Se eu Morrer Antes de Você
1. Um
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 17 partes.
En quan to dirijo, con tin uo olhan do para ela pelo es pelho retrovis or. Os olhos dela es tão abertos , porém vidrados . Es pero que n ão es teja morta.
Preocupo-me um pouco. Garotas mortas n ão têm graça; n ão tive meu tempo com Lucy. Paro n a beira da es trada e viro para trás n o ban co. Pego o chicote e chicoteio a fêmea.
Ela con vuls ion a, um grito é abafado pela boca amordaçada. Eu s orrio.
Ela es tá viva. Claro que es tá. Sou bom demais para cometer erros com dos agem, mes mo experimen tan do algo n ovo.
Eu me mis turo ao trân s ito. Normalmen te n ão gos to de dirigir tão devagar, mes mo em um tempo como aquele, mas es ta n oite?
Es ta n oite, eu es tou muito s atis feito.
TRINTA E NOVE
Ao longe, a água gotejava em um r itmo lento e contínuo. O fr io se infiltr ou até os ossos de Lucy, entor pecendo-a. O chão er a dur o, mas não er a nem de madeir a, nem de cimento. O cheir o mofado e tumular da ter r a úmida invadiu as nar inas e a gar ganta dela. Além da água, que estava mais pr óx ima do que ela havia imaginado a pr incípio, ela não ouvia nada. Nada de car r os, nem de vozes, nada.
Lucy não tinha ilusões de estar segur a em casa.
Por um momento r epleto de pânico, ela temeu estar mor ta, ou pior, enter r ada viva. Respir ou pela boca, sentiu o gosto da ter r a, e seu cor po involuntar iamente se contr aiu. Mas o lugar er a espaçoso demais, aber to demais par a ser uma cova; e ela estava com dor es demais par a estar mor ta.
Abr iu os olhos, mas não viu nada além da escur idão absoluta que tomava conta do lugar. Ela não sabia se o espaço er a gr ande, não tinha ideia das hor as, se er a dia ou noite, e quanto tempo esteve inconsciente.
Quando os olhos focalizar am, ela per cebeu que não estava completamente escur o. Alguns metr os adiante, for a do seu alcance, havia um pequeno aquecedor emitindo uma chama suave. Ele pouco aquecia o ambiente, mas a chama pr opiciava luz o bastante par a ver os contor nos do seu confinamento, mais escur o e dur o que as sombr as que a cir cundavam.
O que ela conseguia ver aliado ao odor úmido lhe dizia que ela estava em um por ão ou em uma adega.
Lucy não fazia ideia de onde estava, só se lembr ava de ter se sentido muito mal na igr eja. Apr il a estava levando par a o banheir o. Ela quer ia vomitar ... E não se lembr ava de mais nada.
A cabeça latejava e a língua estava tão seca que o gotejar da água só a deix ava mais sedenta. O cor po estava dolor ido, como se ela estivesse na mesma posição por muitas hor as. Tentou se sentar, ou ao menos r astejar até o minúsculo aquecedor, mas a mão estava pr esa em alguma coisa. Ela pux ou e ouviu o bar ulho de metal contr a metal.
Tateou a mão com a que estava livr e e per cebeu que estava algemada.
Esticou-se e tocou em gr ades. Tentou sacudi-las, mas er am dur as. Seu estômago r evir ou-se quando a ver dade a atingiu: estava em uma jaula.
Concentr ou-se no que havia acontecido na igr eja, mas er a como se sua memór ia tivesse sido apagada.
A cabeça pesava como uma bola de aço e os músculos estavam pesados.
Com gr ande esfor ço, passou par a uma posição sentada e apoiou-se contr a as gr ades, depois se moveu subitamente par a fr ente ao sentir uma dor aguda nas costas. Sentia dor es e machucados em todo o cor po. Devagar, r ecostou-se e apoiou a cabeça entr e os joelhos, esper ando a náusea passar.
As sensações que lembr ou ter er am par ecidas com os efeitos que ela conhecia das dr ogas de estupr o: a desconex ão, a falta de contr ole muscular, a per da de memór ia e a dor de cabeça. Tocou o cor po, aliviada em per ceber que ainda vestia as mesmas r oupas com que for a par a a igr eja. Não tinha nenhuma sensação física de ter sido sex ualmente atacada. Embor a ainda estivesse ater r or izada, os batimentos car díacos desaceler ar am, e as batidas nos ouvidos diminuír am.
Quando a náusea passou, ela se concentr ou na sua situação. For a sequestr ada e estava enjaulada. Onde? Por quem?
O pânico ex plodiu, lançando adr enalina na cor r ente sanguínea, a imobilidade física lentamente r oubando seu fôlego enquanto as lembr anças jor r avam em sua mente. Todas as lembr anças escondidas, as r ecor dações enter r adas tão pr ofundamente que ela acr editou que tivessem desapar ecido, r etor nando como se Adam Scott tivesse acabado de sequestr á-la. No dia em que ele planejou matá-la.
– Não – sussur r ou, cer r ando as pálpebr as. Não ser ia uma vítima novamente. Não per mitir ia que ninguém a fer isse, abusasse, ou tir asse qualquer coisa sua. Não er a uma vítima, er a Lucy Kincaid, e lutar ia com todas as for ças ou mor r er ia. Pense, Lucy, pense. Pux ou a algema. Estava aper tada; não ter ia como escor r egar a mão. Tentou for çar a bar r a.
Estava fir me. Não se moveu nem uma fr ação de centímetr o.
Se o sequestr ador a quisesse ver mor ta, ele já a ter ia matado. Ele tinha outr a coisa em mente.
Sentiu o estômago gelar. Não conseguir ia supor tar aquilo de novo.
Nada daquilo.
Sim, você con s egue. Con s egue e fará tudo o que precis ar para s obreviver.
Mas a sobr evivência implicava em tomar decisões de vida e mor te.
Significava contr ole físico e mental. Significava fazer qualquer coisa, concentr ando-se apenas no aqui e no agor a, sem consider ar o futur o, nem pensar no passado, só naquele momento no tempo. Ser esper ta, apr oveitar -se de opor tunidades, planejar constantemente e, se necessár io, matar seu sequestr ador .
A ideia de que talvez tivesse de matar par a escapar não a assustava metade do que dever ia. Em quem havia se tor nado? Não er a a mulher que pensava que ser ia um dia.
Is s o é pas s ado, Lucy. Con cen tre-s e n o pres en te. Preocupe-s e com a s ua s aúde men tal aman hã.
Primeiro con cen trou-s e em res pirar, em combater o ataque de pân ico.
Não con s eguiria fazer es colhas certas s e es tives s e em pân ico.
Concentr ou-se em encontr ar um modo de sair. Não sabia onde estava, mas pr efer ia se ar r iscar na r ua a continuar pr esa como um animal.
O pânico r essur giu na boca do estômago e espalhou-se pelo cor po como um fogo selvagem. Ela tinha acabado de contr olá-lo, mas o alívio er a uma mentir a. Estava mentindo par a si mesma. Jamais sair ia dali! Estava pr esa, assim como esteve na ilha. Estava à mer cê de um bastar do sádico, e nem tinha visto o r osto dele.
Mal conseguia r espir ar e mesmo que se or denasse a se contr olar, não conseguia. Quer ia mor r er, ali, naquele instante, por que alguns destinos er am pior es que a mor te. Algumas coisas jamais dever iam ser vivenciadas duas vezes. Algumas coisas não dever iam ser vivenciadas nem uma vez sequer .
Um gemido escapou do peito, uma dor lancinante que quase a par tiu ao meio. Er a seu cor ação se par tindo, sua for ça se tr ansfor mando em nada além de ar quente. Ela não er a nada, somente uma casca dur a. Sua ar madur a havia sido par tida pelo homem que a levar a, e ela não conseguir ia juntar os pedaços novamente.
Sentiu náuseas, mas não conseguiu vomitar. Por que, Deus ? M aldição, por quê? Por que eu de n ovo?
Mor r er ia lutando se pr ecisasse. Não se deix ar ia vitimizar novamente, não daquele modo. Mas suas mãos tr emiam. Como poder ia lutar quando só tinha medo dentr o de si?
“Nunca conheci ninguém mais valente do que você.”
A voz de Sean estava tão nítida que ele poder ia estar sentado ao seu lado.
Sean .
Ela nunca saber ia onde aquele r elacionamento os levar ia por que ela mor r er ia.
A família nunca a encontr ar ia. Dillon, Patr ick e Jack a pr ocur ar iam por anos e anos, e ela estar ia mor ta e enter r ada em uma cova não mar cada.
Ela viu como a mor te de Justin dividiu a família há 17 anos, e agor a a sua mor te os ar r asar ia novamente.
Lucy lutou contr a as lágr imas.
Ela viu Sean pr ocur ando por ela, desistindo da vida par a descobr ir o que havia lhe acontecido. Amar go. Solitár io. Violento.
Ela não podia deix ar que as pessoas que amava sofr essem. Tinha de encontr ar uma saída.
Concentr ou-se em r espir ar nor malmente. Em diminuir a pulsação. Um.
Dois. Tr ês. Calma. Tr anquila. Não sabia o tamanho da jaula, mas er a mais compr ida que o seu alcance.
Seja es perta, Lucy. Procure pela oportun idade.
A água gotejante. Sabão... Sabão abr asivo. Sabão em pó? Um ligeir o cheir o de car vão. Não havia nenhuma for nalha ali embaix o, não ouviu nenhuma. Deve ter ex istido em alguma época. Estava no por ão de uma casa.
Embor a não conseguisse enx er gar mais do que sombr as pr etas e cinzentas, fechou os olhos e pr estou atenção no andar super ior. O bar ulho do aquecedor esquentando a casa acima dela, mas nada par a o por ão enr egelante.
Um galo cantou. Ela sor r iu. A aur or a. Isso lhe deu alguma per spectiva.
Não estava com fome ex atamente, mas muita sede, por isso só devia ter se passado uma noite. Ela estava na igr eja lá pelas cinco e meia, alguns minutos mais tar de...
Uma imagem voltou à memór ia. Ela estava entr ando na igr eja quando um homem abr iu a por ta par a ela. Um punhado de neve caiu da beir a do telhado e a atingiu na nuca.
Mas pensando nisso agor a, ela já estava debaix o do telhado. Não estava? Concentr ou-se em lembr ar a imagem do homem que abr iu a por ta, mas não conseguiu... Estava per dida em sua dor .
Mas... ele lhe par eceu familiar. O que ela pensou? Que talvez ele fosse um policial que ela já tivesse visto antes? Não conseguia se lembr ar .
Talvez não tivesse sido neve que a atingiu na nuca. Não tinha vasto conhecimento em venenos, mas se per guntou se ex istir ia algo que pudesse ser absor vido pela pele. Quanto tempo demor ou? Cer ca de tr inta minutos.
O que er a não impor tava naquela hor a, por que além de uma r essaca de dr ogas, ela tinha todos os pensamentos em or dem.
Um r epentino som de água descendo pela par ede a fez ar far. Passadas em cima, lentas, metódicas. Um banho. Seu captor estava tomando um maldito banho!
Alguma coisa passou por cima do seu pé e ela gr itou antes de conseguir se conter . O cor ação voltou a aceler ar .
Pare! Era um rato. Um roedor peludo. Não poderia feri-la.
Par eceu mais uma r atazana.
Talvez ele tivesse planejado deix á-la mor r er de fome ali em baix o.
Lembr ou-se de ter lido em um livr o cer ta vez, há muito tempo, que alguém for a mantido em cativeir o e comeu r oedor es par a sobr eviver.
Qual er a o título? Tentou se lembr ar, o foco a ajudava a r ecuper ar o contr ole.
Houve uma movimentação à sua dir eita, no canto, e ela vir ou a cabeça e viu umas cober tas.
Elas se mover am de novo.
Não er a nenhuma r atazana, nem outr o tipo de r oedor. Er a um animal bem maior . E se mex ia, por isso não estava mor to.
Ela viu mechas de cabelos clar os no fundo da pilha de cober tas. Er a uma pessoa.
Com o cor ação aceler ado, sem saber com quem estava pr esa ali, se a pessoa estava fer ida, ela disse:
– Quem é você?
A voz seca saiu entr ecor tada, ela pigar r eou e disse: – Olá, quem é você?
As cober tas não se mover am. A pessoa não falou.
– Está machucada? Ele a machucou?
Nenhuma r esposta. Dr oga, Lucy mal conseguia pensar em um modo de se salvar , quanto mais salvar outr a pessoa!
– Por favor, fale comigo. Pr ecisamos de um plano. Minha família estar á me pr ocur ando. Pr eciso saber onde estamos. Encontr ar um modo de mandar uma mensagem.
Ela pensou ter ouvido um lamento.
– Você está com medo. Eu entendo esse sentimento.
Nenhuma r esposta.
– Meu nome é Lucy. Qual é o seu? – silêncio. – Você sabe quem nos sequestr ou?
Mais uma vez, nenhuma r esposta. O que ele fez par a a gar ota?
Bastar do sádico! A r aiva se avolumou e se equilibr ou com o medo. Bom. Ela pr ecisava da r aiva, ela a ajudar ia a for mular um plano de fuga.
– Acho que ter ei de planejar por nós duas.
Na par te de cima, o chuveir o foi desligado com um r angido de fer r ugem. A gar ota chor amingou novamente e se enr olou ainda mais debaix o das cober tas.
Lucy notou que a luz estava mudando. Olhou pelo por ão. Um facho de luz tênue entr ava por uma janelinha bem acima do chão. Ela olhou, cur iosa quanto à r azão de a janela ser tão estr eita, então per cebeu que ela estava pr aticamente cober ta de neve.
Janelas significavam uma r ota de fuga. Se ela conseguisse sair daquela jaula, poder ia quebr ar o vidr o e escalar par a sair .
Olhou par a a gar ota acuada no canto. Lucy até poder ia lutar e fugir, mas não conseguir ia deix á-la par a tr ás. Isso significava que dever ia agir em silêncio, fur tivamente, encontr ando um modo de tir ar as algemas, sair da jaula e fugir pela janela. Sem fazer bar ulho.
Vasculhou os bolsos, esper ando encontr ar um gr ampo ou uma chave, qualquer coisa par a destr avar a algema. Estavam vazios.
O chão acima r angeu quando o captor desceu do segundo par a o pr imeir o andar. Ele estava logo acima dela, passando de um lado par a o outr o. Um ligeir o ar oma de bacon entr ou pelo r espir adour o e o estômago de Lucy r oncou.
Ele as alimentar ia? Destr ancar ia a jaula? Ela poder ia lutar, mas não pr esa à jaula. Se conseguisse tir ar as algemas, poder ia usá-las como ar ma.
Não pr ecisava de muita coisa, somente de algo fino e dur o par a gir ar a tr ava. Er a só uma questão de encontr ar o caminho dentr o do mecanismo, um tr uque que Patr ick lhe ensinou.
Lucy quer ia ver a família. Não quer ia que eles a per dessem daquele modo. Não quer ia mor r er. Completar ia 25 anos no mês que vem. Tinha tanta coisa a fazer ! Tantos planos. Um futur o.
Mas seus planos pr ofissionais não impor tavam naquele momento. O que impor tava er a a família. E Sean. E fugir .
A por ta no alto das escadas abr iu-se. A luz banhou o por ão, quase cegando Lucy. Ela desviou os olhos. A gar ota do canto não se mex eu.
– Q-quem é você? – ela gaguejou, o medo evidente no tom ao ex igir saber o nome do seu captor. Engoliu em seco e pigar r eou. Não demon s tre s eu medo. Ela piscou, ajustando-se à luz, e viu o homem descer as escadas.
Ele não par ecia ameaçador. Na ver dade, er a simples e comum. Cabelos castanhos, olhos castanhos, tez br anca, devia ter apr ox imadamente 1,70
m, embor a fosse difícil estimar de sua posição no chão.
Simples e comum. Ex ceto pelo fato de estar segur ando um chicote.
– Maldição, me diga quem você é!
O chicote desceu e atingiu-a no pulso abaix o da algema. Ela gr itou, depois mor deu o lábio, r efr eando o lamento. Não dar ia essa satisfação a ele.
– Não pode falar a menos que eu lhe dê per missão.
– Vá par a o infer no!
O chicote desceu uma segunda vez, e de novo ela gr itou.
Que idiota você é, Lucy, ele es tá falan do s ério.
– Agor a que acor dou, está na hor a da sua pr imeir a lição. Olhe e apr enda.
Lucy começou a tr emer .
Ele depositou uma tigela com bacon e ovos mex idos entr e as bar r as da jaula. Lucy olhou par a a gar ota que soltou as cober tas. Ela devia ter a idade de Lucy, talvez fosse um ou dois anos mais jovem, com cabelos loir os e olhos azuis. Ela já foi bonita, e voltar ia a ser, quando os hematomas que r ecobr iam o r osto sumissem. Ele a tinha sur r ado.
Ela usava um vestido imundo de padr ão flor al, de modelo antigo como os que a mãe de Lucy às vezes usava em casa. O r osto estava limpo, ainda que mar cado por lágr imas, e havia sangue no vestido.
– Pode comer – o homem disse.
A mulher r astejou até a tigela sem olhar par a Lucy e comeu, o r osto per to da tigela, as mãos em for ma de concha pegando o café da manhã.
Em todas as aulas de psicologia cr iminal, Lucy nunca se depar ou com uma situação como aquela. Ela não sabia o que entender. Er a como se fosse uma r elação mestr e-ser vo. Há quanto tempo a mulher estava no cativeir o?
Quando a mulher ter minou, ela voltou par a o canto e desviou o olhar .
O homem sor r iu par a Lucy.
– Viu como ela obedece?
– É isso o que somos par a você? Animais?
– Não. Vocês são fêmeas.
O tom r evelou que ele consider ava as mulher es abaix o dos animais. Ele ser ia um tipo de misógino? Quantas mulher es havia fer ido? O que ele fazia com elas?
Ele disse:
– Você obedecer á como essa aí.
– Meus ir mãos vão caçá-lo como o animal que você é, seu bastar do!
Ele bateu com o chicote mais uma vez, com o r osto r ubr o, os olhos estr eitos. Ela r efr eou um gr ito quando a ponta a atingiu no ombr o.
Ele inclinou-se e disse entr e dentes:
– Eles jamais me encontr ar ão. Jamais encontr ar ão você. Mulher ! – gr itou par a a gar ota do canto. – Mostr e a esta vagabunda o que acontece quando se desobedece.
A gar ota levantou a par te de tr ás do vestido. As nádegas estavam ver melhas e inchadas, havia mais de uma dúzia de ver gões mar cando a pele.
Ele vir ou-se par a Lucy em um meio-sor r iso.
– Se voltar a falar comigo nesse tom, se impr ecar, se falar sem per missão, você sofr er á o mesmo destino. E você apr ender á, gar ota. Você me obedecer á.
Ele subiu a escada e apagou a luz.
QUARENTA
Sean não se sentia inútil assim desde os 14 anos, quando seus pais mor r er am em um acidente de avião.
Ele havia ador mecido na escr ivaninha bem tar de, talvez às quatr o da manhã. Ou ter ia sido às cinco? E acor dou ao amanhecer. Dillon estava dor mindo no pequeno sofá do seu escr itór io, as per nas longas dependur adas no apoio dos br aços.
Sean desceu e fez café. Sur pr eendeu-se ao ver Vigo ador mecido no sofá. A mesa estava tomada de ar quivos e papéis.
Eles andar am investigando os r egistr os de pr opr iedades, falar am com o dir etor da pr isão onde Miller ficou pr eso, analisar am os ar quivos de Miller no PMC, e não só ali, mas todos da RCK estavam tr abalhando no caso.
Tinham mais de uma dúzia de pessoas, pessoas inteligentes, tr abalhando sem par ar desde às 19 hor as da noite anter ior, e agor a, 12 hor as mais tar de, eles ainda não sabiam onde Lucy estava.
Sean sentou-se à mesa e espiou as anotações de Hans. Nos ar quivos da pr isão, Miller r evelou-se um pr isioneir o modelo, per feito. Educado e bem-humor ado. Dur ante o julgamento, mostr ou-se cor tês e bem-educado.
Hans havia escr ito em um bloco de papel em letr a de for ma:
Vítimas for am seduzidas. Todas er am vir gens entr e 14 e 16 anos.
Medo de sex o, or iginado pela obsessão com limpeza, isto é, só faz sex o com gar otas vir gens, limpas .
Ex igia que as vítimas o chamassem de profes s or.
Ensinou as gar otas a ser em submissas. Usava o sistema de punição e r ecompensa. Gar otas competitivas quer iam r eceber r ecompensas por ser em a mais obedien te.
Tor nou-se fisicamente violento com uma vítima. Machucou-a; ela escondeu o hematoma. Por que ela e não as outr as? O que a tor nava difer ente?
No julgamento r ecusou um r epr esentante legal mulher ; disse que ser ia in jus to.
Relatos dos funcionár ios da escola dizem que Miller er a chauvin is ta, s exis ta, egocên trico. Uma pr ofessor a disse: “Peter um dia me chamou de ‘fêmea’, como se esse fosse o meu nome. Por isso me afastei dele. Alguns dos funcionár ios o consider avam apenas um n erd, mas eu não gostava de como ele olhava par a mim.”
Sean desejou não ter lido nada daquilo, por que agor a só conseguia pensar no r osto de Lucy sur r ado e machucado. Refr eou um gr ito de fr ustr ação.
O que estava deix ando passar ? Ele dever ia ter sido capaz de encontr ar esse homem; que valor ele ter ia se não encontr ava um homem? Sabiam o nome dele. O dos pais. A educação dele. Noah disse que ter ia alguma pista pela manhã. Bem, já havia amanhecido, er am 7h11 de acor do com o r elógio digital do micr o-ondas.
Sean pegou uma página mar cada das tr anscr ições do julgamento. Hans havia sublinhado fr ases e palavr as-chave.
PROMOTOR: Quanto tempo esteve sex ualmente envolvida com o acusado?
TESTEMUNHA 2: Quatr o meses.
PROMOTOR: Ele a for çou a ter r elações sex uais?
TESTEMUNHA 2: Não sei.
PROMOTOR: Não sabe? Ele a machucou?
TESTEMUNHA 2: Sim e não. Eu não disse não par a ele, se é o que está per guntando.
PROMOTOR: Achou que fosse er r ado ter r elações sex uais com seu pr ofessor ?
TESTEMUNHA 2: Sim, mas eu fui a escolhida. Foi o que ele disse. Fui escolhida par a ser a mulher per feita. No início eu gostei da ideia de ser o que um homem quer. Meus pais são divor ciados e br igavam o tempo inteir o, e eu odiava isso. O Pr ofessor me fez sentir como se eu pudesse ser difer ente, que, caso eu apr endesse a ser per feita, eu far ia o meu mar ido feliz. Eu quer ia isso.
PROMOTOR: Você sempr e quis isso? Ou só depois que o r elacionamento entr e vocês começou?
TESTEMUNHA 2: Não. Eu me envolvi pela ideia de poder ser especial.
Então, depois da pr imeir a vez, ele me humilhou. Eu não podia falar até ele autor izar . Ele não batia em mim, mas eu achava que ele poder ia, por isso eu fazia tudo o que ele dizia. Eu só quer ia que aquilo acabasse.
PROMOTOR: Por que não r eclamou antes? Por que esper ou quatr o meses antes de contar par a a sua mãe?
TESTEMUNHA 2: Ele disse que eu er a tr einável, como um cachor r o. Eu estava com medo e não sabia o que fazer, mas um dia, depois da aula, eu disse que não ir ia mais par a a casa dele. Na manhã seguinte, o meu cachor r o estava mor to. O veter inár io disse que Sunny comeu alguma coisa envenenada, mas eu sabia que o Pr ofessor havia feito aquilo. Foi por isso que eu r evelei tudo. Se ele podia matar o meu cachor r o, ele poder ia me matar . Não quer o mor r er .
Hans sentou-se no sofá.
– Sean, talvez seja melhor você não ler isso.
– Estou bem – ele r ebateu. Ele não estava nada bem. – Miller é maluco.
Como per mitir am que ele saísse da pr isão?
Hans não r espondeu. Levantou e andou até colocar a mão no ombr o de Sean.
– Nós a encontr ar emos.
– Dr oga! – Sean r efr eou a r aiva. Seu medo não er a o de encontr ar Lucy.
Seja corajos a, Lucy. Eu a en con trarei.
– Ele é chauvinista? – Sean per guntou, indicando as anotações de Hans. – Ele faz isso por que se consider a melhor do que as mulher es?
– Isso par ece um tanto simplista, mas sim – Hans disse. – Acho que ele acr edita que as mulher es são, natur almente, mais fr ágeis que os homens e devem ser subser vientes, por isso pr ecisam ser tr einadas. Uma coisa a r espeito de todas as suas vítimas, de acor do com o psicólogo que tr abalhou com elas depois dos ataques, é que todas elas sofr iam de baix a estima. Elas se consider am muito pouco atr aentes ao sex o oposto, por ser em magr as, gor das ou feias demais. Ele visava às r ejeitadas. Elas são mais vulner áveis aos avanços de um homem mais velho e bem-apessoado em uma posição de autor idade.
– Lucy não se encaix a nesse per fil – Sean disse.
– Não, não se encaix a.
Sean levantou a cabeça. Ele detectou algo na voz de Hans.
– O que foi? – ex igiu saber . – O que está pensando?
– Sabe alguma coisa sobr e a mãe dele? – Hans per guntou.
Sean fechou a car a, não gostando nem um pouco do r umo daquela conver sa.
– Chr istina Lyons. Ela voltou a usar o nome de solteir a depois do divór cio. Ela er a uma cor r etor a de imóveis de sucesso em San Fr ancisco, e também ar tista. Er a dona de uma galer ia de ar te, vendia o pr ópr io tr abalho e o de outr os ar tistas locais.
– Encontr ar am o obituár io dela?
– Eu o consegui, mas ainda não li... – Sean vasculhou os ar quivos de computador . – Aqui está – ex aminou-o. – Não sei o que devo pr ocur ar .
– Leia as duas últimas sentenças. É nor malmente onde se mencionam os par entes.
Sean foi até o final e leu:
– Chr istina mor ava com sua par ceir a há doze anos, Nikki Br oman.
Doações em vez de flor es devem ser enviadas à Associação Nacional de Câncer de Mama – Sean fr anziu o cenho. – Ele tem r aiva das mulher es por que a mãe dele er a lésbica?
– Não, não ex atamente. Acho que ele tem r aiva das mulher es por que a mãe er a uma mulher de sucesso que não pr ecisava de um homem ao seu lado. Além disso, como o filho sequer foi mencionado no obituár io, ele pr ovavelmente foi deser dado. E quanto ao obituár io de Paul Miller ? O que ele fez da vida?
Sean pr ocur ou o obituár io do pai e deu uma olhada.
– Ele er a um eletr icista aposentado.
– Quantos anos ele tinha quando mor r eu?
– 49.
– Um pouco jovem par a se aposentar .
– Ele vivia em um bair r o pobr e em Baltimor e. Deix ou um filho, Peter Miller, de Baltimor e... – Sean levantou os olhos da leitur a. – Não sei de nenhuma pr opr iedade dele em Baltimor e, só a casa em Wilmington.
– Se ele mor ava em um bair r o pobr e, talvez não fosse o dono da casa.
– Aluguel.
– O pai chegou a ter casa pr ópr ia?
Sean foi ver ificar .
– Sim, mas a per deu... Seis meses depois que Chr istina foi embor a.
– Ela o sustentava – Hans olhou par a o teto. – Ela o sustentava, foi embor a, ele se mudou par a uma casa alugada simples em uma r egião r uim.
Por que ela não levou o filho?
– Ele tinha 14 anos. Talvez acr editasse que ser ia melhor par a ele ficar com o pai? – Sean suger iu.
– Ou ela tinha medo. 14... Puber dade. Per gunto-me se ele dava sinais pr ecoces de ser um assassino ser ial...
– O quê? – Sean levantou-se. – De onde isso sur giu? Ele é um estupr ador, um manipulador . De onde veio esse as s as s in o s erial?
– Do cachor r o mor to da gar ota que não quis mais obedecer. Não se acor da cer ta manhã e se decide matar um cachor r o de alguém. Ele já devia ter feito isso antes. Matar animais é um dos tr ês tr aços comuns aos assassinos ser iais. Pode pesquisar incêndios culposos em Baltimor e no per íodo em que Miller tinha de 14 a 18 anos? E mapeá-los?
– Não, mas Jayne pode – Sean mandou um e-mail par a ela, embor a ainda fosse 4h30 na Califór nia. Depois per guntou: – O que isso significa par a Lucy? Se ela não se encaix a no per fil das vítimas de estupr o, isso significa que ele vai matá-la?
– Sim – Hans disse.
Sean empalideceu.
– Você não pode saber ...
– Mas não hoje. Nem amanhã. Ele quer ensinar alguma coisa par a ela.
Eu... – ele inter r ompeu a si.
– Fale! – Sean or denou. – Eu pr eciso saber .
– Pr eciso falar com Noah.
*
Lucy não saber ia dizer quanto tempo tentou fazer a moça falar com ela. Quando estava par a desistir , a jovem disse com voz r ouca: – Meu nome é Car olyn.
Lucy suspir ou de alívio. Finalmente.
– Por que não quis falar comigo?
Ela não disse nada por um longo minuto, depois sussur r ou: – Ele vai me machucar .
– Há quanto tempo está pr esa aqui?
– Shh!
Lucy sussur r ou:
– Dias? Semanas?
– Acho que seis dias. Sete talvez. Ele matou uma mulher no celeir o.
Atir ou atr ás da cabeça dela – a voz de Car olyn se par tiu, e ela se enr oscou em um canto. – Eu sou a pr óx ima.
Lucy quase não a ouviu.
– O quê?
– Shh. Ele me disse que quando tr oux esse outr a fêmea er a por que eu o ter ia desapontado. Ele vai me matar hoje à noite.
– Ele a estupr ou?
A jovem balançou a cabeça.
– Ele não tocou em mim desse jeito.
– Quem é ele? Qual o nome dele?
– Eu não sei. Eu estava indo par a o car r o depois do tr abalho e comecei a passar mal. Eu estava sentada no banco do motor ista, fechei os olhos... E
acor dei aqui.
– Onde estamos?
Car olyn deu de ombr os.
– Mor o em Gr eensbor o.
– Sou de Geor getow n. Pr este atenção. Temos que sair daqui. Você foi a um celeir o? O que mais há por per to?
– Nada. Não há outr as casas. Não vi nenhuma estr ada.
– Vou encontr ar um modo.
– Não temos sapatos – ela indicou os pés. – Há neve lá for a.
– Pr efir o mor r er lá for a a viver aqui – Lucy disse e olhou par a a algema. Sair dali não ser ia fácil.
*
Eu odeio aquela fêmea.
Ela é des afiadora. Outras s e mos traram des afiadoras , vez ou outra, mas há alguma cois a n es s a que me irrita.
Camin ho s obre a n eve até o celeiro. O frio clareia min ha men te.
Lembran ças dos cas tigos me acalmam.
Quero domá-la. Não s ei s e é pos s ível. O modo como ela me olha... Há algo n aqueles olhos . Ela n ão é como as outras .
Eu s abia muito bem que ela era diferen te. Duran te an os vim es colhen do mulheres de um tipo es pecífico. Das doze, dez haviam s ido domadas an tes de morrerem. Duas morreram duran te o trein amen to.
Sus peito que es s a n ão s erá trein ada. Não gos to dela.
M eu pai pode ter tido razão. Algumas mulheres jamais deveriam ter n as cido.
M eu pai ten tou agir como homem, mas n ão era. Ele deixou a mulher dele con s eguir um emprego, e on de is s o o levou? Ela o aban don ou. Ela o deixou porque n ão precis ava dele.
Lembro-me daquela man hã. Ela me acordou e dis s e para eu fazer as malas . Dis s e que es távamos deixan do o papai. Pergun tei o motivo. Ela dis s e que ele bateu n ela e ela es tava com medo. Eu dis s e que ela merecia.
Ela s e con s iderava melhor do que papai e foi por is s o que ele bateu n ela.
Ela chorou e me dis s e que eu n ão era filho dela.
Des ejei n ão s er. Ela era uma aberração. Ela cos tumava s er feliz preparan do o jan tar, limpan do a cas a, me levan do para a es cola. Depois con s eguiu um emprego. E fez amigos que n ão in cluíam a mim e ao meu pai. Ela n os aban don ou n o coração an tes de s air da n os s a vida.
Foi tarde... Fiquei feliz com a morte dela. O cân cer comeu o coração dela, a alma, tomou con ta do corpo e a fez s ofrer.
Fui ao en terro e dis s e à vagabun da dela que fiquei feliz com a morte dela. A mulher gritou comigo e ten tou fazer com que eu fos s e pres o. Fui embora.
M eu pai era fraco. Bebia. O elixir dos tolos . Se ele fos s e homem de verdade, teria man tido o emprego e s us ten tado a família. M amãe jamais teria ido trabalhar; ela jamais teria me aban don ado.
QUARENTA E UM
– Encontr amos 26 incêndios não solucionados em Baltimor e dur ante esse per íodo – Sean infor mou a Hans. – Dois mor tos.
– Quantos dentr o do r aio de 8 quilômetr os da pr imeir a casa em Wilmington e da segunda depois que a mãe foi embor a?
Sean digitou r apidamente.
– Um per to da casa da mãe, 14 em um r aio de 8 quilômetr os da casa alugada pelo pai.
– Estou sur pr eso que os investigador es não o tenham per cebido. Eles costumam investigar adolescentes do sex o masculino na r egião quando há vár ios casos pr óx imos.
Sean ficava cada vez mais fr ustr ado. A cabeça doía e ele estava doido par a pegar o car r o e sair pr ocur ando por Lucy, mesmo sabendo que isso ser ia inútil. Sempr e foi um escr avo da ciência da computação; tudo podia ser encontr ado atr avés da inter net. E, nor malmente, ele er a paciente com as suas pesquisas. Mas naquele dia? Depois de Lucy estar desapar ecida por 14 horas ? Sentia-se inútil e completamente per dido. Quer ia ter Lucy de volta a salvo, mas não os via mais pr óx imos de encontr á-la.
Dillon desceu a escada. Foi até a cafeteir a e ser viu-se de café.
– Dever ia ter me acor dado – disse a Sean. – Alguma novidade?
– Não. Quer o saber mais a r espeito da ex -mulher dele, mas não a encontr o em lugar algum – Hans disse.
– Se ela per cebeu que estava casada com um psicótico, – Sean disse – pr ovavelmente tr ocou de nome e se mudou par a longe.
– Tem r azão.
Sean não quer ia ter r azão.
Hans pr ocur ou nos ar quivos.
– Estr anho que ele tenha decidido lecionar, o que é consider ado uma pr ofissão feminina a menos que se lecione na faculdade. Eu dir ia que a tendência misógina aliada à ex per iência pr évia em Ciência da Computação o colocou em um campo de tecnologia e ciência.
Sean não aguentou mais.
– Como diabos isso vai nos ajudar a encontr ar Lucy? – Deu um pulo e foi par a a por ta.
Dillon obser vou Sean sair batendo a por ta e ficou mais sér io.
– Ele tem r azão, – Dillon disse sofr endo – mas não sei o que mais fazer até Noah obter os r egistr os financeir os de Miller .
– Ele me lembr a o seu ir mão Jack – Hans obser vou.
– Jack? – Dillon não via semelhança alguma.
– Um homem de ação. A dependência dele na tecnologia se dá por que ele a entende. Par a ele, a tecnologia funciona; ele consegue encontr ar o que pr ecisa. Até hoje.
– Ainda não vejo Jack em Sean – Dillon disse. – Jack é um mer cenár io.
Um soldado. Dá e r ecebe or dens. Sean não é um soldado.
– Não, mas não aceita muito bem r eceber or dens. Não disse que ele er a ir mão gêmeo de Jack...
Dillon ar queou uma sobr ancelha.
– Touché.
– Você e eu encontr amos r espostas por meio da psicologia.
Descobr imos coisas baseados no que sabemos das pessoas e da natur eza humana. Sean e Jack? Eles veem fatos, eles agem. Sean só é um pouco...
mais moder no e r efinado que o seu ir mão.
– Mas ele tem r azão a esse r espeito; nada disso está nos apr ox imando do par adeir o de Lucy.
– Está sim. Estamos per to.
*
Sean par ou no ar fr io, ainda que estivesse nevando de leve. Poder ia pior ar . Ligou par a Duke, que atendeu no pr imeir o toque.
– Alguma novidade?
– Não sei onde Lucy está – Sean r espondeu.
– Estou fazendo tudo o que posso...
– De todos os modos, legais ou não, eu pr eciso encontr ar a ex -esposa de Miller . Ela er a Rosemar ie Nylander , depois...
– Tenho as infor mações dela comigo. Não conseguimos localizá-la nem com o nome de casada, nem com o de solteir a.
– Pr ovavelmente ela mudou de nome.
– Tenho cer teza de que sabe disso, mas... – ele par ou. – O FBI não vai gostar do nosso envolvimento.
– Quem se impor ta? Hans Vigo acha que se falar mos com Nylander, descobr ir emos onde esse psicopata está. Pr eciso da sua ajuda.
– Não conseguir ei livr á-lo dessa se for pego com infor mações que não dever ia ter acesso pelos meios legais.
– Nunca pedi que fizesse isso.
– Que estado?
– Vir gínia, onde Nylander nasceu e foi par a a faculdade, ou Delaw ar e, onde eles mor ar am dur ante o casamento.
– Volto a ligar em dez minutos.
Sean desligou. Duke sabia o que Sean pr ecisava: a descr ição técnica detalhada dos computador es das cor tes. Assim que ele soubesse que tipo de segur ança e sistema as cor tes empr egavam, Sean poder ia invadir os sistemas r apidamente e pux ar a infor mação de que pr ecisava: o nome atual de Rosemar ie Nylander .
Ele invadia sistemas de segur ança como modo de vida, mas as pessoas o pagavam par a testar os seus sistemas. Não invadia sistemas sem per missão desde a faculdade, e não gostava dessa ideia. Não quer ia ir par a a cadeia, mas um tempo de detenção não ser ia o maior r isco. Sua licença de investigador par ticular ser ia r evogada, ele não poder ia chegar per to de computador es e a RCK da costa leste ser ia fechada.
Mas Lucy estar ia viva e a salvo, e isso er a tudo o que impor tava.
Àquela altur a, ele estava no limbo. Eles sabiam ex atamente quem a tinha sequestr ado e o motivo; Miller tinha descober to a ar madilha do PMC.
Contudo, mesmo com todos os debates, todas as pesquisas e todas as investigações, eles ainda não sabiam onde Lucy estava. Sua mente dizia que as investigações demandavam tempo, e que com 14 hor as, contando a noite, quando os negócios e o gover no não funcionavam, eles já sabiam bastante. Mas bastante não er a o suficiente, e seu cor ação dizia que Lucy cor r ia per igo imediato.
Dillon saiu.
– Está abaix o de zer o – disse.
– E daí?
– Noah ligou. Eles conseguir am o mandado par a obter as infor mações financeir as de Miller. Ele paga a hipoteca da casa em Wilmington com um cheque que lista uma caix a de cor r eio em Wilmington como ender eço. A companhia hipotecár ia acr edita que esse seja o seu ender eço pr incipal.
– Isso não nos ajuda.
– Noah está falando com o banco agor a. Em alguma par te dos ar quivos está o ender eço que nos leva até ele. Ou um cheque que ele tenha passado que possamos r astr ear .
– O ender eço que ele usa é o da casa em Wilmington – Sean disse. – É o que eu far ia. É a casa dele, só que ele não mor a lá. É apenas uma fachada.
– Então o quê? Estamos cobr indo todas as infor mações de que dispomos – a voz de Dillon saiu entr ecor tada e ele desviou o olhar .
Sean per cebeu que sua r aiva e seu pessimismo não estavam ajudando em nada.
– Temos mais infor mações a caminho – ele disse par a Dillon.
– O que você está aguar dando? – Dillon per guntou.
Sean não r espondeu por que seu celular tocou.
– Duke, o que conseguiu?
– O nome dela é Mar ie Fitzger ald. Ela mor a em Austin, Tex as.
O cor ação de Sean deu um pulo.
– Duke, eu não quer ia que você se ar r iscasse...
– Não me ar r isquei. Consegui a infor mação com um juiz em Vir gínia que já nos ajudou no passado, por isso r esolvi r ecor r er a ele. Sean, sei que você far ia qualquer coisa, até mesmo ar r iscar o seu futur o, par a salvar Lucy. Você é meu ir mão, e eu não poder ia per mitir que você per desse tudo pelo que lutou. Uma vez que se tr ilha uma estr ada escor r egadia, é difícil r etor nar par a o caminho cer to ao lado da lei. Já andamos muito per to do limite toler ável.
– Obr igado.
A confiança e a compr eensão de Duke sur pr eender am-no, mas talvez elas estivessem ali o tempo todo, er a só Sean quem não via.
Ele disse par a Dillon:
– Duke encontr ou a ex -esposa de Miller . No Tex as. Vamos falar com ela.
*
A por ta se abr iu e o captor de Lucy desceu as escadas com um chicote em punho. Bateu-o tr ês vezes na dir eção de Car olyn, que gr itou e se encolheu em um canto.
– Vou puni-la mais tar de – ele disse. – Sei quem é a culpada.
O cor ação de Lucy batia tão alto que ela não conseguia pensar. Tentou se afastar da gr ade da jaula, mas clar o que seus esfor ços er am inúteis. Ele a atingiu com o chicote, cor tando sua or elha. Lucy r efr eou um gr ito.
Ele inclinou-se e abr iu a algema, deix ando uma ponta amar r ada na bar r a. Depois andou até a ponta oposta da jaula e a abr iu.
– Saia r astejando – ele or denou.
Lucy não se moveu.
Ele a chicoteou entr e as bar r as da jaula.
– Mex a-se, fêmea! Mex a-se!
Ela gr itou e r astejou o mais r ápido que pôde, longe do chicote, em dir eção à por ta.
Ele sor r iu.
– Muito bom – disse como um pai or gulhoso.
Ela levantou-se devagar, usando a later al da jaula como apoio. Ele a chicoteou nas costas e nas per nas e ela caiu de joelhos de novo.
– Só vai se levantar quando eu or denar que se levante.
Q u e diabos aquele maluco estar ia pensando? Lucy engoliu a dor e per cebeu que ele usava o chicote com muita moder ação, par a impingir dor , mas que não er a per manente.
Fêmea.
Ele a tinha chamado de fêmea. Por que aquilo? Fêmea?
– Pode se levantar .
Ela levantou-se lentamente. Não via nenhuma pistola, a única ar ma evidente er a o chicote. Mas ela estava fr aca por causa das dr ogas e dos machucados. Não conseguir ia lutar com ele, ainda não. Poder ia sair cor r endo. Mas ser á que o ultr apassar ia? Em seu auge, sim. Mas talvez não tivesse outr a escolha. Ter ia de apr oveitar a pr imeir a chance par a escapar .
Olhou par a Car olyn. Não poder ia deix á-la. Ele a matar ia. Mesmo se Lucy conseguisse ajuda, ele a matar ia.
Ela pr ecisava levar Car olyn e encontr ar um car r o. Certo. Um car r o com chaves na ignição, só à sua esper a.
Lembr ou-se dos pés descalços. Olhou ao r edor, mas não viu seus sapatos em lugar algum.
– Ande – ele or denou e indicou a escada.
Lucy obedeceu, com o homem às suas costas.
– Qual o seu nome? – ela per guntou.
O chicote atingiu-a no ombr o e ela tr opeçou, agar r ando-se ao cor r imão fr ágil de madeir a par a não cair .
– Se quiser falar , levante a mão e eu dar ei a minha per missão.
Ainda que ele não par ecesse louco, ele er a completamente insano.
Todavia, falava com clar eza. Os olhos não estavam nem ver melhos, nem lacr imejantes, ele não dava indícios de ter abusado de dr ogas. E isso a assustava ainda mais.
No alto da escada, ela levantou a mão.
– Fale, fêmea.
– Como devo chamá-lo?
– Pr ofessor – ele r espondeu.
Num ver melho vivo, o r elógio digital sobr e a bancada de uma cozinha gasta e antiga mostr ava que er am 9h37. Ela olhou ao r edor, mas não viu nenhum telefone. Não via nada que pudesse usar como ar ma. Nenhuma faca, nenhuma pistola... Como se ele fosse deix ar qualquer coisa assim à mostr a.
– Tenho algo par a mostr ar par a você – ele disse. – Vamos par a for a.
Far á o que eu mandar , ou ser á punida. Entendeu?
– Sim – ela r espondeu.
A casa tinha dois andar es, er a uma antiga casa de fazenda. A mobília er a antiga, dos anos 1940 ou 1950. Dos avôs dele? Estava limpa, cober ta de plástico, e também havia tapetes plásticos no chão.
Você vai para fora! Pode correr.
Estava descalça.
E não poder ia abandonar Car olyn.
Ele abr iu a por ta e eles pisar am na var anda. A neve tinha par ado de cair, somente alguns flocos desgar r ados voavam ao vento, mas logo vir ia mais. O ar estava fr io e úmido, a luz da casa r efletia a névoa cinzenta pesada que os envolvia.
– Ande – ele disse. – Vamos até o celeir o.
Ela não via nada na neblina espessa. Quando pisou na neve, se r etr aiu.
Ter ia queimadur as de fr io só de andar até o celeir o. Se havia uma fazenda, dever ia ex istir mais por per to, cer to? Também não viu um car r o, os pés estavam queimando com o fr io, em seguida começar am a ficar dor mentes.
Mal conseguia caminhar. Abr açou-se, tentando pr eser var um pouco do calor , por ém quanto mais tentava, mais fr io sentia.
O celeir o se assomou diante deles, uma estr utur a gr ande sem pintur a.
Quando ele abr iu a por ta, um mau cheir o familiar a assaltou: sangue.
Aquilo ser ia um matadour o? Er a uma fazenda, o sangue poder ia ser de por cos ou vacas...
– Vá até a quinta baia à dir eita.
Ela levantou a mão. Ele par eceu satisfeito por ela ter seguido suas or dens.
– Pode falar .
– Por que está fazendo isso? Não o conheço, não entendo...
Ele atingiu-a com o chicote no pescoço. A chicotada ar deu e ela sentiu lágr imas nos olhos.
– Você não entende por que é bur r a. Mulher es como você pr ecisam de or ientação. Você pr ecisa ser mantida na linha por que não tem juízo.
Ela mor deu o inter ior da boca par a não cuspir nele.
– Você sabe ex atamente quem eu sou. Acha que é melhor do que eu por que pode dar or dens a bastar dos paus-mandados par a per seguir em homens que você não gosta. Se você tivesse sido uma das minhas alunas, ter ia apr endido a ser uma fêmea obediente e adequada.
Uma r epentina onda de r econhecimento assolou Lucy. Ela não tinha r econhecido o r osto dele, mas havia visto uma foto dele uma vez.
Se você tives s e s ido uma das min has alun as ...