TRINTA E SEIS

37. TRINTA E SETE

38. TRINTA E OITO

39. TRINTA E NOVE

40. QUARENTA

41. QUARENTA E UM

42. QUARENTA E DOIS

43. QUARENTA E TRÊS

44. QUARENTA E QUATRO

45. QUARENTA E CINCO

46. QUARENTA E SEIS

47. PRÉVIA DO PRÓXIMO VOLUME

AGRADECIMENTOS

Eu não ter ia conseguido escr ever este livr o sem a bondade de per itos dispostos a r esponder a uma infinidade de per guntas: algumas nor mais, outr as, definitivamente, for a do comum. Pr ovavelmente, tomei algumas liber dades em r elação aos fatos, mas me esfor cei par a manter a essência e a ver dade intactas.

Às autor as Ter r y Spear e Kathy Cr ouch, pelas infor mações sobr e a For ça Aér ea Amer icana; aos dois soldados da base Tr avis Air For ce, por per mitir em que eu os questionasse sobr e a For ça Aér ea; aos Ravens, entr e tr einos da SWAT na base aér ea MacClellan (vocês sabem quem vocês são!); à SaVer n Fr ipp do Instituto Médico Legal de D.C., que gr aciosamente r espondeu aos meus e-mails r epletos de imaginação; e à minha amiga de longa data, Dor a Kingsley, tr ansfer ida da Califór nia par a Geor getow n.

Um agr adecimento especial à Academia do FBI de Sacr amento e aos seus antigos alunos por aguentar em minhas per guntas, e meias-voltas, dur ante nossa visita a Quantico, sede do FBI, e Geor getow n; especialmente ao dedicado agente especial encar r egado, Dr ew Par enti, e ao agente especial e r epr esentante da mídia do FBI, Steve Dupr e, que se juntar am a nós e fizer am as coisas acontecer em. Agr adeço pelo tempo e paciência, mesmo com as minhas dúvidas mais estr anhas.

Também quer o agr adecer especialmente aos voluntár ios e aos funcionár ios do Centr o Nacional de Cr ianças Desapar ecidas e Ex plor adas, que despender am tempo par a guiar nosso gr upo em um tour detalhado.

As histór ias podem ser escr itas por uma só pessoa, por ém são pr oduzidas por muitas. A equipe da Ballantine é, de fato, ex cepcional nesta indústr ia. Em todas as etapas, da edição à escolha da capa, da pr opaganda à comer cialização, tenho sor te por ter essa incr ível equipe por tr ás dos meus livr os.

Gostar ia de agr adecer especialmente a Scott Shannon, Kate Collins e Gina Watchel pelo apoio e entusiasmo. Eu ficar ia em falta se não mencionasse meu agente Dan Conaw ay da Wr iter ’s House, que tomou as r édeas com visão e classe.

Onde qualquer um de nós estar ia sem o amor e o apoio incondicional dos nossos amigos e familiar es? Toni, Rocki e Kar in, vocês ficar am ao meu lado nos bons e maus momentos, e eu não sei o que dizer, pois obr igada me par ece tão inadequado. Que tal se eu pagar a r odada na pr óx ima vez em que nos encontr ar mos?

Meu mar ido Dan, que segur a as pontas quando os pr azos ficam cur tos, obr igada por entender as longas hor as de tr abalho e a minha mente sempr e em outr o lugar. Meus filhos, obr igada por ser quem são, mantendo-me

centr ada

no

que

ver dadeir amente

impor ta

e,

ocasionalmente, obr igando-me a par ar com tudo só par a jogar mos um pouco. E, clar o, minha mãe; eu não estar ia aqui sem ela!

Finalmente, aos meus leitor es, que amam os Kincaid tanto quanto eu.

Obr igada pelas car tas e e-mails e pelo entusiasmo pela sér ie de Lucy.

Esper o que gostem das histór ias tanto quanto eu apr ecio escr evê-las.

O que s e es ten de atrás e n a fren te de n ós carece de importân cia, s e o compararmos com o que es tá em n os s o in terior.

Ralph Waldo Emers on

PRÓLOGO

Uma s eman a an tes

Essa er a a gr ande chance par a Roger Mor ton – a ún ica, na ver dade – de sair do país e r ecr iar a vida a que estava acostumado. Tudo por causa de uma caix a de joias bar atas.

A mar ina estava fechada àquela hor a da noite, mas Roger ainda assim se manteve nas sombr as ao caminhar em dir eção às docas. Ele havia escolhido aquele lugar por ser aber to e plano, assim poder ia ver quem se apr ox imasse. Naquela noite, a mar ina estava deser ta, e os bar cos cober tos er am uma lembr ança dos dias quentes. As luzes de segur ança nas docas iluminavam pouco; o nevoeir o estava denso demais par a se ver o outr o lado do r io Potomac.

Enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta de cour o, desejando ter um casaco mais pesado. Estava fr io demais. Mal podia esper ar par a colocar as mãos no dinheir o e sair daquela cidade miser ável. Já havia escolhido um lugar na Amér ica do Sul. Mesmo depois de seis anos na pr isão, ele tinha contatos. Uma vez com o dinheir o, estar ia feito Seis longos anos atr ás das gr ades.

Seu advogado disser a-lhe que tiver a sor te por se livr ar tão facilmente depois da tentativa de assassinato de uma agente feder al e do cr ime de estupr o. “Seis anos em uma pr isão feder al er a ter sor te?” Havia delatado tudo, dito tudo o que os policiais quer iam ouvir, admitido tudo... Bem, havia deixado de lado o detalhe cr ucial de ter matado um dos deles. Ele achou melhor manter esse fato em segr edo. De qualquer modo, os feder ais não tinham nada contr a ele, nenhuma ar ma, nem testemunhas, nada. For a muito fácil acusar outr a pessoa por esse cr ime.

Seis anos de sua vida per didos. Por cooperar.

Tudo havia mudado enquanto esteve na pr isão, e ele não er a um tolo que passar ia a vida cuidando de car r os por uns tr ocados. Não enquanto soubesse como fazer dinheir o de ver dade. Do tipo que o levar ia à antiga vida, do tipo que compr ava liber dade. Na pr isão, sua vida ficou estagnada.

Agor a tinha a chance de r ecomeçar .

Adam havia dito que Roger er a o tolo. Bem, Adam estava morto... E

quanto isso o tor nou o es perto?

Roger apr ox imou-se com cautela do ponto de encontr o do outr o lado da doca seca. O vento vindo do Potomac estava tão úmido que ele desejou ter escolhido um bar par a fazer a tr oca. A não ser pelo fato de que ele não podia ser visto em seus antigos lugar es de pr efer ência. Pr ecisava ficar no anonimato. Fazer a tr oca em ter r eno neutr o. Obviamente, havia deix ado sua par te da bar ganha no hotel. Não podia sequer pensar em per mitir que seu sócio lhe passasse a per na. Pr imeir o pegar ia o dinheir o, depois contar ia onde encontr ar as joias. Não er a idiota: policiais er am patifes, e Roger não desconsider ava a ideia de que aquilo fosse uma ar madilha. Mas antes havia pesquisado o car a, ex igindo ver um pouco da ação pr ometida na sociedade da sua nova empr eitada. Ele não poder ia ser policial...

Roger deliciou-se com os ar quivos digitais de mulher es sendo tr açadas de todos os modos. Algumas er am atr izes ex per ientes; outr as, dr ogadas desesper adas por um tr oco par a pagar a pr óx ima dose. Algumas das gr avações, as melhor es, em sua opinião, er am de gar otas que não sabiam que estavam sendo filmadas.

Pr ostitutas amador as. Roger sabia do potencial desse mer cado, pr aticamente salivava sobr e os dólar es que ganhar ia. Por nogr afia por si só não er a ilegal, mas o dinheir o se encontr ava nas sutilezas: câmer as escondidas, adolescentes menor es de idade, estupr os fantasiosos.

Quando esse tipo de dinheir o estava envolvido, ele sabia que não devia apr esentar a mer cador ia sem r eceber o pagamento pr imeir o. Todo o dinheir o. Tinham tentado enganá-lo no dia anter ior, mas descobr ir am bem r apidinho que não estavam fazendo negócio com um novato. Adam for a um cr etino, mas lhe ensinou os tr uques do negócio. Só que agor a, com Adam a sete palmos, Roger não ter ia de acatar or dens ou ficar com apenas um pequeno per centual da jogada. Er a ele quem cuidar ia do site, bancar ia os custos, e seu novo sócio pr ovidenciar ia as gr avações de sex o. Divisão meio a meio. Roger estava confiante de que o dinheir o jor r ar ia como água; havia apr endido com Adam como ger enciar os car tões de cr édito dos clientes e enviar o dinheir o par a contas no ex ter ior. O melhor de tudo: sem Adam por per to, Roger não ter ia mais que se pr eocupar com o tipo de filme que fez os feder ais ir em atr ás deles na pr imeir a vez. Caso Adam não tivesse per dido a cabeça estr angulando as mulher es com quem tr ansava, eles nunca ter iam sido pegos. Estupr o er a cr ime, mas assassinato er a outr a histór ia.

Tudo o que Roger pr ecisava er a de algum dinheir o par a iniciar a oper ação no ex ter ior. Pouco impor tava que estivesse em liber dade condicional; fugir ia e nunca mais por ia os pés nos Estados Unidos. Par a isso, pr ecisar ia de muito mais dinheir o do que conseguia tr abalhando cinquenta hor as semanais na oficina de seu pr imo, tr ocando óleo dos car r os. A pr incípio, ex igir a 20 mil par a os custos iniciais, mas quando eles mostr ar am inter esse na antiga caix a de joias de Adam, Roger dobr ou o valor .

Os seus contatos haviam apr ovado os jogador es envolvidos, mas ainda assim ele não tinha gostado de nenhum dos pontos de encontr o por eles suger idos; o r isco de ser flagr ado por uma câmer a de segur ança er a gr ande demais. A mar ina foi sugestão sua. Isolada, mas per to de tudo e, melhor, sem câmer as, poucos esconder ijos e nenhuma testemunha. Estava se ar r iscando, mas a r ecompensa potencial valia a pena. Além do mais, ao usar seus contatos antigos, foi ele quem localizou os car as, e não o contr ár io. Vinha se mantendo no anonimato desde que saír a da pr isão seis meses antes

Pr efer ia mor r er a ter de voltar par a lá.

Notou a apr ox imação do seu novo sócio. O homem vestia jeans, uma jaqueta pr eta e um boné dos Yankees, confor me sua descr ição. Roger olhou ao r edor , não viu mais ninguém e esper ou que o homem se apr ox imasse.

– Ei – Roger disse casualmente, avaliando-o.

– A caix a? – a voz do homem er a r ouca, como se tivesse fumado dois maços diár ios de cigar r o dur ante décadas, ainda que não cheir asse a tabaco.

– Tr oux e meu adiantamento? – Roger estava à esper a de alguma ar madilha, como, por ex emplo, que ele dissesse ex plicitamente que o dinheir o ser ia usado par a montar um site de por nogr afia ilegal, mas o car a não entr ou em detalhes. Um acor do poder ia significar qualquer coisa em um tr ibunal. Sim, clar o, ele estava na mar ina na calada da noite – uma pequena tr ansgr essão – e poder ia, tecnicamente, ser mandado de volta par a a pr isão até pelo menor deslize. Mesmo assim, eles não podiam pegá-

lo em nada gr ande...

– Quer o a caix a de joias e tudo o que dever ia haver dentr o dela.

– Quer o o dinheir o pr imeir o – o car a o consider ava um idiota?

A mão de Roger foi par a a pistola que estava na cintur a quando, tenso, viu o homem colocar a mão no bolso. Mas não pr ecisou usar a ar ma. Seu novo sócio entr egou-lhe um envelope.

Roger fechou a car a.

– Um pouco fino par a 40 mil. Não foi isso o que combinamos.

– Você devia ter tr azido a caix a.

– Você devia ter me dado metade do combinado ontem. Que tipo de sociedade é esta se você não cumpr e a sua par te?

– Abr a. Você vai entender .

Com cuidado, mas cur ioso, Roger abr iu o envelope e r etir ou um papel dobr ado. No meio do papel, havia uma foto. Uma adolescente muito bonita de cabelos longos e negr os e olhos castanhos gr andes e pr ovocantes o fitou na luz tênue.

Seus instintos fizer am-no r eagir antes mesmo de r econhecer a gar ota mor ta, mas não r ápido o bastante. Roger deix ou o envelope e a foto caír em par a sacar a ar ma, mas o homem foi mais veloz, chutando seu pulso em um golpe de car atê. Na luz tênue da doca seca, pela pr imeir a vez, Roger viu nitidamente o r osto do homem.

Outr o fantasma do seu passado.

– Eu bem que quer ia ser o r esponsável pela bala na sua cabeça – o homem disse, antes de desfer ir um soco que fez Roger cair de car a no chão.

Uma dor for te lhe disse que o nar iz estava fr atur ado. Engoliu uma golfada de sangue espesso. Tossindo, Roger tentou se levantar, mas o tr aidor o chutou com a bota de bico de aço tr ês vezes entr e as per nas. A dor ex cr uciante congelou-o. Aquilo er a muito pior do que a vez em que foi estupr ado na pr isão. E lá ele teve a chance de se vingar. Dessa vez não havia tal possibilidade. O pânico e a autopr eser vação sur gir am com a dor quando ele tentou se levantar , só par a ser der r ubado novamente.

UM

 

Dias atuais

Br ad Pr enter pensava que se livr ar ia da cadeia, mas Lucy Kincaid r emediar ia isso.

Ela olhou o r elógio do computador e fr anziu o cenho. Já er am quase seis hor as e havia pr ometido ao ir mão, Patr ick, que não se atr asar ia par a o encontr o depois de ter cancelado os planos deles par a jantar duas vezes na semana anter ior .

– Vamos, vamos... – mur mur ou ao dividir a tela em seis pequenas janelas de salas de bate-papo par a monitor á-las simultaneamente. – Você apar eceu todos os dias às cinco esta semana. Por que está atr asado?

Pelo canto do olho, Lucy viu a dir etor a do gr upo PMC (Pr ior idade par a Mulher es e Cr ianças), Fr ances Buckley, apr ox imar -se. Fr an havia se aposentado do FBI há nove anos, depois de ter tr abalhado par a o depar tamento por 25 e, apesar de ter setenta, apar entava ser uma década mais jovem. Depois que Lucy começou a tr abalhar como voluntár ia no PMC há tr ês anos, Fr an logo se tor nou sua mentor a. Escr ever a uma car ta de r ecomendação entusiasmada par a o pr ocesso seletivo de Lucy no FBI e a ajudar a a se pr epar ar tanto par a o ex ame escr ito quanto par a o or al. E nas tr ês últimas semanas Fr an a ajudava a lidar com a ansiedade – em br eve, ela saber ia se havia ou não passado par a a fase seguinte do pr ocesso de r ecr utamento.

Lucy não se per mitia pensar em ser r ejeitada. Mesmo assim, sabia que o pr ocesso poder ia levar meses, e não saber o r esultado er a fr ustr ante.

Nos últimos seis anos só pensou em se tor nar agente do FBI. Tudo o que fez – como a dupla for mação em Psicologia e Ciência da Computação, os estágios no Senado e no Depar tamento de Polícia do Condado de Ar lington e agor a no Instituto Médico Legal, os tr abalhos voluntár ios em escolas e no PMC – foi calculado par a que ingr essasse no FBI. Ela tinha esper anças de que os selecionador es vissem o que ela havia apr endido e como isso ser ia benéfico ao depar tamento.

Fr an apoiou uma mão nas costas da cadeir a de Lucy.

– Tique-taque. São seis hor as, Lucy.

– Só mais cinco minutos. Pr enter ainda não está on-line e ele sempr e apar ece no fim da tar de.

– A vida passa. E você não pode ficar aqui a noite inteir a esper ando por ele. Você também tem uma vida, sabe? Não tinha planos par a jantar com seu ir mão hoje?

– Sim, mas...

– Lucy, Pr enter ainda estar á por aí amanhã.

– Ainda tenho um tempinho – Lucy disse. – Mais vinte minutos e ainda consigo chegar ao Clyde’s às sete hor as.

– Se cor r er até o metr ô.

– Cor r o r ápido – ela sor r iu par a Fr an, deliber adamente mostr ando uma covinha solitár ia.

A mulher mais velha balançou a cabeça, mas r etr ibuiu o sor r iso.

– Vou pux ar a tomada se você ainda estiver aqui às seis e quinze.

Essa não er a uma ameaça vazia; Fr an já desligar a a luz de pr opósito antes. Lucy jur ou que obedecer ia antes de se vir ar par a as agitadas salas de bate-papo.

O PMC tinha computador es segur os, tão segur os e não r astr eáveis quanto os do FBI, onde investigavam a ex plor ação sex ual de mulher es e cr ianças. Quando agr upavam pr ovas em númer o suficiente par a identificar a vítima ou o agr essor, entr egavam os ar quivos par a o FBI par a investigações adicionais.

Além desse objetivo inicial, o PMC r astr eava agr essor es sex uais em liber dade condicional. Segundo a lei, cr iminosos com histór ico de agr essão sex ual er am obr igados a se r egistr ar na polícia local depois de livr es e a cada mudança de ender eço.

Todavia, dependendo do Estado, cer ca de metade dos agr essor es sex uais obr igados a fazer o r egistr o nunca o faziam ou não voltavam a se r egistr ar após uma mudança. Essas pessoas em liber dade condicional estavam mais pr opensas a cometer outr o cr ime sex ual, por tanto, er am alvo do pr ojeto de r astr eamento do PMC. Fr equentemente, por ser em cr iatur as com hábitos, esses homens faziam leves modificações em seus per fis na inter net, mas ainda visavam aos mesmos tipos de mulher es e cr ianças e acr editavam que, por ter em se mudado de cidade ou Estado, não ser iam descober tos. Se dependesse somente da for ça policial, esses pr edador es poder iam estar cer tos, conseguindo se safar. Não havia tempo nem homens suficientes par a r astr ear cada cr iminoso não r egistr ado.

Par a sua disser tação de mestr ado, Lucy havia demonstr ado que, enquanto a maior ia dos pr edador es sex uais podia nor malmente modificar o compor tamento após cumpr ir a pena, essas mudanças er am super ficiais.

Eles ainda podiam ser identificados por r astr eador es cuidadosos que cientificamente descobr iam as atividades passadas do agr essor : o modo como er am captur ados atr elado às vítimas pr efer idas, que r ar amente se alter avam após o encar cer amento. A pesquisa de Lucy demonstr ou que esses homens ainda podiam ser localizados mesmo depois de mudanças de ender eço ou de identidade na inter net. Após a for matur a, ela continuou a desenvolver seu banco de dados a fim de incor por ar todas as infor mações conhecidas, além de uma escala psicológica que levava a mudanças menor es de compor tamento. Quanto mais infor mações ela juntasse, mais poder oso e eficiente seu sistema ser ia.

Gr upos como o PMC podiam usar r ecur sos pr ópr ios e ex ter nos par a identificar os pr edador es conectados à r ede e, em caso de ser um cr iminoso em condicional, er a muito mais fácil mandá-lo de volta par a a pr isão se ele violasse as r egr as da liber dade condicional. O banco de dados de Lucy, embor a ainda em fase de testes, for a cr ucial ao encontr ar e r astr ear os cr iminosos que estavam em r egime aber to mais pr opensos a cometer novos cr imes, r esultando em mais de uma dúzia de pr isões até aquele momento.

Nas últimas duas semanas, Lucy vinha tr abalhando em um cr iminoso em par ticular , Br ad Pr enter , um estupr ador condenado que havia r ecebido a condicional depois de cumpr ir apenas metade da pena. Nor malmente, o PMC visava a pr edador es que caçavam cr ianças e que mudavam de cidade depois de r eceber em liber dade condicional, mas Pr enter er a um caso especial. Ele usava ecs tas y líquido feito em casa – o Boa n oite, Cin derela – em seus encontr os. Mistur ado com álcool, o ecs tas y líquido er a par ticular mente per igoso. A vítima que o mandar a par a a cadeia, uma calour a de uma univer sidade da Vir gínia a quem ele conhecer a por ser pr ofessor assistente na aula de Química, conseguiu enviar uma mensagem de tex to par a uma colega de quar to após começar a se sentir mal. De outr o modo, Pr enter ter ia se livr ado desse cr ime.

Dur ante a investigação que antecedeu o julgamento, as autor idades descobr ir am que Pr enter er a suspeito pelo estupr o de outr a gar ota em sua cidade natal, Pr ovidence, em Rhode Island, mas não havia pr ovas suficientes par a que ele fosse a julgamento por esse cr ime. Ele der a uma dose tão alta da dr oga à vítima que ela per maneceu em coma. Devido a uma investigação lenta – a polícia não for a chamada imediatamente por que o hospital não havia encontr ado evidências de sex o for çado e não fez testes par a detecção de dr ogas desse tipo –, Pr enter teve tempo par a se livr ar do seu labor atór io caseir o.

Havia pr ovas cir cunstanciais de que Pr enter tinha em vista outr as vítimas na inter net. Ele as encontr ava, dr ogava, estupr ava, depois as deix ava em casa. Ao acor dar em, as mulher es não se lembr avam de nada. O

único motivo pelo qual o nome de Pr enter apar eceu em outr a investigação foi por que o amigo de uma vítima a vir a com ele na noite em que ela foi violentada.

Mas, mesmo nesse caso, não houve pr ovas físicas e a vítima não se lembr ava de nada. A casa e o car r o de Pr enter for am vasculhados, por ém os investigador es não encontr ar am sinal de ecs tas y líquido.

Duas semanas atr ás, o r amo de pesquisa do PMC identificou o per fil de Pr enter on-line e descobr iu que ele mor ava no nor deste da Vir gínia. Ele havia se r egistr ado como agr essor sex ual e r eceber a per missão par a fr equentar a Geor ge Washington Univer sity. Como ele tinha se cadastr ado em um site de encontr os, Lucy se inscr eveu fingindo ser alguém que pr eenchia os cr itér ios de Pr enter : uma univer sitár ia mign on e loir a que gostava de cor r er, de r ock e de show s. Pouco impor tava que Lucy fosse alta e mor ena, sua função er a atr aí-lo par a um local público onde ele ter ia a opor tunidade de quebr ar a condicional bem diante da for ça policial. Isso havia funcionado vár ias vezes dur ante os tr ês anos de tr abalho no PMC, e Pr enter já mor der a a isca. Lucy só pr ecisava pux ar a linha.

E quando ela conseguisse concluir seu plano? Um dos policiais voluntár ios do PMC algemar ia Pr enter e o mandar ia de volta à pr isão.

A justiça ser ia plen amen te feita. Ele cumpr ir ia a pena completa.

Por muito tempo ela se sentiu impotente. Mesmo com os tr einos de defesa pessoal, sua educação, seus sonhos, Lucy sentia que pr ecisava fazer mais . Seu estágio com o senador Jonathon Pax ton no Comitê Judiciár io for a inter essante, mas quando ele a apr esentou a Fr an, do PMC, isso mudou a sua vida. Lucy estava muito mais for te, er a uma pessoa muito melhor pelo tr abalho feito no PMC. Ela quase acr editava que er a uma mulher nor mal, comum.

Até mesmo seu ir mão Patr ick admitir a, na última vez em que se falar am, que Lucy voltar a a ser quem er a.

Talvez não ex atamente como antes. Já não er a a adolescente ingênua de seis anos atr ás, que confiava com facilidade em qualquer um e se consider ava invencível. Mas, finalmente, livr ar a-se de boa par te da dor e da r aiva. Um pouco de r aiva e de ultr aje pelas injustiças do mundo a mantinham focada no que er a impor tante. Salvar os inocentes. Deter os cr iminosos. Sua motivação inter ior er a tão for te que, mesmo que não ingr essasse no FBI, encontr ar ia outr a função na Justiça Cr iminal. Poder ia ir par a a faculdade de dir eito e se tor nar pr omotor a pública. Ou se unir à for ça policial. Ou, ainda, fazer faculdade par a se tor nar psiquiatr a especializada em vítimas de cr imes.

Contudo, o que quer ia er a estar na for ça policial de ponta no ciber espaço.

Cr iminosos como Pr enter, mesmo na segur ança do anonimato da sala de bate-papo, deix avam-na fisicamente nauseada, mas er a par a um bem maior e, com isso, ela apr endia mais sobr e os cr imes no ciber espaço do que na sala de aula.

Lucy cumpr iu o seu papel atr aindo Pr enter, fez-se de ingênua e sex y, nunca suger indo um encontr o, mas sempr e lhe dando opor tunidades. Uma vez, ele per guntou se ela não quer ia mar car um encontr o, mas ela r ecusou. Se facilitasse demais, ele far ejar ia um policial por tr ás daquilo. E

se o caso fosse a julgamento – algo muito impr ovável, já que ele er a um cr iminoso sex ual r egistr ado em condicional –, o PMC poder ia testemunhar que Pr enter teve diver sas opor tunidades de se afastar, mas que per seguiu ativamente a vítima em potencial.

Na segunda vez em que ele a convidou, ela r ecusou de novo, dizendo-se ocupada, mas deu indícios de que estava inter essada. Ela nunca havia suger ido um encontr o, por que o PMC seguia as mesmas r egr as da polícia: não dava chances par a pleitear uma ar madilha. Er a o mais passiva que conseguia, ainda que desse sinais ao per ver tido de que ele poder ia fazer sex o com a pessoa atr ás do outr o computador .

Às 6h10, o computador de Lucy emitiu um sinal: aka_tanya havia r ecebido uma mensagem par ticular de br adman703.

br adman703: vc tá aí?

aka_tanya: sim, meio que. estudando. kkk.

br adman703: vc tá livr e hj?

O pulso de Lucy aceler ou.

aka_tanya: tenho pr ova impor tante.

br adman703: e amanhã?

aka_tanya: onde?

br adman703: vc escolhe.

Mesmo Pr enter estando em condicional e Lucy não sendo uma policial, aquela conver sa chegava a uma zona cinzenta. Lucy pr efer ir ia que Pr enter escolhesse o local.

aka_tanya: ñ sei. algum lugar legal. per to do fx .

br adman703: Fir ehouse?

Lucy r evir ou os olhos. Não er a de fr equentar bar es, mas todos com menos de 30 sabiam que o bar per to de Fair fax ficava cheio de gente animada. Muita bebida, música alta, lotação máx ima. Não er a um lugar par a se conver sar ; definitivamente er a um lugar par a paquer ar. Er a per feito par a homens como Pr enter, e per feito par a uma oper ação do PMC.

aka_tanya: blz. q hor as?

br adman703: 8?

aka_tanya:

Lucy sor r iu com seus botões ao inser ir o emoticon .

Fr an disse da por ta:

– Dez, nove, oito...

– Eu o peguei! – ela ex clamou assim que enviou uma mensagem se despedindo de Pr enter , dizendo que pr ecisava estudar .

Depois, enviou a tr anscr ição da conver sa par a seu e-mail par ticular, saiu das salas de bate-papo que estava monitor ando e desconectou-se.

Enviou uma mensagem de tex to par a o policial Cody Lor enzo:

Pr enter vai esper ar ‘aka_tanya’ no Fir ehouse Gr ill, às oito, amanhã.

– Pegou Pr enter ? – Fr an olhou por cima do ombr o dela. – Ótimo.

– Esper o que sim. Cody tem 24 hor as par a ar r umar tudo. Pr enter escolheu o lugar e a hor a – espontaneamente, abr açou Fr an. – Finalmente sinto ter conseguido alguma coisa!

– Já faz um tempo desde a nossa última vitór ia, mas não conte com os ovos antes...

– De a galinha botar. Eu sei – mas nada diminuir ia o bom humor de Lucy. Agor a ela tinha algo par a celebr ar com o ir mão. Olhou r apidamente par a o r elógio. Tinha de se apr essar. – Eu bem que gostar ia de estar pr esente quando Cody o pr ender .

– Lucy, você conhece as r egr as – Fr an pr oibia qualquer um de se envolver no tr abalho de campo, mesmo que de longe.

– Eu sei, eu sei – Lucy desligou o monitor, pegou o casaco e o cachecol debaix o da mesa. – Ficar ei satisfeita em ler o r elatór io de Cody – não tão satisfeita quanto se pudesse ver a ex pr essão de Br ad Pr enter quando descobr ir que havia sido flagr ado, mas tem de bastar .

Um movimento na entr ada chamou a atenção de Lucy. Fr an voltou o olhar par a lá ao mesmo tempo em que ela.

– Jonathon – Fr an sor r iu. – Chegou cedo.

– Você tr abalha demais, Fr an – o senador Jonathon Pax ton beijou-a de leve no r osto. – Olá, Lucy.

Lucy escondeu o sor r iso. Não er a de se admir ar que Fr an a quisesse for a do escr itór io no hor ár io! Ela tinha um encontr o, embor a Fr an não categor izasse suas saídas ocasionais com o senador como sendo en con tros .

Ela dizia que er a só tr abalho, mas Lucy tinha esper anças de que seus dois colegas favor itos acabassem juntos.

Lucy levantou-se e abr açou o senador .

– Eu não sabia que você estava chegando.

– Fr an e eu temos muito a discutir antes de sábado à noite. Você vai à ar r ecadação de fundos, não?

– Clar o – disse ela automaticamente, embor a não quisesse ir. Far ia tudo par a apoiar Fr an e o PMC, mas nunca gostou de eventos públicos de gr ande por te. Seu ir mão Patr ick havia pr ometido acompanhá-la, mas for a designado par a uma missão for a do Estado. Como não voltar ia a tempo, Lucy ter ia de ir sozinha.

– Vejo os dois mais tar de – disse ao vestir o casaco e ajustar a bolsa sobr e o ombr o.

– Pr ecisa de car ona? – Fr an per guntou.

– O metr ô fica só a tr ês quadr as – Lucy disse –, mas obr igada.

Ela saiu do PMC e enfr entou o ar fr io. Ador ava caminhar e não se impor tava muito com a temper atur a baix a, embor a sentisse falta das temper atur as mais amenas e do sol do sul da Califór nia. Pux ou o cachecol par a cobr ir as or elhas e o pescoço e caminhou r apidamente em dir eção ao metr ô.

O fr io ar r epiou os pelos do seu br aço, como se tivesse ouvido o ar r anhar em uma lousa. Disse par a si que er a o fr io intenso, mas sabia que não er a isso – er a a conhecida sensação de estar sendo obser vada.

Fingiu tossir e vir ou de lado par a obser var dir etamente as pessoas caminhando ao seu r edor, o tr ânsito na r ua, os fr egueses de um r estaur ante do outr o lado. Um homem passou, acenou à guisa de cumpr imento e seguiu em fr ente.

Ela suspir ou fr ustr ada consigo por estar ficando par anoica. Há seis anos não conseguia se livr ar da sensação de estar sendo obser vada, de que as pessoas sabiam pelo que ela havia passado e que, de algum modo, culpavam-na pelo seu destino. As sensações diminuír am com o tempo, mas Lucy duvidava de que um dia sumir iam completamente. Seu passado sempr e a per seguir ia, não impor tava o que fizesse.

– Engula essa – sussur r ou baix inho.

“Você está pr estes a colocar um estupr ador na cadeia. Tem muito por que celebr ar .”

Com isso em mente, continuou até a estação do metr ô, sempr e ciente das pessoas que a r odeavam.

DOIS

Depois de dez anos na For ça Aér ea Amer icana, o agente especial Noah Ar mstr ong dava e r ecebia or dens sem pestanejar, mas, mesmo assim, achou estr anho ser chamado à sede do FBI par a uma r eunião às sete da noite com o dir etor -assistente Rick Stockton. Além do hor ár io, par eceu-lhe estr anho a secr etár ia de Stockton não lhe dizer o motivo do encontr o.

Estava cur ioso, mas não pr eocupado. Não conseguia pensar em nenhum caso passado ou atual que mer ecesse a atenção do alto escalão – e ele nunca foi dado a especulações.

Noah passou o cr achá de identificação pela aber tur a da r ecepção no tér r eo do Edifício Hoover. A r ecepção estava fechada, por ém o vigia notur no cuidava da ver ificação das cr edenciais. O pr édio er a uma for taleza pr otegida por vidr os à pr ova de balas. Só par a subir , er a pr eciso passar por múltiplos níveis de segur ança. Depois de liber ado, foi fácil chegar ao último andar , já que o ex pediente havia se encer r ado.

Quando Noah saiu do elevador, r econheceu o doutor Hans Vigo, instr utor de ciência compor tamental e dir etor -assistente em Quantico, a instituição de tr einamento do FBI.

Doutor Vigo estendeu a mão.

– Agente Ar mstr ong, obr igado por vir após o ex pediente. Rick se atr asou em uma r eunião, por isso vou adiantando o assunto.

Ele aper tou a mão do doutor Vigo.

– Pr oblema algum, senhor . Eu entendo.

– É bom voltar a vê-lo. Você er a da tur ma 713 ou 714, cer to?

Noah assentiu.

– 714, senhor .

– Não me canso de ouvir elogios quanto ao seu tr abalho no depar tamento, mais r ecentemente no caso dos assassinatos de Anápolis.

Noah levantou uma sobr ancelha, sur pr eso em saber que alguém na posição do doutor Vigo se pr eocupasse com um típico assassinato em massa. Nor malmente, o FBI não se envolver ia nos assassinatos ex ecutados por um empr egado descontente, no entanto, o incidente aconteceu dentr o de um pr édio feder al e tanto o atir ador como as vítimas er am funcionár ios do gover no.

Por mais que admitisse que seu tr einamento militar o tivesse ajudado a se destacar – tor nando-o mais do que um mer o agente competente –, Noah não entendia por que sua ficha chamar ia a atenção do dir etor -

assistente.

– Obr igado, senhor .

– Por favor , me chame de Hans. Não gosto muito dessas for malidades.

Noah seguiu Hans pelo cor r edor deser to. Todas as por tas estavam aber tas e as luzes desligadas. Havia duas pessoas em uma pequena sala de r eunião, par cialmente visíveis pela per siana entr eaber ta. Contudo, a sede nor malmente abar r otada estava pr aticamente vazia.

– Café? Água? – Hans ofer eceu.

– Não, obr igado, senhor .

Hans vir ou no fim do cor r edor e abr iu a por ta do escr itór io de Stockton. Fechou-a após entr ar em, indicando a Noah que se sentasse à longa mesa no canto da sala bem or ganizada. Em seguida, tomou a cadeir a em fr ente à dele.

– Temos uma investigação ex tr emamente delicada e gostar íamos que você cuidasse dela, Noah.

– Sim, senhor .

– No sábado pela manhã, um empr egado do estacionamento da Washington Sailing Mar ina, na mar gem da Vir gínia do Potomac, encontr ou um cor po. A vítima foi alvejada uma vez atr ás da cabeça. Não havia documentos, mas as digitais confir mar am que se tr atava de Roger Mor ton.

Recebi essa notícia pela manhã.

O FBI não lidava com homicídios cor r iqueir os. A cur iosidade de Noah aumentou.

Hans disse:

– Mor ton foi liber tado da pr isão feder al de Or egon há seis meses, no dia 1º de julho – Hans abr iu o pr ontuár io e passou a foto da pr isão.

Mor ton tinha a ex pr essão endur ecida, par ecida com a de muitos cr iminosos violentos, o meio-sor r iso dizia a Noah que o único r emor so dele er a o de ter sido apanhado.

– Este caso é delicado – Hans continuou – por dois motivos. Pr imeir o, a natur eza dos cr imes de Mor ton. Ele er a o br aço dir eito de um assassino cr uel que ger ia por nogr afia tanto legal quanto ilegal, especializando-se em vídeos de sex o on-line. A maior ia dos cr imes de Mor ton foi cometida a mando do seu chefe, Adam Scott, que foi mor to dur ante um confr onto com agentes feder ais.

O caso soava familiar , mas Noah não sabia por quê.

– Há quanto tempo foi isso?

– Há seis anos, em junho. Conhece a histór ia?

– Eu ainda estava na For ça Aér ea. E nem me encontr ava no país naquela época.

– Scott cobr ava dos seus espectador es vir tuais par a que o vissem violentar e assassinar as vítimas, ao vivo, na inter net.

Agor a Noah se lembr ava.

– O caso foi discutido na aula de cr imes ciber néticos em Quantico.

– A agente que localizou Scott em seu esconder ijo fez avanços incr íveis em r astr ear infor mações na inter net. Muitos dos seus pr otocolos for am integr ados à nossa unidade de cr imes vir tuais. O motivo pelo qual esta investigação é delicada – Hans continuou – deve-se ao fato de Mor ton ter sido assassinado bem per to daqui. Tir amos o caso das mãos da polícia local; todas as evidências estão sendo despachadas par a o labor atór io do FBI.

Tr adicionalmente, pela localização do cr ime, a jur isdição ser ia nossa, mas é nor mal que deix emos a polícia cuidar de homicídios comuns.

Pelo visto, aquela situação não er a comum.

– Como par te do s urs is [1] de Mor ton – Hans infor mou –, ele não poder ia ficar a menos de 16 quilômetr os de alguém envolvido no caso, incluindo as vítimas e as famílias. A última vítima dele mor a em Geor getow n, bem como um dos agentes envolvidos em sua captur a.

– Vítima?

– Ele er a um estupr ador em sér ie.

– E só pegou seis anos? – Noah mostr ou-se confuso. – As dir etr izes quanto às penas pedem que...

Hans inter r ompeu-o.

– Não houve julgamento. Foi feito um acor do – ele deslizou o pr ontuár io em dir eção a Noah. – Isto está selado, não é público. Fiz uma cópia par a você, mas não pr eciso lhe dizer como estas infor mações são sigilosas.

Mor ton foi pr eso quando Scott ainda estava solto. Em tr oca de indulgência, Mor ton nos deu infor mações que nos levar am até Scott, o que r esultou em vidas salvas. Além disso, ele for neceu os dados bancár ios e os documentos financeir os da oper ação de lavagem de dinheir o de Scott. A indústr ia do sex o legal ger a uma pequena for tuna, mas que não chega aos pés do montante ger ado pela indústr ia ilegal.

Noah abr iu a pasta de Mor ton, guar dou a foto e passou os olhos pelo r esumo enquanto Hans continuava a infor má-lo sobr e o caso. Um nome saltou das páginas.

– Kate Donovan – levantou os olhos dos papéis. – Aqui diz que ela não er a agente, mas instr utor a dos cr imes vir tuais, cor r eto?

– Donovan estava suspensa na época da pr isão de Mor ton – Hans disse. – Tenho outr a agente vindo par a cá par a te ajudar. Ela pode aux iliá-lo a pr eencher as lacunas por que fez par te da investigação or iginal.

– Desculpe per guntar, mas por que vai tr azer outr a agente par a a investigação quando Donovan, que também estava envolvida na investigação or iginal, mor a aqui? – Quando Hans não r espondeu de imediato, Noah concluiu: – Acr edita que Donovan esteja envolvida no assassinato de Mor ton?

– Não, – Hans r espondeu r ápido – mas sou amigo íntimo de Kate e da família dela. É por isso que você está encar r egado deste caso e não eu.

Mor ton pode ter sido assassinado por inúmer os motivos. Contudo...

Noah concluiu o pensamento dele:

– Uma bala atr ás da cabeça suger e ex ecução. Castigo.

– Ex ato.

Noah ex aminou o r elatór io do médico legista.

– Ele foi tor tur ado antes de mor r er ?

– Nar iz fr atur ado, pulso dir eito machucado. O legista acr edita que ele tenha quebr ado o nar iz quando o assassino empur r ou o r osto dele no chão.

No entanto, alguém o chutou r epetidamente na r egião genital enquanto ele estava deitado. Com tanta violência que, caso não tivesse mor r ido, ter ia per dido pelo menos um testículo.

Noah mudou de posição na cadeir a.

– Mor ton er a estupr ador . Isso me par ece vingança.

– Super ficialmente falando.

“Mais do que super ficialmente”, Noah pensou, mas continuou lendo o ar quivo.

– Seu último ender eço r egistr ado fica em Denver. Sabe quando ele se mudou par a D.C.?

– Só r ecebemos o caso hoje de manhã – Hans disse. – Não sabemos mais do que você e do que há nos r egistr os de Mor ton. Rick Stockton gostar ia de ter falado dir etamente com você, a fim de ex plicar a natur eza delicada deste caso. Ele esper a discr ição e diligência. Você se r epor tar á dir etamente a mim, e eu manter ei Rick infor mado. Qualquer per missão, o que pr ecisar da pr omotor ia do Estado, mandados, inter r ogatór ios, acessos, você ter á. Se pr ecisar ir a Denver, já está autor izado. Tudo o que pr ecisar , consider e apr ovado. Só me mande um e-mail me infor mando.

– Entendi – eles deviam acr editar que alguém do depar tamento estivesse envolvido, já que se esfor çavam tanto par a não usar os caminhos tr adicionais. – Mais alguma coisa?

– Pr ecisa saber que uma das vítimas de Mor ton foi a cunhada de Kate Donovan, Lucy Kincaid. Ela mor a com Donovan e o mar ido dela, o doutor Dillon Kincaid. Lucy não sabe do acor do de pr isão de Mor ton e, até onde eu sei, tampouco sabe que ele já tinha sido liber ado.

– Kincaid? – Noah encar ou o dir etor -assistente. – Como na companhia de segur ança pessoal RCK, Rogan-Car uso-Kincaid?

– Esses são Jack e Patr ick, ir mãos da vítima. Kate se casou com Dillon, um psiquiatr a for ense e consultor civil do FBI – Hans inclinou-se e obser vou Noah. – Você tem algum r elacionamento com os Kincaid?

“Não com os Kincaid.”

Impassível, ele disse:

– Não, mas tenho acompanhado o inter essante pr ogr esso da empr esa – a RCK er a conhecida por contor nar a lei, tendo acesso a infor mações que Noah suspeitava que estavam aquém do acesso de uma companhia de segur ança pr ivada, o que o levava a imaginar quantos agentes feder ais lhes passavam dados.

Por mais que tivesse consider ado a investigação do assassinato de Mor ton um campo lodoso, o envolvimento potencial da RCK tor nava tudo ainda mais suspeito. Especialmente a par te Rogan da RCK.

– Tem alguma per gunta? – Hans disse.

– Pr eciso dos ar quivos da investigação, os for enses, tudo o que tiver a r espeito de Mor ton. Onde ele cumpr iu pena, ter mos do acor do e do s urs is – Noah fez uma pausa. – E dados de como contatar Kate Donovan. Acho melhor ir até a casa dela. Par a manter a discr ição – olhou par a Hans. – E

ser ia melhor se o senhor não comentasse isso com ninguém até que eu tenha a chance de inter r ogá-los.

Hans concor dou.

– Mas não demor e. Por mais que tenhamos tomado conta do caso, os Kincaid e a RCK têm muitos amigos em muitos lugar es. Tenho cer teza de que ninguém sabe ainda, ou alguém ter ia me ligado, mas já estou antecipando um telefonema.

*

Lucy estava no metr ô fingindo ler um livr o. Não er a culpa do autor se a leitur a não a pr endia. Em qualquer outr o tr ajeto, ela estar ia completamente absor ta pela histór ia cheia de ação e aventur a, mas naquela noite só conseguia pensar que um estupr ador voltar ia par a a pr isão. Quando o tr em diminuiu a velocidade ao se apr ox imar da estação Foggy Bottom, ela enfiou o livr o na bolsa e fechou-a r apidamente, sem nem pensar ; er a um antigo hábito de autodefesa.

Ladrões vis am a pres as fáceis . Não s eja uma.

Levantou-se e manobr ou na dir eção das por tas, ansiosa em se encontr ar com o ir mão. Patr ick par tir ia na manhã seguinte, ausentando-se por duas semanas, par a a Stanfor d Univer sity, onde tr abalhar ia em um sistema de segur ança par a o labor atór io novo. Só fazia um mês que ele mor ava em D.C.; ela estava apenas se acostumando a ter a pr esença r econfor tante dele em sua vida, e ele já estava indo embor a.

Assim que as por tas deslizar am, ela saiu junto à multidão de passageir os. Indo na dir eção das escadas, sentiu a nuca for migar com a conhecida sensação de estar sendo obser vada. Inconscientemente, r etesou-se e tr opeçou, esbar r ando em uma ex ecutiva à sua fr ente.

Continuar: parte 2 de 17