Se eu Morrer Antes de Você

Allison Brennan · Capítulo 1 de 1 · parte 2/17

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Se eu Morrer Antes de Você

1. Um

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 17 partes.

– Desculpe – disse automaticamente, mas a mulher nem olhou par a tr ás.

Uma tensão dolor osa começou na base do cr ânio, espalhando-se r apidamente pelo cor po; o cor ação dispar ou como se ela estivesse cor r endo uma mar atona. Quando alcançou o topo das escadas, ela tentava combater um ataque de pânico.

Você es tá den tro do metrô! Claro que as pes s oas es tão olhan do para você!

Entr etanto, er a mais do que um simples r elance; alguém estava com os olhos cr avados nela. Maldição, não havia passado por isso tr inta minutos antes? Quando isso ter minar ia?

Com a mão tr êmula, pegou o spr ay de pimenta ao mesmo tempo em que pensava no quanto aquilo er a r idículo. Sua visão estava embaçando.

Obr igou-se a r espir ar fundo.

In s pire e expire. Con tin ue em fren te, n in guém a es tá obs ervan do, você es tá bem. Es tá tudo bem.

Mir ou a saída mais pr óx ima e calmamente seguiu par a as escadas.

Par a longe dos olhos que ela não via.

– Lucy...

Ela gir ou par a enfr entar a voz e r ecuou ao mesmo tempo, tr opeçando em uma maleta ao lado de um ex ecutivo que falava ao telefone.

Cody Lor enzo segur ou-a antes que ela caísse de costas no chão.

– Alguma coisa er r ada? – ele per guntou, com o r osto de policial per tur bado olhando de um lado par a o outr o.

Ela empur r ou-o.

– Você estava me seguindo?

– Eu vi quando você saiu do tr em. Eu a segui por que...

– Er a você – ela r espir ou fundo e fechou os olhos, esfr egando as têmpor as até que toda a tensão voltasse par a tr ás da nuca. Pelo menos agor a ela conseguia pensar . – Não faça isso.

– O quê?

– Não me encar e!

– Não tive a intenção.

Ela balançou a cabeça. Não er a justo com Cody, mas ela não conseguia se livr ar do medo. Ela nunca ser ia nor mal!

– Pensei que alguém estivesse me seguindo. Desculpe... – mur mur ou.

Ele esfr egou o br aço dela.

– Eu dever ia ter ligado. Acabei de sair do tr abalho e vi sua mensagem, pensei que poder íamos jantar juntos par a comemor ar .

Discr etamente, ela desvencilhou-se da mão dele.

– Lamento, mas vou me encontr ar com Patr ick par a jantar. Que tal em outr o dia?

– Clar o. Posso acompanhar você?

– Não vai sair do seu caminho?

– Não muito.

Ela cedeu, ainda que não se sentisse muito à vontade. Conhecer a Cody por meio do PMC e namor ar am por quase dois anos antes de ela ter minar a r elação. Tr abalhar com um ex -namor ado nos pr ojetos do PMC er a uma coisa; socializar com ele er a outr a completamente difer ente.

Ele segur ou-a pelo cotovelo par a conduzi-la par a for a da estação até a noite gélida. Estr emecendo, ela fechou ainda mais o casaco e subiu o colar inho par a pr oteger as or elhas. Nascida e cr iada em San Diego, Lucy ainda não estava acostumada ao inver no da costa leste.

– Vai nevar hoje – Cody disse.

– E você sabe disso por que o homem do tempo está sempr e cer to?

– Por que nasci e me cr iei em Mar yland. A pr imeir a nevasca vai cair antes da meia-noite.

– Você par ece contente com isso...

Ele sor r iu ao cr uzar em a r ua e vir ar em na avenida Pensilvânia em dir eção a Geor getow n. Cody par ecia e agia como um tir a: tinha ombr os lar gos e per feita condição física, movia-se em um balanço ar r ogante pr oveniente tanto do medo como da autoconfiança. Ele tinha uma bela apar ência cubana e bons modos que faziam com que a mãe de Lucy falasse sempr e de seus dotes, mas também tinha um quê de indomado que fazia com que Lucy apr eciasse a sua companhia. Um dia pensou que o amava, mas ela não sabia o que er a o amor . Só sabia o que o amor não er a.

E não er a Cody Lor enzo.

Quando r ompeu com ele, a família sofr eu mais do que Cody. Os dois separ ar am-se amigavelmente, mas Lucy sabia que Cody quer ia r eatar. Ela não.

– Bom tr abalho com Pr enter – Cody disse enquanto caminhavam.

– Ainda não o pr endemos – ela r eplicou. – Acha que o juiz vai aceitar ?

Par ece que eles pr efer em dar segundas, ter ceir as e quar tas chances hoje em dia.

Cody sor r iu sem humor .

– Cinquenta por cento de chance... Embor a tenhamos tido mais sucessos r ecentemente.

O estômago dela contr aiu-se. Cinquenta por cento.

– Se ele tiver ecs tas y líquido ou qualquer outr a dr oga, isso aumenta nossas chances.

– Esper o que sim. Se ele estiver voltando ao passado, vai continuar agindo do modo como conseguia sucesso. Posse de uma dr oga usada em estupr os dificulta o per dão até do mais benemér ito dos juízes. No mínimo, Pr enter vai passar uma noite na cadeia.

– Belo consolo.

Cody par ou de andar e Lucy vir ou-se par a fitá-lo. Ele par ecia zangado.

– Far ei tudo o que puder par a que ele cumpr a todos os cinco anos, Lucy. Pr ometo.

– Eu sei... – Lucy ficou pr eocupada com o amigo. – Você está bem?

– Estou. Um pouco fr ustr ado talvez. Atendi a um caso de violência doméstica hoje que me deix ou assim – ele olhou por cima do ombr o dela, imer so em um mundo pr ópr io, com os olhos car r egados de dor e fr ustr ação.

– Cody?

Ele balançou a cabeça, sem quer er tocar no assunto, e ela disse: – Lembr a-se do que me disse um dia quando não consegui evitar que uma adolescente se encontr asse com o namor ado vir tual? – Lucy fizer a amizade com uma gar ota de tr eze anos na inter net, embor a isso contr ar iasse as dir etr izes do PMC. Ela fez tudo o que pôde par a evitar que a gar ota cometesse os mesmos er r os que ela havia cometido seis anos antes. E fr acassar a.

Cody vir ou-se par a Lucy, fitando-a intensamente enquanto ela falava.

– Você disse: “Não podemos salvar a todos, por isso temos de fazer o que podemos, quando podemos.” Isso mudou a minha vida, me fez ter fé em alguma coisa de novo. Nós fazemos o que podemos. No PMC e no tr abalho.

O olhar intenso dele deix ou Lucy pouco à vontade. Talvez devesse ter per mitido que Cody sentisse r aiva e fr ustr ação, em vez de tentar animá-

lo. Não quer ia que ele se entusiasmasse, pensando que poder iam r eatar.

Ela sor r iu, aper tou a mão dele, soltou-a e voltou a andar .

– Vou me atr asar par a o jantar com Patr ick – disse.

– Vou cor tar pelo meio do par que par a chegar à minha casa.

Ela par ou de andar e olhou par a tr ás.

– Tem cer teza?

– O Clyde’s fica a poucas quadr as. Eu só quer ia ver se você estava bem com esse negócio do Pr enter, e clar o que você está. Você é uma mulher incr ível, Lucy – ele deu um passo à fr ente e a beijou no r osto. – Vejo você no sábado, na ar r ecadação de fundos do PMC.

Cody vir ou par a a tr ilha que passava no meio do par que Rock Cr eek e levantou a mão em despedida antes de desapar ecer. Ela caminhou r apidamente na dir eção do Clyde’s, já um pouco atr asada.

Lucy ainda tinha aquela estr anha sensação de estar sendo obser vada.

Olhou por sobr e o ombr o, mas ninguém r emotamente suspeito estava por per to. Par ou, olhou em todas as dir eções, já que os postes da r ua for neciam ampla luminosidade. As únicas pessoas par adas er am as que estavam

esper ando

o

far ol

fechar.

Ninguém

pr ecisa obs ervá-la

especificamente.

Respir ou fundo e sentiu o ar fr io esfr iar seus pulmões e sua mente.

Obr igou essa sensação a se afastar, como havia apr endido seis anos antes, quando o sentimento de estar sendo obser vada nunca a abandonava, dia e noite, em um lugar público ou estando sozinha no quar to.

Funcionou. Sor r iu e continuou na dir eção do r estaur ante, onde seu ir mão, sem dúvida, já devia estar ir r itado por ela fazê-lo esper ar .

[1] Dispensa do cumpr imento de uma pena, no todo ou em par te. (N.T.) TRÊS

Fazia menos de 24 hor as desde que Noah Ar mstr ong havia sido incumbido do caso de homicídio. Cada per gunta que se fazia levava-o ao dobr o de dúvidas.

Fiel a sua palavr a, Hans Vigo entr egar a todos os ar quivos a r espeito de Mor ton, que teve de se defender de duas acusações de estupr o e da tentativa de homicídio de um agente feder al, mas as dir etr izes mandatór ias de sentença for am jogadas pela janela. Scott havia sido mor to ao tentar escapar, e tudo o que eles tinham er a a palavr a de Mor ton de que havia entr egado tudo. Por mais que Noah entendesse a necessidade de um acor do, aquele par ecia muito suspeito. Seis anos er a pouco tempo pelo que ele fez, sem falar nas dúzias de outr as acusações desconsider adas.

Vidas estiver am em jogo, mas ao que tudo indicava, os investigador es deix ar am o desesper o tomar conta. E desesper o leva ao er r o.

Mor ton havia sido liber ado da pr isão por meio de um s urs is , o conceito feder al de liber dade condicional. Os ter mos da suspensão da pena er am r ígidos: ele não poder ia sair do Color ado, onde estava empr egado na oficina automotiva de um pr imo, nos limites de Denver. Ele não poder ia por tar uma ar ma, entr ar em negócios par a adultos – como s ex s hop ou clube de s trippers –, envolver -se em nenhuma de suas atividades pr évias, legais ou ilegais, de por nogr afia, nem se comunicar com nenhum dos antigos par ceir os ou tentar contatar suas vítimas. Qualquer violação o levar ia dir eto de volta par a a pr isão.

A nova par ceir a de Noah no caso er a a agente especial Abigail Resnick, uma veter ana que tr abalhava há dez anos no depar tamento; ela começar a em Washington, mas havia sido tr ansfer ida par a Atlanta cinco anos antes.

Abigail estava na casa dos tr inta, er a eficiente e se mudar a par a o cubículo ao lado do de Noah. Ela par ecia satisfeita por r etor nar a D.C. Abigail tinha um ligeir o sotaque, mas Noah não achava que fosse sulista; mais se par ecia com alguém de Boston.

Abigail desligou o telefone em sua mesa tempor ár ia – onde já havia se acomodado – e gir ou na cadeir a antes de se r ecostar com um sor r iso.

– Então Mor ton voou do Aer opor to Inter nacional de Denver no último voo, no dia 5 de janeir o, chegando a Dulles às 5h40 da manhã do dia seguinte. De acor do com o oficial da condicional, Mor ton pr ecisava se apr esentar na pr imeir a e na ter ceir a quar tas-feir as de cada mês par a se submeter a uma inspeção. A última vez em que o oficial o viu foi no dia 5, às 4h30 – finalmente, Abigail levantou os olhos cintilantes do papel. – Meu palpite é que ele saiu da r eunião e foi dir eto par a o aer opor to. Ele compr ou o bilhete pela inter net, usando a identidade e o car tão de cr édito do pr imo, que jur a não ter dado per missão par a que Mor ton fizesse isso.

Noah balançou a cabeça.

– Difícil pr ovar, mas podemos mandar dois agentes par a sacudir o pr imo e ver se ele não tem nenhuma sur pr esa escondida nos bolsos.

Abigail fez uma anotação mental.

– Monica Guar dino lider a o esquadr ão de colar inho br anco em Denver.

Ela está familiar izada com a suspensão da pena de Mor ton e está a caminho do apar tamento dele neste instante.

– Mor ton tinha passagem de volta?

– Não. Só de ida, de Denver par a Dulles. Não há nenhuma r eser va no nome dele nem no do pr imo. Ele pode ter conseguido uma identidade falsa aqui ou em Denver .

Ser á que Mor ton havia planejado voltar par a Denver ? Ou pr etendia se esconder ? E por que em D.C.? Ser ia uma par ada tempor ár ia antes de fugir do país? Embor a tivessem bloqueado todas as contas no ex ter ior, dir ecionando-as par a o gover no, eles não tinham como ter cer teza absoluta. E por que agor a e não assim que saiu da pr isão? Por que esper ar seis meses?

– Alô? – Abigail disse, batendo no tampo da mesa. – Alguém aí, Ar mstr ong?

– Desculpe, eu só estava pensando.

– Pense em voz alta, amigo. Somos par ceir os, lembr a? – os olhos dela ar r egalar am-se em um aviso.

Ele estava acostumado a tr abalhar sozinho, mas Abigail tinha r azão.

– Só estava me per guntando o que ele planejar a em D.C, e se essa par ada er a per manente ou apenas tempor ár ia antes de fugir do país.

– Ele pr ecisar ia de um passapor te falso. O pr imo não tem passapor te.

– Não é impossível – Noah disse. – Ver ifique o Depar tamento de Estado e veja se ex iste algum pedido pendente com o nome e a identidade do pr imo.

– Pode deix ar – Abigail anotou. – Reli o r elatór io da autópsia. O cor po de Mor ton foi encontr ado às 7h00. O legista deter minou como sendo às 23h00 a hor a da mor te dele. Na sex ta à noite.

– E câmer as de segur ança?

– Nada. Eu pensei em ir até lá, só par a dar uma olhada no lugar, ver onde a vítima foi encontr ada, mas a polícia local fez uma aver iguação detalhada quando foi chamada. Li os inter r ogatór ios dos funcionár ios da mar ina. O último tur no saiu às 5h30. Depois do assassinato, ver ificar am os bar cos e o estoque, mas disser am à polícia que nada foi r oubado ou quebr ado.

– Pegadas? Pr ovas?

– Nada. O chão é de concr eto. Estamos abaix o de zer o, sabia? – balançou a cabeça em desgosto. – A r oupa de Mor ton foi levada ao FBI par a tentar mos encontr ar pr ovas. E não foi encontr ado nada com ele: documento, chave de hotel... nenhuma chave, na ver dade. Pode ser que ele não tenha levado nada, ou que o assassino o r oubou.

– Por que ele far ia isso? O cr ime par ece ter sido motivado por vingança, baseado no ataque à genitália de Mor ton.

– Mas ainda assim é uma ex ecução. Não há vingança em uma única bala atr ás da cabeça.

Noah pensou nisso.

– Mor ton deve ter sido sur pr eendido por tr ás.

– Ser ia difícil isso acontecer ; você viu as fotos da cena do cr ime? É

aber to, bem per to do r io, pr óx imo da doca seca.

Noah havia olhado as fotos.

– O assassino poder ia estar se escondendo entr e os bar cos. Eles ficam guar dados bem juntos uns dos outr os.

– Mas o cor po de Mor ton foi encontr ado em uma ár ea livr e.

– O que suger e um encontr o.

Abigail assentiu.

– Mas nenhum car r o foi encontr ado. Estamos ver ificando as locador as de automóveis e os hotéis de beir a de estr ada.

– Ele poder ia ter ido com alguém. Não há sinais de ele ter sido ar r astado ou de luta indicando que ele tenha sido lar gado lá ou se metido em uma br iga.

– Por que na mar ina?

– Por conveniência. Mas não foi par a desova do cor po, pois as evidências indicam que a vítima foi alvejada no local em que foi encontr ada.

– Tenho um analista ligando par a os hotéis, a começar pelos pr óx imos a Dulles, seguindo até D.C. Se descobr ir mos onde Mor ton estava hospedado, talvez tenhamos uma ideia melhor do que ele planejava.

Noah olhou par a suas anotações.

– E se ele ameaçou sua última vítima? Ou Kate Donovan, a agente que o pegou? Talvez ela o tenha matado em legítima defesa.

Abigail meneou a cabeça.

– Se Mor ton ameaçou Kate ou Lucy Kincaid e foi mor to como r esultado, elas têm uma causa.

– Pode ser. Apesar de que se tivesse sido um tir o justificado, ela ter ia se apr esentado.

– Você não conhece Kate Donovan.

– Bem, logo vou conhecer . Vamos até a casa dela hoje à tar de.

Abigail suspir ou.

– Não é o tipo de conver sa que me agr ade.

– Por quê? Se ela for inocente no assassinato de Mor ton, pr ecisamos saber .

– Ela é muito pr otetor a em r elação à cunhada. Você sabe o que aconteceu com Lucy Kincaid?

– Li o ar quivo.

E não foi nada agr adável. Lucy Kincaid havia sido sequestr ada e mantida como r efém em uma ilha per to da costa do Estado de Washington.

Por quase dois dias, ela foi r epetidamente estupr ada por Mor ton e outr os dois homens não identificados no ar quivo, antes de ser r esgatada pela agente Donovan e alguns outr os. O que tor nou esse cr ime ainda mais hediondo foi que as agr essões for am mostr adas ao vivo pela inter net e milhar es de pessoas pagar am par a assistir. Pior, elas votar am dando sua opinião sobr e como Lucy dever ia mor r er .

Noah já havia visto muita tr agédia em sua car r eir a, tanto na For ça Aér ea quanto no FBI, mas nunca soube de nada tão doentio quanto isto: pessoas pagando altas somas par a assistir a uma adolescente ser violentada e assassinada.

– Tr abalhei no caso e vi alguns tr echos do filme – Abigail disse. – Adam Scott e Roger Mor ton quase destr uír am a família inteir a. Enquanto Kate investigava pela inter net, Scott pr epar ou uma ar madilha. Um dos ir mãos de Lucy, um policial de San Diego, foi com eles e quase foi mor to. Ele pr ecisou ser submetido a uma cir ur gia cer ebr al e ficou em coma por dois anos. Depois que r esgatar am Lucy, Scott manteve outr o ir mão como r efém e tor tur ou-o enquanto ela er a for çada a ouvir. Pr epar ou, inclusive, a ex plosão da casa dele.

Somente vagas r efer ências a esses eventos for am mencionadas no r elatór io. Noah disse:

– O r elatór io diz que Lucy Kincaid matou Adam Scott.

– Lucy estava sob uma pr essão enor me. E só tinha dezoito anos.

– Ela dispar ou a ar ma seis vezes. Estava sob tanta pr essão que sur tou?

Talvez ela nunca tenha se r ecuper ado.

– Você não estava lá; nem eu. A situação er a péssima. Um ir mão em coma, o outr o r efém, e o bastar do a ameaçou dizendo que matar ia a família inteir a caso ela não fosse com ele. E – Abigail acr escentou – pelo que ouvi, ela se saiu bem depois disso. Está deter minada a ser agente do FBI.

Noah fitou Abigail, sur pr eso com tal infor mação.

– Nem por sonho eles vão per mitir que uma vítima como Lucy Kincaid entr e no depar tamento.

– Por que não?

– Obviamente ela ficou tr aumatizada além da conta. Psicologicamente, ela...

Abigail levantou a mão par a silenciá-lo e disse: – Esper e um minuto. Você nem a conhece – pux ou uma pasta de dentr o da gaveta. – Não tenho como acessar todos os ar quivos dela, pois estão sendo analisados pelo comitê de seleção, mas ela passou no teste escr ito com louvor. Tem duas gr aduações: Ciência da Computação e Psicologia, com mestr ado em Psicologia Cr iminal, tudo isso em Geor getow n. Ela tr abalhou por um ano no depar tamento de polícia de Ar lington e tem cer tificados até não poder mais: defesa pessoal e voluntar iado em busca e r esgate com cr éditos em mer gulho; além disso, ela par ticipou da equipe da natação da escola e da faculdade, poder ia ter se qualificado par a as Olimpíadas, mas decidiu não par ticipar .

– Você a admir a.

– Pode apostar que sim – Abigail piscou. – Depois de tudo pelo que ela passou, ela tocou a vida. Só por que uma mulher foi estupr ada não significa que tenha de car r egar esse estigma pr a sempr e, que isso tenha de limitar as suas opções.

– Eu não suger i nada disso, só disse que par a ser agente do FBI é necessár io ter cer to distanciamento. Eu questiono se alguém que tenha sobr evivido a um tr auma físico e psicológico desse nível consiga lidar com alguns dos casos que r ecebemos.

– Ver dade. E quanto aos soldados?

Ele se r etesou.

– O que têm eles?

– Bem, você vem de uma car r eir a militar, cer to? Dez anos na For ça Aér ea? Esteve em combate. Pr ovavelmente matou o inimigo. Per deu amigos, não? Homens e mulher es que consider ava como ir mãos.

– Isso é completamente difer ente. Fomos bem tr einados par a ser vir nas For ças Ar madas e par a enfr entar per das humanas.

– E o que eu estou dizendo é que alguns soldados pr ovavelmente não lidam bem com esse tipo de tr abalho também. Outr os sim. Algumas vítimas de estupr o jamais se r ecuper am do ataque sofr ido, mas a maior ia encontr a um modo de levar uma vida r elativamente nor mal e bem-sucedida em uma var iedade de pr ofissões, inclusive como agente do FBI.

– Desculpe, não tive a intenção de...

– Só estou deix ando clar o que ex iste um estigma atr elado ao estupr o que é difícil de eliminar, e não só par a as vítimas. Quando nos encontr ar mos com Lucy, tr ate-a como qualquer outr a pessoa inter r ogada.

– Ou suspeita?

Abigail r espir ou fundo.

– Ou suspeita.

QUATRO

Às quintas-feir as, Lucy não tr abalhava no PMC, por isso ela foi dir eto par a casa, à tar de, depois de ter minar seu tur no no IML. Ela subiu as escadas da estação do metr ô e um vento gélido envolveu-a. Estava gr ata por não estar nevando, mas bem que ela gostar ia que a temper atur a estivesse alguns gr aus mais alta. Ao tér mino da caminhada de um quilômetr o e meio entr e a estação e a casa que dividia com Dillon e Kate, estava úmida por conta do ar car r egado e dos poucos flocos de neve que começar am a cair ao seu r edor .

Ao passar pela por ta, ouviu Kate conver sando na sala de jantar. Quase a chamou, avisando de sua chegada, quando ouviu uma voz masculina desconhecida.

Lucy avançou silenciosamente pelo cor r edor sem saber o que a aguar dava. Não gostava de sur pr esas, nem de visitantes inesper ados.

Atr avés das por tas duplas aber tas, ela viu Kate sentada em uma pose r ígida ao fim da longa mesa de jantar, e uma mulher e um homem em r oupas sóbr ias de tr abalho sentados de fr ente um par a o outr o; a mulher estava de costas par a Lucy. Pelas r oupas e postur a, Lucy deduziu que aqueles er am policiais feder ais. Viu a ar ma da mulher na cintur a e os ar quivos sobr e o tampo da mesa diante do par ceir o dela.

Lucy captou o olhar de Kate assim que passou pela soleir a. Pr eocupou-se. Kate er a mestr e em se manter impassível, então algo a abor r ecer a bastante par a que ela demonstr asse suas emoções.

Os dois agentes olhar am par a Lucy, e ela endir eitou a espinha. Havia algo no ar ; aquilo não er a simplesmente uma conver sa amigável. Ser ia a r espeito de Dillon? Sentiu o lábio infer ior estr emecer antes de mor dê-lo e temeu que algo tivesse acontecido ao ir mão enquanto ele esteve na Penitenciár ia Feder al Peter sbur g, onde tinha ido entr evistar um pr eso do cor r edor da mor te. Mas não conseguiu per guntar .

Kate disse:

– Lucy... – mas, em seguida, per deu-se nas palavr as.

Isso nunca acontecia com Kate. Mas ela não estava chor ando; não podia ser com Dillon. Não podia ser. Alguém de quem ela gostasse? Ou talvez não se r elacionasse a ela. Aquilo er a uma r eunião do FBI. Não tinha nada a ver com ela ou com a sua família.

– Vou deix á-los à vontade par a tr abalhar – Lucy disse. – Estar ei lá em cima.

O homem levantou-se e acenou, cumpr imentando-a. Ele devia ter mais de 1,80 metr o, os cabelos tinham um estilo conser vador e o queix o er a quadr ado.

– Sou o agente especial Noah Ar mstr ong. Esta é minha par ceir a, Abigail Resnick. Lucy Kincaid?

– Sim, sou eu – olhou do agente Ar mstr ong par a a agente Resnick. O

cabelo dela er a loir o, uns dois tons mais escur o que o de Kate, estava pr eso em um longo r abo de cavalo, delineando os tr aços bem mar cados do r osto. – Isto se r efer e ao meu pr ocesso seletivo?

Noah Ar mstr ong par eceu sur pr eso.

– Não.

– Oh. Então pr ecisam de mim par a alguma coisa? – ela olhou par a Kate, mantendo o r osto impassível, ainda que seus instintos lhe dissessem que havia algo muito er r ado.

Por favor, que n ão s eja Dillon . Nem Jack. Tampouco Carin a. Nin guém que eu amo! A família significava mais do que qualquer outr a coisa, mas todos ex er ciam funções per igosas. Policiais. Mer cenár ios. Investigador es par ticular es.

– Sente-se, por favor – Ar mstr ong disse.

Lucy não quer ia se sentar ; quer ia saber por que aqueles dois agentes estavam na sua casa, por que Kate par ecia tão pr eocupada a ponto de não par ar de ar r umar o cabelo atr ás da or elha, e o que tudo aquilo tinha a ver com ela.

Tir ou o casaco, colocou-o no encosto da cadeir a e sentou-se na ponta oposta à de Kate. Tir ou as luvas e pr ocur ou manter a ex pr essão neutr a.

Notou que os olhos de Kate não estavam ver melhos, por tanto er a possível que ninguém que amasse tivesse se fer ido.

O agente Ar mstr ong disse:

– Roger Mor ton foi alvejado e mor r eu na última sex ta-feir a.

Lucy piscou r epetidas vezes, completamente confusa e sur pr esa. Roger Mor ton estava mor to. Deix ou que a novidade a absor vesse. A base do cr ânio for migou quando a ver gonha a acometeu, não pela lembr ança do que Mor ton lhe fizer a, mas pela sua ex ultação pela mor te dele.

– Por que o FBI deve dar essa notícia pessoalmente?

– Estamos investigando esse assassinato, senhor ita Kincaid.

Lucy olhou par a Kate, que mantinha os lábios contr aídos. Estava clar o que Kate quer ia dizer alguma coisa, mas não sabia se podia.

A apr eensão de Lucy aumentou com a sua confusão.

– Não vejo como eu possa ajudá-lo em sua investigação, agente Ar mstr ong. Assegur o-lhe que jamais visitei esse homem na pr isão. É

costume inter r ogar as vítimas de um condenado?

– Em tais cir cunstâncias, sim.

– Devo ter per dido alguma coisa, por que há anos não vou ao Or egon; na ver dade, só fui uma vez em uma viagem com a família e eu devia ter uns nove anos.

– O senhor Mor ton foi assassinado na Washington Sailing Mar ina.

Ela sabia que não tinha ouvido er r ado. Sua voz não passava de um sussur r o, como se tivesse ficado sem ar , ao dizer : – Na Alex andr ia?

O agente Ar mstr ong assentiu.

– Ele r ecebeu a suspensão da pena em 1º de julho.

Lucy fitou o agente, que a obser vava atentamente. Detalhadamente. A sua pele aqueceu-se quando a r ealidade a assolou.

– A pena foi suspensa? – a voz saiu entr ecor tada.

Roger Mor ton havia sido liber tado? Isso não podia estar cer to. E for a par a D.C.? Estar ia à sua pr ocur a? Par a fer i-la mais uma vez? Par a estupr á-

la?

Não! Você n ão permitiria que ele s e aproximas s e de n ovo. Você é mais es perta agora. Sabe s e defen der. Ele n ão pode feri-la. Ele es tá morto.

– Você não sabia?

– Se eu sabia? – sua mente seguia r apidamente em múltiplas dir eções: Mor ton liber tado, Mor ton em D.C., Mor ton assassinado. Seu cor po estr emeceu, mas ela não per cebeu, er a como se estivesse ao lado, assistindo à conver sa do lado de for a. Viu o tr emor nas mãos, por ém não se tocou que er am as suas.

Olhou par a Kate. A cunhada não conseguia disfar çar a dor e a culpa no olhar . Lucy per cebeu que Kate já sabia da liber tação pr ecoce de Mor ton.

– E você não me contou? – ela per guntou, deix ando que a r aiva dominasse a dor. A dor vir ia da tr aição, do medo e dos ar r ependimentos, mas ela quer ia estar sozinha nessa hor a. Ela pr ecisava estar sozinha par a se pr oteger .

– Eu sinto muito – Kate disse. – Eu quer ia contar, Lucy, mas na época, há seis anos, quando fizemos o acor do, você estava... – ela deix ou a fr ase sem conclusão.

Lucy sabia ex atamente como estava seis anos antes. Desconectada de tudo e de todos enquanto lentamente pr ocur ava entender e aceitar o que lhe acontecer a dur ante as hor r endas hor as em que esteve apr isionada por Adam Scott e Roger Mor ton. Ela havia contado tudo par a Patr ick por que ele estava em coma e não a olhava com pena, medo ou pr eocupação. Ele não lhe dizia par a que comesse, dor misse, conver sasse com algum pr ofissional. Foi o único modo que ela encontr ou par a lidar com a situação.

Cer tos dias, ela nem saía do quar to dele, pr efer indo a r espir ação cadenciada do ir mão aos sussur r os pr eocupados que pr eenchiam todos os cantos da casa, aos amigos e par entes, todos pr eocupados com ela. Por ela ter sido estupr ada. Por ela ter sido humilhada na inter net. Por ela ter matado um homem e não ter demonstr ado r emor so.

– E depois? Quando ele foi solto? – ela fez uma pausa. – Seis anos atr ás...

Como sabia que ele ser ia solto em seis anos?

– Ele estava sob s urs is – o agente Ar mstr ong a cor r igiu. – Os ter mos do acor do com Mor ton estabeleciam que ele fosse liber tado em seis anos sob s urs is e com sever as r estr ições par a o r esto da vida, inclusive a pr oibição de contato com qualquer vítima. Na ver dade, ele estava pr oibido de deix ar o Color ado sem per missão do...

Lucy bateu a mão no tampo da mesa, assustando tanto os agentes quanto a si. Pouco se impor tava com as r estr ições impostas a Mor ton; ele havia sido liber tado. A ver dade queimava seu estômago como ácido bor bulhante. No fundo de sua mente, uma voz lhe dizia que aquilo não podia estar acontecendo, que aquilo não er a ver dade, mas ela abafou a fr aca emoção da negação. Aquilo es tava acontecendo e ela ter ia de enfr entar tal situação.

Seu comentár io foi dir igido a Kate.

– Seis anos? Pelo que ele me fez? Pelo que fez com as outr as? Com a sua par ceir a? Seis an os ? E você concor dou com isso? Sem me contar, naquela época ou mais tar de, quando ele foi solto?

– Eu não quer ia aceitar esse acor do, mas não foi uma decisão só minha.

Havia vidas em jogo! A sua. A de Dillon. Adam Scott havia deix ado bem clar o que ele não escapar ia sem levá-la junto. Mor ton entr egou Scott e a Empr eendimentos Tr ask, contas bancár ias, gr avações... Não tivemos escolha.

– Há sempr e uma escolha. Mas seis anos? Por que não sete? Dez? Ou um?

Por que mandá-lo par a a pr isão já que ele foi tão cooperativo?

Não tivemos es colha.

– Dillon sabia... – Lucy sussur r ou. O ar escapou dos pulmões e ela mal conseguia r espir ar . Todos sabiam. Menos ela.

Levantou-se tr êmula, pousando as mãos na mesa par a se sustentar.

Não desmaiar ia. Não ter ia um ataque de pânico. Não choraria.

Pr ecisava sair dali.

– Vou par a a casa de Patr ick – disse, sem olhar par a ninguém. Não quer ia ver a piedade nos olhos deles, ou pena por ela não ter sabido, por ter sido tr atada como uma cr iança impr evisível. No fundo sabia que a família só quer ia pr otegê-la, mas ignor ância não er a pr oteção.

– Eu levo você – disse Kate.

– Não. Vou a pé – r espondeu, enquanto pegava o casaco e o vestia.

– Está nevando.

– Pr eciso de ar fr esco – vir ou-se e per guntou ao agente Ar mstr ong: – Por que Mor ton estava em Washington?

– É isso que estamos tentando descobr ir – ele disse. – Senhor ita Kincaid, entendo que pr ecise de um tempo, mas temos que conver sar .

Ela concor dou.

– Amanhã.

– Vir emos de manhã...

– Não. Eu vou ao escr itór io.

Kate começou a dizer :

– Lucy, não acho que...

Lucy vir ou a cabeça na dir eção da cunhada.

– Não me impor to com o que você pensa, Kate. Não agor a – ela soou cr uel, a voz saiu r íspida e desconhecida. Mas aquele er a o único modo de manter a compostur a. Vir ou-se novamente par a o agente. – Regional de D.C.?

– Sim – ele entr egou-lhe um car tão.

Lucy guar dou-o no bolso e encar ou o agente, que não demonstr ava piedade... O cor po dele estava fir me, r ígido, r evelando que for a militar.

Sua postur a er a como a de seu ir mão Jack, em uma pose pr onta par a atacar, disfar çada de casual. Tudo nele er a um contr assenso, o que destacava ainda mais seus olhos azuis, muito clar os.

– Amanhã de manhã – ela r epetiu e depois se vir ou, saindo da sala.

CINCO

A casa de Patr ick – que também abr igava o r ecém-inaugur ado escr itór io da costa leste da Rogan-Car uso-Kincaid – ficava a apenas seis quar teir ões da casa de Lucy, em uma r ua estr eita per to da r ua M, entr e a embaix ada de um país menor do que o estado de Rhode Island e uma r esidência. Não er a longe, mas entr e a neve e o vento gelado, a caminhada par eceu mais longa que a feita todos os dias do metr ô até a casa.

Ela aper tou a campainha e esper ou, tão fr ia e molhada por for a que o calor da tr aição havia diminuído, sendo substituído por tr isteza e incer teza. No fim, ter ia de se sentar e conver sar com Kate e Dillon sobr e essa questão de a manter em de for a quanto ao assunto Mor ton, bem como sobr e seu assassinato. Não naquela noite, por ém; não quando a dor dos segr edos guar dados er a tão vívida que ela mal conseguia manter o passado tr ancado.

Mor ton esteve ali, em D.C. No seu lar. Mesmo com a violência do distr ito e a tax a de cr iminalidade, ela sentia-se segur a por que sempr e dava passos pr oativos. Tinha amigos e família. Tinha um tr abalho e um futur o. Mas ele esteve ali. E se o tivesse visto? E se ele tivesse ido a Washington por sua causa? Par a fer i-la novamente, talvez? E se ele tivesse pr etendido atingir Dillon, Kate ou o r esto da família?

Sentiu o estômago r evir ar e a pele aquecer. Oscilou o peso do cor po nos pés e apoiou a mão na maçaneta par a se equilibr ar. As mãos estavam ver melhas por conta do fr io; havia deix ado as luvas na mesa de jantar.

Esse esquecimento a fez hesitar ao olhar par a as mãos tr êmulas.

A por ta abr iu-se e ela endir eitou-se, pois não quer ia que Patr ick a visse naquele estado.

Por ém, não foi Patr ick quem atendeu à por ta.

– Sean.

Sean Rogan sor r iu com metade da boca, r evelando as covinhas. Lucy per guntava-se desde a pr imeir a vez em que o vir a se ele ensaiava esse ar char moso e tr avesso no espelho.

– Par ece desapontada. Não está feliz em me ver ?

– Não, eu só... Sim. Desculpe. Patr ick está? – sua voz demonstr ou pânico. Maldição, pr ecisava se contr olar ! Não quer ia desmor onar diante de Sean. Mal o conhecia.

Não quer ia desmor onar de jeito nenhum.

Em um piscar de olhos, a postur a de Sean mudou por completo, indo do fler te à ser iedade.

– Pensei que soubesse que ele foi par a a Califór nia hoje cedo.

Com pôde se esquecer disso? Não havia mais ninguém em quem ela confiasse que soubesse de toda a histór ia. Par a onde ir ia? A única opção er a voltar par a casa.

– Lucy, você está tr emendo – Sean segur ou-a pelo br aço e pux ou-a par a dentr o, fechando a por ta atr ás dela.

Ela tentou se desculpar por incomodá-lo, mas as palavr as não saír am.

As bochechas queimar am com o calor da casa, lembr ando-a de como ela estava fr ia.

– Está congelando...

Ela tentou desabotoar o casaco, mas os dedos estavam dur os e ador mecidos. Sean esticou a mão e r apidamente desabotoou e tir ou o casaco por ela, jogando-o no mancebo per to da por ta.

Fr anziu o cenho ao ver as mãos ver melhas de Lucy, e as pr endeu entr e as suas. Ele vestia somente jeans e uma camisa polo br anca, mas seu cor po par ecia uma for nalha. O calor das mãos dele er a tanto uma benção quanto um sofr imento par a Lucy. Ele levou as mãos dela à boca e assopr ou ar quente, e a fr anja, um pouco mais longa, caiu por sobr e um olho.

– Eu sinto muito, Lucy, eu dever ia ter atendido à campainha da pr imeir a vez.

– Eu só toquei uma vez. Vim andando.

– Veio andando?

– Não é longe.

– Da casa de Dillon e Kate? Fica cer ca de um quilômetr o daqui e, pior, você não está adequadamente vestida – os olhos azul-clar os avaliar am-na enquanto ele esfr egava as mãos dela. – O que aconteceu? Você está bem?

– Eu... – a boca tr emeu. Não, n ão, n ão! Não quer ia chor ar diante de Sean Rogan, não dele, do sócio do seu ir mão. Nem de ninguém. Dever ia ter ido par a o quar to. E por que foi até ali?

Você es queceu que Patrick es tava viajan do.

– Pr eciso ir – ela disse.

Sean ignor ou a declar ação e pux ou-a pelo cor r edor até o fundo da casa, onde a lar eir a imensa, que tomava quase a totalidade da par ede, ar dia.

Ele acomodou-a ali.

– Isso deve aquecê-la.

Sem conseguir falar, ela assentiu, desviando o olhar. O fogo estava quente demais, mas ela se sentou e ficou obser vando as chamas, contr olando-se par a não chor ar .

Por favor, Deus , n ão me deixe des abar agora.

Sean se afastou e Lucy começou a r espir ar com mais facilidade.

Conseguir ia conter as emoções, encontr ar ia um modo de tr ancar o passado no lugar a que per tencia e depois chamar ia um táx i.

Quer ia tanto conver sar com Patr ick. Talvez essa fosse a r esposta: voar até a Califór nia.

Cer to. Sair ia do empr ego, do tr abalho voluntár io, faltar ia à ar r ecadação de fundos do PMC no sábado. Fr an ficar ia desapontada. Lucy não fugia de nada. Não havia fugido seis anos antes quando o que mais desejou foi desapar ecer, e não far ia isso agor a. E pelo quê? Não cor r ia per igo, só estava imer sa nas mentir as contadas pela família. Estava sem ener gias naquela noite, mas no dia seguinte r ecobr ar ia suas for ças.

Olhou par a a cozinha, onde Sean estava de costas, dando-lhe um mínimo de uma bem-vinda pr ivacidade. Não quer ia jogar conver sa for a com ele, não impor tando o quanto o consider asse atr aente, tampouco quer ia ex plicar o que a levar a a caminhar no meio de uma tempestade notur na par a visitar o ir mão – que estava tr abalhando a 4 mil quilômetr os de distância dali.

Lucy esfr egou as mãos diante da lar eir a e tentou não pensar no que Sean achava da sua loucur a. A última hor a, desde o instante em que entr ou em casa e viu os dois agentes do FBI falando com Kate, deix ar a-a ex aur ida e ela não conseguia par ar de tr emer .

Sean tr oux e duas canecas e entr egou-lhe uma delas.

– Isto vai aquecê-la por dentr o.

– O que é? – ela olhou dentr o da caneca. Pedacinhos de mars hmallow flutuavam. – Chocolate quente?

– Quando Patr ick nos levou par a jantar no mês passado, lembr ei-me de como gostou da mousse de chocolate. Isto pode não ser tão sabor oso, mas esper o que sir va.

Lágr imas r olar am pelo r osto de Lucy e ela fechou os olhos. As mãos dela tr emiam, e Sean pegou a caneca, deix ando-a na lar eir a, per to da dele.

– Lucy... – ele passou os br aços ao r edor do cor po dela e ela r ecostou-se.

Quanto mais ela lutava contr a as lágr imas, mais seu cor po tr emia.

– Desabafe – Sean afagou seu cabelo. – Está tudo bem, Lucy, você está segur a aqui.

Segura. Ele sabia. E por que ainda se sur pr eendia? Não er a segr edo; ela só não tocava no assunto. Mas ele tr abalhava com Patr ick, por tanto, er a clar o que sabia do passado dela. Não er a um gr ande segr edo, só não er a algo discutido aber tamente.

Algum dia ela conseguir ia escapar do passado? Seis longos anos e ele a seguiu até D.C., até sua nova vida.

Seguiu? Não, não er a isso. Seu passado er a par te da sua identidade assim como o seu futur o. Não conseguir ia escapar dele por que o que acontecer a seis anos antes moldou cada decisão tomada desde então, as gr andes e as pequenas, quer ela per cebesse isso ou não.

Um soluço que não tinha nada a ver com ela vibr ou em seu peito e Sean tr oux e-a par a mais per to dele.

– Eu... – ela começou, depois par ou. Respir ou fundo vár ias vezes, esfr egou os olhos com a mão dir eita, engoliu a desculpa que se for mou automaticamente nos lábios. Ficou pasma por não se sentir enver gonhada em chor ar diante de Sean. Nem o conhecia tão bem. Mas talvez fosse melhor assim. Sua família sofr er ia, e dir ia-lhe que tudo ter minar ia bem. E

em sua mente ela sabia que super ar ia aquilo, que encontr ar ia um modo de per doar Kate e Dillon, pois er a isso o que as famílias faziam: per doavam.

Mas não naquela noite, talvez nem no dia seguinte, por que naquele momento as coisas não estavam bem. Ela sentia como se seu cor ação tivesse sido ar r ancado do peito – o cor ação que confiava na família par a pr otegê-la.

– Lucy, estou aqui se você quiser conver sar. Mas não pr ecisa, se não quiser – Sean disse.

Ela concor dou, r epousando a cabeça contr a o peito dele e fechando os olhos. Agor a que as lágr imas tinham par ado, ela se concentr ava em r espir ar nor malmente. Sean tinha cheir o de sabonete, de uma mar ca desconhecida, com um toque de loção pós-bar ba.

De r epente, e muito intensamente, Lucy deu-se conta de que Sean não er a seu ir mão. Por que não se sentia desconfor tável por ser abr açada por um belo desconhecido? Ele não er a um completo estr anho, ela já o vir a vár ias vezes desde que Patr ick se mudar a da Califór nia par a D.C., mas, de algum modo, aquilo par ecia algo mais íntimo, mais pessoal. Um homem que agor a a atr aía, embor a ainda não admitisse.

Alguma coisa mudou dentr o dela, e Lucy afastou-se de Sean, sentindo fr io. Naquele instante, não ter ia como lidar com tudo o que haviam lhe contado mais os sentimentos que vinham cr escendo desde que conhecer a Sean. Uma coisa de cada vez.

Sor veu um gole do chocolate quente, gr ata por ter algo com o que ocupar as mãos.

– Estou melhor .

– Que bom – ele pegou a caneca e também bebeu. – Quentinho.

– Está uma delícia – ela disse. – Impor ta-se se eu ficar mais um pouquinho? Não quer o atr apalhar . Só não quer o voltar par a casa agor a.

Ele inclinou a cabeça e disse:

– M i cas a es s u cas a.

Sean obser vou-a atentamente, pesando suas opções. Quer ia que ela contasse o que a havia feito fugir de casa e enfr entar uma tempestade. O

que a deix ar a tão tr anstor nada? Uma coisa, por ém, Sean sabia fazer : inter pr etar as pessoas. Lucy falar ia quando estivesse pr onta, mas se a pr essionasse, ela se fechar ia. Podia se dar ao lux o de ser paciente por que não tinha dúvidas de que eventualmente ela se abr ir ia com ele.

Sor veu mais um gole de chocolate quente pensando em encor ajá-la a fazer o mesmo. Seguiu o olhar dela passeando pela sala r emodelada.

– Gostei do que fizer am aqui – ela disse. – Vocês ampliar am a sala, não?

– É. Der r ubamos a par ede que separ ava a var anda inter na da sala de estar e r efor çamos o telhado.

Ela sor r iu.

– Ficou confor tável. E agor a podem apr oveitar esta incr ível lar eir a até mesmo lá da cozinha.

Se ela quer ia jogar conver sa for a, Sean não via pr oblemas, far ia o que fosse pr eciso par a deix á-la à vontade. Conduziu-a pela casa, mostr ando as outr as alter ações feitas, e os elogios sincer os dela o fizer am admir ar o espaço com outr os olhos.

A campainha tocou duas vezes e Sean fr anziu o cenho. Ele quase conseguiu fazer com que Lucy r elax asse e a inter r upção deix ou-a tensa novamente.

– Fique aqui – ele disse, esfr egando o br aço dela. Olhou r apidamente em sua dir eção antes de deix ar a sala. Ex ceto pela apr eensão nos olhos, Lucy disfar çava bem as emoções.

Ele passou a mão nos cabelos ao seguir par a a por ta da fr ente e olhar pelo olho mágico. Uma loir a magr a de casaco pr eto e cachecol tr emia na soleir a.

Kate Don ovan ?

Só encontr ar a Kate uma vez, quando ela e Dillon o convidar am par a jantar na casa deles logo depois que ele e Patr ick abr ir am a filial da RCK na costa leste. A única coisa que far ia qualquer pessoa sair de casa em uma noite como aquela er a uma emer gência. E, pelo estado de Lucy, ela er a essa emer gência.

– Eu dir ia estar sur pr eso – Sean disse ao abr ir a por ta.

– Então Lucy está aqui? – ela entr ou e disse baix o: – Lembr ei que Patr ick estava for a da cidade logo depois que ela saiu, e pr ecisei me livr ar dos agentes.

– Agentes? – ele per guntou.

– Ela não lhe contou? – Kate endir eitou-se e calou-se. – Pr eciso conver sar com Lucy.

– Se ela quiser – a única coisa que Sean sabia sobr e o que havia abor r ecido Lucy er a que ela não quer ia ir par a casa. Mas agor a havia até agentes do FBI envolvidos?

Todos sabiam do sonho de Lucy de se tor nar agente do FBI, mas Sean não acr editava que ela se abor r ecesse a ponto de sair, sem luvas, no meio daquela noite nevosa, caminhando quase um quilômetr o, caso tivesse o empr ego negado. Ou que tr emesse tanto a ponto de ele temer que ela se par tisse ao meio. Ele entender ia a r aiva, mas não as lágr imas, não a dor física que viu no r osto dela quando ele a levou par a dentr o de casa.

Continuar: parte 3 de 17