Se eu Morrer Antes de Você

Allison Brennan · Capítulo 1 de 1 · parte 7/17

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Se eu Morrer Antes de Você

1. Um

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 17 partes.

– Lucy.

Ela deu um pulo de susto, e Sean aper tou a mão dela quando ela se vir ou de fr ente par a Fr an.

– Fr an.

– Não tive a intenção de assustá-la – ela sor r iu par a Sean. – Sou Fr ances Buckley, dir etor a do PMC.

Sean esticou a mão e lançou seu sor r iso ganhador de pr êmios, dissolvendo a r esolução de Lucy de se afastar .

– Sean Rogan – ele disse.

– Ele é sócio de Patr ick – Lucy ex plicou.

– Pr azer em conhecê-lo – Fr an disse, lançando um sor r iso par a Lucy que dizia que ela apr ovava a escolha dela par a acompanhante.

Lucy r esistiu ao impulso de ex plicar que eles er am só amigos. Isso ser ia difícil de pr ovar , já que Sean continuava segur ando sua mão.

Sean disse:

– A sala está cheia. Esper o que sejam fr egueses pagantes.

– Mesmo com a cr ise econômica, conseguimos super ar o que ar r ecadamos no ano passado.

Lucy viu Cody andar pela sala, per scr utando-a, encontr ando-a logo depois de ela o ter visto, e caminhando na sua dir eção.

– Lucy, posso falar com você em par ticular ?

Lucy sentiu uma mudança defensiva na postur a de Sean, e Cody fitou-o com olhos sér ios.

– Sean, este é meu amigo, Cody Lor enzo, que tr abalha na polícia de D.C. Ele é um dos voluntár ios no PMC. Pode nos dar uns minutos, por favor ?

– Vá em fr ente – Sean soltou a mão dela, mas Lucy o sentiu obser vando-a enquanto Cody a levava par a for a do salão de dança par a o vestíbulo.

– O que aconteceu? Você está agitado.

Ela não conseguia imaginar que ele ficasse abor r ecido por ela ter ido àquele evento com Sean.

– Diga a ver dade, Lucy. Você mudou o ponto de encontr o com Pr enter ?

Ela piscou diver sas vezes, mudando o foco da visão.

– O quê? Por que eu far ia uma coisa dessas?

– Antes de eu vir par a cá, passei no Clube 10. Pr enter ficou se gabando com o bar man, dizendo que ir ia se dar bem, pois se encontr ar ia com uma loir a s exy que gostava de falar besteir as on-line.

– Isso é tolice e você sabe disso. Fr an tem uma cópia das minhas tr anscr ições! – Cody hesitou, e Lucy ficou br ava. – Acha que eu ir ia tão longe nesse jogo?

– Não, não em cir cunstâncias nor mais, mas se as conver sas não estivessem pr oduzindo o que quer íamos dele, talvez você o tenha pr essionado um pouco mais. Não a estou condenando, Lucy, mas...

– Esper e um minuto. O que o faz acr editar que er a eu? Talvez ele estivesse conver sando on-line com outr a pessoa. Eu não mudei o ponto de encontr o, nem disse nada com conotação sex ual. Leia os malditos ar quivos... Fler tei e nada mais. Por que não acr edita em mim? Por que acha que Fr an per mitir ia que eu fizesse isso?

– Você é inteligente. Poder ia ter alter ado os ar quivos. Ou entr ado no seu computador pessoal e deix ado de copiar as tr anscr ições.

Ela balançou a cabeça e contr aiu os lábios. Como Cody podia acr editar que ela fosse capaz de uma coisa dessas? Ele sabia ex atamente quem ela er a e em que ponto se encontr ava na vida. Ele sabia o que lhe havia acontecido e por que aquele tr abalho voluntár io er a tão impor tante. Ela nunca por ia em r isco suas chances no FBI ou a confiança que Fr an depositava nela cr uzando os limites com um suspeito.

Cody tentou tocá-la.

– Lucy, desculpe. Eu não dever ia ter per guntado.

– Você não per guntou. Você me acusou. Você nem dever ia ter per guntado, par a início de conver sa! Dever ia saber que eu jamais far ia uma coisa dessas. Há uma ex plicação lógica: Pr enter ia se encontr ar com outr a mulher. Ou estava mentindo descar adamente. Você sabe como esses estupr ador es são, fantasiam a ver dade par a se sentir em poder osos e no contr ole. Er a uma fantasia da mente dele, não uma que eu tenha pr opositadamente colocado lá.

– Você tem r azão, é que eu só...

– Esqueça – ela r espir ou fundo e pr ocur ou se acalmar. Talvez estivesse r eagindo ex ager adamente, mas a acusação dele a ator doou. – Descobr iu mais alguma coisa? A r espeito do homem e da mulher com quem Pr enter discutiu no beco?

– Não, vim par a cá dir eto do bar. Eu sinto muito mesmo, Lucy – ele olhou r apidamente na dir eção da r ecepção.

– Está abor r ecido por eu ter vindo com Sean?

– Não – ele disse sem convencê-la, mas também sem se esfor çar muito.

Ela assentiu, ainda incomodada com a acusação de Cody. Ciúme er a uma car ga que ela não pr ecisava car r egar .

– Com licença, pr eciso ir até o banheir o.

Ela caminhou vigor osamente pelo cor r edor. A sensação que alguém a vigiava er a for te, e ela suspeitou que Cody estivesse atr ás dela, sentindo-se culpado.

Lucy abr iu a por ta do banheir o e ficou aliviada ao ver que não havia ninguém lá. Apoiou-se na bancada da pia, com os br aços supor tando o peso do cor po, for çando-se a r espir ar devagar. Fitou as mãos. As unhas er am cur tas, mas bem cuidadas. O esmalte for talecia e dava um belo acabamento. Seus dedos er am longos e delgados, e ela sempr e imaginou que ser ia uma boa pianista, mas os cinco anos em que teve aulas pr ovar am que ela não tinha nenhum talento musical. Todavia esses dedos voavam sobr e o teclado do computador, quase que com uma mente pr ópr ia, contando mentir as aos pr edador es sex uais, atiçando-os a fim de que eles a convidassem. Não sentia culpa por ajudar a mandar esses pr edador es de volta par a a pr isão.

Os br aços, assim como as per nas, er am magr os, mas musculosos pelas hor as que ela passava na academia. No entanto, nenhuma quantidade de esfor ço físico ter ia evitado seu sequestr o e estupr o há seis anos. For a atacada por tr ás, segur ar am-na e injetar am uma dr oga que imediatamente enfr aqueceu seus músculos. Somente a astúcia poder ia ter evitado o ataque, mas ela jamais ter ia cer teza. Na época, não tinha nenhuma, mas e agor a? Ela imaginava cada possível cenár io onde alguém poder ia atacá-la e fazia de tudo par a se pr oteger contr a isso, mas nada er a infalível.

Depois do pr imeir o ano, Lucy per cebeu que não poder ia viver em uma bolha. Recusava-se a ser uma vítima pelo r esto da vida. Tinha r aiva de si mesma e do homem que a r aptar a e a fer ir a. Mas mesmo a r aiva diminuiu, por que ela não per mitir ia que eles contr olassem suas emoções do túmulo.

A família não entendia por que ela quer ia andar nas tr evas ao se tor nar uma policial, ou ao conver sar com agr essor es sex uais on-line, por que ela continuava a ler e pesquisar tudo o que sabia sobr e homens e mulher es que cometiam cr imes hediondos. Eles pensavam que por ela ter sido uma vítima, ela encontr ar ia uma car r eir a completamente não r elacionada com o cr ime. A mãe quer ia que ela fosse pr ofessor a. O pai, que ela seguisse uma car r eir a em linguística, como havia planejado na época do colégio. Mesmo Dillon, seu pr ópr io ir mão, que tr abalhava com psiquiatr ia for ense e com cr iminosos todos os dias, estava cético quanto à sua decisão.

Mas senão ela, quem? Quem ter ia a paix ão e a deter minação par a dedicar a vida a colocar aqueles bastar dos atr ás das gr ades?

Ela já tiver a alguns sucessos, vezes em que pôde ajudar alguém. Como, por ex emplo, quando falou em uma escola local e uma gar ota de 14 anos a abor dou com uma histór ia familiar demais: um homem de 37 anos se tor nar a seu amigo na inter net e quer ia sex o. Esse mesmo homem foi pr eso duas semanas depois quando a gar ota e a mãe ajudar am a polícia a localizá-lo. Ou o gar oto de 12 anos que quase fugiu de casa com seu namor ado da inter net até que Lucy pr ovasse que seu amigo de 14 anos na ver dade er a um pedófilo de 62 anos de idade.

E também havia as pessoas que ela tinha ajudado e que não conhecia.

Os gar otos que ouviam atentamente às suas palestr as, fingindo ignor á-la; aqueles on-line que ela amedr ontava de pr onto; as mulher es e cr ianças que não ser iam vitimadas por que ela colocar a um pr edador em seu devido lugar .

Por tanto, valia a pena supor tar os olhar es afiados, os sussur r os atr ás das costas, a cr ença dos ignor antes de que ela teve o que pediu, que a culpa er a sua, que ela er a difer ente deles. Que os pr edador es não iam atr ás de qualquer um, mas só das outras pes s oas .

A por ta se abr iu e ela se endir eitou, olhando pelo espelho quem estava entr ando.

Er a Sean .

– Está no banheir o er r ado – ela obser vou.

– Não a menos que você esteja – ele caminhou até seu lado e apoiou as mãos em seus ombr os. Os olhos dele pr endiam os seus pelo espelho. Ela não quer ia que ele a visse daquela maneir a. Suas dúvidas vazavam pela sua ex pr essão e ela não desejava que alguém, especialmente a família e os amigos, acr editasse que ela estava na beir a do abismo.

– Estou bem.

– Eu sei – ainda assim ele a segur ou pelos ombr os, fazendo uma massagem fir me. – Você está tensa.

– Não gosto deste tipo de evento.

– Alguma coisa aconteceu. Pode me contar .

– Nada aconteceu – ela abaix ou o olhar par a as mãos, que ainda segur avam a bancada de már mor e. Fechou os olhos e per mitiu-se r elax ar sob os dedos de Sean. Os nós nos músculos r elax ar am e ela suspir ou.

– Lucy.

Quando ele não disse nada mais, ela abr iu os olhos e viu que ele a encar ava, a boca estática em uma linha fir me.

– Cody me acusou de falsificar alguns dados. Isso me magoou. Nós tr abalhamos juntos há bastante tempo e... – ela suspir ou.

– Entendo. Mas não foi a isso que me r efer i. Antes de falar mos com Fr an, alguma coisa aconteceu. Conte-me.

Ela fitou-o. Como ele conseguia manter a mente fix a em um só pr opósito? E o que ela poder ia dizer ?

– É... que... – como poder ia ex plicar a ele? Não quer ia mencionar o passado. – Não gosto de ser o centr o das atenções, e não gosto de que as pessoas fiquem olhando par a mim.

– Quem?

– Ninguém, todos, não sei. Foi só aquela sensação esquisita de quando alguém fica olhando par a você de pr opósito, sabe? É r idículo. Sei que quando venho a este tipo de evento, é como se eu estivesse em um palco.

Sean apr ox imou-se ainda mais.

– Você pr ecisa confiar nos seus instintos. Há quanto tempo vem se sentindo assim?

Ela não conseguiu mais fitá-lo nos olhos. Sentiu uma onda de humilhação assolá-la.

– Seis anos.

– Mas isto foi difer ente.

– Não... Sim... Eu... – Ser á? Nos últimos tempos... – Não sei. São meus ner vos. Os últimos meses for am estr essantes, com o pr ocesso seletivo do FBI e o assassinato de Roger Mor ton, e agor a a situação de Br ad Pr enter ...

– Quem?

A por ta se abr iu e duas senhor as entr ar am, atônitas ao ver em Sean com Lucy, que lhe lançou um sor r iso malicioso.

– Foi flagr ado – ela disse.

Ele segur ou-a pela mão e levou-a par a for a, cur vando-se ante as senhor as ao passar em. Assim que fechar am a por ta, ele levou Lucy par a o lado e disse:

– Esse Pr enter a está per seguindo?

Ela negou.

– Não. Eu não o conhecia. Ele er a um pr ofessor assistente de uma faculdade. Ele dr ogou e estupr ou uma aluna, e foi assassinado em um assalto esta semana. E isso também ficou na minha cabeça.

– Justiça divina.

– Talvez.

– Lucy, você tem bons instintos, por tanto não menospr eze esses sentimentos chamando-os de neur ose. Confie em si mesma.

– Obr igada.

– Pelo quê?

– Por ter fé em mim.

– Quem não tem?

Ela não r espondeu por que não havia uma r esposta r eal par a isso. A família a apoiava, mas eles sempr e a obser vavam quando achavam que ela não sabia. Não er a uma ignor ante e sentia as vibr ações pr otetor as que emanavam deles.

– Quer ir embor a? – ela per guntou.

– Estou pr onto quando você estiver .

– Agor a – seguir am pelo cor r edor até a chapelar ia.

– Estar ia inter essada em se deliciar com uma sobr emesa? – Sean per guntou de leve.

– Quer dizer que o bufê não bastou?

– Você não comeu nada.

– Eu estava sem fome.

– Conheço um lugar – Sean disse enigmático. – Confia em mim?

Ela hesitou. Não por não confiar nele, mas havia tantas emoções ao seu r edor e ela não tinha cer teza se conseguir ia abafá-las.

– Está começando a nevar .

Sean encar ou-a.

– Está br incando? Alguns poucos flocos de neve não podem evitar que eu a delicie com o mais incr ível chees ecake de mor ango ao leste do Mississipi.

– Chees ecake? – seu estômago r oncou e ela levou a mão à boca.

– Eu ouvi isso – ele disse. Segur ou a mão dela e beijou-a. Foi um gesto espontâneo, e Lucy tentou se convencer de que havia sido um beijo amigável, mas uma sensação quente subiu pelos br aços até a base da nuca confor me caminhar am até o car r o.

DEZESSEIS

Sean acompanhou Lucy até a por ta de casa. Ela estava r adiante, as faces cor adas por conta do fr io, os olhos escur os cintilando devido à glicose ex tr a

ofer ecida

pelo chees ecake, acompanhado por uma taça de champanhe.

Sean estava satisfeito consigo mesmo por ter conseguido distr air Lucy de seu r ecente ataque de ner vos. Duas hor as mais tar de, ela finalmente par eceu r elax ada.

Contudo, ele não se esqueceu do que ela disse. Ela achava que alguém a estava seguindo. Ele não desconsider ou isso como sendo um defeito pessoal, como ela mesma acr editava. Com tudo o que vinha acontecendo em r elação ao homicídio de Mor ton, talvez alguém estivesse pr estando atenção demais em Lucy.

– Muito obr igada, Sean – Lucy suspir ou alegr e ao destr ancar a por ta.

Der am um passo par a dentr o, a neve r odopiava ao r edor. – Estou muito contente por ter mos saído par a comer sobr emesa – ela esticou-se par a desabilitar o alar me.

– Tudo par a ser vi-la melhor, milady – ele disse com sotaque e uma mesur a. Quer ia beijá-la, mas hesitava. E hes itação não combinava com ele.

O que havia de er r ado? Ele n un ca tinha pr oblemas, nunca mesmo, em mostr ar seu inter esse par a uma mulher .

Mas Lucy não er a qualquer mulher. Soube disso na pr imeir a vez em que se encontr ar am.

E ela também er a a ir mã do seu sócio. Patr ick, além de s ócio, er a seu amigo. E ele não havia contado sobr e seu inter esse por Lucy.

Ela não er a o tipo de mulher com quem ele costumava sair. Ele saía com gar otas que gostavam de se diver tir, assim como ele. Esquiar, viajar espontaneamente atr avés do país em seu avião, nadar sem r oupas no lago.

Suas antigas namor adas nor malmente er am do tipo que tr abalhavam das nove às cinco ou pr incesas vivendo de fundos de pensão que não se devotavam a nada além de a elas mesmas. Ele gostava disso por que isso significava que não pr ecisava se sentir culpado quando r ompia com elas.

Nenhuma dessas gar otas dur ou mais do que alguns meses.

Que Lucy fosse especial não podia ser mais clar o par a ele, mas Sean se conhecia e nunca se esquivava da ver dade. Ele tinha o poder de estr agar qualquer r elacionamento. Não no começo, afinal, sabia como cor tejar uma mulher. Mas depois que o r omance se desgastava, ele se cansava com a r otina. Gar ota difer ente, mesmo pr oblema. O desejo super ficial desgastava-se cada vez mais r ápido a cada nova mulher .

E não havia nada de super ficial em Lucy Kincaid, e absolutamente nada super ficial quanto ao seu desejo por ela.

– O que está se passando nessa sua mente? – ela per guntou.

– Quer o beijar você – ele disse antes de per ceber que as palavr as saíam da sua boca.

– Você nor malmente pede antes?

– Não.

Ela inclinou o queix o par a cima em um desafio e par eceu quase zangada, com as pupilas dilatando-se.

– Então não peça.

Sean apoiou a mão esquer da atr ás da nuca de Lucy, o cabelo longo e sensual enr oscando-se em seus dedos. Pr ocur ou qualquer sinal de r eticência no r osto dela, qualquer dúvida. A ex pr essão dela estava sér ia e, por um segundo, ele acr editou tê-la inter pr etado mal. Mas em seguida os lábios car nudos se par tir am, e ele inclinou-se e beijou-a.

O gosto dela er a doce, como o chees ecake e o champanhe que haviam dividido. Tiver a a intenção de dar um beijo calor oso de boa-noite com uma pr omessa de algo mais, por ém não conseguia soltá-la. Quer ia sabor eá-la mais, senti-la mais. Gentilmente pr essionou o cor po ao dela, e Lucy ar queou as costas quando a cabeça pendeu par a tr ás a fim de pr olongar o beijo.

As mãos dela encontr ar am os bíceps, depois subir am par a os ombr os.

Os polegar es segur avam o pescoço dele, pr endendo-o a ela assim como ele a segur ava fir me.

Com qualquer outr a mulher, ele levar ia aquela dança par a o quar to.

Mas Lucy não er a uma mulher de uma noite só. Tinha confiança em seus poder es de sedução, mas não quer ia pr essioná-la r ápido demais. Ele quer ia, e precis ava, fazer aquilo da maneir a cer ta.

Mas ela se encaix ava tão bem a ele que ele não quer ia par ar .

Só que se não par asse, estar ia cometendo um er r o. Sabia disso como tinha cer teza de que o sol nascer ia no hor izonte do Atlântico no dia seguinte.

Lentamente, afastou os lábios dos dela, segur ando-a ainda per to. Olhou par a seu r osto; Lucy tinha os olhos fechados, por ém os abr iu assim que ele inter r ompeu o beijo. Ela par ecia desnor teada, como se não soubesse onde estava, como se tivesse se per dido nos últimos minutos. Lambeu os lábios, depois abaix ou o olhar e deu um passo par a tr ás, quase enver gonhada. Ele tr oux e-a de volta par a seus br aços e deu um beijo leve, mostr ando-lhe que não havia motivos par a se enver gonhar .

– Eu gostar ia de levá-la par a um encontr o oficial – Sean disse.

– Um encontr o? – Ela r epetiu.

– Hoje não foi oficial. Foi... pr eencher a vaga do seu ir mão.

– Eu...

– Amanhã.

– Amanhã? – ela r epetiu.

– Passo par a buscá-la às 10 hor as.

– Dez – ela balançou a cabeça e olhou par a baix o, encabulada. – Vou par a a igr eja. Costumo fr equentar a missa das 9 hor as. Que tal lá pelas 11?

Ele quase se ofer eceu par a buscá-la às oito e meia par a acompanhá-la à missa, mas não pisava em uma igr eja desde o funer al dos pais há quinze anos.

– Eu pego você lá. Às 10, ok?

Ela assentiu.

– Na Holy Tr inity. Na 36 com a...

– Sei onde fica – ele beijou-a de novo. – Às 10 da manhã – e a beijou uma última vez. – É melhor eu ir antes que entr e mais neve.

Lucy havia se esquecido de que a por ta estava aber ta e olhou par a a poça de neve der r etida que tinha entr ado pela fenda.

– É melhor eu limpar isso antes que Kate veja – ela disse e sor r iu par a Sean. – Você é uma distr ação – ela beijou-o espontaneamente, sur pr eendendo-se. – Obr igada mais uma vez – suas entr anhas estavam leves, uma sensação muito difer ente da de poucas hor as atr ás. Ela dever ia estar congelando par ada na soleir a da por ta, mas não sentia fr io algum.

– É um pr azer, senhor a – ele disse com um sor r iso calor oso que r evelava suas covinhas.

Ela sor r iu e fechou a por ta. Esper ou até ouvir o car r o dar par tida e sair .

Lucy não conseguia se lembr ar de um tempo em que tivesse se sentido tão à vontade com alguém. Em que se sentisse tão atr aída. Talvez por que aquela noite não foi um encontr o, não houve pr essão alguma par a que agisse de maneir a natur al. Tudo o que disser am e fizer am foi quase espontâneo. Pela pr imeir a vez em muito tempo, ela sentia-se uma mulher nor mal.

Ele a convidou par a sair. Um en con tro oficial. Quando foi a última vez em que saiu com alguém? Cody? Não, não er a ver dade. Pensou e per cebeu que por mais que tivesse saído com um ou dois homens depois do r ompimento

com

Cody,

ela

havia

se

afastado

de

qualquer

compr ometimento

potencial

depois

do

segundo

encontr o.

Seu

r elacionamento com Cody dur ou quase dois anos, er a do tipo confor tável e nor mal, até ele a pedir em casamento e ela per ceber que não o amava.

Não conseguia se imaginar casada com ele, ou com qualquer outr o homem.

O mer o pensar em casamento pr ovocava-lhe calafr ios e ataque de pânico.

Algo estr anho, consider ando-se que seus pais tinham um incr ível casamento de 45 anos... E contando.

Mas Lucy não er a nor mal, e ela sabia disso. Seu passado sempr e ser ia uma par te dela. Por mais que tivesse apr endido a não per mitir que o passado a contr olasse, ele afetar a suas decisões, conduzindo-a ao caminho logo adiante. O FBI. A luta contr a os pr edador es.

Por que não poder ia apr oveitar a companhia de Sean Rogan? Não mer ecia um pouco de felicidade?

Ela jur ou se diver tir um pouco no dia seguinte, sem pensar em nada.

Pr ovavelmente nem ter ia essa chance, Sean tinha a habilidade de ar r ancar o que quer que estivesse pesando em seu cor ação, sem que isso a deix asse se sentindo uma tola.

O enlevo r omântico de Lucy se desfez quando ela olhou par a o computador e se lembr ou do que Cody disse antes.

– M udou o pon to de en con tro?

Ele teve tanta cer teza, o que significava que o bar man soou convincente, e que, por isso, simplesmente r epetiu o que Pr enter disse.

Que ele se encontr ar ia com uma loir a sensual.

Não foi Tanya que o pr ovocou com palavr as. Pr enter só podia estar aumentando a histór ia; ele er a um estupr ador condenado que tinha um ego inflado.

Por ém, Pr enter es tava em um bar difer ente na mesma hor a em que havia dito à gar ota da inter net par a que o encontr asse no Fir ehouse em Fair fax . Quanto mais ela pensava nisso, mais se convencia de que ele esteve se r elacionando com duas mulher es on-line, e que a loira s en s ual que o pr ovocar a com palavr as havia feito uma ofer ta melhor que a de Tanya.

Sentou-se diante do computador e entr ou na conta de Tanya. Com um mínimo de esfor ço conseguir ia encontr ar todas as pessoas com quem Pr enter conver sou. Isso podia não ser um ato totalmente legal, pois ser ia pr eciso invadir o ser vidor, mas não ser ia complicado visto que ela conhecia todos os pr otocolos daquele site específico.

Muito pr ovavelmente Pr enter deu o bolo em Tanya por uma melhor per spectiva; er a a única ex plicação que fazia sentido. Talvez tivesse sido a loir a do beco, a que ele pr ovavelmente dr ogou.

Fr anziu o cenho ante os r esultados de sua pesquisa. Na ver dade, não conseguia encontr ar Pr enter no site. O per fil dele havia sido apagado.

Cancelado. Ser á que a polícia o havia bloqueado por medida de segur ança?

Caso fosse assim, haver ia algum r astr o de que a conta estava lá, mas estava inacessível. Devia haver r egistr os das conver sas dele na ár ea administr ativa, mesmo que não houvesse os dados. Er a comum os usuár ios bloquear em os per fis quando não desejavam que desconhecidos os contatassem. O nome dele apar ecer ia, mas não estava lá.

Lucy saiu da conta e tentou r ecr iar outr a com o usuár io dele. Estava disponível, o que significava que nenhum outr o usuár io r egistr ado na comunidade vir tual das salas de bate-papo o tinha, quer ele estivesse bloqueado ou não.

Por que a polícia apagar ia a conta dele? Não fazia sentido. Não pelo que, na super fície, se par ecia com um homicídio r otineir o. E tão r ápido?

Ele só havia sido assassinado há 48 hor as.

Lucy desligou o computador, mas pr ecisou de um bom tempo par a ador mecer .

*

Eu vejo a luz do quarto dela apagar. O quarto es tá es curo. Ela es tá s ó.

Exceto pela outra mulher n a cas a, que eu s ei que é uma policial. Uma federal.

A cas a es tá n o n ome de Dillon Kin caid e Katherin e Don ovan . Eles s ão cas ados . Cas ados , e aquele pau-man dado deixou que a cadela con tin uas s e com o n ome de s olteira. Por is s o n ão me pergun to mais como a s en horita Lucy Kin caid acabou s e torn an do uma men tiros a, uma vagabun da as s as s in a, com modelos como es s e em quem s e es pelhar.

Era guerra. Nós con tra elas . A maioria dos homen s con ten ta-s e em ceder às exigên cias das fêmeas . Deixavam-n as trabalhar. Deixavam-n as s e divertir. Deixavam-n as fazer o que bem quis es s em! Que traís s em, que men tis s em, que fos s em embora.

Fecho os olhos , e a raiva flui pelas min has veias , meu s us ten to, n utrin do meus des ejos des de que me lembro.

Ros emarie.

Eu te amo, Ros emarie.

Eu a amei apes ar das men tiras e dos en godos . Você s empre s oube que me des obedeceria? Eu lhe dei o mun do porque queria que você ficas s e ao meu lado, e mes mo as s im você foi embora!

Fin giu me amar, mas você amava mais aos s eus amigos . Fin giu es tar comigo, mas quan do chorou, chamou pelo n ome dele.

Sin to a s ua falta, Ros emarie.

Papai en ten dia das cois as , e eu deveria ter lhe dado ouvidos . Ele pas s ou pela mes ma experiên cia, mas eu acreditei que você ficaria s e tudo o que você precis as s e vies s e de mim! Se s eus s on hos e es peran ças e n eces s idades fos s em completados por mim, você n un ca me aban don aria.

Trabalhei n oite e dia por você! Sua vagabun da men tiros a e traidora, você me us ou como toda mulher us a os homen s . Como Eva us ou Adão, como Dalila us ou San s ão, como toda mulher n o mun do us ou um homem.

M as você foi fraca. Todas as mulheres s ão fracas . Todas as mulheres precis am apren der a obedecer.

A ficar.

A implorar.

A bus car.

Como as cadelas que s ão.

Sou um dos poucos que s obraram. O ún ico que en ten de que até que as mulheres con heçam o s eu lugar, n os s a s ociedade, n os s o futuro, es tará perdido. Todas as mulheres deveriam s er trein adas por mim. Somen te as mais obedien tes s obreviverão. Somen te as que fizerem exatamen te o que eu man do con tin uarão vivas .

Ain da n ão en con trei uma que vales s e a pen a.

Eu virei bus cá-la, Lucy. Não vai demorar.

DEZESSETE

O céu matutino par ecia um azul ainda mais vibr ante no fr io intenso, e por mais que a neve da noite anter ior tivesse sido r etir ada das r uas, os mantos br ancos nos jar dins, sobr e os telhados e os car r os estacionados, r efletiam o sol. O tr ajeto até a Holy Tr inity nor malmente per mitia que Lucy tivesse tempo par a pensar, mas a quietude e a beleza sutil do inver no daquela manhã não lhe der am paz de espír ito. Acabou chegando atr asada e se sentou em um dos bancos do fundo.

Seu sono mal dor mido influenciava as r espostas embaçadas dur ante a missa. Pensava nos possíveis motivos par a o encer r amento da conta de Pr enter. Uma conta podia ser acidentalmente cancelada, mas aquilo par ecia coincidência demais. Talvez Pr enter a tivesse cancelado intencionalmente a fim de acabar com qualquer pr ova. Isso er a mais plausível, mas por quê? Por que ele planejava dr ogar Tanya?

Isso não se encaix ava no per fil dele. Ele não havia se esfor çado par a cobr ir seus passos com Sar a Tyson, o que levou às pr ovas físicas que ajudar am a condená-lo. De todo modo, talvez ele tivesse apr endido com essa ex per iência e se tor nado mais cauteloso.

Depois da comunhão, Lucy se ajoelhou e r ezou, afastando todos os pensamentos r elacionados a Pr enter de sua mente. Alguém se ajoelhou ao seu lado, e ela automaticamente afastou-se, r elanceando par a a pessoa. Ela não gostava de ser sur pr eendida.

– Cody – ela sussur r ou.

– Sinto muito quanto a ontem à noite.

– Ssh... – ela não discutir ia o assunto na igr eja, mesmo que ele estivesse se desculpando.

Dez minutos depois a missa acabou, mas Lucy não saiu. Vir ou-se par a Cody depois do último hino e disse:

– A conta de Pr enter foi apagada.

Ele se mostr ou confuso.

– Por que isso é impor tante? Lucy, qualquer coisa pode ter acontecido com a conta dele. A polícia pode tê-la bloqueado.

– Ela foi cancelada.

– Eles podem tê-la ar quivado e depois apagado a cópia pública.

– Não há ar quivos nesse site, ex ceto pelas mensagens par ticular es. E

eu nunca mandei uma mensagem par ticular par a ele.

– Acho que você está fazendo tempestade em copo d’água.

A pr incípio Lucy ficou br ava, aquilo não er a n ada sem impor tância, mas depois notou as r ugas na testa de Cody. Pelo menos ele estava pensando nas suas pr eocupações.

– Pr eciso saber o que aconteceu, Cody. Pensei em todos os cenár ios, alguns são plausíveis, mas pr eciso saber .

– Por que isso é tão impor tante par a você?

– Por que... – por que er a impor tante? Por que se impor tava? Olhou par a o cor po de Cr isto na cr uz atr ás do altar .

Havia matado Adam Scott e não se ar r ependia. Ele mer ecer ia muito pior, mas a sua falta de r emor so a incomodou por muitos anos. Conver sou com Patr ick a r espeito, e ele desconsider ou seu sentimento.

“Você se sente culpada por não sentir culpa de ter matado o homem que a estupr ou, que quase matou Dillon e Kate? Não faça isso.”

Lucy havia se dessensibilizado por conta da violência no mundo ao seu r edor. Havia ex per imentado dor e humilhação, havia matado um ser humano, e estava imer sa no mundo vir tual onde pr edador es sex uais er am a nor ma, onde eles constantemente caçavam suas vítimas. Não quer ia banalizar um assassinato, mesmo o de um estupr ador condenado.

– Não quer o encar ar a mor te de ninguém levianamente – ela r espondeu.

– Entendo – talvez entendesse mesmo. – Vou investigar um pouco mais.

– Obr igada.

– Quer sair par a tomar café da manhã?

Sean . Ela olhou par a o r elógio. Já passava das dez.

– Eu tenho um encontr o – ela disse.

– Oh. Quem sabe outr o dia, então... – alguma coisa atr ás do ombr o dela chamou a atenção de Cody, que se endir eitou, assumindo sua postur a de policial alfa.

Ela vir ou par a tr ás e viu que Sean caminhava na dir eção deles. Seu cor ação aceler ou quando ele a fitou e sor r iu.

– Você não me disse que estava saindo com alguém – Cody disse em um tom dur o, como se ela o estivesse tr aindo.

– E não estou – ela r espondeu automaticamente.

– Você saiu com ele ontem à noite.

Cody não acr editava nela. Nem Lucy sabia se acr editava em si mesma.

– O que quer o dizer é que não é nada sér io – ain da. – Nós só... – por que ela tinha de ex plicar alguma coisa par a o ex -namor ado?

Sean apr ox imou-se, pousando uma mão nas costas de Lucy.

– Policial Lor enzo – ele disse em um cumpr imento.

– Rogan – ele se vir ou par a Lucy. – Eu ligo se descobr ir alguma coisa – em seguida foi embor a.

– Eu disse alguma coisa? – Sean per guntou.

Lucy balançou a cabeça.

– Ele é meu ex -namor ado.

– Faz tempo?

– Mais de um ano. Desculpe, não sei por que ele está agindo de modo tão estr anho.

Sean levantou a sobr ancelha.

– Não sabe mesmo?

– Se eu sei o quê?

– Ele ainda está apaix onado por você.

Ela balançou a cabeça e olhou na dir eção tomada por Cody, mas ele já tinha ido embor a.

– Acho que não – s erá? Não, não podia ser ver dade. Talvez.

– Lucy, eu sou homem, eu sei dizer – ele beijou-a de leve nos lábios. – Diga que ele não tem chance de r econquistá-la.

Ela deix ou as palavr as de Sean penetr á-la, de olhos ar r egalados.

– Ele não tem.

– Ótimo – ele beijou-a de novo. – Você par ece cansada.

– Não dor mi bem.

– Está com fome?

– Acho que eu poder ia comer alguma coisa.

– Você pr ecisa de ener gia par a o que tenho em mente.

– E o que é?

– Sur pr esa – ele pegou-a pela mão. – Vamos.

*

– Vai acabar definhando – Noah disse par a Kate ao entr ar na sala de computador es de Quantico no domingo de manhã.

Ela encar ou-o com o que poder ia ser descr ito como mau-olhado.

– Você es tá aqui.

– Este caso é meu.

– Esta é a minha família.

Noah não ter ia como vencer essa batalha.

– Abigail falou com o vice-pr esidente da r egional da locador a, enviou uma intimação por fax , e ele disse que nos entr egar á os r egistr os do GPS

amanhã de manhã, se possível. É fer iado, mas ele vai tr abalhar nisso.

– Bom.

Kate já olhava par a o monitor novamente.

– Também tenho novidades. Tenho uma lista de ender eços de e-mail da agenda de Mor ton. Ainda não r ecuper ei as mensagens, mas estou per to.

– Como podemos ligar isso a pessoas r eais?

– Alguns são fáceis, os nomes estão ligados aos ender eços. Outr os são mais complicados, mas conheço alguns tr uques.

– E quanto aos pr ovedor es?

Ela fitou-o com uma sobr ancelha er guida.

– Então você não é tão incompetente tecnologicamente quanto par ece.

– Conheço o básico.

– Os pr ovedor es de ser viços da inter net muito dificilmente entr egam infor mações pessoais dos clientes, a menos que tenhamos um mandado; eles não são tão amigáveis quanto à locador a de automóveis. Por tanto, pr ecisamos de uma causa pr ovável, como uma tr oca de mensagens que seja obviamente cr iminosa, ou que consigamos pr ovar que seja cr iminosa baseada em evidências. Aqui está a lista de tudo o que encontr ei até o momento, destaquei os associados conhecidos do ar quivo de Mor ton.

– Vou ver ificar os ender eços par a ver quem é da r egião – Noah disse ao sentir a ex citação familiar em seu íntimo que gar antia que aquele er a um ponto cr ucial na investigação.

– Tenho dúzias ainda não identificadas. A segunda lista é a que tem nomes, mas que não estão na lista de associados de Mor ton. Essa é um pouco mais longa. Meu palpite é que essas são as pessoas que enviar am ar quivos par a o site por nogr áfico dele.

– Por que fizer am isso? Mor ton não tinha dinheir o par a pagá-los.

– Algumas pessoas enviam de gr aça, são os amador es que enviam filmes caseir os de saias levantadas. Outr os fazem negócios com o site, sendo pagos confor me os vídeos são assistidos. Tr ask tinha gr avado mais da metade do seu mater ial, usando pr ostitutas, viciados em dr ogas, qualquer um que fizesse de tudo por um punhado de dólar es. Mas ele lucr ava milhar es de dólar es com cada filmagem.

Noah sacudiu a cabeça.

– E tudo isso er a dentr o da lei.

– Gr ande par te, e ele se esfor çava bastante par a manter a Empr eendimentos Tr ask for a do r adar. Adam Scott, por ém, er a um bastar do doentio e não conseguiu se conter ; ele matou mulher es por pr azer, e foi isso o que acabou com ele. Foi quando ele começou a matar on-line que finalmente conseguimos ir atr ás dele – Kate esfr egou as têmpor as. – Algumas vezes o sistema é fur ado – mur mur ou.

Noah não discor dava completamente, mas ainda acr editava que o sistema deles er a o melhor do mundo. Em seus dez anos na For ça Aér ea, gr ande par te deles na For ças de Segur ança Ravens, ele passou por dúzias de países e viu os pior es gover nos e sistemas judiciais ex istentes.

Noah sentou-se diante de outr o ter minal e ver ificou os nomes identificados por Kate.

– Só há dois na ár ea, ambos com r egistr o cr iminal. E um já está mor to.

Noah olhou par a Andr ew Ace Shuman, que entr ou e saiu da pr isão boa par te da vida. Pr ostituição, ex tor são, agr essão. De acor do com o ar quivo de Mor ton, Shuman tinha sido guar da-costas. Seu car go oficial na Empr eendimentos Tr ask er a o de chefe de s eguran ça. Ele havia saído da cadeia há tr ês anos e par eceu ter ficado ao lar go de pr oblemas, mas, como Noah bem sabia, a maior ia dos cr iminosos er a par a o r esto da vida, cr iminosos de car r eir a. Poucos mudavam de vida, só apr endiam a se esconder melhor .

– Vou falar com Shuman – Noah avisou. – Ele conhecia Mor ton e Ralston.

– Shuman é difícil e per igoso – Kate disse. – Depar ei-me com ele algumas vezes, mas nunca consegui detê-lo com nada substancial. Ele foi pr eso antes de Tr ask se esconder, acho que por agr essão. Tentei fazer com que ele denunciasse Tr ask, mas ele não cedeu.

– Bom saber disso. Ele par ece uma possibilidade.

– Se Mor ton enfur eceu Shuman, não há dúvida de que Shuman o matar ia. Mas por quê?

– Essa é a per gunta de um milhão de dólar es.

– E quanto a Ralston?

– A EIF está pr ocessando as pr ovas. O computador dele foi destr uído, não sobr ou nada do disco r ígido.

– O assassino não quis que encontr ássemos nada.

– Ainda não conseguir am deter minar a hor a da mor te. A autópsia está mar cada par a hoje à tar de. O assassino deix ou as janelas aber tas; o apar tamento estava uma geladeir a. Mas a EIF disse que ele estava mor to há mais de 48 hor as e a última testemunha que o viu disse que ele chegou na sex ta-feir a à noite, lá pelas 18h30.

– Por tanto a questão é saber se ele foi mor to antes ou depois de Mor ton – Kate disse.

– Não sei se isso impor ta de fato. Ele estava mor to antes do voo par tir no domingo de manhã. Eu gostar ia de saber que tipo de infor mação ele passava par a Jer r y Biggler .

– Biggler ? – Kate per guntou.

– Ralston er a um IC, infor mante cr iminal. Ele falava só com Jer r y Biggler, um tir a de D.C. que mor r eu de ataque car díaco seis meses depois de se aposentar , em 2006.

– Acr edita que Ralston tenha sido assassinado por que foi infor mante?

Por que agora? Isso não faz sentido.

Ela tinha r azão, mas Noah suspeitava de que houvesse mais ali. Ele só não tinha descober to ainda o quê.

Mas descobr ir ia. Ele sempr e descobr ia.

DEZOITO

Eu a vejo n o rin que de patin ação com o n amorado. Ela ri de alguma cois a que ele dis s e. Lucy Kin caid es tá s e divertin do.

Lucy Kin caid é uma vadia. Eu vi o vídeo de s exo dela. Sei exatamen te quem ela é. Ela é uma men tiros a. Uma as s as s in a. Uma as s as s in a men tiros a e vadia.

Fecho os olhos e me con cen tro em res pirar. Con trole. Precis o de con trole. Len tamen te in s piro. Pren do o ar. Solto. Para den tro. Para fora.

Acalman do-me.

Repito as res pirações até recuperar a compos tura. Agir com raiva, em público, s eria impruden te. Não quero ir para a pris ão. Eu poderia matá-la agora, mas s eria pres o.

Vou matá-la e n ão s erei pres o. Eles n ão en con trarão o corpo dela, porque n ão haverá n ada para s er en con trado. Como com as outras fêmeas .

Deixo que as imagen s permeiem a min ha men te. Elas me fazem s orrir. As mulheres que trein ei. Como elas apren deram bem a obedecer, como uma boa es pos a deve apren der.

M as como todas as fêmeas , quan do lhes dei a oportun idade de tomar a decis ão certa, elas s empre es colheram a opção errada. Todas elas morreram.

Lucy Kin caid era a pior da laia. Ela é o modelo de tudo o que uma mulher pode ter de errado. Ela s e achava igual aos homen s ? Superior?

Achava que podia matar s em s er pun ida? Que podia me en feitiçar com a lín gua ferin a, ten tan do me con ven cer de que era outra pes s oa?

Ros emarie também men tiu. Ela me dis s e que n un ca me deixaria.

Algumas mulheres aban don am com a men te, outras com o corpo.

Ros emarie foi tudo para mim. Perfeita. Ela fazia tudo o que eu orden ava.

Eu lhe dava tudo em troca des s a obediên cia. Eu a amava. Eu a amava!

Rapos a! Ela me ludibriou. A vagabun da traidora e men tiros a me en gan ou.

M eu pai me avis ou, mas eu n ão dei ouvidos porque acreditei ter apren dido com os erros dele.

Papai s abia...

Eu n un ca mais deixei que n en huma mulher me en gan as s e, até Lucy Kin caid ten tar s e pas s ar por outra.

Ela es correga e o n amorado a s egura an tes que ela caia n o gelo.

M in ha mão aperta o cabo da pis tola. Quero atirar n ela agora. Sacar a 9

mm do bols o e puxar o gatilho. Uma bala, duas balas , três balas , quatro...

O pen te in teiro. Ver o s an gue jorrar n o gelo. Ver o s an gue s ujar o ros to bon ito do n amorado dela. Ver o n amorado pau-man dado olhar horrorizado para a vagabun da morta.

Ele também foi en gan ado, n ão? Ele apren derá, as s im como eu apren di, que n en huma mulher é con fiável.

Talvez fos s e melhor eu matar o n amorado primeiro. Uma bala n a parte direita do crân io faria a mas s a cerebral s e es parramar n o gelo, em cima dela. Ela en cararia, horrorizada, o corpo in erte. En tão eu me aproximaria e diria que ele morreu por caus a dela. Eu con taria quem eu s ou de fato e por que ela tin ha de morrer.

Porque ela é uma Jezebel[1]. Uma men tiros a. Fin gin do s er outra pes s oa.

Precis o ouvir os pedidos de clemên cia dela. Precis o s aborear as lágrimas do ros to dela. Precis o vê-la s e partir ao meio. Precis o s en tir o cheiro do medo dela. Precis o que ela obedeça.

Acalme-s e. Res pire.

Tiro a mão do cabo da pis tola porque es tou ten tado demais a puxar o gatilho.

Con s igo res pirar com mais facilidade en quan to vejo Lucy Kin caid s e es fregar con tra o corpo do n amorado. Ele es tá s en do con duzido pela vadia, ceden do à fraqueza por caus a das en gan ações dela. Ele pode ter que morrer, mas es s a n ão é a min ha primeira es colha. Só s e ele in terferir.

Precis o s er forte. Es te n ão é o lugar certo para agir. Eu já es tou chaman do aten ção porque n ão ten ho um filho ou uma es pos a ao meu lado.

Es tá n a hora de ir embora.

Es tou obs ervan do você, Lucy. De hoje até o dia da s ua morte.

*

Lucy nunca patinou no gelo antes.

Depois do café da manhã, Sean levou-a par a um r inque ao ar livr e em Ar lington. Lucy se opôs.

– Eu mal sei usar patins de r odinha.

Sean disse:

– Mas você esquia, cer to?

– Não muito bem. Ainda fico nas pistas de cr iança.

– Esquiar é o pr óx imo passo, então. É tudo uma questão de equilíbr io.

– Há uma enor me difer ença entr e gelo e neve. Gelo é dur o. Dói mais quando se cai.

– Então não caia.

Ela encar ou-o.

– Você está achando tudo isso muito engr açado.

Ele se fez de ofendido.

– Eu levo meu lazer muito a sér io.

Ela suspir ou.

– Não sei, não – olhou par a o r inque, dominado por cr ianças que podiam fazer cír culos ao seu r edor. – Talvez fosse melhor ir mos jogar bilhar. Sei jogar muito bem e...

– Depois. Agor a você vai se sentar e colocar os patins.

Lucy obser vou as dúzias de pessoas no gelo enquanto calçava os patins.

A maior ia sabia o que estava fazendo; outr os se esfor çavam par a se segur ar à gr ade. Uma gar otinha bem pequenininha passou voando em uma saia r osa choque com casaco, luvas e cachecol combinando. Ela fez um r odopio que fez Lucy pensar na medalha de our o Olímpica.

Lucy tinha medo de fr atur ar um osso.

Sean já tinha amar r ado os cadar ços antes mesmo de Lucy começar. Ele se inclinou e r apidamente amar r ou os dela.

– Não acho que esta seja uma boa ideia – ela disse.

– Está com medo?

– Não, mas...

– Covar de.

Ela encar ou-o.

– Não sou covar de, mas...

– Então pr ove.

– Vou acabar me humilhando – disse baix inho. Sean a ajudou a se levantar e ela disse: – Não vejo como vou conseguir andar nestas coisas.

Sean a suspendeu.

– O que está fazendo? – ela ex clamou em pânico. – Não pode me car r egar de patins.

Ele r iu e começou a patinar até a entr ada do r inque.

– Você estar á deslizando pelo gelo como uma pr ofissional até o fim do dia.

– Ou congelada de tanto cair de tr aseir o no chão.

– Não vou deix ar você cair – ele colocou-a sobr e o gelo. Ela agar r ou a gr ade, com as per nas abr indo-se em um espacate.

– Sean!

Ele r iu de novo, segur ou-a pelos bíceps e suspendeu-a par a uma posição er eta.

– Finja estar dançando.

– Isto não é dançar .

– Eu disse par a fingir – ele segur ou-a pela cintur a, fazendo-a ficar de fr ente, e pr essionou o peito contr a as costas dela. – Vou conduzi-la, ok? Vou empur r ar par a fr ente e você pode se segur ar nos meus antebr aços, se isso ajudar .

Continuar: parte 8 de 17