Trabalhe 4 Horas por Semana

Timothy Ferriss · Capítulo 4 de 26

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Trabalhe 4 Horas por Semana

Cronologia de uma patologia

 

“Um perito é alguém que já cometeu todos os erros que se podem

cometer

em uma área bem restrita.”

NIELS BOHR, físico dinamarquês vencedor do Prêmio Nobel

 

“Normalmente ele era insano, mas tinha momentos lúcidos,

quando era meramente estúpido.”

HEINRICH HEINE, poeta e crítico alemão

 

Este livro vai ensinar a você os princípios exatos que

usei para me tornar o seguinte:

 

Tetracampeão mundial de vale-tudo.

Primeiro americano na história a conquistar um

recorde mundial de tango no Guinness.

Palestrante convidado de empreendedorismo na

Universidade Princeton.

Linguista aplicado em japonês, chinês, alemão e

espanhol.

Pesquisador de índices de glicemia.

Campeão nacional chinês de kick boxing.

Dançarino de break da MTV de Taiwan.

Conselheiro esportivo de mais de 30 atletas

recordistas mundiais.

Ator de séries televisivas de destaque na China e em

Hong-Kong.

Apresentador de TV na Tailândia e na China.

Pesquisador de refugiados políticos e ativista.

Mergulhador.

Piloto de motocicletas de corrida.

 

Como cheguei a esse ponto é um bocado menos

glamoroso:

 

1977 Nasci prematuro de 6 meses e com 10% de

chance de sobreviver. Apesar disso, sobrevivo e fico tão

gorducho que mal consigo dar uma cambalhota. Um

problema muscular nos olhos me faz olhar em direções

opostas, e minha mãe se refere a mim carinhosamente

como “atum”. Até aí, tudo bem.

1983 Quase sou reprovado no jardim de infância

porque me recuso a aprender o alfabeto. Minha

professora se recusa a me explicar por que eu deveria

aprendê-lo, optando, em vez disso, pelo: “Porque EU

sou a professora aqui”. Digo a ela que isso é uma

estupidez e peço para que ela me deixe em paz, para que eu possa ficar desenhando tubarões. No entanto,

ela me manda para o “cantinho do castigo” e esfrega

minha boca com sabão. Começa meu desprezo pela

autoridade.

1989 Meu primeiro emprego. Ah, as lembranças!

Sou contratado por um salário mínimo como faxineiro

de uma sorveteria e rapidamente concluo que o método

do patrão duplica o esforço necessário. Faço as coisas

do meu jeito, termino em uma hora em vez de oito, e

passo o resto do dia lendo revistas de kung fu e

praticando golpes de caratê. Sou demitido em um

recorde de três dias, ouvindo a seguinte frase na hora

da despedida: “Talvez algum dia você entenda o valor

do trabalho árduo”. Parece que eu ainda não entendi.

1993 Parto para um ano de intercâmbio no Japão,

onde as pessoas trabalham exaustivamente, até a

morte – um fenômeno chamado karooshi – e diz-se

dos japoneses que gostariam de ser xintoístas quando

nascem, cristãos quando se casam e budistas na hora

da morte. Entendo então que a maior parte das pessoas

é muito confusa sobre a vida. Uma noite, querendo

pedir à minha “mãe” no intercâmbio que me acordasse

na manhã seguinte (okosu), pedi a ela que me estuprasse violentamente (okasu). Ela ficou bem

confusa.

1996 Consigo entrar despercebido em Princeton, a

despeito das minhas notas no vestibular serem 40%

inferiores à média e do meu conselheiro de ingresso à

universidade que, durante o ensino médio, me dizia

para ser “realista”. Concluo que na verdade eu

simplesmente não sou bom. Faço especialização em

neurociência e então mudo para estudos do Leste

Asiático, para evitar ficar instalando tomadas em

cabeças de gatos.

1997 Hora de ficar milionário! Crio um audiobook

chamado Como eu venci a Ivy League, uso todas as

minhas economias de três verões trabalhando como

temporário para confeccionar quinhentas fitas, e

consigo vender exatamente nenhuma. Só deixo minha

mãe jogá-las fora em 2006, depois de nove anos de

recusa. Assim é a alegria da autoconfiança exagerada e

injustificada.

1998 Depois de quatro grandalhões espancarem

um amigo meu, peço demissão sumariamente do

emprego mais bem remunerado no campus e

desenvolvo um seminário de leitura dinâmica. Cubro o campus com centenas de medonhos cartazes verde-

néon que diziam “triplique sua velocidade de leitura

em três horas!” e estudantes típicos de Princeton

escrevem “baboseira” em cada um deles. Vendo 32

lugares a 50 dólares cada um para o evento de 3 horas,

e 533 dólares por hora me convencem de que pesquisar

o mercado antes de desenvolver um produto é mais

esperto do que o contrário. Dois meses depois, estou de

saco cheio de leitura dinâmica e encerro o negócio.

Detesto serviços, preciso de um produto para vender.

Outono de 1998 Uma grande disputa acadêmica e

o medo agudo de me tornar um operador de banco de

investimentos me levam a cometer suicídio

universitário e informar a secretaria de que eu estava,

até segunda ordem, abandonando a faculdade. Meu pai

está convencido de que nunca voltarei, e eu estou

convencido de que minha vida acabou. Minha mãe acha

que não há nada de mais nisso e que não há motivos

para dramalhão.

Primavera de 1999 Em três meses, eu aceito

empregos (e saio deles) de designer de conteúdos na

Berlitz, a maior editora de materiais em línguas não

inglesas do mundo, e de analista em uma microempresa de pesquisas sobre asilo político.

Naturalmente, depois disso eu vou para Taiwan e crio

do nada uma rede de academias de ginástica, logo

fechada pelas Tríades, a máfia chinesa. Volto para os

Estados Unidos derrotado, decido aprender kick boxing e

venço o campeonato nacional quatro semanas depois,

com o mais feio e menos ortodoxo estilo jamais visto.

Outono de 2000 Com minha autoconfiança

recuperada e minha tese mal começada, volto para

Princeton. Minha vida não acaba e tudo indica que esse

atraso de um ano só me ajudou. Meus colegas de 20 e

poucos anos têm habilidades tais quais as de David

Koresh. Um amigo meu vende sua empresa por 450

milhões de dólares, e eu decido partir para a ensolarada

Califórnia para ganhar os meus bilhões. A despeito do

mercado de trabalho mais aquecido da história da

humanidade, consigo ficar três meses desempregado,

depois de formado, quando tiro um coringa da manga e

começo a mandar para um CEO 32 e-mails

consecutivos. Ele finalmente cede e me contrata no

departamento de vendas.

Primavera de 2001 A TrueSAN Networks sai de

uma empresa qualquer de 15 funcionários para a “empresa privada de armazenamento de dados número

um” (como será que isso é medido?), com mais de 150

empregados (o que tanto eles fazem?). Sou admitido

por um diretor de vendas recém-contratado para

“começar pelo A” no catálogo telefônico e ligar em

busca de dólares. Pergunto-lhe, cheio de tato, por que

faríamos isso como retardados. Ele responde: “Porque

eu quero que seja assim”. Não é um bom começo.

Outono de 2001 Depois de um ano de jornadas

diárias de 12 horas de trabalho, descubro que sou a

segunda pessoa que ganha menos na empresa, depois

apenas da recepcionista. Recorro à tática de surfar

agressivamente na Internet o dia inteiro. Uma dessas

tardes, já sem nenhum vídeo obsceno para mandar

para as pessoas, resolvo investigar o quão difícil seria

começar uma empresa de suplementos alimentares.

Descubro que posso terceirizar tudo, da manufatura

das vitaminas à publicidade. Duas semanas e cinco mil

dólares (no cartão de crédito) depois, meu primeiro

lote está em produção e ponho no ar um website. Uma

coisa boa, considerando-se que sou demitido

exatamente uma semana depois.

2002-2003 A BrainQUICKEN LLC decola, e eu

estou ganhando mais de 40 mil dólares por mês em vez

de 40 mil por ano. O único problema é que agora eu

odeio a vida e trabalho mais de 12 horas por dia, 7 dias

por semana. Quase uma situação da qual eu não

consigo sair. Tiro uma semana de “férias” e vou com

minha família para Florença, na Itália, e fico 10 horas

por dia pirando num cibercafé. Merda. Começo a

ensinar estudantes de Princeton como criar empresas

“de sucesso” (quer dizer, lucrativas).

Inverno de 2004 O impossível acontece e sou

abordado por uma empresa de infomerciais e por um

conglomerado israelense (hã?) interessados em

comprar minha jovem BrainQUICKEN. Eu simplifico as

coisas, elimino várias delas, ainda por cima coloco tudo

em ordem para me tornar mais valioso.

Milagrosamente, a BQ não desmorona, mas as duas

propostas são canceladas. Estou de volta ao ponto zero.

Pouco tempo depois, as duas empresas tentam copiar

meu produto e perdem milhões de dólares.

Junho de 2004 Decido que, mesmo que minha

empresa imploda, preciso sair dessa vida antes que eu

vire o Howard Hughes. Viro tudo de cabeça para baixo e, de malas na mão, vou para o aeroporto JFK, em Nova

York, para comprar a primeira passagem só de ida para

a Europa que consigo encontrar. Aterriso em Londres e

pretendo ficar na Espanha por quatro semanas, para

recarregar minhas baterias antes de retornar às “minas

de sal”. Começo meu relaxamento tendo uma síncope

nervosa logo na primeira manhã.

Julho de 2004-2005 As quatro semanas viram

oito, e eu decido ficar na Europa indefinidamente,

como uma prova final de automação e experimentação

do meu modo de vida, limitando minhas consultas ao

e-mail a apenas uma hora, às segundas-feiras pela

manhã. Tão logo elimino o gargalo que sou eu, os

lucros aumentam 40%. O que mais nesta vida você faz

quando não tem mais que trabalhar como desculpa por

ser hiperativo e para evitar as grandes questões? Você

fica apavorado e se segura no assento com todas as

forças, aparentemente.

Setembro de 2006 Volto aos Estados Unidos,

estou me sentindo estranhamente zen depois de

destruir metodicamente todas as minhas certezas sobre

o que pode e o que não pode ser feito. “Distribuição de

drogas por prazer e lucro” evolui para uma palestra sobre o projeto ideal de vida. A nova mensagem é

simples: eu já vi a terra prometida, e aqui vai a boa

notícia. Vocês podem conquistá-la.