Tigana: A Lâmina na Alma
Parte três – De brasa a brasa
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Devin tampouco conseguia acreditar.
O que Sandre lhes dizia, de forma clara, era que Erlein di Senzio era um mago. Um dos que
cortaram dois dedos em seu pacto com a magia da Palma.
E Alessan bar Valentin era um príncipe com o sangue de Tigana, o que signi cava, se a
velha lenda de Adaon e Micaela fosse verdade, que ele poderia prender um mago sob seu
comando. Sandre não acreditara naquilo quando estavam na cabana, naquele outono. Devin
se lembrava.
Mas agora ele dava a Alessan a sua chance — o que explicava o olhar desafiador.
Uma chance, ou ao menos o início de uma chance. Pensando mais rápido do que nunca
em sua vida, Devin se virou para Baerd.
— Siga meu sinal quando chegarmos lá — disse ele, suavemente. — Eu tenho uma ideia.
Apenas muito depois ele pôde re etir sobre a mudança que sofrera naqueles seis meses.
Apenas seis meses, de uma estação das Brasas até a outra, para ele falar daquele modo com
Baerd; falar, e ser ouvido...
Havia, realmente, um riacho, conforme Sandre havia indicado ou adivinhado. Pararam as
carroças próximo da margem. Iniciou-se a rotina habitual do pôr do sol. Catriana cuidava
dos cavalos, Devin procurava madeira para o fogo. Alessan e o Duque separaram os sacos de
dormir e organizaram os apetrechos de cozinhar e a comida que traziam.
Baerd pegou seu arco e desapareceu em meio às árvores. Voltou vinte minutos depois, nem um instante a mais, com três coelhos e uma ave gorda.
— Estou impressionado — disse Erlein, ao lado de Catriana e junto aos cavalos. Seus olhos
estavam arregalados. — Estou muito impressionado.
— Pagarei pela sua música mais tarde — disse Baerd, com um de seus raros sorrisos.
Aquele que geralmente guardava para barganhar nas cidades.
Devin observava Erlein o mais discretamente que conseguia. Quando conseguiu focar-se na
mão esquerda do trovador, que aparentemente nunca permanecia imóvel por mais do que
um instante, parecia realmente haver uma mancha esquisita, um embaçamento no ar ao seu
redor.
Estivera esperando pelo retorno de Baerd, então não esperou mais.
— Você está com aparência de algo que deveria ser caçado — disse ele, sorrindo para o
caçador que chegava. — Vai aterrorizar cada mercador que encontrarmos. Precisa de um
corte de cabelo antes de poder se encaixar novamente na sociedade, meu amigo.
Baerd foi muito rápido.
— Eu não falaria isso, pirralho — devolveu ele, lançando suas presas para Sandre, próximo
à lenha recolhida para o fogo. — Não com essa aparência que você tem. Ou você quer ir mal
vestido de propósito para assustar Alienor, em Barso?
Alessan riu. E Erlein também.
— Nada assusta Alienor — brincou o trovador. — E ele tem a idade exata para ela.
— Que “idade exata”? — Alessan sorria levemente. — Se tiver mais de doze e ainda não
tiver sido enterrado, estará perfeito para ela!
— Eu não gostei disso — opinou Catriana, cerimoniosamente, enquanto os cinco homens
riam.
— Sinto muito — disse Alessan, tentando manter a expressão séria, enquanto ela se postava
à sua frente, as mãos firmemente postas sobre os quadris.
— Você não sente nada, mas deveria! — disparou Catriana. — Você sabe muito bem que
eu não gosto desse tipo de conversa. Como você acha que isso me faz parecer? E você só faz
isso quando está sem fazer nada. Vá fazer algo útil. Corte o cabelo de Devin. Ele realmente
está horrível, pior do que o habitual!
— Eu? — guinchou Devin, em protesto. — Meu cabelo? O que você quer dizer? Olhe para
Baerd, e não para mim! E ele? Ele é quem…
— Todos vocês precisam de um corte de cabelo. — O tom de voz de Catriana trazia uma
convicção de nitiva que não admitia contestação. Por um segundo, seu olhar crítico
repousou até mesmo na juba desleixada de Erlein. Ela abriu a boca, hesitou, então a fechou,
numa imitação perfeita de uma dama educada que se controla. Erlein corou. Sua mão direita
se ergueu imediatamente para ajeitar o cabelo na altura do ombro.
Sua mão esquerda não parava de brincar com alguns pedregulhos que recolhera às margens
do rio.
— Eu acho que você acabou de insultar o nosso convidado — a rmou Devin, com rancor.
— Isso com certeza fará com que ele se sinta bem-vindo aqui.
— Eu não disse nada, Devin — enfureceu-se ela.
— Você nem precisou — disse Erlein, com pesar. — Esses magní cos olhos não pareciam
felizes com o que viam.
— Os olhos de minha irmã quase nunca estão satisfeitos com o que veem — resmungou
Alessan. Ele estava agachado ao lado de um dos embrulhos que traziam e, após um
momento, pôs-se de pé com uma tesoura e um pente. — É nítido que estão me mandando
trabalhar por aqui. Ainda temos meia hora de luz antes do pôr do sol. Quem é a primeira
vítima?
— Eu — disse Baerd, rapidamente. — Você não vai encostar em mim depois que o sol se
puser, isso eu garanto.
Erlein observava com interesse quando Alessan conduziu Baerd até uma rocha ao pé do
riacho e começou — de maneira bem competente, na verdade — a cortar o cabelo do outro
homem. Catriana voltou aos cavalos, embora não sem antes lançar a Erlein outro olhar
rápido e enigmático. Sandre arrumou a madeira para o fogo e começou a tirar a pele dos
coelhos e da ave, cantarolando para si.
— Mais madeira, rapazinho — disse ele, abruptamente, para Devin, sem olhar para cima, o
que era perfeito, obviamente.
Oh, Morian, pensou Devin, enquanto uma mistura densa de orgulho e empolgação
percorria seu corpo. Eles são tão bons.
— Mais tarde — foi tudo o que ele disse, enquanto recostava-se casualmente no chão. —
Temos o suficiente por enquanto, e eu serei o próximo com Alessan.
— Não será, não — gritou Alessan, de junto ao rio, compreendendo a jogada de Sandre. —
Vá pegar lenha, Devin. Não há luz o su ciente para cortar o cabelo de três pessoas. Cortarei
o seu amanhã e o de Erlein agora, se ele quiser. Catriana terá que aguentar sua aparência
hedionda por mais uma noite.
— Como se um corte de cabelo pudesse mudar isso! — gritou ela, do outro lado da clareira.
Erlein e Baerd riram. Reclamando, Devin pôs-se de pé e partiu para perto das árvores.
Atrás de si, ouviu a voz de Erlein:
— Eu lhe seria muito grato — disse o trovador a Alessan. — Odiaria que outra mulher
olhasse para mim da forma que sua irmã fez.
— Ignore-a — Devin ouviu Baerd rir, enquanto retornava para junto do fogo.
— É impossível ignorá-la — disse Erlein, numa voz lançada forçosamente na direção em
que os cavalos estavam amarrados. Ele se ergueu e caminhou até a beira do rio. Sentou-se
sobre a rocha, em frente a Alessan. O sol era um disco vermelho, deslizando a oeste atrás do
riacho.
Carregando uma braçada de madeira, Devin deslocou-se nas sombras crescentes até onde
Catriana se encontrava, ao lado dos cavalos. Ela o ouviu, mas continuou escovando a égua
marrom. Os olhos dela não deixavam os dois homens à beira do rio.
Nem os de Devin. Colocados diante do pôr do sol, parecia-lhe que Alessan e o trovador
haviam se tornado ilustrações em alguma paisagem atemporal. Suas vozes carregavam uma
claridade anormal na quietude do crepúsculo.
— Quando foi a última vez que lhe zeram isso? — ele ouviu a pergunta casual de Alessan,
enquanto a tesoura se ocupava do emaranhado grisalho que era o cabelo de Erlein.
— Eu não consigo nem lembrar — confessou o trovador.
— Bem — riu Alessan, debruçando-se para molhar o pente no rio — na estrada não
precisamos necessariamente seguir a moda das cortes. Vire-se um pouco para cá. Isso, ótimo.
Você costuma penteá-lo para o lado ou para trás?
— De preferência, para trás.
— Ótimo. — As mãos de Alessan se moveram até o topo da cabeça de Erlein, enquanto a
tesoura reluzia os últimos raios do sol. — É um visual antiquado, mas os trovadores devem
parecer antiquados, não é? Faz parte do encanto. Você está sujeito pelo nome de Adaon e pelo
meu. Eu sou Alessan, Príncipe de Tigana, e, mago, você é meu!
Devin deu um passo involuntário para a frente e viu Erlein tentar, num re exo, se afastar.
Mas a mão de controle segurava sua cabeça, e a tesoura, tão ocupada um instante antes,
postava-se firme contra sua garganta. Ela o segurara por um instante, e isso fora o suficiente.
— Que sua carne apodreça! — gritou Erlein, enquanto Alessan o soltava e dava um passo
para trás. O mago se erguera da rocha como se tivesse sido escaldado e se virou para encarar
o Príncipe. Seu rosto estava contorcido de fúria.
Temendo por Alessan, Devin começou a se dirigir ao rio, buscando sua espada. Então viu
que Baerd já tinha uma echa empunhada em seu arco, mirando no coração de Erlein.
Devin diminuiu sua correria até parar. Sandre estava logo ao seu lado, com a espada curva
empunhada. Ele viu de relance o rosto negro do Duque e ali percebeu — embora não
pudesse ter absoluta certeza, dada a luz fraca — que havia medo.
Voltou-se para os dois homens à beira do rio. Alessan repousara sua tesoura e seu pente
sobre a rocha. Permanecia imóvel, as mãos ao lado do corpo, respirando rapidamente.
Erlein tremia de fúria. Devin olhava-o como se tivessem aberto uma cortina. Nos olhos do
mago, ódio e terror lutavam por dominação. Sua boca funcionava em espasmos. Ergueu sua
mão esquerda e apontou-a para Alessan, num gesto de negação violenta.
E Devin via, bem claramente agora, que o terceiro e quarto dedos haviam sido, realmente,
removidos. A antiga marca de ligação entre um mago com a sua magia e a Palma.
— Alessan? — disse Baerd.
— Está tudo bem. Agora ele não pode fazer nada com seus poderes que seja contra a minha
vontade. — A voz de Alessan era calma, quase desprendida, como se tudo aquilo estivesse
acontecendo com outra pessoa. Apenas então Devin percebeu que o gesto do mago fora uma
tentativa de desferir um feitiço. Magia. Ele nunca antes pensara que a veria tão de perto. A
pele atrás de seu pescoço estava eriçada, e não por causa da brisa do final de tarde.
Lentamente, Erlein abaixou a mão. Aos poucos, sua tremedeira cessou.
— Que a Tríade o amaldiçoe — disse ele, baixo e frio. — E que amaldiçoe os ossos de seus
ancestrais e encurte a vida de seus lhos, e dos lhos de seus lhos, pelo que você me fez! —
A voz era de alguém enganado brutal e dolorosamente.
Alessan não recuou nem se virou.
— Fui amaldiçoado quase dezenove anos atrás, com os meus ancestrais, e qualquer lho
que eu ou qualquer um de meu povo possa vir a conceber. É uma maldição que jurei usar
minha vida para desfazer, enquanto o tempo me permitir. Por nenhuma outra razão eu o
colocaria sob meu comando.
Algo horrível surgia no rosto de Erlein.
— Todo verdadeiro Príncipe de Tigana — disse o mago, com amarga intensidade — sabe,
desde o início, quanto é terrível o dom que o deus lhe deu. O quão brutal é controlar uma
alma livre. Você tem sequer ideia... — Ele foi forçado a parar, pálido, mãos unidas,
recuperando controle de si mesmo. — Você faz sequer alguma ideia de quão pouco esse dom
foi utilizado?
— Duas vezes — respondeu Alessan, calmamente. — Duas, até onde sei. É o que diziam os
livros antigos, embora eu tema que eles já tenham sido queimados agora.
— Duas vezes! — repetiu Erlein, sua voz erguendo-se. — Duas vezes, em quantas gerações
desde a origem desta península? E você, um príncipe choramingão que nem sequer tem terra
para governar, acabou de colocar suas mãos casualmente, e cruelmente, sobre a minha vida!
— Não casualmente. E apenas porque eu não tenho uma terra. Porque Tigana está
morrendo e se perderá para sempre se eu não fizer alguma coisa.
— E que parte desse pequeno discurso lhe dá direito sobre minha vida e minha morte?
— Eu tenho um dever — respondeu Alessan, sério. — Devo usar todas as ferramentas que
tiver ao meu alcance.
— Eu não sou uma ferramenta! — gritou Erlein. — Sou uma alma viva e livre, com meu
próprio destino!
Observando o rosto de Alessan, Devin soube o quanto aquele lamento o tocou. Por um
longo instante, houve silêncio junto ao rio. Devin viu o Príncipe inspirar lentamente, como
se sentisse o peso de mais um fardo, mais um para se somar aos que já carregava. Mais um
acréscimo ao preço de ter seu sangue.
— Não irei mentir e dizer que estou arrependido — disse Alessan, en m, escolhendo suas
palavras com cautela. — Tenho sonhado em encontrar um mago por muitos anos. Mas direi,
e isso é verdade, que compreendo o que você disse e por que você me odiará, e posso a rmar
que lamento pelo que a necessidade me exige.
— Não exige nada! — respondeu Erlein, esganiçado e resoluto. — Somos homens livres.
Sempre há uma escolha.
— Algumas escolhas são vetadas a alguns de nós. — Surpreendentemente, era Sandre.
Ele se deslocou para ficar um pouco à frente de Devin.
— E alguns homens devem fazer escolhas por aqueles que não podem fazê-las, seja por falta de vontade ou de poder. — Ele se aproximava dos dois, ao lado do uxo negro e
silencioso da água. — Assim como podemos escolher não matar o homem que está tentando
assassinar nosso lho, também Alessan poderia ter escolhido não controlar um mago que
poderá ser necessário ao seu povo. Aos seus lhos. Nenhuma dessas duas opções, Erlein di
Senzio, é uma alternativa para qualquer um que possua honra.
— Honra! — Erlein cuspiu a palavra. — E como a honra pode obrigar um homem de
Senzio para com o destino de Tigana? Que príncipe compele um homem livre para a morte
certa ao seu lado, e então fala sobre honra? — Ele balançou a cabeça, em negação. — Vocês
apenas abusaram de um poder e pronto.
— Discordo — respondeu o Duque, com sua voz profunda. Já estava bastante escuro;
Devin não conseguia mais enxergar seus olhos de dentro do capuz. Por trás de todos, ele
conseguia ouvir o som de Baerd começando a acender o fogo. Acima deles, as primeiras
estrelas começavam a emergir no manto azul escuro do céu. E a oeste, do outro lado do rio,
um último tom carmesim pintava a linha do horizonte.
— Discordo — repetiu Sandre. — A honra de um governante, assim como seu dever,
repousa no cuidado que dedica à sua terra e ao seu povo. Essa é a única forma de medida
verdadeira. E o preço, ou parte do preço desses atos, vem quando precisamos nos voltar
contra as necessidades da própria alma e fazer coisas que nos causarão mágoa até o cerne de
nosso ser. Coisas — completou, suavemente — como as que o Príncipe de Tigana acabou de
fazer.
Mas a voz de Erlein disparou, sem deixar-se convencer:
— E como um mercenário khardhuneano contratado presume tanto sobre a palavra honra
ou sobre as obrigações de um príncipe?
Devin percebeu que ele queria que as palavras causassem dor, mas o que soou, pelas
inflexões de sua voz, foi o tom de alguém perdido e com medo.
Houve silêncio. Atrás dele, o fogo ganhava força e o brilho alaranjado se espalhava,
iluminando a fúria de Erlein e o rosto magro e enegrecido de Sandre, com os ossos saltados.
Atrás de ambos, notou Devin, Alessan não se movera. Sandre disse:
— Os guerreiros de Khardhun que conheci eram altamente versados no conceito de honra.
Mas não irei ganhar crédito em cima deles. Não se deixe enganar: não sou khardhuneano.
Meu nome é Sandre d’Astibar, outrora Duque daquela província. Sei um pouco sobre poder.
A boca de Erlein estava aberta.
— E também sou um mago — completou Sandre, indiferente. — E assim você foi
reconhecido: pela magia simples que usa para disfarçar sua mão.
Erlein fechou a boca. Encarava o Duque xamente, como se esperasse penetrar em seu
disfarce ou encontrar a con rmação naqueles olhos profundos. Então olhou para baixo,
quase contra a sua vontade.
Sandre já esticava sua mão esquerda, mostrando seus dedos. Todos os cinco.
— Nunca realizei o sacrifício nal — disse. — Tinha doze anos quando minha magia me encontrou. E também era o lho e herdeiro de Tellani, Duque de Astibar. Fiz minha
escolha: dei as costas à magia e abracei a lei dos homens. Usei meu pequeníssimo poder,
talvez, cinco vezes em toda a minha vida. Ou seis — completou. — Uma, muito
recentemente.
— Então havia uma conspiração contra o barbadiano — murmurou Erlein, deixando sua
raiva temporariamente de lado. — E então... Sim, é claro. O que você fez? Matou seu lho
na masmorra?
— Sim. — A voz era firme, sem revelar nada.
— Você poderia ter cortado dois dedos para trazê-lo de volta.
— Talvez.
Devin o olhou ao ouvir aquilo, assustado.
— Não sei. Fiz minha escolha há muito tempo, Erlein di Senzio. — E com aquelas palavras,
tão calmas, outro vestígio de dor pareceu entrar na clareira, quase visível sob a luz das
chamas.
Erlein forçou uma gargalhada ácida.
— E que bela escolha, essa! — zombou ele. — Agora o seu Ducado se foi e a sua família
também, e você foi obrigado a servir como mago escravo de um tiganês arrogante.
— Pelo contrário — disse Alessan, rapidamente, junto ao rio.
— Estou aqui por minha livre escolha — disse Sandre, com tranquilidade. — Porque a
causa de Tigana é a mesma de Astibar, de Senzio e de Chiara. É a mesma escolha para todos
nós. Iremos morrer enquanto aceitamos ser vítimas ou enquanto tentamos ser livres?
Devemos fugir, como você fez todos esses anos, escondendo-se dos feiticeiros? Ou
poderíamos unir palma com palma, ao menos uma vez nessa península cheia de províncias
presas ao próprio orgulho, e expulsar aqueles dois?
Devin estava profundamente comovido. As palavras do Duque ecoavam à luz das chamas
como um desa o à noite. Mas quando terminou, o som que ouviu foi o das palmas irônicas
de Erlein di Senzio.
— Fantástico — disse, desdenhoso. — Você realmente deveria se lembrar dessas palavras
para o momento em que encontrar um exército de tolos para conduzir. Perdoe-me se ainda
não fui tocado pelo seu discurso sobre liberdade. Antes do sol se pôr, eu era um homem livre
numa estrada aberta. Agora, sou um escravo.
— Você não era livre — explodiu Devin.
— Eu digo que era! — devolveu Erlein, encarando-o com rmeza. — Talvez houvesse leis
que me restringiam e um lugar governado por alguém que eu preferiria ser outro. Mas as
estradas estão mais seguras agora do que jamais foram quando este homem governava
Astibar ou quando o pai daquele homem conduzia Tigana. E eu levava minha vida onde eu
quisesse. Vocês todos deverão perdoar minha insensibilidade, se eu digo que a magia de
Brandin de Ygrath sobre o nome de Tigana não é a primeira nem a última coisa em que
penso durante meus dias!
— Perdoaremos — disse Alessan, então, num tom incomumente frio. — Nós iremos
perdoá-lo por isso. E não tentaremos persuadi-lo a mudar suas opiniões. Mas lhe digo o
seguinte: a liberdade da qual você fala será novamente sua quando o nome de Tigana puder
ser ouvido no mundo mais uma vez. É minha esperança, talvez vã, que você venha a
trabalhar conosco por vontade própria, mas até então posso dizer que a coação do dom de
Adaon será su ciente para mim. Meu pai e meus irmãos morreram no Deisa, e a or de toda
uma geração se foi com eles, lutando por liberdade. Eu não vivi tanto tempo com tamanha
amargura nem lutei tanto para ouvir um covarde menosprezar o que restou de um povo e de
sua herança.
— Covarde! — Erlein exclamou. — Maldito seja, seu arrogante metido a príncipe! O que
você saberia sobre covardia?
— Apenas o que você nos contou — respondeu Alessan, agora furioso. — Estradas mais
seguras, você disse. Um governo em que talvez você preferisse outro líder. — Ele deu um
passo para a frente, em direção a Erlein, como se fosse acertá-lo, enquanto sua compostura
nalmente cedia. — Você é a pior coisa que conheço: um súdito passivo de dois tiranos. Sua
ideia de liberdade é exatamente o que lhes permitiu nos conquistar e se manterem aqui.
Você acha que está livre? Você tem apenas a liberdade de se esconder… e de sujar as calças
quando um feiticeiro ou um de seus rastreadores chega a dez quilômetros de distância dessa
sua magiazinha na mão. Você é livre para caminhar ao lado de rodas de tortura com seus
colegas magos apodrecendo nelas, e é livre para dar as costas e seguir pelo seu caminho. Não
mais do que isso, Erlein di Senzio. Pela Tríade, é isso que você tem agora! Você está en ado
nisso tanto quanto qualquer outro homem da Palma! Ouça minha primeira ordem: você irá
usar sua magia para esconder seus dedos, exatamente como antes.
— Não — disse Erlein, decidido.
Alessan não falou mais nada. Apenas esperou. Devin viu o Duque dar um passo em
direção aos dois e então parar. Lembrou-se que Sandre não acreditara que aquilo fosse
possível.
Agora, ele acreditava. Todos eles viram, sob a luz das estrelas e da fogueira preparada por
Baerd.
Erlein lutou. Sem compreender quase nada, tenso por praticamente tudo o que acontecia,
Devin notou gradualmente que um terrível embate ocorria dentro do mago. Podia ser lido
em sua fronte tensa e nos dentes apertados, ouvido em sua respiração ofegante e rápida,
visto nos olhos cerrados e em seus dedos, que repentinamente se apertavam ao lado de seu
corpo.
— Não — Erlein ofegou uma vez, e então de novo e de novo, cada vez com mais força. —
Não, não, não!
Caiu de joelhos, como uma árvore derrubada. Abaixou a cabeça devagar. Seus ombros se
enrijeciam, como se resistisse a alguma força avassaladora, e começaram a tremer, com
espasmos irregulares. O corpo inteiro tremia.
— Não — disse novamente, num sussurro agudo. Suas mãos estavam abertas, pressionadas
contra o chão. Sob a luz da fogueira, seu rosto era o retrato de uma agonia gritante. Suor
pingava em meio ao frescor da noite. Sua boca se escancarou de repente.
Com dó e medo, Devin afastou seu olhar logo antes de o mago soltar um grito que partiu a
noite ao meio. No mesmo instante, Catriana correu dois passos e en ou o rosto no ombro de
Devin.
Aquele grito de dor, o urro de um animal atormentado, permaneceu no ar entre o fogo e as
estrelas pelo que pareceu tempo demais. Depois, Devin notou um silêncio muito intenso,
quebrado apenas pelo crepitar ocasional das chamas, o murmúrio do rio e a respiração
ofegante de Erlein di Senzio.
Sem falar nada, Catriana apertou o braço de Devin e então soltou-o. Ele a olhou, mas ela
não retribuiu o olhar. Devin se voltou para o mago.
Erlein ainda estava de joelhos diante de Alessan, sobre a grama nova daquele início de
primavera, à beira do rio. Seu corpo ainda tremia, mas agora pelo pranto. Quando ergueu a
cabeça, Devin pôde ver o rastro das lágrimas e do suor e a lama em suas mãos. Lentamente,
Erlein ergueu sua mão esquerda e a encarou como se fosse algo estranho, que nem sequer
pertencia a ele. Todos eles viram o que acontecia — ou a ilusão do que acontecia.
Cinco dedos. Ele invocara um feitiço.
Ouviu-se uma coruja, um piar curto e claro vindo do norte, ao longo do rio, próximo das
árvores. Devin notou uma mudança no céu. Olhou para cima. A azul Ilarion, voltando ao
seu ciclo crescente, erguia-se no leste.
A luz fantasma, pensou Devin, embora quisesse não tê-lo feito.
— Honra! — soltou Erlein di Senzio, quase inaudível.
Alessan não se movera desde seu último comando. Olhou para o mago que prendera e
disse, baixo:
— Eu não gostei disso, mas suponho que devamos passar por essa parte. Uma vez será o
suficiente, eu espero. Vamos comer?
Ele passou por Devin, Catriana e o Duque, dirigindo-se para onde Baerd esperava, junto ao
fogo. A carne já estava cozinhando. Pego por um furacão de emoções, Devin notou o olhar
de dúvida que Baerd lançava a Alessan. E se voltou a tempo de ver Sandre estender a mão
para ajudar Erlein a se levantar.
Por um longo tempo, Erlein o ignorou. Então, com um suspiro, ele agarrou o braço do
Duque e se colocou em pé.
Devin seguiu Catriana de volta para junto do fogo. E ouviu os dois magos vindo atrás deles.
O jantar transcorreu em silêncio quase absoluto. Erlein pegou seu prato e seu copo e foi se
sentar, sozinho, na pedra junto ao rio, no limite do brilho das chamas. Vendo o contorno
escuro de seu corpo, Sandre murmurou que um rapaz mais jovem iria provavelmente se
recusar a comer.
— Aquele é um sobrevivente — completou o Duque. — Qualquer mago que tenha sobrevivido por tanto tempo deve ser.
— Então ele ficará bem conosco? — perguntou Catriana suavemente.
— Penso que sim — respondeu o Duque, bebericando seu vinho. E, voltando-se para
Alessan: — Mas ele vai tentar fugir esta noite.
— Eu sei — disse o Príncipe.
— Nós devemos pará-lo? — inquiriu Baerd.
— Não você. Eu irei. Ele não pode me deixar, a não ser que eu o autorize. Se eu chamar,
ele deve retornar. Eu o tenho... acorrentado à minha mente. É uma sensação estranha.
Bem estranha, pensou Devin. Ele olhava do Príncipe para a gura escura à beira do rio.
Não conseguia sequer imaginar como devia ser. Ou melhor, conseguia até imaginar, e a
sensação o incomodava.
Notou que Catriana o olhava e se virou para ela. Dessa vez, ela não desviou o olhar. Sua
expressão também estava estranha; Devin percebeu que ela provavelmente sentia a mesma
inquietação e sensação de irrealidade. E de repente se lembrou, nitidamente, de como fora
sentir a cabeça ruiva em seu ombro, uma hora antes. Naquele instante, mal notara o fato, tão
preso estava à imagem de Erlein. Devin tentou sorrir em resposta, mas achou que não
conseguiu.
— Trovador, você nos prometeu um pouco de música! — Era Sandre quem o chamava,
abruptamente. O mago nas sombras não respondeu. Devin se esquecera daquilo. Não sentia
vontade de cantar, e tampouco achava que Catriana sentia.
O que aconteceu a seguir foi que Alessan tomou sua auta de Tregea, sem expressão
alguma no rosto, e começou a tocar sozinho, ao lado da fogueira.
Tocava belamente, embora com poucas notas. A melodia era tão doce que Devin até
conseguia imaginar, no humor em que estava, as estrelas de Eanna e a lua crescente e azul
parando seus movimentos, apenas para não se afastarem da graciosidade daquela canção.
Então, pouco depois, Devin percebeu o que Alessan fazia e sentiu, subitamente, como se
estivesse prestes a chorar. Manteve-se rme, tentando se controlar, e olhou para o Príncipe
através do vermelho e laranja das chamas.
Os olhos de Alessan estavam fechados enquanto tocava, seu rosto imóvel e vazio, os ossos
nas bochechas marcados nitidamente. E nos sons que produzia, parecia colocar, como uma
oferenda em um templo, tanto o anseio que o conduzia quanto a decência e o cuidado que,
Devin sabia, residiam no fundo de sua alma. Mas não era esse o ponto, não era isso que fazia
Devin chorar.
Cada canção que Alessan tocava, cada nota, dolorosamente alta e doce, clara a ponto de
partir o coração, uma após a outra, era uma canção de Senzio.
Uma canção para Erlein di Senzio, encapuzado ali, na amargura e nas sombras, sozinho à
beira do rio.
Não irei dizer que estou arrependido, dissera Alessan ao mago, enquanto o sol ainda se
punha. Mas posso dizer que lamento.
E naquela noite, ouvindo a música que o Príncipe de Tigana produzia em sua auta, Devin
aprendia a diferença entre os dois. Ele observava Alessan, e então observava a forma como os
outros olhavam para o Príncipe, e foi enquanto encarava Baerd que a necessidade de chorar
tornou-se mais forte. Suas próprias mágoas se ergueram diante do apelo da auta. Pena por
Alessan e pelo dominado Erlein. Por Baerd e suas assombradas caminhadas noturnas. Por
Sandre, seus dez dedos e seu lho morto. Por Catriana e por si mesmo, por toda a sua
geração, totalmente privados do que eram em um mundo onde não tinham um lar. Por
todas as várias perdas e por tudo aquilo que homens e mulheres tinham que fazer em busca
de uma compensação.
Catriana foi até a bagagem do grupo, abriu outra garrafa de vinho e encheu mais um copo.
O terceiro copo. E, como sempre, era azul. Encheu o copo de Devin, em silêncio. Mal falara a
noite toda, mas ele se sentia mais próximo dela do que em muito tempo. Bebeu devagar,
observando a fumaça fria erguer-se da taça e se dispersar na noite gelada. As estrelas eram
como pontos gélidos de fogo e a lua era tão azul quanto o vinho — e tão distante quanto a
liberdade, ou um lar.
Devin terminou de beber e baixou a taça. Esticou-se para alcançar um cobertor e se deitou,
enrolando-o ao seu redor. Viu-se pensando em seu pai e nos gêmeos pela primeira vez em
muito tempo.
Um instante depois, Catriana foi se deitar, não muito distante. Normalmente, ela estendia
seu saco de dormir e cobertor no lado oposto ao que ele estava, próxima do Duque. Devin
era sábio o su ciente para saber que havia certa dose de aproximação no que ela fazia, e que
aquela noite poderia até mesmo marcar uma chance de começar a curar o que ainda havia
de problemático entre eles. Mas estava muito emocionado para saber o que fazer ou dizer em
meio a todas aquelas mágoas complicadas.
Ele disse um “boa-noite” delicado a ela, mas não obteve resposta. Não tinha certeza se ela o
ouvira, mas não repetiu. Fechou os olhos. Um momento depois, abriu-os novamente, para
olhar para Sandre, do outro lado da fogueira. O Duque olhava xamente para as chamas.
Devin imaginava o que ele estaria vendo ali. Imaginava, mas não queria realmente saber.
Erlein era uma sombra, um local mais escuro do mundo em meio às trevas, na beira do rio.
Devin se ergueu sobre um cotovelo para encarar Baerd, mas Baerd partira para caminhar
sozinho na noite.
Alessan não se movia nem abria os olhos. Ainda tocava, solitário, isolado e lamentoso,
quando Devin adormeceu.
Ele acordou com a mão rme de Baerd em seu ombro. Ainda estava escuro e muito frio. O
fogo havia se apagado, tornando-se apenas brasas e cinzas. Catriana e o Duque ainda
dormiam, mas Alessan estava atrás de Baerd. Ele estava pálido, mas rme. Devin imaginou
se ele havia chegado a ir dormir.
— Preciso de sua ajuda — murmurou Baerd. — Venha.
Tremendo de frio, Devin saiu de seus cobertores e começou a calçar suas botas. A lua descera. Olhou para o leste, mas não havia sinal de amanhecer em lugar algum do horizonte.
Estava muito quieto. Ainda com sono, se en ou no casaco de lã que Alais lhe enviara por
meio de Taccio, em Ferraut. Não tinha ideia de quanto tempo dormira ou de que horas
eram.
Terminou de se vestir e foi se aliviar nas árvores próximas ao rio. Sua respiração criava
nuvens no ar congelante. A primavera estava a caminho, mas com certeza não se encontrava
perto o su ciente, certamente não no meio da noite. O céu estava claro, brilhante e cheio de
estrelas. O dia seguinte seria lindo, quando chegasse o sol. Mas naquele momento tremia,
enquanto amarrava os cordões de suas calças.
Então, percebeu que não vira Erlein em lugar algum.
— O que aconteceu? — sussurrou ele para Alessan, enquanto voltavam ao acampamento.
— Você disse que podia chamá-lo de volta.
— E foi o que eu z — disse o Príncipe. Aproximando-se dele, Devin pôde ver o quão
cansado ele parecia. — Ele lutou contra isso tão intensamente que desmaiou, agora mesmo.
Em algum lugar.
Ele fez um gesto, em direção ao sul e ao oeste.
— Venha — disse Baerd. — Traga sua espada.
Tiveram que cruzar o rio. A água gelada afastou qualquer vestígio de sono de Devin, que se
engasgou ao sentir o choque em seu corpo.
— Sinto muito — falou Baerd. — Eu faria isso sozinho, mas não sei o quão longe ele foi ou
o que mais há nessa área. Alessan o quer de volta no acampamento antes de ele acordar.
Fazia sentido enviar dois homens.
— Não, não, tudo bem — afirmou Devin. Seus dentes batiam.
— Imagino que eu poderia ter acordado o velho Duque. Ou Catriana poderia ter me
ajudado.
— O que? Não, Baerd, de verdade. Estou bem. Estou…
Ele parou, pois Baerd ria dele.
Um pouco tarde, Devin notou a piada. Sentiu-se aquecido, de uma maneira curiosa.
Aquela era, na verdade, a primeira noite em que estava a sós com Baerd. Ele escolheu ver
isso como um novo nível de con ança, uma espécie de saudação. Pouco a pouco, sentia-se
mais como uma parte do que Alessan e Baerd tentavam conquistar por tantos anos.
Endireitou seus ombros e, andando o mais reto que conseguia, seguiu Baerd para o oeste,
em meio à escuridão.
Encontraram Erlein di Senzio à beira de uma aglomeração de oliveiras, sobre um declive, a
cerca de uma hora do acampamento. Devin engoliu em seco ao ver o que acontecera. Baerd
assoviou suavemente entre os dentes; não era uma cena bonita.
Erlein estava inconsciente. Ele se amarrara a um dos troncos de árvore e parecia ter dado
nós na corda pelo menos uma dúzia de vezes. Abaixando-se, Baerd pegou o cantil do mago.
Estava vazio: Erlein molhara os nós para deixá-los mais rmes. Sua bagagem e sua faca repousavam ao seu lado, propositalmente distantes.
A corda estava gasta e contorcida. Parecia que vários nós haviam sido desfeitos, mas cinco
ou seis ainda permaneciam.
— Olhe para os dedos dele — disse Baerd, com tristeza em sua voz. Ele sacou sua adaga e
começou a cortar as amarras.
As mãos de Erlein estavam rasgadas, até carem sem pele. Sangue seco as cobria. Era
brutalmente claro o que acontecera. Ele tentara tornar impossível, para si mesmo, obedecer
ao chamado de Alessan. O que ele esperava conseguir, Devin pensou: que o Príncipe
imaginaria que ele, de algum modo, fugira, e se esquecesse dele?
Na verdade, Devin duvidava que as ações de Erlein carregassem tamanha racionalização.
Era simplesmente uma provocação, e deveria reconhecer, sem má vontade, a ferocidade
daquelas ações. Ele ajudou Baerd a cortar o último nó. Erlein respirava, mas não
demonstrava sinais de consciência. Devin percebeu que sua dor devia ter sido devastadora,
relembrando o mago, gritando de agonia, ajoelhado à beira do rio. Imaginava que gritos a
noite não ouvira, ali, naquele lugar solitário e selvagem.
Sentiu uma estranha mistura de respeito, pena e raiva, enquanto encarava o trovador
grisalho. Por que ele estava tornando tudo tão difícil para eles? Por que obrigar Alessan a
carregar ainda mais dor sobre os ombros?
Infelizmente, sabia algumas das respostas, e elas não eram reconfortantes.
— Ele irá tentar se matar? — perguntou ele para Baerd, de repente.
— Acho que não. Como Sandre disse, ele é um sobrevivente. Não acho que ele vá fazer isso
aqui de novo. Ele tinha que correr uma vez, para testar os limites do que lhe aconteceria. Eu
teria feito o mesmo. — Baerd hesitou. — Mas eu não esperava pela corda.
Devin pegou as coisas de Erlein, além do arco de Baerd, sua aljava e a espada. Baerd lançou
o mago inconsciente sobre os ombros com um grunhido e começaram a caminhar para o
leste. A volta foi mais lenta. No horizonte à frente deles, quando chegaram ao rio, o primeiro
traço de amanhecer despontava, encobrindo o brilho das últimas estrelas.
Os outros estavam acordados e esperando por eles. Baerd deitou Erlein próximo à fogueira
que Sandre novamente acendera. Devin deixou caírem os equipamentos e as armas e voltou
ao rio levando uma vasilha, para pegar água. Quando retornou, Catriana e o Duque
começaram a limpar e enfaixar as mãos feridas de Erlein. Abriram sua camisa e dobraram as
mangas, revelando fortes vergões nos locais em que lutara contra as cordas por liberdade.
Ou será o contrário?, pensou Devin, com amargura. Não eram as amarras da corda sua
verdadeira tentativa de ser livre? Ele olhou além e viu Alessan encarando Erlein. Não
conseguia ler absolutamente nada da expressão do Príncipe. O sol se ergueu e, pouco depois,
Erlein acordou.
Todos conseguiram ver que ele tentava entender onde estava.
— Khav? — perguntou-lhe Sandre, casualmente. Os cinco se sentaram ao redor do fogo,
comendo seu desjejum, bebendo de canecas fumegantes. A luz do leste estava pálida e delicada como uma promessa. Brilhava e reluzia na água do rio, deixando as folhas das
árvores verdes e douradas. O ar estava cheio das canções dos pássaros e os ruídos de trutas
saltando no rio.
Erlein se sentou devagar e olhou-os. Devin viu que ele notava as bandagens em suas mãos.
O mago lançou olhares para os cavalos amarrados e as duas carruagens, já prontas para pegar
a estrada.
Seu olhar voltou, repousando sobre o rosto de Alessan. Os dois homens, tão
inesperadamente unidos, olhavam-se sem falar nada. Então Alessan sorriu. Um sorriso que
Devin conhecia. Ele abria seu rosto de forma calorosa, acendendo um brilho em seus olhos.
— Se eu soubesse que você odiava tanto as autas de Tregea — disse Alessan — eu não as
teria tocado.
Um momento depois, Erlein di Senzio começou a rir horrivelmente. Não havia alegria
naquele som, nada contagiante, nada a ser compartilhado. Seus olhos estavam fechados com
força e lágrimas escorriam deles, molhando o rosto.
Ninguém mais falou ou se mexeu durante um bom tempo. Quando Erlein en m se
recompôs, limpou seu rosto com as mangas, tomando cuidado com as bandagens em suas
mãos, e olhou para Alessan. Ele abriu a boca, como se fosse começar a falar, então a fechou
novamente.
— Eu sei — disse-lhe Alessan, baixo. — Eu sei.
— Khav? — repetiu Sandre, após um instante.
Dessa vez, Erlein aceitou a caneca, segurando-a de modo desajeitado com as duas mãos
enfaixadas. Pouco depois, levantaram acampamento e voltaram a seguir rumo ao sul.