Trabalhe 4 Horas por Semana

Timothy Ferriss · Capítulo 3 de 26

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Trabalhe 4 Horas por Semana

Minha história e por que você precisa deste livro

MINHA HISTÓRIA

E POR QUE VOCÊ PRECISA DESTE

LIVRO

 

“Toda vez que você se encontrar do lado da maioria,

é hora de parar e refletir.”

MARK TWAIN

 

“Alguém que vive dentro de suas possibilidades

sofre de falta de imaginação.”

OSCAR WILDE, dramaturgo e escritor irlandês

 

Minhas mãos suavam novamente.

Olhando para o chão para evitar ser ofuscado pelas

fortes luzes no teto, eu supostamente era um dos

melhores do mundo, mas a ficha simplesmente não

tinha caído. Minha parceira Alicia mexia os pés

inquieta, enquanto ficávamos em fila com os outros

nove casais, todos escolhidos dentre mais de mil

competidores de 29 países e quatro continentes. Era o

último dia das semifinais do Campeonato Mundial de

Tango, e essa era nossa última apresentação diante dos

juízes, das câmeras de televisão e da plateia barulhenta.

Os outros casais estavam, em média, há 15 anos juntos. Para nós, era o ápice de cinco meses de treinos diários

de seis horas seguidas, e finalmente era a hora do show.

“Como você está se sentindo?”, perguntou-me

Alicia, uma experiente dançarina profissional, em seu

distinto castelhano com sotaque argentino.

“Fantástico. Maravilhoso. Vamos apenas curtir a

música. Esqueça a plateia – eles nem mesmo estão

aqui.”

Isso não era totalmente verdade. Era difícil

acomodar as 50 mil pessoas, entre espectadores e

coordenadores, mesmo no El Rural, o maior centro de

convenções em Buenos Aires. Através da grossa cortina

de fumaça de cigarros, era praticamente impossível

distinguir a enorme multidão nas arquibancadas; por

todos os lados, o chão estava sem cobertura, exceto no

espaço sagrado de 30 x 40 no meio de tudo. Ajeitei meu

casaco risca de giz e fiquei mexendo no meu lenço azul

de seda até que ficou óbvio que eu estava apenas

inquieto.

“Você está nervoso?”

“Não estou nervoso, estou empolgado. Vou apenas

me divertir e deixar as coisas acontecer.”

“Número 152, é sua vez.” Nosso supervisor tinha

feito seu trabalho e agora era a nossa vez. Sussurrei uma piada interna para Alicia enquanto entrávamos no

tablado de madeira: “Tranquilo” – relaxe. Ela sorriu e,

bem nesse momento, pensei comigo mesmo: “O que

será que eu estaria fazendo agora se não tivesse

largado meu emprego e saído dos Estados Unidos há

mais de um ano?”.

Esse pensamento desapareceu tão rápido quanto

surgiu, quando o locutor falou ao microfone e a plateia

incendiou-se: “Pareja número 152, Timothy Ferris y Alicia

Monti, Ciudad de Buenos Aires!!!”.

Era a nossa vez, e eu estava radiante.

 

AFORTUNADAMENTE, HOJE EM DIA, a mais fundamental das

questões americanas me é muito difícil de responder.

Se não fosse, você não teria este livro nas mãos.

“Então, o que você faz?”

Presumindo que você consiga me encontrar (o que é

bem difícil), e dependendo de quando você me

pergunte (eu preferiria que não perguntasse), eu

poderia estar andando de moto na Europa,

mergulhando em uma ilha particular no Panamá,

descansando sob uma palmeira depois de uma sessão

de kick boxing na Tailândia ou dançando tango em Buenos Aires. A graça é que não sou um

multimilionário, e tampouco quero ser.

Nunca gostei de responder a essa pergunta de

coquetel porque ela reflete uma epidemia da qual eu fiz

parte por muito tempo: a descrição do seu emprego ser

a descrição de você mesmo. Se alguém me perguntar

isso agora e não for absolutamente sincero, eu explico

meu estilo de vida misterioso de forma muito simples.

“Sou distribuidor de drogas.”

Quase sempre, a conversa acaba aí. É apenas meia

verdade, apesar disso. A verdade completa levaria

tempo demais. Como eu poderia explicar que o que faço

com o meu tempo e o que faço para ganhar dinheiro

são coisas completamente diferentes? Que trabalho

menos de quatro horas por semana e ganho mais

dinheiro por mês do que costumava ganhar em um

ano?

Pela primeira vez, vou contar a história real. Ela

envolve uma discreta subcultura, a das pessoas

chamadas de “Novos Ricos”.

O que faz um milionário que mora em um iglu que

um morador de uma quitinete não faz? Segue uma série

incomum de regras.

Como faz um funcionário de carreira de uma grande

empresa de ponta para fugir e viajar o mundo por um

mês sem que seu chefe sequer perceba? Ele usa a

tecnologia para ocultar o fato.

O ouro está ficando velho. Os Novos Ricos (NR) são

aqueles que abandonam os planos de uma vida adiada e

criam estilos de vida luxuosos no presente, usando a

moeda dos Novos Ricos: tempo e mobilidade. Isso é

uma arte e uma ciência a que nos referiremos daqui em

diante como Projeto de Vida (PV).

Passei os últimos três anos viajando com pessoas

que vivem em mundos normalmente além da sua

imaginação. Em vez de odiar a realidade, vou lhe

mostrar como moldá-la à sua vontade. É mais fácil do

que parece. A minha jornada de funcionário de

escritório, mal pago e atolado de trabalho, a membro

dos NR é, a princípio, mais estranha do que a ficção e –

agora que já decifrei o código – fácil de reproduzir. Há

uma receita.

A vida não tem que ser tão difícil. Não tem mesmo.

A maior parte das pessoas, inclusive eu mesmo no

passado, passa muito tempo convencendo a si mesmas

de que a vida tem que ser difícil, resignando-se ao

trabalho diário das 9 às 5, em troca de (algumas vezes) passar um fim de semana relaxante e férias ocasionais,

“poucos dias ou será demitido”.

A verdade, pelo menos a verdade segundo a qual eu

vivo e que compartilharei neste livro, é bem diferente.

Da alavancagem de diferenças cambiais à terceirização

da sua vida e a desaparecer, vou mostrar-lhe como um

pequeno grupo de pessoas usa alguns truques

econômicos para fazer o que a maior parte das pessoas

considera impossível.

Se você pegou este livro, o mais provável é que não

queira ficar sentado atrás de uma mesa até os 62 anos

de idade. Mesmo que seu sonho seja sair do círculo

vicioso do trabalho, fazer viagens incríveis pelo mundo,

vaguear por longos períodos, bater recordes mundiais

ou simplesmente mudar drasticamente sua carreira,

este livro vai lhe dar todas as ferramentas de que você

precisa para conseguir aqui e agora, em vez de fazê-lo

na frequentemente ilusória “aposentadoria”. Há uma

maneira de se conseguir as recompensas de uma vida

de trabalho duro sem ter que esperar até o final dela.

Como? Começa com um simples detalhe de que a

maior parte das pessoas se esquece – um de que eu me

esqueci por 25 anos.

As pessoas não querem ser milionárias – querem

usufruir do que acreditam que apenas milionários

podem comprar. Chalés nas montanhas, mordomos e

viagens exóticas frequentemente estão em questão. Que

tal passar óleo de coco em sua barriga, deitado em uma

rede, enquanto ouve as ondas bater ritmadamente

contra o deque do seu bangalô com teto de sapê? Parece

bom.

Um milhão de dólares no banco não é a fantasia. A

fantasia é a vida de liberdade total que ele

supostamente garante. A questão, então, é como alguém

pode viver como um milionário, com liberdade total, sem

primeiro ter 1 milhão de dólares?

Nos últimos cinco anos, respondi a essa pergunta

para mim e este livro vai respondê-la para você.

Mostrarei exatamente como separei renda de tempo e

criei meu estilo ideal de vida nesse processo, viajando

pelo mundo e aproveitando o melhor que este planeta

tem a oferecer. De que forma passei de jornadas diárias

de 14 horas e salário de 40 mil dólares por ano para

jornadas semanais de 4 horas e 40 mil dólares por

mês?

Ajuda saber onde isso tudo começou. Muito

estranhamente, foi numa turma de estudantes que muito em breve seriam analistas de investimentos.

Em 2002, fui convidado por Ed Zschau, um grande

orientador e meu antigo professor de

empreendedorismo em alta tecnologia na Universidade

Princeton, para voltar e falar para seus alunos sobre

minhas aventuras empresariais no mundo real. Fiquei

chocado. Multimilionários já haviam falado para os

mesmos alunos, e mesmo que eu tivesse criado uma

empresa altamente lucrativa de suplementos

alimentares esportivos, eu tinha dançado em outro

ritmo.

Nos dias seguintes, no entanto, percebi que todo

mundo parecia estar discutindo sobre como criar

empresas grandes e bem-sucedidas, vendê-las e curtir

a vida boa. Uma bela ideia. A pergunta que ninguém

parecia preocupado em responder era: por que fazer

isso tudo em primeiro lugar? Qual é a grande vantagem

que justifica passar os melhores anos de sua vida

esperando ser feliz ao final dela?

As palestras que eu desenvolvi ultimamente,

chamadas “Distribuição de drogas por prazer e lucro”,

começavam com uma premissa simples: testar os

dogmas mais básicos da equação vidatrabalho.

Suas decisões se alterariam se a aposentadoria não

fosse uma opção?

Que tal se você pudesse ter uma miniaposentadoria

para experimentar o seu plano de vida adiada antes

de trabalhar 40 anos em favor dele?

É realmente necessário trabalhar como um escravo

para viver como um milionário?

 

Eu mal sabia onde essas questões me levariam.

A conclusão inusitada? As regras do senso comum

do “mundo real” são uma coleção frágil de ilusões

reiteradas. Este livro vai ensiná-lo a enxergar e fazer

escolhas que outras pessoas não conseguem. O que

torna este livro diferente?

Em primeiro lugar, não vou gastar muito tempo no

problema. Vou assumir que você sofre de falta de

tempo, de terror apavorante, ou – o pior de tudo – uma

confortável e tolerável existência fazendo algo que não

o satisfaz. Este último caso é o mais comum e o mais

insidioso.

Em segundo lugar, este livro não é sobre como

economizar e também não irá recomendar que você

abandone seu cálice diário de vinho tinto para ter um

milhão de dólares daqui a 50 anos. Eu ficaria com o vinho. Não sugerirei que você escolha entre o prazer

hoje e dinheiro no futuro – acredito que você possa ter

ambos agora. O objetivo é diversão e lucro.

Em terceiro lugar, este livro não é sobre encontrar o

seu “emprego dos sonhos”. Assumirei como certo que,

para a maioria das pessoas, algo entre 6 e 7 bilhões

delas, o emprego perfeito é aquele que toma menos

tempo. A ampla maioria das pessoas nunca vai

encontrar um emprego que possa ser uma inesgotável

fonte de satisfação, de modo que esse não é o objetivo

aqui; arrumar tempo livre e automatizar a renda são.

Eu começo cada aula com uma explicação da

importância única de ser um “negociador”. O

manifesto do negociador é simples: a realidade é

negociável. Fora da ciência e do direito, todas as regras

podem ser dobradas ou quebradas, e fazê-lo não exige

que sejamos antiéticos.

A arte de negociar (DEAL, em inglês) também é um

acrônimo do processo de se tornar um membro dos

Novos Ricos.

Estes passos e estratégias podem ser utilizados com

resultados incríveis – seja você um funcionário ou um

empreendedor. Tendo um patrão, você poderá fazer

tudo o que eu fiz? Não. Você poderá usar os mesmos princípios para duplicar seus rendimentos, cortar pela

metade suas horas de trabalho, ou pelo menos dobrar

seu tempo normal de férias? Certamente.

Aqui está, passo a passo, o processo que você usará

para se reinventar:

 

D de Definição vira ao avesso o equivocado senso comum e introduz

as regras e os objetivos do novo jogo. Substitui as certezas de autoderrota e explica conceitos relativos como riqueza e

eustresse.[2] Quem são os NR e como eles funcionam? Essa seção explica de modo geral a receita do Projeto de Vida – os fundamentos – antes de adicionarmos os três ingredientes.

E de Eliminação liquida a noção obsoleta de gerenciamento do

tempo de uma vez por todas. Mostra exatamente como eu usei as palavras de um economista italiano praticamente esquecido para transformar uma jornada de doze horas em jornadas de duas horas... em 48 horas. Aumente seus resultados por hora mais de dez vezes com técnicas contra-intuitivas dos NR de cultivo de ignorância seletiva, de dieta pobre em informação e de outras formas de ignorar o que não é importante. Essa seção fornece o primeiro dos três ingredientes do Projeto de Vida: tempo.

A de Automação coloca o fluxo financeiro no piloto automático

usando arbitragem geográfica, terceirização e regras de não decisão. Das classificações tributárias às rotinas dos NR mais bem-sucedidos, está tudo aqui. Essa seção fornece o segundo ingrediente de um Projeto de Vida luxurioso: renda.

L de Liberação é o manifesto de mobilidade das pessoas inclinadas

à globalidade. É apresentado o conceito de miniaposentadorias, assim como os meios para o controle remoto e infalível de funções e para escapar de seu patrão. Liberação não é sobre viagens econômicas; é sobre romper para sempre os laços que o prendem a um único lugar. Essa seção traz o terceiro e último ingrediente do Projeto de Vida: mobilidade.

 

Devo notar que a maior parte dos patrões não ficará

muito contente se você passar uma hora por dia no escritório, e que quem possui um emprego formal deve

portanto ler os passos da mentalidade empreendedora

na ordem DEAL, mas implementá-los como DELA. Se

você decidir permanecer em seu emprego atual, será

necessário criar liberdade geográfica antes de cortar

em 80% sua jornada de trabalho. Mesmo se você nunca

tiver considerado tornar-se um empreendedor, no

sentido moderno da palavra, o processo do DEAL vai

torná-lo um, no sentido puro da palavra, tal qual

cunhado pelo economista francês J. B. Say, em 1800 –

alguém que transfere recursos de uma área de

rendimento menor para uma de rendimento maior.[3]

Por último, mas não menos importante, muito do

que recomendo aqui parecerá impossível, e até mesmo

ofensivo ao senso comum básico – eu prevejo isso.

Decida agora testar esses conceitos como um exercício

de raciocínio lateral. Se você tentar, verá o quão mais

embaixo é o buraco, e você jamais voltará.

Respire fundo e deixe-me mostrar a você o meu

mundo. E lembre-se – tranquilo. É hora de se divertir e

deixar que o resto venha.

 

Tim Ferriss

Tóquio, Japão

29 de setembro de 2006