Tigana: A Lâmina na Alma

Guy Gavriel Kay · Capítulo 13 de 19 · parte 2/3

Páginas do PDF

Tigana: A Lâmina na Alma

Parte três – De brasa a brasa

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

O jovem no balcão ficou visivelmente furioso.

— Por que você, você... Eu não acredito! Que direito você tem de... — E esmurrou o balcão,

em sua fúria.

O senziano sorriu da maneira altiva que todos os nascidos lá pareciam ter.

— Sim, que direito? — Os olhos cinza encaravam-no, gélidos. — Da última vez que olhei,

os mercadores de Senzio estavam com suas mãos tão ocupadas en adas nos bolsos, para

pagarem o dinheiro do tributo a oeste e a leste, que não conseguiam sequer colocar seu

equipamento para fora e satisfazer suas esposas!

Uma maliciosa onda de gargalhadas respondeu àquele comentário. Mesmo o velho

khardhuneano sorriu um pouco.

— E da última vez que eu olhei — disse o homem de Senzio, vermelho de raiva —, o

Governador de Senzio era um de nossos homens, e não alguém trazido de Ygrath ou

Barbadior!

— O que aconteceu com o duque? — soltou o comerciante de Ferraut. — Senzio foi tão

covarde que seu duque se rebaixou para governador, para não irritar os tiranos. Você tem

orgulho disso?

— Orgulho? — zombou o mercador no bar. — Ele não tem tempo para estar orgulhoso de

coisa alguma. Ele está ocupado demais, olhando para os dois lados e escolhendo a que

emissário de um dos tiranos ele vai dar sua mulher.

Novamente, risadas grosseiras e amargas.

— Você tem a língua bem a ada para um homem conquistado — disse o senziano, com

frieza. O riso cessou. — De onde você é para ser tão rápido em debochar da coragem de

outro homem?

— Tregea — disse o outro, baixo.

— A Tregea ocupada — corrigiu o senziano, maldosamente. — A Tregea conquistada. Com

seu governador barbadiano.

— Fomos os últimos a cair! — O tregeano soava desa ador. — Borifort aguentou mais do

que qualquer outro lugar!

— Mas ainda assim caiu — a rmou o senziano secamente, certo de sua vantagem. — Eu

não seria tão audacioso a ponto de falar das mulheres de outros homens. Não depois das

histórias que todos nós ouvimos sobre o que os barbadianos zeram por lá. E também ouvi que a maioria das mulheres não estava assim tão relutante em...

— Cale sua boca imunda! — grunhiu o tregeano, pondo-se de pé. — Cale a boca, ou vou

fechá-la para você permanentemente, seu senziano mentiroso e repugnante!

O barulho tomou conta do lugar, ainda mais alto do que os anteriores. Soando

furiosamente o sino acima do balcão, Ettocio lutou para restaurar a ordem.

— Chega! — gritou ele. — Chega disso ou vocês vão sair daqui agora!

Era uma ameaça horrível, e isso reprimiu a desordem. Ao menos o su ciente para que se

ouvisse, novamente, a risada irônica do guerreiro khardhuneano. O homem estava em pé.

Ele lançou algumas moedas sobre o balcão para pagar sua conta e examinou o salão, ainda

rindo, de sua grande altura.

— Veem o que eu digo? — murmurou. — Todos esses dedinhos apontando e cutucando

uns aos outros. Vocês sempre zeram isso, não foi? Acho que sempre farão. Até que não

reste mais nada aqui, além de Barbadior e Ygrath.

Ele se virou para o bar, solicitando sua espada.

— Você. — A voz era do tregeano de olhos cinza, ríspida, enquanto Ettocio entregava a

espada curva e embainhada. O mercenário se virou, lentamente. — Você sabe usar essa coisa

tão bem quanto usa sua boca?

Os lábios do velho se separaram, num sorriso triste:

— Ela já se avermelhou uma ou duas vezes.

— Você está trabalhando para alguém no momento?

De modo insolente e avaliador, o khardhuneano tou com desdém o outro homem e

perguntou:

— Aonde você está indo?

— Acabei de mudar meus planos — respondeu o outro. — Não é possível conseguir

dinheiro na cidade de Ferraut. Não sem pagar o dobro em impostos. Penso que terei de ir

mais longe. Eu lhe darei uma boa quantia para me proteger até o sul, até as terras altas de

Certando.

— Lugar difícil, aquele — murmurou o khardhuneano, pensativo. O rosto do tregeano se

contorceu, entretido.

— Por que você acha que quero você comigo?

Após um instante, o sorriso foi devolvido.

— Quando partimos? — perguntou o guerreiro.

— Já partimos — respondeu o tregeano, erguendo-se e pagando sua conta. Ele recebeu sua

própria espada curta e os dois saíram juntos. Quando a porta se abriu, um raio cegante de sol

entrou na taverna.

Ettocio esperava que a conversa cessasse após aquilo. Mas não cessou. O jovem no balcão

murmurou algo sobre unir-se em uma frente comum — uma observação que seria

simplesmente insana, não fosse tão perigosa. Infelizmente — do ponto de vista de Ettocio, de

qualquer modo —, o comentário foi entreouvido pelo mercador de lã, e o ar do salão já estava tão alterado àquela altura que o assunto certamente não iria morrer.

E continuou por toda a tarde, mesmo após a saída do garoto que estivera no balcão.

Naquela noite, com um grupo completamente distinto, Ettocio surpreendeu-se falando a

todos durante uma discussão acerca da superioridade entre um vendedor de vinhos de

Astibar e outro, senziano. Ele teceu o mesmo comentário que aquele alto senhor de

Khardhun zera: sobre os nove dedos esguios que foram quebrados, um por um, porque

nunca formaram um punho. O argumento fazia sentido; soava inteligente saído de sua boca.

Até notou alguns homens acenando, concordando, enquanto falava. Era uma reação

incomum e de dar orgulho — os homens raramente prestavam alguma atenção em Ettocio, a

não ser quanto ele avisava que a taverna estava para fechar.

Ele gostara bastante da nova sensação. Nos dias seguintes, percebeu-se levantando aquele

ponto todas as vezes que o assunto aparecia. Pela primeira vez em sua vida, Ettocio começou

a ter a reputação de um homem sábio.

Infelizmente, durante uma manhã de verão, foi entreouvido por um mercenário

barbadiano que estava diante da janela aberta. Não tiraram sua licença. Havia muita tensão

nos ares da Palma, naquele momento. Prenderam Ettocio e o executaram em uma roda, em

frente à sua própria taverna, com suas mãos decepadas enfiadas na boca.

Mas àquela altura muitos homens já haviam ouvido aquele argumento. E muitos, ao ouvi-

lo, concordaram.

 

Devin se juntou aos outros dois quilômetros ao sul da estalagem na estrada que conduzia a

Certando. Eles o aguardavam. Catriana estava sozinha na primeira carroça, mas Devin subiu

na segunda, ao lado de Baerd.

— Fervendo como uma panela de khav — disse ele alegremente, respondendo a uma

sobrancelha arqueada em uma pergunta. Alessan cavalgava ao lado. Havia a velado sua

espada, Devin viu. O arco de Baerd estava na carruagem, logo atrás do assento e ao alcance.

Devin já pudera presenciar, várias vezes naqueles seis meses, o quão rápido Baerd era em

pegá-lo. Alessan sorriu para ele, com a cabeça descoberta sob a luz da lua.

— Imagino que vocês mexeram um pouco na panela depois que saímos.

Devin sorriu.

— Não precisava mexer muito mais. Vocês dois já conhecem os passos como atores

profissionais.

— E você também — disse o Duque, recostado no outro lado da carruagem. — Eu gostei

particularmente da sua explosão de raiva dessa vez. Achei mesmo que fosse jogar algo em

mim.

Devin sorriu para ele. Os dentes brancos de Sandre reluziram contra sua pele incrivelmente

negra.

Não espere nos reconhecer, dissera Baerd quando eles se separaram na oresta Sandreni,

seis meses antes. Então, Devin se preparou. Um pouco, não o suficiente.

A própria transformação de Baerd fora desconcertante, mas relativamente simples: deixara

crescer uma barba curta e removera o acolchoado nos ombros de seu gibão. Ele não era tão

grande quanto Devin imaginara a princípio. Ele também conseguira, de alguma forma,

mudar a cor de seu cabelo, daquele amarelo brilhante para um tom de castanho escuro que

dizia ser sua cor original. Seus olhos estavam castanhos agora, e não azuis como antes.

Já o que ele zera com Sandre d’Astibar era completamente diferente. Mesmo Alessan, que

evidentemente tivera anos para se acostumar com aquele tipo de coisa, soltou um assobio

baixo ao ver em que o Duque havia se transformado. Sandre tornara-se — incrivelmente —

um velho guerreiro negro de Khardhun, além do mar do norte. Um do tipo que, Devin

sabia, era comum nas estradas da Palma nos últimos vinte ou trinta anos, na época em que

os mercadores não iam a lugar algum sozinhos, e as cruéis espadas curvas dos guerreiros de

Khardhun eram muito requisitadas como forma de se proteger contra os fora da lei.

Mas, de algum modo, e isso sim era surreal, Sandre trazia os traços exatos de um

mercenário khardhuneano, com sua própria barba raspada e os cabelos brancos tingidos de

um tom cinzento, o rosto negro e profundo e os olhos ferozes. Baerd explicara que fora uma

das primeiras coisas que reparara no Duque, ao vê-lo pela primeira vez à luz do dia. Fora

esse fato que lhe sugerira tão apropriado disfarce.

— Mas como? — engasgara-se Devin.

— Loções e poções — riu Alessan.

Baerd explicou mais tarde que ele e o Príncipe haviam passado alguns anos em Quileia após

a queda de Tigana. Disfarces daquele tipo, como colorações para a pele e o cabelo, ou

mesmo tingimentos para os olhos, eram uma importante arte aperfeiçoada ao sul das

montanhas. Ela possuía um papel central nos Mistérios da Deusa Mãe, assim como nos

rituais menos secretos do teatro formal, e assumira importância ímpar na tumultuada

história de Quileia, com suas divisões religiosas.

Baerd não disse o que ele e Alessan zeram por lá, nem mesmo como aprenderam essas

habilidades secretas ou como conseguiram os materiais necessários.

Catriana também não sabia, o que ao menos fez Devin se sentir melhor. Eles perguntaram a

Alessan certa tarde e receberam, pela primeira vez, uma resposta que se tornaria comum

durante todo o outono e o inverno.

Na primavera, dissera-lhes Alessan. Quando chegasse a primavera, muitas coisas cariam

mais claras, de um modo ou de outro. Eles seguiam em direção a algo importante, mas

deveriam esperar até lá. Ele não iria discutir aqueles assuntos agora. Antes dos Dias das

Brasas primaveris, deixariam sua atual rota circular Astibar-Tregea-Ferraut e partiriam para o

sul, através das grandes plantações de grãos de Certando. E àquela altura, dissera Alessan,

muitas coisas iriam mudar. De um modo ou de outro, repetira ele.

Alessan não sorria enquanto dizia essas coisas, mesmo sendo um homem de sorriso fácil.

Devin se lembrava de como Catriana jogara seu cabelo para o lado, com um olhar que

beirava a raiva:

— É Alienor, não é? — exigiu ela, praticamente acusando-o. — É aquela mulher no Castelo

de Barso.

A boca de Alessan se contorceu, primeiro de surpresa, e depois de satisfação.

— Não, minha querida — disse ele. — Nós iremos parar em Barso, mas isso não tem

relação alguma com ela. Se eu não a conhecesse, se eu não soubesse que seu coração

pertence completamente a Devin, diria que está sendo ciumenta, minha querida.

O gracejo teve o efeito desejado. Catriana saiu furiosa, e Devin, quase tão sem graça quanto

ela, mudou rapidamente de assunto. Por trás da cortesia natural e da camaradagem honesta,

havia uma linha que haviam aprendido a não cruzar. Embora raramente fosse duro com as

palavras, Alessan possuía gracejos capazes de ferir genuinamente seu ouvinte. Até mesmo o

Duque já descobrira que era melhor não pressionar Alessan sobre alguns assuntos. Inclusive

aquele: quando questionado, Sandre disse que sabia tanto quanto eles a respeito do que

aconteceria na primavera.

Pensando sobre isso, quando o outono deu lugar ao inverno e vieram as chuvas e a neve,

Devin estava ciente de que Alessan era o Príncipe de uma terra que morria um pouco mais a

cada dia. Ele concluíra que, dadas as circunstâncias, o surpreendente não era encontrar

locais em que não podiam entrar, mas, sim, o quão longe se poderia ir antes de atingir as

regiões proibidas.

Uma das coisas que Devin começou a aprender durante aquele longo inverno foi a ter

paciência. Ele ensinou a si mesmo que deveria guardar certas perguntas para o momento

apropriado, ou mesmo calá-las completamente e buscar as respostas por si. Se a verdade

completa viria apenas na primavera, então esperaria. Naquele meio-tempo, ele se entregaria

com uma paixão desapegada, e mesmo inesperada, ao que estavam fazendo.

Uma lâmina fora plantada em sua alma naquela noite, na floresta Sandreni.

Ele não tinha ideia do que esperar quando, cinco dias depois, partiram para a cidade de

Ferraut com a carruagem de Rovigo, três outros cavalos, uma cama e uma série de esculturas

da Tríade feitas de madeira. Taccio escrevera a Rovigo, dizendo que eles poderiam ter

grande lucro se vendessem as esculturas religiosas de Astibar para mercadores da Palma

Ocidental. Especialmente porque, conforme Devin aprendeu, os impostos não recaíam sobre

artefatos relacionados à Tríade: parte de uma tentativa bem-sucedida dos dois tiranos em

manter o clero calmo e neutralizado.

Devin aprendera muito sobre comércio naquele outono e naquele inverno — e sobre certas

outras coisas também. Com sua nova paciência, ganha a muito custo, ele ouvia em silêncio

enquanto Alessan e o Duque esboçavam ideias na estrada, transformando o carvão bruto de

um conceito no diamante de um plano lapidado. E mesmo que seus próprios sonhos, à noite,

mostrassem o surgir de um exército para libertar Tigana e invadir as muralhas do lendário

porto de Chiara, ele rapidamente entendera — durante os frios caminhos do dia — que a

abordagem deles teria de ser completamente diferente.

Entendera o motivo pelo qual, na verdade, ainda estavam no leste, e não no oeste, e fazendo tudo o que podiam — com os reluzentes diamantes que eram os planos de Alessan e

Sandre —, para agitar os ares no reino de Alberico. Certa vez, Catriana lhe confessou — num

daqueles dias em que, por algum motivo desconhecido, ela o julgava digno de conversa —

que Alessan estava, na verdade, movendo-se de forma muito mais agressiva do que no ano

anterior, quando ela se unira ao grupo. Devin sugeriu que devia ser a in uência de Sandre.

Catriana discordou. Ela pensava que ele poderia ter sua parte nisso, mas que deveria haver

algo mais, uma nova urgência vinda de uma fonte que não compreendia.

— Descobriremos na primavera — disse Devin, dando de ombros. E ela o fulminou com o

olhar, como se tivesse sido afrontada pessoalmente pela tranquilidade dele.

No entanto, fora Catriana quem sugerira a mais agressiva das ações daquele inverno: o falso

suicídio em Tregea. Juntamente com a ideia de deixar para trás um calhamaço com os versos

que aquele jovem poeta compusera sobre os Sandreni. Adreano era seu nome, conforme

dissera Alessan, com abatimento incomum: o nome estava na lista dos doze poetas que

Rovigo reportara como sendo aleatoriamente condenados à morte nas rodas, durante a

retaliação de Alberico. O Príncipe ficara inesperadamente perturbado com a notícia.

Havia ainda outra informação na carta de Rovigo, além dos detalhes comerciais de

costume. A carta ficara guardada para eles numa taverna ao norte de Tregea, a qual servia de

depósito de correspondência para vários mercadores do nordeste. Eles estavam seguindo

para o sul, espalhando o maior número de rumores que conseguiam acerca do

descontentamento entre os soldados. O relatório mais recente de Rovigo sugeria, pela

segunda vez, que um aumento nos impostos era iminente para cobrir as novas demandas de

pagamentos dos mercenários. Sandre, que parecia conhecer os pensamentos do Tirano

surpreendentemente bem, concordava.

Após o jantar, quando estavam sozinhos ao redor do fogo, Catriana expôs sua ideia. Devin

não conseguia acreditar: ele vira a altura das pontes de Tregea e a velocidade com que o rio

corria, logo abaixo. E ainda era inverno, esfriando mais a cada dia.

Alessan, ainda aborrecido com as notícias de Astibar e com uma opinião evidentemente

próxima à de Devin, vetou a ideia com veemência. Catriana apontou duas coisas. Em

primeiro lugar, que ela crescera à beira do mar, sendo assim uma nadadora melhor do que

eles — ou melhor do que poderiam imaginar.

A segunda coisa era que — e Alessan sabia bem — um salto suicida como esse,

especialmente em Tregea, iria se encaixar em tudo o que estavam tentando conquistar na

Palma Oriental.

— Isso — Devin se lembrava de Sandre ter dito, após um silêncio — é verdade, sinto dizer.

Alessan concordou, com relutância, em ir até Tregea para olhar melhor o rio e as pontes.

Quatro noites depois, Devin e Baerd se encontravam agachados entre as sombras do

crepúsculo, ao longo do rio na cidade de Tregea, num ponto que parecera a Devin longe

demais da ponte que Catriana escolhera. Especialmente em meio ao frio cheio de ventos do

inverno, na escuridão que descia rápida, além das correntes ainda mais rápidas que corriam por eles, profundas, negras e congelantes.

Enquanto esperavam, ele tentara, inutilmente, entender a complexa mistura de

sentimentos que tinha com relação a Catriana. Mas estava ansioso demais e com frio demais.

Ele apenas sabia que seu coração saltava, movido por uma curiosa junção de alívio,

admiração e inveja, quando ela nadou até o exato local em que estavam. Ela até trazia a

peruca em uma das mãos, para que ninguém a achasse presa em algum lugar. Devin en ou-

a no saco que carregava, enquanto Baerd esfregava vigorosamente o corpo de Catriana para

aquecê-la, cobrindo-a com as diversas camadas de roupa que traziam. Enquanto Devin

olhava para ela — tremendo incontrolavelmente, quase azul com o frio, os dentes batendo

—, ele sentiu a inveja se esvair. E dar lugar ao orgulho.

Ela era de Tigana e ele também. O mundo ainda não sabia, mas trabalhavam juntos —

embora elipticamente — para trazer sua terra de volta.

Na manhã seguinte, as duas carroças sacolejaram para fora da cidade, indo para o norte e o

oeste, novamente para Ferraut, com um carregamento de khav das montanhas. Uma neve

fraca caía. Atrás deles, a cidade entrava num estado de fervor e tumulto por causa da

desconhecida mulher de cabelos negros da distrada que se suicidara. Após aquele incidente,

Devin achava cada vez mais difícil ser áspero ou mesquinho com Catriana. Na maior parte

do tempo. Ela continuava a manter seu hábito de decidir, de tempos em tempos, que ele era

invisível.

Tornara-se difícil para ele se convencer de que haviam feito amor; que realmente já sentira

aquela boca macia na sua ou aquelas mãos em seu cabelo, enquanto ela o tomara dentro de

si.

Eles nunca falavam disso, claro. Ele não a evitava, mas também não a buscava: o humor

dela variava de modo imprevisível; nunca sabia que resposta teria. Como homem novo na

arte da paciência, esperava até que ela viesse para a mesma carruagem que ele ou que se

sentasse diante de uma lareira de taverna com ele, quando quisesse. Às vezes, acontecia.

Na cidade de Ferraut, naquele inverno e pela terceira vez, após o salto em Tregea, eles

foram maravilhosamente bem alimentados por Ingonida — ainda extasiada pela cama que

lhe haviam trazido. A esposa de Taccio continuava curiosamente solícita e carinhosa com o

Duque, em seu disfarce negro: um detalhe sobre o qual Alessan se divertira ao zombar de

Sandre quando estavam sozinhos. Nesse ínterim, o gordo e corado Taccio os encheu de

vinho.

Outro envelope enviado por Rovigo, em Astibar, os aguardava. Quando aberto, revelou

duas cartas, uma das quais tinha — mesmo após todo o tempo de viagem — uma

extraordinária mistura de aromas.

Alessan, com suas sobrancelhas arqueadas, entregou aquela correspondência azul-clara

para Devin, bem sugestivamente. Ingonida cou de pé e uniu suas mãos, num gesto que

indubitavelmente remetia a um êxtase romântico. Taccio, radiante, serviu a Devin um novo

copo.

O perfume, sem dúvida, era de Selvena. A expressão de Devin enquanto pegava o envelope

deve ter sido bem reveladora — apesar do cuidado que teve —, pois ele pôde ouvir uma

risadinha de Catriana. Teve a cautela de não olhar naquela direção.

A carta de Selvena continha uma sentença única e atrevida — ou seja, muito parecida com

a garota. Mas trazia uma sugestão vívida que o fez negar o desejo de todos que pediram

inocentemente para ler o texto.

No entanto, Devin era obrigado a admitir que ficou muito mais interessado nas cinco linhas

que Alais anexara à carta de seu pai. Com letra pequena e comercial, ela informava ter

achado e copiado uma variação do “Lamento de Adaon” de um dos templos ao deus em

Astibar, dizendo ainda estar ansiosa para compartilhá-la com eles da próxima vez que fossem

para o leste. E assinava apenas com sua inicial.

No corpo da carta, Rovigo informava que Astibar estava muito quieta desde que os doze

poetas haviam sido executados entre as famílias dos conspiradores, na Grande Praça, que o

preço do grão ainda subia, que poderia receber tanto vinho verde de Senzio quanto

conseguissem no preço atual, que era esperado que Alberico anunciasse, muito em breve,

um bene ciário para a maior parte das terras con scadas dos Nievolene, e a melhor

informação que obtivera era de que o linho de Senzio continuava abaixo do valor normal em

Astibar, mas poderia subir em breve.

Foi a informação sobre as terras Nievolene que causou a parte seguinte da acalorada

discussão entre Alessan e o Duque.

E aquele calor culminaria nas chamas.

Os cinco percorreram rapidamente a bem conservada estrada ao norte de Senzio, com mais

artefatos religiosos. Compraram vinho verde com o lucro das estátuas, barganharam algumas

peças de linho — Baerd era, surpreendentemente, o melhor negociante em tais assuntos — e

voltaram rapidamente para Taccio, pagando os novos e exorbitantes impostos, nos fortes e

nas muralhas das fronteiras provinciais.

Uma nova carta os esperava. Entre as várias notícias mercantis que estavam ali apenas para

disfarçar, Rovigo informava que um anúncio sobre as terras Nievolene era esperado até o

final da semana. E reforçava que sua fonte era confiável. A carta fora escrita cinco dias antes.

Naquela noite, Alessan, Baerd e Devin pegaram um terceiro cavalo, emprestado de Taccio

— que estava bastante satisfeito por não conhecer absolutamente nada de suas intenções —,

e pegaram a longa estrada para a fronteira de Astibar, cruzando então até um barranco junto

à estrada que conduzia aos portões da propriedade Nievolene.

Eles retornaram sete dias depois, com uma nova carruagem e um carregamento de lã para

que Taccio vendesse. Boatos sobre o incêndio os precederam. Os rumores sobre o fogo

estavam em todos os lugares, dizia Sandre. Vários confrontos entre homens da Primeira e da

Segunda Companhia surgiam em tavernas de Ferraut.

Deixaram a nova carruagem com Taccio e partiram, voltando lentamente para Tregea. Não

precisavam das três carruagens. Eram sócios de um modesto grupo comercial. Obtiveram os pequenos lucros que conseguiram, dados os impostos que os cercavam. E falaram bastante

sobre essas taxas e tarifas, geralmente em público. Por vezes, de modo mais aberto do que

seus ouvintes estavam acostumados.

Alessan debateu com o sarcástico guerreiro de Khardhun em mais uma dúzia de estalagens

e tavernas ao longo da estrada, contratando-o mais uma dúzia de vezes. Às vezes, Devin

fazia um papel; às vezes, era Baerd. Tomavam o devido cuidado de não repetir a

apresentação num mesmo local. Catriana mantinha um registro preciso de onde haviam

estado, o que haviam dito e feito. Devin a rmava que eles poderiam con ar em sua

memória, mas ela mantinha suas anotações mesmo assim.

Em locais públicos, o Duque agora se apresentava como “Tomaz”. Isso porque “Sandre” era

um nome bastante incomum na Palma, e seria ainda mais estranho para um mercenário

khardhuneano. Devin lembrava de que permanecera pensativo, da primeira vez em que o

Duque lhes dissera seu novo nome, no outono anterior. Pensava em como teria sido matar o

próprio lho. Ou continuar vivendo, após a morte de seus lhos. Saber que os corpos de

todos aqueles que possuíam alguma relação com ele, ainda que remota, estavam

arreganhados, ainda vivos, nas rodas de tortura de Barbadior. Devin tentou imaginar como

tudo aquilo devia fazê-lo se sentir.

A vida — o processo de viver e o que ele fazia com você — parecia a Devin cada vez mais

dolorosamente complexa, com o passar do outono e do inverno. Com frequência, pensava

em Marra, arbitrariamente tirada do mundo durante seu processo de amadurecimento para

o que quer que estivesse destinada a ser. Ele sentia sua falta com uma dor aguda que crescia,

por vezes, de modo muito pesado. Ela seria alguém com quem poderia falar sobre tais coisas.

Os outros tinham suas próprias preocupações e não queria incomodá-los. Pensava em Alais

bren Rovigo, se ela entenderia esses assuntos que lutavam dentro dele. Imaginava que não;

ela vivera muito protegida, muito reclusa, para que tais problemas a incomodassem. Devin

sonhou com ela, certa noite, numa inesperada sequência de imagens intensas. Na manhã

seguinte, pôs-se ao lado de Catriana na primeira carruagem da la, muito calado, agitado e

incomodado por sua presença, por seu cabelo vermelho destacando-se na paisagem pálida do

inverno.

Às vezes, pensava no soldado daquele celeiro da fazenda Nievolene — que perdera uma

rodada de dados e carregara uma garrafa de vinho para um lugar solitário, distante da

cantoria, e teve sua garganta cortada em meio ao sono. Será que aquele soldado viera ao

mundo unicamente para se tornar um ritual de passagem para Devin di Tigana?

Aquele era um pensamento horrível. Por m, enquanto percorriam as longas e frias

estradas no inverno, Devin se esforçava para acreditar que aquilo não era verdade. Enquanto

vivia, o homem interagira com outras pessoas. Causara prazer e tristeza, sem dúvida, e

também conhecera ambas as coisas. O momento de sua morte não era o que de nia sua

jornada sob as luzes de Eanna, ou como quer que aquela jornada fosse chamada no Império

de Barbadior.

Mas era complicado pensar naquilo. Será que Stevan de Ygrath vivera e morrera apenas

para que a mágoa de seu pai gerasse a destruição de uma pequena província, de seu povo e

de suas memórias? Será que o Príncipe Valentin di Tigana nascera apenas para empunhar a

espada que causara tudo aquilo? E quanto ao seu filho mais novo?

E quanto ao lho mais novo do lavrador de Asoli que fugira de Avalle quando esta se

tornara Stevanien? De verdade, era difícil compreender.

Certa manhã em Senzio, quando a primavera dava seus primeiros sinais fugidios

suavizando o ar do norte, Baerd retornou do famoso mercado de armas com uma espada

reluzente para Devin, namente balanceada. Havia uma joia negra no punho. Não dera

explicação alguma, mas Devin sabia que aquilo tinha relação com o que acontecera no

celeiro da propriedade Nievolene. O presente não respondia a nenhum de seus novos

questionamentos, mas ainda assim o ajudaria. Baerd começou a lhe ensinar durante as

pausas do meio-dia, na estrada.

Devin se preocupava com Baerd, em parte porque sabia que Alessan sentia o mesmo.

A primeira impressão que tivera na cabana estava errada: um homem imenso, louro,

intimidador, frio e competente. Mas Baerd tinha o cabelo escuro, não era tão grande e,

embora sua competência abarcasse um número de áreas su ciente para torná-lo intimidador

mesmo após seis meses, ele não era frio na realidade. Apenas cauteloso. Fechado em torno

da ferida que suportava há tanto tempo.

Com algumas coisas, Devin percebera, Alessan lidava com mais facilidade do que Baerd. O

Príncipe conseguia achar uma fuga temporária em conversar, em rir e, acima de tudo e quase

sempre, na música. Já Baerd parecia não relaxar nunca. Ele viajava através de um mundo

moldado e remoldado, a cada instante, com base no desaparecimento de Tigana.

Isso fazia com que sumisse certas noites, afastando-se do sono ou de uma fogueira que eles

tivessem construído próximo à estrada. Levantava-se sem aviso, calado, sério, e partia

sozinho para a escuridão.

Devin via Alessan observar enquanto Baerd se afastava.

— Conheci um homem como ele certa vez — disse Sandre, sério, numa noite em que Baerd

trocara o quarto quente de uma taverna por uma noite de inverno e neblina, nas colinas de

Tregea próximas a Berifort. — Ele precisava se afastar, sozinho, para enfrentar sua

necessidade de matar.

— Esse é um dos motivos — afirmou Alessan.

Pensamentos de inverno, a tristeza de uma noite de inverno.

Mas agora era primavera, e enquanto a seiva da terra se erguia verde e dourada em direção

à luz quente, Devin sentia que seu estado de espírito também se erguia para a agitação e a

crescente velocidade do mundo em que viajavam.

Espere pela primavera, dissera Alessan em meio às árvores marrons e vermelhas do outono

e às vinhas nuas, recém-colhidas. E agora a primavera chegara, com os Dias das Brasas

aproximando-se rápido e, en m — após longa espera — percorriam a estrada até Certando. E as respostas que conseguiriam por lá. Devin não conseguia e não queria reprimir a

sensação crescente dentro de si, como a seiva subindo dentro das árvores, de que o que

viesse a acontecer começaria em breve.

Na segunda carroça, ao lado de Baerd, ele se sentia gloriosa e signi cativamente vivo. À

frente deles, o brilho da luz do sol no cabelo de Catriana causava um efeito estranho e

maravilhoso em seu sangue. Percebeu que Baerd o analisava com curiosidade, e notou um

meio sorriso em seu rosto. Mas não se importava. Estava até feliz. Baerd era seu amigo.

Devin começou uma canção. Uma balada muito antiga, “A Canção do Viajante”:

 

Distante muitas milhas da casa em que nasci

Numa estrada sinuosa e sem glória

Mas quando o sol descer as duas luas hão de se erguer

E as estrelas de Eanna ouvirão minha história...

 

Alessan, não importava qual fosse seu humor, estava quase sempre disposto a acompanhar

uma canção e, como era de se esperar, Devin já estava sendo acompanhado pela auta de

Tregea antes do segundo verso. Olhou ao redor e recebeu uma piscadela do Príncipe, que

viajava ao seu lado.

Catriana lançou aos dois um olhar reprovador. Devin sorriu para ela e deu de ombros, e a

auta de Alessan repentinamente assumiu um ritmo mais feroz que era como um convite.

Catriana tentou conter um sorriso, mas não conseguiu. Uniu-se a eles no terceiro verso e

depois os guiou na canção seguinte.

Mais tarde, no verão, Devin reviveria aquela cena, dos cinco durante a primeira hora de

viagem na longa estrada para o sul, e aquela lembrança faria com que se sentisse muito

velho.

Naquele dia, ele era jovem. De certo modo, todos eles foram, brevemente. Até mesmo

Sandre, que os acompanhava nos refrões que conhecia, com uma voz de barítono aceitável,

renascido em sua nova identidade e com uma nova esperança permeando seu eterno sonho.

Devin lançou a terceira canção, e sua voz se ergueu clara pela estrada diante deles, ao longo

do iluminado e sinuoso caminho até Certando, alcançando a Dama do Castelo de Barso,

quem quer que fosse, e rumo ao que quer que Alessan tivesse de encontrar naqueles

planaltos.

Mas antes, quase ao pôr do sol, alcançaram um viajante na estrada.

 

Aquilo, em si, não era incomum. Ainda estavam em Ferraut, na populosa região ao norte do

Forte Ciorone, onde as estradas movimentadas de Tregea e Corte encontravam a rota norte-

sul que percorriam. Por outro lado, viajantes solitários eram su cientemente raros para que

Devin, juntamente com Baerd, passasse os olhos nas laterais da estrada, buscando quem

pudesse estar escondido para alguma emboscada.

Era uma precaução habitual, embora estivessem num lugar em que os ladrões não

sobreviviam por muito tempo. E, além do mais, ainda era dia. Então, conforme se aproximavam, Devin viu a pequena harpa pendurada nas costas do rapaz. Um trovador.

Devin sorriu; eles eram quase sempre uma boa companhia.

O homem voltara-se e estava esperando que chegassem até ele. A profunda reverência que

ofereceu a Catriana, quando ela parou a carruagem principal ao seu lado, tinha tanta

graciosidade que quase parecia uma paródia, naquela estrada vazia.

— Estou apreciando o som de vocês durante o último quilômetro de estrada — disse ele,

erguendo-se. — E devo dizer que gosto ainda mais de vê-los. — Ele era alto, não mais jovem,

com cabelo longo e grisalho e olhos perspicazes. Deu a Catriana o tipo de sorriso pelo qual os

trovadores da Palma eram famosos. Seus dentes eram brancos e uniformes num rosto que

parecia couro.

— Viajando para o sul junto com a primavera? — perguntou ela, sorrindo educadamente.

— A rota antiga?

— Estou, de fato — respondeu ele. — A antiga rota na época habitual. E eu odiaria ter de

contar a alguém tão jovem e bela como você por quantos anos tenho feito isso.

Devin desceu do lado de Baerd e se aproximou do homem para confirmar uma coisa.

— Eu poderia adivinhar — disse ele, sorrindo — pois acho que o conheço. Participamos

juntos de uma temporada de casamentos em Certando. Você tocou harpa para Burnet di

Corte, dois anos atrás?

Os olhos aguçados encararam-no, subindo e descendo:

— Certamente — admitiu o trovador, após um instante. — Sou Erlein di Senzio, e estive

com aquele maldito Burnet por uma temporada. Então ele foi desonesto quanto aos meus

honorários e decidi que era mais feliz sozinho. Eu realmente pensei que as vozes atrás de

mim fossem profissionais. E você é?

— Devin d’Asoli. — A mentira saiu de seus lábios com facilidade. — Estive com Menico di

Ferraut por alguns anos.

— E obviamente se mudou para outras áreas melhores — disse Erlein, passando os olhos

pelas carruagens comerciais. — Menico ainda está trabalhando? Está mais gordo do que

antes?

— Sim e sim — disse Devin, escondendo a culpa que ainda sentia quando pensava em seu

antigo sócio. — E ouvi que o mesmo se aplica a Burnet.

— Ele que morra — falou Erlein, amargurado. — Ainda me deve dinheiro.

— Bem — intrometeu-se Alessan, olhando-o de seu cavalo —, não podemos fazer nada

quanto a isso mas, se você quiser, nós podemos lhe dar uma carona até Ciorone e uma cama

antes do toque de recolher. Você pode cavalgar com Baerd — completou ele rapidamente,

ao notar que Erlein lançava um olhar para o assento vazio ao lado de Catriana.

— Eu ficaria profundamente agradecido — concordou Erlein.

— Não gosto do Forte Ciorone — interrompeu Sandre, abruptamente. — Eles nos enganam

por lá, e muitas pessoas acabam sabendo o que você está levando e para onde está indo.

Muitas delas são do tipo errado de pessoas. A noite que se aproxima é suave; acho que devemos ir embora daqui.

Devin olhou para o Duque, surpreso. Era a primeira vez que ele lançava uma opinião como

aquela.

— Bom, Tomaz, eu não vejo por que... — começou Alessan.

— Você me contratou, mercador — grunhiu Sandre. — Você queria que eu realizasse um

trabalho, e é o que estou fazendo. Se não estiver disposto a me ouvir, pague-me agora e eu

vou encontrar alguém que esteja.

Seus olhos eram ferozes em meio ao rosto enegrecido.

E seu tom era inconfundível. Qualquer que fosse a razão, Sandre tinha seus motivos para o

que estava fazendo.

— Um pouco de cortesia, se não se importa — disparou Alessan, voltando seu cavalo para

poder encarar o Duque. — Ou irei realmente dispensá-lo e deixar que carregue seus ossos

velhos até achar alguém idiota o su ciente para aguentá-lo. Eu consegui — concluiu ele,

voltando-se para Erlein — encontrar o khardhuneano mais arrogante das estradas da Palma.

— Eles são todos arrogantes — respondeu o trovador, balançando a cabeça. — É algo que

vem junto com a espada curva.

Alessan riu. E Devin, seguindo sua liderança, fez o mesmo.

— Ainda resta uma hora de luz do sol — disse Baerd, em tom de reclamação. — Podemos

chegar facilmente ao Forte. Por que dormir no chão?

Alessan suspirou.

— Eu sei — disse ele. — Mas sinto muito. Somos novos nisso, e Tomaz, não. Imagino que

devamos ouvi-lo, ou estaríamos desperdiçando o que pagamos, não é mesmo? — Ele olhou

de volta para Erlein e deu de ombros. — Lá se vai sua carona para Ciorone.

— Não se pode perder o que nunca foi nosso. — O trovador sorriu. — Eu darei um jeito.

— Você é bem-vindo a dividir nosso fogo — lançou Devin, acreditando ter lido o olhar do

Duque corretamente. Ainda não tinha certeza do que Sandre estava fazendo.

Surpreendentemente, Erlein corou. Parecia um tanto envergonhado.

— Quanto a isso, eu agradeço, mas não tenho nada comigo para completar sua mesa ou sua

fogueira.

— Você realmente esteve na estrada durante um bom tempo — soltou Sandre, falando

baixo. — Não ouço alguém nascido na Palma usar essa frase em anos. É uma tradição que se

perdeu, essa.

— Você tem uma harpa, não tem? — perguntou Catriana, no momento correto e com sua

voz mais doce. Ela olhou diretamente para Erlein por um instante e então voltou a baixar os

olhos recatadamente.

— Tenho, sim — disse o trovador, afirmando o óbvio. Ele devorava Catriana com o olhar.

— Então você está longe de trazer as mãos vazias — disse Alessan, resoluto. — Devin e

minha irmã cantam, como você ouviu, e eu consigo me virar com essa auta. Uma harpa

seria muito agradável após um jantar sob as estrelas.

— Não diga mais nada — respondeu Erlein. — Vocês serão uma companhia muito melhor

do que o som da minha boca contando histórias para as minhas orelhas ouvirem.

Alessan riu novamente.

— Há algumas árvores a oeste e um riacho atrás delas, se estou lembrando corretamente —

dizia o Duque. — Um bom lugar para acampar.

Antes que alguém pudesse falar algo, Erlein di Senzio pulara e instalara-se ao lado de

Catriana. Devin, com a boca escancarada, fechara-a rapidamente a um sinal discreto e

urgente de Sandre.

Catriana guiou para oeste, deixando a estrada e conduzindo-os em direção às árvores que o

Duque mencionara. Devin ouviu-a rir de algo que o trovador dissera.

Mas ele olhava para Sandre. E Baerd e Alessan também.

O Duque olhava para Erlein, cujas costas se voltavam para os quatro. Muito discretamente,

ele ergueu a mão esquerda, com o terceiro e quarto dedos cuidadosamente curvados. Olhou

sugestivamente para Alessan, e então de volta para o homem ao lado de Catriana.

Devin não compreendeu. Um juramento?, pensou ele, confuso. Sandre baixou sua mão,

mas seu olhar permanecia xo no Príncipe. Sua expressão era estranha, desa adora.

Subitamente, Alessan empalideceu.

E, naquele instante, Devin compreendeu.

— Ó, Adaon — suspirou Baerd, em tom crescente, enquanto Devin pulava para a carroça e

sentava ao seu lado. — Eu não acredito nisso!

Continuar: parte 3 de 3