Trabalhe 4 Horas por Semana
Cronologia de uma patologia
“Um perito é alguém que já cometeu todos os erros que se podem
cometer
em uma área bem restrita.”
NIELS BOHR, físico dinamarquês vencedor do Prêmio Nobel
“Normalmente ele era insano, mas tinha momentos lúcidos,
quando era meramente estúpido.”
HEINRICH HEINE, poeta e crítico alemão
Este livro vai ensinar a você os princípios exatos que
usei para me tornar o seguinte:
Tetracampeão mundial de vale-tudo.
Primeiro americano na história a conquistar um
recorde mundial de tango no Guinness.
Palestrante convidado de empreendedorismo na
Universidade Princeton.
Linguista aplicado em japonês, chinês, alemão e
espanhol.
Pesquisador de índices de glicemia.
Campeão nacional chinês de kick boxing.
Dançarino de break da MTV de Taiwan.
Conselheiro esportivo de mais de 30 atletas
recordistas mundiais.
Ator de séries televisivas de destaque na China e em
Hong-Kong.
Apresentador de TV na Tailândia e na China.
Pesquisador de refugiados políticos e ativista.
Mergulhador.
Piloto de motocicletas de corrida.
Como cheguei a esse ponto é um bocado menos
glamoroso:
1977 Nasci prematuro de 6 meses e com 10% de
chance de sobreviver. Apesar disso, sobrevivo e fico tão
gorducho que mal consigo dar uma cambalhota. Um
problema muscular nos olhos me faz olhar em direções
opostas, e minha mãe se refere a mim carinhosamente
como “atum”. Até aí, tudo bem.
1983 Quase sou reprovado no jardim de infância
porque me recuso a aprender o alfabeto. Minha
professora se recusa a me explicar por que eu deveria
aprendê-lo, optando, em vez disso, pelo: “Porque EU
sou a professora aqui”. Digo a ela que isso é uma
estupidez e peço para que ela me deixe em paz, para que eu possa ficar desenhando tubarões. No entanto,
ela me manda para o “cantinho do castigo” e esfrega
minha boca com sabão. Começa meu desprezo pela
autoridade.
1989 Meu primeiro emprego. Ah, as lembranças!
Sou contratado por um salário mínimo como faxineiro
de uma sorveteria e rapidamente concluo que o método
do patrão duplica o esforço necessário. Faço as coisas
do meu jeito, termino em uma hora em vez de oito, e
passo o resto do dia lendo revistas de kung fu e
praticando golpes de caratê. Sou demitido em um
recorde de três dias, ouvindo a seguinte frase na hora
da despedida: “Talvez algum dia você entenda o valor
do trabalho árduo”. Parece que eu ainda não entendi.
1993 Parto para um ano de intercâmbio no Japão,
onde as pessoas trabalham exaustivamente, até a
morte – um fenômeno chamado karooshi – e diz-se
dos japoneses que gostariam de ser xintoístas quando
nascem, cristãos quando se casam e budistas na hora
da morte. Entendo então que a maior parte das pessoas
é muito confusa sobre a vida. Uma noite, querendo
pedir à minha “mãe” no intercâmbio que me acordasse
na manhã seguinte (okosu), pedi a ela que me estuprasse violentamente (okasu). Ela ficou bem
confusa.
1996 Consigo entrar despercebido em Princeton, a
despeito das minhas notas no vestibular serem 40%
inferiores à média e do meu conselheiro de ingresso à
universidade que, durante o ensino médio, me dizia
para ser “realista”. Concluo que na verdade eu
simplesmente não sou bom. Faço especialização em
neurociência e então mudo para estudos do Leste
Asiático, para evitar ficar instalando tomadas em
cabeças de gatos.
1997 Hora de ficar milionário! Crio um audiobook
chamado Como eu venci a Ivy League, uso todas as
minhas economias de três verões trabalhando como
temporário para confeccionar quinhentas fitas, e
consigo vender exatamente nenhuma. Só deixo minha
mãe jogá-las fora em 2006, depois de nove anos de
recusa. Assim é a alegria da autoconfiança exagerada e
injustificada.
1998 Depois de quatro grandalhões espancarem
um amigo meu, peço demissão sumariamente do
emprego mais bem remunerado no campus e
desenvolvo um seminário de leitura dinâmica. Cubro o campus com centenas de medonhos cartazes verde-
néon que diziam “triplique sua velocidade de leitura
em três horas!” e estudantes típicos de Princeton
escrevem “baboseira” em cada um deles. Vendo 32
lugares a 50 dólares cada um para o evento de 3 horas,
e 533 dólares por hora me convencem de que pesquisar
o mercado antes de desenvolver um produto é mais
esperto do que o contrário. Dois meses depois, estou de
saco cheio de leitura dinâmica e encerro o negócio.
Detesto serviços, preciso de um produto para vender.
Outono de 1998 Uma grande disputa acadêmica e
o medo agudo de me tornar um operador de banco de
investimentos me levam a cometer suicídio
universitário e informar a secretaria de que eu estava,
até segunda ordem, abandonando a faculdade. Meu pai
está convencido de que nunca voltarei, e eu estou
convencido de que minha vida acabou. Minha mãe acha
que não há nada de mais nisso e que não há motivos
para dramalhão.
Primavera de 1999 Em três meses, eu aceito
empregos (e saio deles) de designer de conteúdos na
Berlitz, a maior editora de materiais em línguas não
inglesas do mundo, e de analista em uma microempresa de pesquisas sobre asilo político.
Naturalmente, depois disso eu vou para Taiwan e crio
do nada uma rede de academias de ginástica, logo
fechada pelas Tríades, a máfia chinesa. Volto para os
Estados Unidos derrotado, decido aprender kick boxing e
venço o campeonato nacional quatro semanas depois,
com o mais feio e menos ortodoxo estilo jamais visto.
Outono de 2000 Com minha autoconfiança
recuperada e minha tese mal começada, volto para
Princeton. Minha vida não acaba e tudo indica que esse
atraso de um ano só me ajudou. Meus colegas de 20 e
poucos anos têm habilidades tais quais as de David
Koresh. Um amigo meu vende sua empresa por 450
milhões de dólares, e eu decido partir para a ensolarada
Califórnia para ganhar os meus bilhões. A despeito do
mercado de trabalho mais aquecido da história da
humanidade, consigo ficar três meses desempregado,
depois de formado, quando tiro um coringa da manga e
começo a mandar para um CEO 32 e-mails
consecutivos. Ele finalmente cede e me contrata no
departamento de vendas.
Primavera de 2001 A TrueSAN Networks sai de
uma empresa qualquer de 15 funcionários para a “empresa privada de armazenamento de dados número
um” (como será que isso é medido?), com mais de 150
empregados (o que tanto eles fazem?). Sou admitido
por um diretor de vendas recém-contratado para
“começar pelo A” no catálogo telefônico e ligar em
busca de dólares. Pergunto-lhe, cheio de tato, por que
faríamos isso como retardados. Ele responde: “Porque
eu quero que seja assim”. Não é um bom começo.
Outono de 2001 Depois de um ano de jornadas
diárias de 12 horas de trabalho, descubro que sou a
segunda pessoa que ganha menos na empresa, depois
apenas da recepcionista. Recorro à tática de surfar
agressivamente na Internet o dia inteiro. Uma dessas
tardes, já sem nenhum vídeo obsceno para mandar
para as pessoas, resolvo investigar o quão difícil seria
começar uma empresa de suplementos alimentares.
Descubro que posso terceirizar tudo, da manufatura
das vitaminas à publicidade. Duas semanas e cinco mil
dólares (no cartão de crédito) depois, meu primeiro
lote está em produção e ponho no ar um website. Uma
coisa boa, considerando-se que sou demitido
exatamente uma semana depois.
2002-2003 A BrainQUICKEN LLC decola, e eu
estou ganhando mais de 40 mil dólares por mês em vez
de 40 mil por ano. O único problema é que agora eu
odeio a vida e trabalho mais de 12 horas por dia, 7 dias
por semana. Quase uma situação da qual eu não
consigo sair. Tiro uma semana de “férias” e vou com
minha família para Florença, na Itália, e fico 10 horas
por dia pirando num cibercafé. Merda. Começo a
ensinar estudantes de Princeton como criar empresas
“de sucesso” (quer dizer, lucrativas).
Inverno de 2004 O impossível acontece e sou
abordado por uma empresa de infomerciais e por um
conglomerado israelense (hã?) interessados em
comprar minha jovem BrainQUICKEN. Eu simplifico as
coisas, elimino várias delas, ainda por cima coloco tudo
em ordem para me tornar mais valioso.
Milagrosamente, a BQ não desmorona, mas as duas
propostas são canceladas. Estou de volta ao ponto zero.
Pouco tempo depois, as duas empresas tentam copiar
meu produto e perdem milhões de dólares.
Junho de 2004 Decido que, mesmo que minha
empresa imploda, preciso sair dessa vida antes que eu
vire o Howard Hughes. Viro tudo de cabeça para baixo e, de malas na mão, vou para o aeroporto JFK, em Nova
York, para comprar a primeira passagem só de ida para
a Europa que consigo encontrar. Aterriso em Londres e
pretendo ficar na Espanha por quatro semanas, para
recarregar minhas baterias antes de retornar às “minas
de sal”. Começo meu relaxamento tendo uma síncope
nervosa logo na primeira manhã.
Julho de 2004-2005 As quatro semanas viram
oito, e eu decido ficar na Europa indefinidamente,
como uma prova final de automação e experimentação
do meu modo de vida, limitando minhas consultas ao
e-mail a apenas uma hora, às segundas-feiras pela
manhã. Tão logo elimino o gargalo que sou eu, os
lucros aumentam 40%. O que mais nesta vida você faz
quando não tem mais que trabalhar como desculpa por
ser hiperativo e para evitar as grandes questões? Você
fica apavorado e se segura no assento com todas as
forças, aparentemente.
Setembro de 2006 Volto aos Estados Unidos,
estou me sentindo estranhamente zen depois de
destruir metodicamente todas as minhas certezas sobre
o que pode e o que não pode ser feito. “Distribuição de
drogas por prazer e lucro” evolui para uma palestra sobre o projeto ideal de vida. A nova mensagem é
simples: eu já vi a terra prometida, e aqui vai a boa
notícia. Vocês podem conquistá-la.