Se eu Morrer Antes de Você
1. Um
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 17 partes.
Peter Miller. O pr ofessor que foi par a a pr isão por estupr o estatutár io. Ele foi um dos cr iminosos em condicional que ela tentou mandar de volta par a a pr isão, mas que não foi ao encontr o mar cado.
– C-como me encontr ou?
– Sou mais esper to do que você. Sei navegar na inter net muito melhor do que você. Mas eu não pr ecisei invadir a or ganização que tentou me mandar de volta par a a pr isão. Eu li os jor nais e fiquei sabendo dos outr os cr iminosos em condicional que tinham sido pr esos. Somei dois mais dois.
Isso está acima de você, não? Um dia, entr ei no seu escr itór io. Foi fácil. Fiz amizade com uma das voluntár ias, você deve se lembr ar dela. Stacy Sw anson. Falamos sobr e os convites par a a festa de ar r ecadação de fundos da qual você par ticipou na semana passada. E eu ouvi. Pr estei atenção. E
foi então que per cebi que er a você.
Lucy estava tr emendo. Ela saber ia se Miller estivesse no escr itór io, não saber ia? Ex ceto pelo fato de não o r econhecer. Ele mudou, e não só em uma coisa. Mudou vár ias. O cabelo. Os olhos. A apar ência do r osto.
Stacy Sw anson... Ela se lembr ava da moça; ela costumava ir uma vez por semana, mas fazia um tempo que ela não apar ecia.
Ele sor r iu, mas a ex pr essão do r osto dele er a mais ater r or izante do que quando ele se mostr ava sér io.
– Sei como fazer as pessoas enx er gar em o que eu quer o que elas vejam.
Ela sussur r ou:
– Você matou Cody.
O sor r iso dele desapar eceu e ele não r espondeu.
– Ande até a quinta baia.
Ela se vir ou e cambaleou como se estivesse embr iagada, os pés queimavam, mal supor tando o peso do cor po.
– Vir e par a a dir eita e fique de fr ente – ele disse, a voz dele estava longe.
Ela obedeceu, e ele acendeu as luzes do teto.
Um cor po decapitado estava lar gado sobr e um monte de feno. A par ede de tr ás estava salpicada de sangue, de pedaços de ossos e de massa cinzenta.
Lucy não sabia o que er a pior : ver o cor po ou as manchas ao r edor.
Sangue em todas as par edes.
Ela gr itou e ele gar galhou.
– Esta foi a lição númer o um. Faça ex atamente o que eu mandar, ou estar á na pr óx ima baia. Stacy não fez ex atamente o que eu mandei.
Lucy cor r eu, com o pensamento fix o em voltar par a a casa antes dele e tr ancá-lo do lado de for a o tempo suficiente par a encontr ar um telefone e ligar par a a polícia. Os pés estavam ador mecidos por causa da neve, mas ela cor r eu, or denando-se a seguir em fr ente.
É vida ou morte; corra, Lucy!
Ele a per seguiu. Estava de sapatos, mas pior, tinha o chicote. Ela ouviu o açoite agudo no ar fr io.
Ele diminuiu a distância e atingiu-a com o chicote. Ela caiu de joelhos.
Ela tentou se levantar, depois r astejar, mas ele estava ao seu lado, e Lucy acr editou, naquele instante, que sua vida tinha chegado ao fim.
*
Eu a amarro como a um an imal e a arras to n a n eve de volta à cas a.
– Segunda lição: não cor r a.
Ela es tá gritan do en quan to eu camin ho, mas n in guém pode ouvi-la, por is s o deixo que grite. Ela vai perder a voz. A maioria perde depois de um ou dois dias de barulhos fúteis . Não há n in guém por perto. Nin guém virá. Nin guém s e importa. Nin guém além de mim.
Eu a arras to pela es cada e agora ela chora. Eu a coloco n a jaula. Ela chora e n ão s e mexe. Eu a pren do à grade porque n ão con fio n ela. Ela n ão é como as outras mulheres . Ela es tá maculada.
M as vai apren der.
Subo a es cada e apago a luz. Ouço os s oluços dela. Em s eguida, a fêmea exclama:
– Vou matar você! Seu bastar do! Vou matar você!
Eu con gelo.
Ela praguejou con tra mim. Ela falou s em a min ha permis s ão.
Volto a acen der a luz. Des ço a es cada e a en caro por en tre as grades .
A raiva de den tro cres ce, borbulha.
A audácia da fêmea em falar comigo de tal modo!
– O que quer de mim? – a fêmea grita. Ela tem medo, mas também é des afiadora.
Quero que ela s in ta medo.
– Não lhe dei permis s ão para falar – eu digo.
Pon ho a mão n o bols o e ligo a Tas er [1] Arma de eletrochoque capaz de liberar uma des carga elétrica a fim de imobilizar uma pes s oa momen tan eamen te.
QUARENTA E DOIS
Sean estava com Mar ie Fitzger ald no “viva-voz” em seu escr itór io.
Hans, Dillon e Kate estavam sentados do outr o lado da escr ivaninha. Sean deix ou que Hans, em sua voz calma e bom r aciocínio, ex plicasse a situação par a a ex -mulher de Miller. Sean olhou par a a foto dela nos tempos de univer sidade. Ela er a uma loir a bonita e doce.
A pr imeir a per gunta dela foi:
– Como me encontr ar am?
Ela par eceu alar mada.
Hans disse:
– Pr ometo que ele nunca saber á onde você está e qual é o seu nome.
– Como posso confiar em você?
– Sei que é difícil e, se quiser, pode ver ificar minhas cr edenciais com o dir etor -assistente do FBI, Rick Stockton. Podemos esper ar .
Sean quer ia gr itar n ão, n ão podemos es perar! , mas se conteve. Em vez disso, disse:
– Mar ie, você sabe que Peter Miller é um bastar do sádico e doentio, e ele vai matar a mulher que eu amo se você não nos ajudar a encontr á-lo.
Sean não notou a tr oca de olhar es entr e Kate e Dillon, mas ele per cebeu, naquele instante, que amava Lucy. Pensar que poder ia per dê-la o deix ava quente e fr io ao mesmo tempo, r etor cia o seu estômago.
Mar ie disse:
– Conheci Peter na faculdade. Ele er a doce. Das antigas. Abr ia por tas e me tr atava como uma pr incesa. Meu pai er a pastor em uma pequena cidade, um homem humilde e temente a Deus. Pensei que Peter fosse igual.
Nós dois quer íamos filhos, nós dois quer íamos ficar em casa par a cr iá-los.
Ainda sou a mesma gar ota de uma pequena cidade com valor es conser vador es, mas não sou mais um capacho. Nós no casamos no último ano da faculdade. Pensei estar apaix onada. Talvez estivesse, ou talvez eu estivesse amando a ideia de ter um mar ido per feito e pr estativo que honestamente levava em consider ação todas as minhas necessidades. Como em uma noite em que fiquei doente e ele ficou acor dado ao meu lado, passando um pano úmido no meu r osto par a aliviar a febr e alta. Ele me dizia que eu er a o anjo dele.
Hans per guntou:
– O que aconteceu que o fez mudar ?
– Isso é estr anho: nada. Ele sempr e foi... o que disse mesmo, senhor Rogan? Um bastar do sádico e doentio. Eu só não enx er gava isso. Com toda a sua consider ação e atenção, ele nunca me deix ava longe das suas vistas.
Eu não tinha amigos que não fossem amigos dele, e os poucos que tínhamos eu não podia ver sem ele. Eu não entendia isso no início. Nos mudamos par a Wilmington depois da for matur a por que ele conseguiu empr ego como pr ofessor em uma escola. Eu fiquei entediada. Limpar, cozinhar e assar er a tudo o que eu fazia. Pedi a ele se eu podia par ticipar de um clube de leitur a de livr os. Sei o que estão pensando, por que eu ter ia de pedir ? Mas as coisas er am assim. Ele tomou o lugar do meu pai em muitos aspectos.
Sempr e pedi per missão a papai, mas papai sempr e disse sim. Ele quer ia que eu fosse par a a univer sidade, que apr endesse coisas novas, que fosse capaz de pensar por mim mesma. Peter... Ele quer ia cuidar de mim. Não quer ia que eu tivesse uma vida separ ada da dele. Não foi bem assim. Foi mais ex tr emo: ele não per mitia que eu tivesse a min ha vida. Implor ei.
Pr ecisei de meses par a pr ovar que o clube do livr o não inter fer ir ia no nosso r elacionamento. Ele conheceu todas as mulher es, pr ovavelmente ver ificou a vida delas par a descobr ir sabe lá Deus o que as tor nar ia mais aceitáveis. Por fim, eu pude par ticipar. Er a uma noite por semana, às segundas-feir as.
Sean per guntou:
– Ele a seguia, não?
– Sim – Mar ie disse. – Eu não sabia, mas ele esper ava do lado de for a da casa de quem quer que fosse a r eunião da noite e vigiava. Tentei convencê-
lo a sair com o mar ido das outr as mulher es; eles sempr e assistiam aos jogos de futebol às segundas ou iam a bar es. Eu r ealmente gostava daquele pessoal, mas Peter se r ecusou. Quando descobr i que ele me vigiava, nós tivemos nossa pr imeir a br iga. Em dois anos de casados, nós nunca br igamos. Por que eu concor dava com tudo, mesmo com as r egr as r idículas dele. Eu só quer ia fazer o meu mar ido feliz... Mas per cebi que Peter não er a nada par ecido com o meu pai, não er a nada do que pensei que fosse.
Demor ei meses até contar às meninas como Peter estava começando a me assustar . E eu só contei por causa do que ele fez... – a voz dela sumiu.
– O que ele fez, Mar ie? – Hans per guntou depois de um momento.
– Ele leu a minha cópia de Dormin do com o in imigo, de Nancy Pr ice.
Houve um filme com Julia Rober ts, mas o livr o er a muito melhor. E...
Peter... Simplesmente sur tou. Ele me empur r ou na cama e ar r ancou as páginas uma a uma. Uma a uma, metodicamente. Depois r asgou cada página em pedacinhos. Ele levou hor as. Eu não me mex i, não conseguia...
Havia algo no olhar dele... Fiquei ater r or izada... Pedi às meninas do clube que me encontr assem par a almoçar no dia seguinte, enquanto Peter tr abalhava, e elas me convencer am a deix á-lo. Contei tudo a elas, tudo saiu como uma tor r ente... O fato de eu não poder usar maquiagem for a de casa a menos que ele estivesse comigo. De eu só poder usar vestidos. E sobr e a obsessão dele.
Quando ela não continuou, Hans per guntou:
– Que obsessão?
– Peter foi o meu pr imeir o. Eu er a vir gem, e ele gostava disso. Meus pais me educar am par a que eu me r esguar dasse par a o meu mar ido, e Peter r espeitava isso. Nunca tentou nada antes da noite de núpcias. Mas depois daquela noite, ele me fazia tomar banho antes de nos r elacionar mos. E depois. E quando fazíamos sex o, er a algo muito mecânico, como se ele fosse um r obô fazendo os movimentos esper ados.
Não havia afeto. Cer ta vez, no começo do nosso casamento, eu tomei vinho no jantar. Rar amente bebo, duas taças me deix am tonta. Tentei fazer algo difer ente na cama, algo que eu tinha lido, e ele me chamou de pr ostituta – a voz dela enfr aqueceu e ficou r epleta de emoção. – Ele me disse que contar ia ao meu pai que eu er a suja caso eu voltasse a fazer algo do tipo.
Eu me senti tão enver gonhada, tão humilhada...
Hans disse:
– Mar ie, você sabe que Peter é um homem pr ofundamente per tur bado.
Ele gostava de tor tur ar psicologicamente as mulher es.
– Não entendo. Vocês disser am que ele sequestr ou alguém. Mas talvez ela tenha ido por que quis. Ele é muito per suasivo.
– Ela foi sequestr ada – Sean disse. – Sabe que ele esteve na pr isão por estupr o?
– Peter ? – ela par eceu chocada.
Hans ex plicou:
– Estupr o estatutár io. Com as meninas da escola onde ele lecionava.
– Oh, Deus, isso é hor r ível. Eu não sabia. Cor tei os laços com todos, mesmo com as mulher es do clube do livr o.
– Por que mudou de nome? – Dillon per guntou. – Ele a ameaçou?
– Eu disse a ele que quer ia o divór cio. Minhas amigas não per mitir am que eu fizesse isso sozinha, for am comigo, e ele me deix ou ir. Pensei que tivesse sido fácil demais, mas que talvez ele tivesse entendido; felizmente, por ém, minha amiga Becca não acr editou. O ir mão dela er a policial, e ele me deix ou ficar com ele. Quar tos separ ados, nada aconteceu entr e nós...
Na época, quer o dizer. Consegui meu empr ego como secr etár ia no depar tamento de polícia por causa de Jimmy, e me senti segur a pela pr imeir a vez em anos. Não tive notícias de Peter por vár ios meses. Pedi ao meu advogado que entr egasse a papelada do divór cio. Peter entr ou na delegacia no dia seguinte com um envelope. Ele o entr egou par a mim e disse: “Você é minha mulher. Sempr e ser á a minha mulher, mesmo sendo uma vadia imunda. Venha par a casa agor a, aceite o seu castigo e eu a per doar ei” – ela r espir ou fundo. – Eu não fui. Ele me encar ou tão longamente que seis policiais o cer car am. Eles o acompanhar am par a for a, e Jimmy disse que eu pr ecisava de um mandado de segur ança. Abr i o envelope. Lá dentr o estavam os pedaços r asgados da papelada. E havia uma foto de Jimmy me abr açando. Peter ficou me espionando. Aquele foi o dia em que meu pai mor r eu, ele tinha estado em uma casa de r epouso por dois anos por causa do câncer, e o dir etor da instituição me telefonou contando que ele tinha mor r ido enquanto dor mia. Não havia nada de sex ual naquele abr aço! Jimmy só er a um bom amigo!
– Mar ie, – Hans disse – você não tem de justificar nada, entende? Você não fez nada de er r ado.
– Entr ei em pânico. Eu disse que nenhum mandado o deter ia. Não sei por que fiquei com tanto medo, uma vez que Peter jamais me fer iu fisicamente. Mas eu sabia que ele me matar ia. Eu simplesmente sabia.
Jimmy me ajudou a tr ocar de nome legalmente e eu me mudei par a o Ar izona. Eu me sentia muito só. Eu não tinha família e tinha muita dificuldade par a fazer amigos. Liguei par a Jimmy depois de seis meses e ele voou par a lá, e foi então que per cebemos o quanto gostávamos um do outr o. Ele conseguiu um empr ego em Austin como detetive de polícia e nos casamos um ano mais tar de. Tenho dois lindos filhos, e não quer o que eles se machuquem. Por favor , por favor ...
– Mar ie, Peter nunca saber á. Mas pr ecisamos saber onde ele está mantendo Lucy.
– Eu não sei. Estou dizendo a ver dade, nunca mais falei com ele desde que saí de Wilmington.
– Sabemos disso, – Sean disse – mas ele não tem nenhuma pr opr iedade sob o nome dele em Mar yland, Delaw ar e ou na Vir gínia. Estamos pr ocur ando em outr os estados. Tentamos os nomes dos pais dele, dos avôs, não encontr amos nada. Ele tem de estar em algum lugar. Talvez com um amigo? Um pr imo? Uma casa de ver aneio?
– Não sei...
Dillon disse:
– Ter ia de ser um lugar em que ele se sentisse segur o, onde ele poder ia ir quando estivesse sob estr esse. Um lugar que o lembr asse do que é de fato impor tante. Muito par ticular . Retir ado.
– Como a casa da fazenda da bisavó dele?
– Sim – Dillon disse, se inclinando par a fr ente. – Onde fica?
– Em War r enton. Só fui lá uma vez; ele me levou quando nos for mamos, a caminho de Wilmington. Ficamos alguns dias apenas. Ninguém mor ava lá.
A pr opr iedade estava sob custódia por causa de alguma disputa familiar antes mesmo do nascimento de Peter. Er a um lugar velho e ar r epiante, mas Peter o ador ava. Ele disse que estava poupando par a r efor mar a casa e que er a ali que ele quer ia cr iar a família. Eu não disse nada por que achei que nunca viver íamos ali.
– Onde fica?
– Não sei. Em War r enton, é tudo o que lembr o.
Sean per guntou:
– Qual o nome do fundo de custódia?
– Não sei.
– A bisavó dele er a Miller também?
– Não, o nome dela er a Adeline Har ker .
Sean começou a digitar no computador .
Hans disse:
– Obr igado, Mar ie. Se ainda está pr eocupada com a sua segur ança, peça ao seu mar ido par a me telefonar. Posso ex plicar a ele tudo o que está acontecendo. Eu lhe dou a minha palavr a: seu ex -mar ido nunca a encontr ar á.
– Esper o que a encontr em.
– Nós encontr ar emos, gr aças à sua ajuda.
Hans desligou o telefone. Sean tr abalhava na busca da pr opr iedade enquanto Kate ligava par a Noah.
– Br istow Road! – Sean ex clamou. – Fundo da Família Har ker. Fica a menos de um quilômetr o do Aer opor to Air lie. Vamos.
– Sean... – Dillon começou.
– É aqui que ela está – Sean disse. – Sei disso. É per to o bastante, isolado... Eu vou.
– Todos nós vamos, mas não pode voar neste tempo.
– Por que diabos não? Não posso dir igir par a lá mais r ápido do que ir ei voando. Não está nevando agor a, mas as estr adas estão péssimas, e nós levar íamos uma hor a em boas condições. Nós podemos ater r issar em quar enta e cinco minutos.
Ele levantou-se, pegou a car teir a e a jaqueta, depois abr iu o ar már io e apanhou uma sacola de viagem.
– O que é isso? – Dillon per guntou.
Sean estava ansioso.
– Minha mala de emer gência – e saiu do escr itór io.
Hans levantou a sobr ancelha e disse sar cástico: – É mesmo, ele não se par ece em nada com Jack...
*
Noah desligou o telefone e disse par a Abigail: – Kate e Hans acabar am de falar por telefone com a ex -mulher de Miller .
– Como eles a encontr ar am?
– Não per guntei, mas tenho cer teza de que os Rogan têm alguma coisa a ver com isso – ele não r eclamou, por ém. A vida de Lucy cor r ia per igo.
Ele olhou par a o r elatór io que tinha acabado de r eceber do Depar tamento de Polícia de Wilmington. Tr ês mulher es desapar ecidas.
Miller er a suspeito por ter sido condenado por estupr o estatutár io, mas eles não tinham pr ovas, nenhuma evidência. A única pr ova ínfima que tinham er a a declar ação de uma testemunha descr evendo o car r o de Miller naquela época. Mas o car r o er a de fabr icação comum, e não havia motivo apar ente. Um br eve inter r ogatór io com Miller mostr ou-se inútil.
Mas se Miller estivesse r elacionado às mulher es desapar ecidas, definitivamente ele er a mais per igoso e ex per iente do que imaginavam.
– O que é isso? – Abigail per guntou.
– Eu conto no car r o.
Saír am da sede do FBI.
– Onde Miller está?
– War r enton. Esper o que eles estejam cer tos; a família de Miller tem uma pr opr iedade lá sob custódia.
– Vamos levar mais de uma hor a par a chegar lá.
– Kate está voando com Hans, Rogan e Dillon. Vou telefonar par a a nossa unidade tática do escr itór io do Nor te da Vir gínia. Eles estão mais pr óx imos, mas vão pr ecisar de alguns minutos par a se mobilizar .
Noah conduziu o car r o par a a estr ada. Não estava nevando, mas a visibilidade er a péssima.
– Não consigo acr editar que Sean está voando com esse tempo.
– Você far ia a mesma coisa – Abigail obser vou.
– Acho que não me conhece tão bem assim.
Abigail sor r iu.
– Acho que sim. Não se tr abalha com um car a por uma semana, mesmo alguém tão fechado quanto você, sem entendê-lo no fim.
Noah balançou a cabeça e falou com o escr itór io da Vir gínia do Nor te.
Estavam localizados em Manassas, muito mais per to do lugar alvo.
– Eles se mobilizar ão em quinze minutos e enviar ão uma equipe par a lá, mas nós devemos chegar em uma hor a, uma hor a e dez por causa das condições da estr ada – ele r apidamente mandou uma mensagem par a Kate e Hans, juntamente com o númer o e o nome do agente local.
Em seguida, infor mou Abigail sobr e as mulher es desapar ecidas em Wilmington.
– Acha mesmo que Miller está envolvido no desapar ecimento delas?
– Não sei, mas não deix a de ser suspeito.
– Sabe o que eu acho?
– Não me faça adivinhar .
– Acho que ele vem jogando desse jeito há um bom tempo. Só tr ês mulher es? Aposto como há mais, em toda a r egião. Elas tinham o mesmo tipo físico?
– Loir as tímidas com menos de 30 anos.
– Se par ecem com a ex -mulher dele – Abigail obser vou.
– Lucy não se encaix a nesse per fil.
– Mas Lucy estava tentando mandá-lo de volta par a a pr isão.
*
Sean ater r issou no Aer opor to Air lie quar enta e dois minutos mais tar de, pouco antes do meio-dia. As estr adas que par tiam do aer opor to estavam em pior es condições do que ele imaginava, e cada minuto do tr ajeto doía nele, pois er a um minuto a mais em que Lucy ficava nas mãos daquele filho da mãe.
– Quando Noah deve chegar ? – ele per guntou a Hans.
– Ele ainda deve demor ar uns quar enta e cinco minutos. O esquadr ão tático está a caminho. Devem chegar em dezoito minutos.
Dillon per guntou:
– Como vamos dir igir até lá? Não poder emos caminhar um quilômetr o...
Sean balançou a cabeça.
– Confie em mim.
Ele manobr ou o avião na dir eção dos hangar es. Não havia ninguém ali, aquele er a um aer opor to par ticular e ele ter ia de usar a lábia par a evitar ser multado, mas não se impor tava com isso. Encontr ou o que pr ocur ava.
Abr iu a tr ava de um For d modelo mais antigo que estava estacionado ao lado do hangar .
– Você não vai...
– Nós o tr ar emos de volta – Sean disse. Olhou embaix o do volante, pux ou uma alavanca e ligou a fiação. Em menos de um minuto a caminhonete estava funcionando. – Vamos pegar Lucy.
QUARENTA E TRÊS
Sean, Kate, Dillon e Hans apr ox imar am-se da pr opr iedade Har ker pelo nor te, onde estar iam encober tos por um celeir o gr ande e abandonado.
Sean via a casa a cinquenta metr os dali. Um dia ela foi br anca, mas atualmente estava desgastada pelo tempo. Par ecer ia singular, com uma cer ca ao r edor da var anda e um balanço per to da por ta de entr ada, se aquele suíno do Miller não estivesse apr isionando Lucy ali.
Pelo menos eles pr esumiam que ela estivesse lá dentr o. A gar agem do outr o lado poder ia ser o cativeir o de Lucy. E também ter iam de vasculhar o celeir o.
– A SWAT está a tr eze minutos daqui – Kate disse. – Podemos solicitar um helicópter o par a que fique aguar dando no Air lie, e eles chegam aqui em cinco minutos depois do contato. Sean, você e eu vamos vasculhar o celeir o.
Hans, ligue par a o líder da equipe da SWAT e passe par a ele o layout da nossa localização. Mantenha a linha aber ta.
Ela gesticulou par a Sean. Os dois empunhar am as pistolas e caminhar am ao r edor do celeir o até a por ta de entr ada. A por ta gr ande estava encostada.
Uma mar ca pr ofunda na neve da casa par a o celeir o, ou vice-ver sa, estava fr esca. Par ecia que algo pesado tinha sido ar r astado na neve, já que se via par te da gr ama gelada por baix o. Kate chamou a atenção dele e se dir ecionou par a a por ta, depois levantou tr ês dedos. Ele assentiu.
Um. Dois. No tr ês entr ar am silenciosamente e ao mesmo tempo no celeir o; Sean mir ando o alto, Kate abaix ada, as ar mas em punho, fazendo uma var r edur a de um lado par a o outr o, tentando avaliar per igos em potencial.
Não vir am ninguém, nem ouvir am nada. Mas um cheir o desagr adável per meava o ar junto com feno mofado e odor de animais, algo mais fr esco.
Passar am de baia em baia meticulosamente.
Kate abafou um gr ito e Sean cor r eu par a junto dela. Ele viu um tor so sem cabeça no chão e uma r atazana cor r endo da aber tur a no cor po em que um dia ficou a cabeça da mulher .
Por um átimo de segundo a semana anter ior passou pela mente de Sean, e uma sensação indescr itível de per da e desesper o o acometeu.
Mas não er a Lucy.
– Lucy! – Kate ex clamou. – Oh, meu Deus!
– Não é Lucy – Sean disse.
Kate balançou a cabeça.
– Oh, Deus, desculpe, é que eu só...
– Esper ava o pior .
A pobr e mulher estava mor ta há vár ios dias, por ém, mais do que o estado do cor po, er a a sua estr utur a que dizia que não er a Lucy. A moça er a mais pesada e mais baix a que ela.
Sean levantou o olhar e viu as manchas na par ede. Ele vasculhou as outr as baias e viu mar cas semelhantes, algumas tão antigas que se mistur avam à pintur a ver melha desgastada. Pelo menos nove. Não vir am outr os cor pos, mas, ao que tudo indicava, as baias er am cr iptas, e os cor pos estavam enter r ados lá. O chão estava muito dur o naquela época, mas no ver ão...
– Nós não temos que esper ar – Sean disse.
– Pr ecisamos saber ex atamente onde ela está – Kate disse. – Se invadir mos a casa, ele pode matá-la.
Sean apanhou binóculos tér micos da mala e vir ou-se par a Kate com eles, que o fitou com inveja.
– Nós não r ecebemos desses...
– Eles são car os, e pr ovavelmente custam o dobr o par a o gover no.
– A que distância você consegue enx er gar ?
– Daqui até a casa. Mas não ver ei o outr o lado da casa com clar eza.
Quanto maior o númer o de par edes que o infr aver melho tem de atr avessar , mais o sinal se tor na mais fr aco e menos confiável.
Ele r efez os passos até a entr ada do celeir o e olhou pelos binóculos. O
fr io ajudava. Ele viu um sinal de calor no segundo andar .
– Uma pessoa no alto.
– Uma?
Sean olhou par a a casa sem o apetr echo.
– Ex iste um por ão. Tenho de me apr ox imar par a conseguir um ângulo melhor... Com a inter fer ência do chão, não consigo ver bem daqui de longe.
– Vamos r eagr upar – Kate olhou de r elance par a o r elógio. – A SWAT
está a sete minutos.
Quando voltar am par a tr ás do celeir o, Hans disse: – Estão estimando doze minutos agor a. Depar ar am-se com uma estr ada cober ta de neve.
– Há um cor po no celeir o, mor to há cer ca de uma semana – Kate disse.
– E evidências de outr os. Sean viu uma pessoa no segundo andar. Ele pr ecisa se apr ox imar par a conseguir ver o por ão. Sean e eu vamos dar a volta na casa. Hans e Dillon, deem a volta por tr ás das ár vor es que mar geiam a casa e fiquem de vigia. Assim que confir mar mos que Lucy está lá dentr o, nós agir emos. Hans, você ainda está com a linha aber ta?
– Sim, a SWAT está ouvindo.
– Ok. Mantenha-os infor mados a r espeito da situação e da localização. E
nos deem cober tur a. – Ela deu um beijo r ápido em Dillon e se vir ou par a Sean. – Pr onto?
Ele assentiu.
Andar am na pr oteção das ár vor es até estar em em linha r eta com o por ão. Embor a estivessem ex postos nos tr ezentos metr os que os separ avam da casa, eles atr avessar am sem incidentes. Sean apr ox imou-se de uma janela do por ão, quase totalmente obstr uída pela neve. Ele não conseguia enx er gar atr avés do vidr o, mas conseguiu um ângulo par a usar os binóculos e assim avaliar se havia alguém embaix o.
Ele viu duas mar cas de calor. Duas. Ser á que Miller tinha descido? Uma estava sentada, a outr a, deitada. Ser ia um cachor r o? Talvez um cão de guar da? Não. Er a definidamente uma figur a humana, os br aços er am óbvios.
Cor po magr o, mas estava enr odilhado como que par a manter o calor. Ele mostr ou par a Kate. Ela ficou per plex a. Ele vasculhou a casa de novo. Também havia a mar ca de calor no segundo andar .
Kate sussur r ou no r ádio.
– Hans, há duas pessoas no por ão, uma no segundo andar – ela gesticulou par a a var anda.
Sean balançou a cabeça.
– Janela.
Ele começou a afastar a neve, mas logo per cebeu que a janela er a pequena demais par a ele ou Kate passar .
Kate sussur r ou:
– Subimos as escadas. Eu vou pela dir eita, você, pela esquer da, e pr ocur amos uma entr ada. Mantenha a comunicação aber ta.
Ele assentiu, guar dou os binóculos e pegou a ar ma.
Subir am as escadas de tr ás.
*
A cabeça de Lucy latejava por causa do ataque, e o cor po doía por ter sido ar r astada na neve e pela escada abaix o. Sangr ava na cabeça e o cor te no br aço necessitava de pontos.
Ela olhou pela janela do outr o lado do por ão. Alguma coisa estava difer ente, estava mais clar o, par te da neve tinha sido r etir ada. Mas ela não conseguia ver nada lá for a, e a sua visão estava embaçada. Suspeitava ter sofr ido uma concussão, mas não podia deix ar que nenhum fer imento a desaceler asse. Ela pr ecisava de um plano.
– Car olyn! – sussur r ou.
Nenhuma r esposta.
– Não obedeça a ele! Por favor, pr eciso da sua ajuda. Você está aqui há mais tempo, deve conhecer alguma saída.
Car olyn não falava. As ameaças de Miller tinham funcionado. Lucy implor ava, mas Car olyn fingia não ouvir .
– O nome dele é Peter Miller . Ele está sob condicional após ter cometido estupr o estatutár io. Ele estupr ou seis alunas do Ensino Médio. Alunas dele.
Só duas testemunhar am, e tenho cer teza de que elas mor r iam de medo dele. Mesmo assim, elas o fizer am! Elas o enfr entar am! Você tem de fazer isso. Por favor , Car olyn, não vou conseguir fazer isto sozinha!
Car olyn chor amingou, depois sussur r ou tão baix o que Lucy mal a ouviu.
– Não quer o mor r er .
Lucy suspir ou e r efr eou as lágr imas.
– Nem eu. Ele tem uma ar ma?
Nenhuma r esposta.
– Ok, vamos fazer assim, vá mais par a per to do aquecedor par a que eu possa enx er gá-la. Balance a cabeça par a dizer sim ou não. Desse modo você não estar á falando.
Car olyn demor ou um minuto par a aquiescer .
– Vamos lá, ele tem uma ar ma?
Car olyn fez que sim.
– Ótimo! Onde ela está? – nenhuma r esposta. – Ele fica com ela?
Ela negou.
– Onde... – aquilo er a r idículo, mas Lucy entendia o que er a sentir medo, e Car olyn não conseguir ia super ar a lavagem cer ebr al imposta por Miller da noite par a o dia. – Na cozinha?
Não.
– No quar to dele?
Ela deu de ombr os.
– Você viu a ar ma em algum lugar ?
Sim.
Ela r elembr ou a casa pela qual havia passado pela manhã. Estava imaculadamente limpa. Limpa e ar r umada. A cozinha, a sala de estar, a escada... Mas havia a por ta de um ar már io per to da entr ada. De fácil acesso, bem de onde alguém poder ia se apr ox imar da casa.
– No ar már io per to da entr ada?
Sim.
– Cer to, pr ecisamos dessa ar ma.
Car olyn balançou a cabeça, depois levantou dois dedos.
– Ele tem duas ar mas? No mesmo lugar ?
Não. Depois ela sussur r ou:
– Sala.
Lucy sor r iu.
– Ótimo. Obr igada. Duas ar mas... Isso me dá opções – s e s airmos des ta maldita gaiola. – Você não tem de fazer nada, ex ceto distr aí-lo. Se ele vier nos ver , qualquer uma de nós, nós vamos sair pela por ta, você cor r e.
Car olyn balançou a cabeça vigor osamente.
– Você tem de fazer isso. Ele ir á atr ás de você e eu poder ei pegar a ar ma. Sei usá-la. Não vou er r ar o tir o. É a única saída que vejo par a esta situação. A menos que você queir a que eu cor r a e você pegue a ar ma – Lucy não gostava nem um pouco disso. – Sabe atir ar ?
O lábio infer ior de Car olyn tr emeu e ela balançou a cabeça.
– Por favor , Car olyn.
Ouvir am passadas do segundo par a o pr imeir o andar. Car olyn chor amingou e se encolheu de volta ao seu canto.
Lucy pr epar ou-se par a a entr ada de Miller e par a os abusos dele. Mas ele não apar eceu.
Em seguida, o silêncio. Isso assustou-a muito mais.
*
Fico dian te da porta da fren te. Há quan to tempo es tou aqui, n ão s ei, mas es pero. De s en tin ela. Protegen do as min has mulheres dos predadores . Es pero. Ouço. M eus olhos es tão fechados porque eles podem me en gan ar.
Ouço.
Um ran gido.
Alguém n a varan da.
Abro os olhos . O céu es tá cin zen to, a n eblin a des ce n o vale, por is s o s ó vejo a s ilhueta do celeiro. A n eve cobre a terra tão completamen te que en xergo a mín ima imperfeição.
A trilha profun da que fiz ao arras tar a fêmea des obedien te de volta à jaula. M in has pas s adas de an tes da cas a para o celeiro.
Com cuidado, vou para os fun dos da cas a. Es pio pela fres ta da cortin a.
Um par de pegadas n a n eve fres ca, da flores ta para a min ha cas a. Há outra trilha mais ao lon ge. Não vejo n in guém.
M as ouço uma pas s ada.
Um ran gido.
M iro n a direção do s om e atiro pela jan ela.
QUARENTA E QUATRO
Kate caiu e r astejou até o lado oposto da var anda. Sean pr aguejou em silêncio ao se abaix ar na neve. Kate fez-lhe um sinal de que estava bem, mas Sean sabia que ela tinha sido atingida.
Sean moveu-se o mais r ápido que podia pela neve, ao r edor da casa, a var anda pr otegendo-o, mas ele não subiu a escada. Em vez disso, er gueu-se sobr e a cer ca da casa e achatou o cor po ao longo da constr ução. Espiou atr avés da fenda entr e as cor tinas e viu Miller par ado per to da por ta dos fundos, olhando pelas cor tinas na dir eção que Kate tinha tomado.
Sean abaix ou-se e caminhou silenciosamente par a a por ta da fr ente.
Tentou gir ar a maçaneta. Tr ancada.
Em seu fone de ouvido ouviu Hans dizer :
– SWAT, cinco minutos.
Sean não se ar r iscar ia em r esponder e per mitir que Miller o ouvisse.
Se conseguisse entr ar e r esgatar Lucy antes da chegada da SWAT, ele poder ia pr otegê-la e sur pr eender Miller caso ele descesse até o por ão.
Pr ecisava entr ar .
Sean segur ou a pistola com a mão dir eita e apur ou os ouvidos. Não ouviu movimento algum. Imaginou o inter ior da casa do seu ponto de obser vação à janela. A entr ada não se via pela por ta de tr ás. Se Miller ainda estivesse ali, Sean poder ia entr ar . Se não...
Sussur r ou no micr ofone:
– Pr eciso de uma distr ação nos fundos.
– Copiado – Hans r espondeu.
Um instante depois, um único tir o foi dispar ado na linha de ár vor es onde Hans e Dillon estavam. Houve movimentação na casa; Miller passou cor r endo pela por ta da fr ente e subiu as escadas.
Sean r apidamente destr ancou a por ta e ouviu Miller cor r endo pelo cor r edor super ior . Meio minuto depois ele atir ou da janela de cima.
Sean fechou a por ta.
– Entr ei – ele sussur r ou. – Vou atr ás de Miller .
– Negativo – Kate disse.
Sean ignor ou-a. Lucy estava no por ão, Miller no segundo andar. Sean, entr e os dois. Miller er a o alvo mais óbvio.
Encostou as costas na par ede na base da escada. Havia silêncio, após o último estampido do r ifle. Na ponta da escada, com a pistola em punho, Sean começou a subir .
A escada fazia uma cur va na metade do caminho. Sean par ou par a espiar .
Ár ea limpa.
Moveu-se r apidamente, com os ouvidos atentos, e de r epente Miller cor r eu na dir eção oposta do cor r edor. Miller o viu ao mesmo tempo em que Sean disse:
– Solte a ar ma, Miller . Agor a.
Miller mer gulhou noutr a por ta e Sean ouviu passos apr essados descendo a escada.
Droga! Havia outr a escadar ia.
Sean pulou por sobr e o cor r imão e Miller atir ou nele da cozinha. Ele er r ou, em seguida foi par a uma por ta.
O por ão.
Sean atir ou em uma sucessão r ápida. Acer tou Miller na mão, que deix ou a ar ma cair .
Miller cor r eu de volta par a a dir eção em que veio. Sean disse: – Ele está fugindo e está fer ido – Sean hesitou. Quer ia ir atr ás de Miller, mas se ele desse a volta, talvez tivesse outr o acesso par a o por ão.
Ele poder ia estar deix ando Lucy despr otegida.
Sean abr iu a por ta destr ancada e desceu um degr au com cautela. O
por ão estava mal-iluminado, a luz tênue entr ava pelas janelas estr eitas.
– Lucy? – ele chamou, mais alto do que pr etendia. Missões de r esgate podiam fazer par te da r otina dos seus ir mãos, mas não da dele. Ele costumava ser o cér ebr o por tr ás das oper ações, e não uma par te oper ante.
No entanto, naquele caso, ele não tinha alter nativa.
– Sean! Oh, Deus, Sean!
Ele fechou a por ta no alto da escada par a per ceber a entr ada de Miller .
Encontr ou o inter r uptor de luz e acendeu duas lâmpadas fluor escentes, uma sobr e a por ta, outr a no meio do por ão.
Ele viu a jaula. E Lucy olhando par a ele por detr ás das gr ades.
O peito de Sean contr aiu-se com uma fúr ia tão poder osa que ele quase tr opeçou ao descer a escada.
– Lucy! – ajoelhou-se ao lado dela, enquanto ela esticava os br aços par a for a da gr ade par a segur á-lo pelo pescoço.
Ele beijou-a e segur ou o r osto dela com uma mão. Sangue seco sujava o r osto e o cabelo dela. Ela tinha um cor te no br aço que par ecia pr ofundo e o suéter estava r asgado em diver sos pontos. Ela estava com tanto fr io que o cor po inteir o tr emia. Ele viu que os pés dela estavam descalços.
Rapidamente tir ou os sapatos e as meias, entr egando-lhe as meias antes de voltar a calçar os sapatos.
– Onde está Miller ? – Lucy per guntou ao vestir as meias.
– Não sei par a onde ele foi. Eu atir ei nele, mas ele foi par a a par te de tr ás da casa. Ele não vai conseguir sair sem um confr onto: a SWAT está a caminho; Dillon, Kate e Hans estão do lado de for a. Mas pr imeir o tenho de tir á-la desta jaula.
Lucy disse:
– E Car olyn – indicou o canto.
Uma loir a fitava-o com olhos azuis ar r egalados. A semelhança com a jovem Rosemar ie Nylander , ex -mulher de Miller , er a imensa.
Lucy disse:
– Ele bagunçou a cabeça dela. Isso não vai ser fácil.
Ele avaliou o cadeado de combinação na por ta da jaula. Entr egou uma fer r amenta par a Lucy e disse:
– Consegue se livr ar das algemas?
Ela assentiu e começou a lidar com as algemas.
Sean foi par a junto do cadeado. Encostou o ouvido no cadeado e ficou ouvindo o clique enquanto gir ava a combinação.
– Sean, está sentindo um cheir o difer ente?
– Shh – ele tinha de se concentr ar ou per der ia o som e não notar ia o clique.
Um. Um númer o no lugar, depois gir ou par a o outr o lado, e pr estou atenção...
Lucy liber tou-se das algemas, depois r astejou par a junto de Car olyn.
– Nós vamos sair daqui, Car olyn. Você vem com a gente. Não vou deix ar que ele a machuque de novo.
Sean concentr ou-se no cadeado... Mas então sentiu o cheir o que Lucy comentou.
Olhou par a cima das escadas. A fumaça passava por debaix o da por ta.
Lucy ar fou e Car olyn chor amingou.
– Sean, você tem de sair ... Vá...
– Não sem você.
– Sean... – Lucy saiu de per to de Car olyn e segur ou a mão dele.
– Lucy, eu não vou – ele beijou-a entr e as bar r as. – Agor a quietinha, que eu pr eciso ouvir .
Mas ele também ouvia o fogo se avolumando acima deles enquanto se concentr ava na tr anca.
Clique.
Ele tinha conseguido o segundo númer o. Estava se concentr ando no ter ceir o quando ouviu uma sar aivada de balas no andar super ior .
– Pr eciso de uma ar ma – Lucy disse.
– No meu tor nozelo – ele or ientou.
Sean sentiu Lucy tir ar a pistola do coldr e e a viu mir ar par a a por ta.
Ele tinha de ir devagar, pois, caso per desse o clique, ter ia de r ecomeçar . Mas os bar ulhos de cima atr apalhavam a sua concentr ação.
Lucy vigiava a por ta, já que Sean estava de costas par a ela. Ela ouviu vozes e gr itos, em seguida a por ta se abr iu, a fumaça da cozinha invadiu o por ão. Os estalidos do fogo cr escente a ater r or izavam. Ela não sabia como eles conseguir iam sair. Mir ou a ar ma, r ezando par a que fosse a SWAT, ou Kate ou qualquer um...
Er a Miller. Ele estava sangr ando, mas empunhou a ar ma e atir ou na mesma hor a em que Lucy dispar ou. Alguma coisa r aspou no seu tor nozelo, mas ela não par ou de aper tar o gatilho da 9 mm até não ter mais balas.
Miller a encar ou ao cair tr opeçando pela escada, despencando em um baque letal enquanto ela ouvia a cr epitação do fogo.
Vir ou o pescoço par a ver Sean. Ele estava caído no chão.
– Não!
O cadeado estava aber to e ela tir ou-o da jaula, abr indo a por ta par a r astejar par a for a.
– Sean! Não, maldição, não!
– Estou bem – a voz dele saiu fr aca.
– Onde foi atingido?
– No colete – ele se sentou, não sangr ava, mas estava obviamente abalado e sem fôlego, mas então pux ou Lucy par a um abr aço aper tado.
Lucy ar r astou-se par a o lugar em que Miller jazia ao pé da escada depois dos tir os que ela dispar ou. Afastou a pistola dele, mesmo que ele estivesse obviamente mor to.
– Temos que ir – Sean disse. – Car olyn!
A moça não se mex eu, só o fitou, pr aticamente catatônica.
– Ela está fer ida?
Lucy r astejou par a dentr o da jaula de novo.
– Car olyn, nós temos que sair agora.
Car olyn balançou a cabeça.
– Ele está mor to! Eu o matei. Por favor, Car olyn. Você não quer mor r er . Eu não quer o mor r er . Nós temos que ir !
Car olyn hesitou, e Lucy agar r ou-a por debaix o dos br aços e ar r astou-a par a for a. Car olyn gr itou de dor, mas Lucy não par ou. Ela sabia que a moça estava machucada, mas sair da casa em chamas er a o mais impor tante.
– Sean, – Lucy disse – você consegue car r egá-la?
– Você consegue andar ?
– Sim – ela não sabia se conseguir ia. Tocou o tor nozelo e per cebeu que ele sangr ava. Doía, mas ela deduziu que o fer imento fosse super ficial. – Vá, ela está muito fr aca.
Sean estava obviamente dividido, mas suspendeu Car olyn e a colocou sobr e o ombr o. Lucy se pôs de pé. Tentou andar, mas a per na esquer da não sustentou o peso. Sean se vir ou par a tr ás, com a ex pr essão car r egada de pânico.
– Vá! – ela ex clamou. – Estou logo atr ás.
Lucy r astejou pelo chão atr ás de Sean. Ele subiu a escada e passou pela por ta. Ela estava na metade da escada quando o teto começou a ceder sobr e ela e ela gr itou. O fogo estava tão for te que ninguém devia tê-la ouvido. A madeir a queimando, os estalidos e as cr epitações... Lucy tossiu e segur ou o cor r imão par a se er guer. Saltitou no pé saudável, usando o cor r imão como apoio.
Labar edas de fogo apar ecer am na por ta. O cor r imão de madeir a, enfr aquecido pela queda de Miller, r apidamente pegou fogo. As escadas estalavam e ela temia que os degr aus despencassem a par tir do topo, fazendo-a cair no fundo e deix ando-a sem saída.
Sean r eapar eceu no alto da escada. Ele par ou na platafor ma do alto e a escada balançou dr amaticamente. Ele deu um passo par a tr ás.
– Lucy, depr essa!
Ela lar gou o cor r imão ar dente e r astejou nos degr aus que oscilavam.
Sentiu tudo se mover par a baix o e se esticou na dir eção de Sean...
Ele a segur ou pelo pulso enquanto a escada despencava. Ele tossia, o r osto estava pr eto de fuligem, mas a suspendeu, for çando cada músculo do pescoço e dos br aços. Os dois caír am no chão da cozinha tossindo. O calor das chamas que devor avam a casa er a intenso.
– Lucy – Sean tossia enquanto eles se ar r astavam de bar r iga no chão pela cozinha esfumaçada.
Uma figur a vestida toda de pr eto entr ou. Ele usava uma máscar a da SWAT. Pegou Lucy por debaix o dos br aços e empur r ou-a pela por ta par a for a da casa.
– Sean! – ela ex clamou.
– Vou pegá-lo.
Os olhos ar diam e ela não conseguia enx er gar com nitidez, mas r econheceu a voz. Noah Ar mstr ong. Ele cor r eu pela escada da var anda e entr ou na casa em chamas.
Ela viu tudo, ater r or izada com a ideia de per der Sean, e que Noah pudesse mor r er tentando salvá-lo. Miller devia ter usado algum aceler ador, que, aliado ao estado e à idade da casa de madeir a velha e gasta, per mitiu que o fogo se espalhasse em questão de minutos.
O teto cedeu e a casa par eceu mudar de posição ao balançar. Ela tossiu e Dillon de r epente estava ao seu lado, colocando uma máscar a de ox igênio por tátil em seu r osto.
Ela r espir ou fundo algumas vezes, depois a afastou.
– Lucy, você está sangr ando.
– Estou bem.
Dillon abr açou-a com for ça.
– Sean...
– Noah vai tir á-lo de lá. Você está bem mesmo?
Ela não conseguia r esponder. Só olhava par a a por ta. Por favor, por favor!
A casa continuou a despencar .
Sean e Noah não saír am.
– Não – ela gemeu. – Não!
Dillon abr açou-a, tentando ampar ar o r osto dela, mas ela o afastou.