Uma Vida Pequena

Hanya Yanagihara · Capítulo 4 de 19 · parte 4/4

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Uma Vida Pequena

II. O Pós-Homem

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

– Ótimo – rebatera, e fora embora.

Não conseguia se lembrar da última vez que se sentira tão zangado com algo que envolvia a si próprio. Um monte de coisas o enfureciam – injustiças em geral, incompetência, diretores que não davam a Willem o papel que ele queria –, mas raramente se aborrecia com as coisas que aconteciam ou tinham acontecido com ele: suas dores, tanto do passado como do presente, eram coisas que ele tentava não remoer, não eram questões que o faziam passar dias procurando por um significado. Já sabia por que tinham acontecido: tinham acontecido porque ele as merecera.

Sabia também que sua raiva era injustificada. E por mais que ressentisse sua dependência de Andy, ao mesmo tempo lhe era grato e sabia que Andy achava seu comportamento ilógico. Mas o trabalho de Andy era curar as pessoas: Andy o via do jeito que ele via uma lei tributária mal-interpretada, como algo que deveria ser solucionado e reparado –se ele achava que podia ser reparado ou não era algo quase secundário. A coisa que ele estava tentando reparar – as cicatrizes que marcavam suas costas, formando uma topografia terrível e anormal, a pele esticada, lustrosa e retesada feito a de um pato assado: o motivo por que vinha economizando dinheiro – não era, como bem sabia, algo que Andy aprovaria.

– Jude – diria Andy se soubesse o que ele planejava –, posso lhe garantir que não vai funcionar, e você terá desperdiçado todo esse dinheiro. Não faça isso.

– Mas elas são horrorosas – balbuciaria.

– Não são, Jude – diria Andy. – Juro por deus que não são.

(Mas não contaria a Andy mesmo, então nunca precisaria ter aquela conversa em particular.)

Os dias se passaram e ele não procurou Andy, nem Andy o procurou. Como que por castigo, seu pulso começou a latejar à noite enquanto tentava dormir e, no trabalho, ele esquecia e o batia ritmicamente contra a lateral da mesa enquanto lia, um tique nervoso que tinha há muito tempo e não conseguia controlar. O sangue vazara pelos pontos e ele tivera de limpá-los, desajeitadamente, na pia do banheiro.

– Qual o problema? – perguntou Willem certa noite.

– Nada – respondeu. Poderia ter contado a Willem, é claro, que teria ouvido e dito “Humm”, bem ao seu estilo, mas ele sabia que o amigo concordaria com Andy.

Uma semana depois da briga, ele voltou para casa em Lispenard Street – era domingo, e ele estivera caminhando pelo oeste de Chelsea – e encontrou Andy esperando nos degraus diante da porta do prédio.

Ficou surpreso em vê-lo.

– Oi – falou.

– Oi – respondeu Andy. Os dois ficaram parados. – Não sabia se atenderia meu telefonema.

– Claro que atenderia.

– Ouça – disse Andy. – Desculpe.

– Também gostaria de me desculpar. Perdão, Andy.

– Mas continuo achando que deveria se consultar com alguém.

– Sei disso.

E, de alguma forma, os dois conseguiram encerrar o assunto daquele jeito: um cessar-fogo frágil e mutuamente insatisfatório, com a questão do terapeuta formando uma vasta zona cinza e desmilitarizada entre eles. O acordo (embora como tal pacto tenha se formado agora lhe era incerto) era que, ao fim de cada consulta, ele teria de mostrar os braços a Andy, que os examinaria em busca de novos cortes. Sempre que encontrasse um, anotaria numa tabela. Jude nunca sabia ao certo o que podia provocar outra explosão de Andy: às vezes havia uma série de cortes novos e Andy apenas grunhia e fazia suas anotações, e às vezes havia apenas um ou outro corte novo e Andy ficava agitado mesmo assim.

– Você destruiu a porra do seu braço. Sabe disso, não sabe? – costumava perguntar.

Mas ele ficava em silêncio e deixava o sermão de Andy acertá-lo em cheio. Parte dele entendia que, ao impedir Andy de fazer seu trabalho – que, no fim das contas, era curá-lo –, estava sendo desrespeitoso, e até certo ponto transformava Andy numa piada em seu próprio consultório. A tabela de Andy – às vezes tinha vontade de perguntar se receberia um prêmio ao atingir determinada marca, mas sabia que aquilo o deixaria irritado – era um modo para ele ao menos fingir que tinha o controle da situação, mesmo que não tivesse: o acúmulo de dados compensava um pouco a falta de tratamento real.

E então, dois anos mais tarde, outra ferida se abriu em sua perna esquerda, que sempre fora a mais problemática, e os cortes foram deixados de lado para que Andy se concentrasse no problema mais urgente da perna. A primeira dessas feridas aparecera um ano depois do episódio com o carro, mas logo cicatrizara.

– Não será a última – dissera o cirurgião da Filadélfia. – Depois dos danos que sofreu, tudo, incluindo o sistema vascular e a pele, ficou comprometido de tal forma que é de se esperar que feridas como esta apareçam de vez em quando.

Aquela fora a décima primeira e, embora estivesse preparado para a sensação que causava, nunca descobriria a causa (Uma picada de inseto? Um esbarrão contra a quina do arquivo de metal? Era sempre algo tão irritantemente minúsculo, mas ainda assim capaz de rasgar sua pele como se fosse feita de papel) e nunca deixaria de ficar enojado com tudo aquilo: a supuração, o cheiro de peixe podre, o corte pequeno e profundo, como a boca de um feto, do qual borbulhavam fluidos viscosos e não identificáveis. Não era natural, mas sim algo que parecia ter saído de livros e filmes sobre monstros, ter de andar por aí com uma abertura que não fechava, e não podia ser fechada. Começou a visitar o consultório de Andy toda sexta-feira, para que ele pudesse limpar a ferida, removendo a pele morta e examinando a área ao redor, procurando sinais de crescimento de pele nova, enquanto ele segurava a respiração e se agarrava à maca, tentando não urrar.

– Precisa me dizer quando dói, Jude – dissera Andy, enquanto ele respirava, suava e contava mentalmente. – É bom que consiga sentir algo, não é uma coisa ruim. Significa que os nervos ainda estão vivos e ainda exercem sua função.

– Está doendo – conseguiu esbaforir.

– Numa escala de um a dez?

– Sete. Oito.

– Lamento – respondeu Andy. – Está quase no fim, prometo. Só mais cinco minutos.

Ele fechou os olhos e contou até trezentos, forçando-se a ir devagar.

Quando acabava, ele se sentava e Andy sentava com ele e lhe oferecia algo para beber: um refrigerante, algo com açúcar, e Jude sentia o consultório retomar forma ao seu redor, de pouquinho em pouquinho.

– Devagar – dizia Andy – ou vai passar mal.

Depois observava Andy cobrir a ferida – o médico chegava ao auge de sua calma quando dava pontos, costurava ou enrolava as bandagens – e naqueles momentos se sentia tão vulnerável e fraco que poderia concordar com qualquer coisa que Andy sugerisse.

– Não vai fazer cortes nas pernas – dizia Andy, mais uma afirmação que uma pergunta.

– Não, não vou.

– Até porque isso seria uma loucura, mesmo para você.

– Sei disso.

– Seu corpo está tão deteriorado que isso causaria uma senhora infecção.

– Andy, eu sei.

Em diversas ocasiões, desconfiava que Andy conversava com seus amigos às suas costas, e eles às vezes usavam termos e expressões típicos de Andy, e até mesmo quatro anos depois do “Incidente”, como Andy passara a chamar o episódio, desconfiava que Willem revirava o lixo do banheiro pela manhã, o que o levava a tomar um cuidado adicional ao se desfazer de suas lâminas, enrolando-as com tecido e fita isolante para jogá-las em alguma lixeira a caminho do trabalho. “Sua turma”, era como Andy os chamava.

– O que você e sua turma têm feito ultimamente? – (Quando estava de bom humor.) E: – Vou falar para a porra da sua turma ficar de olho em você – (Quando não estava.)

– Nem pense em fazer isso, Andy – dizia. – E de qualquer forma, não é responsabilidade deles.

– Mas é claro que é – rebatia Andy. Assim como em outras questões, também discordavam naquele ponto.

Mas agora fazia vinte meses desde que sua ferida mais recente aparecera, e até então não havia fechado. Ou melhor, fechara, mas voltara a abrir, depois fechara novamente, até que acordara na sexta-feira e sentira algo úmido e gomoso na perna – na parte inferior da panturrilha, logo acima do tornozelo – e sabia que a ferida se abrira mais uma vez. Ainda não havia ligado para Andy – faria isso na segunda –, mas fora importante para ele dar aquela caminhada, que temia ser a última por um bom tempo, talvez meses.

Estava agora na Madison com a 57, bem perto do consultório de Andy, e sua perna doía tanto que ele seguiu até a Quinta Avenida e sentou num dos bancos próximo ao muro que cercava o parque. Assim que sentou, foi tomado por aquela vertigem familiar, pela náusea que lhe embrulhava o estômago, e se curvou para esperar até o cimento se tornar cimento outra vez e ele conseguir manter-se de pé. Sentiu naqueles minutos a traição de seu corpo e como às vezes o desafio central e tedioso de sua vida era sua relutância em aceitar que continuaria sendo traído uma vez após a outra, que não podia esperar nada dele e, ao mesmo tempo, precisava continuar a tratá-lo. Tanto tempo, dele e de Andy, era gasto na tentativa de reparar algo irreparável, algo que deveria ter acabado em pedaços carbonizados num lixão industrial anos atrás. E por causa de quê? De sua mente, presumia. Mas havia – como poderia ter dito Andy – algo inacreditavelmente arrogante naquilo, como se estivesse cuidando de um calhambeque por causa do sistema de som.

Se eu andar só mais alguns quarteirões, consigo chegar ao consultório dele, pensou, mas nunca faria aquilo. Era domingo. Andy merecia um descanso e, além disso, o que sentia naquele momento não era algo novo, que nunca sentira antes.

Esperou mais alguns minutos e então se colocou de pé, equilibrando-se por meio minuto até desabar novamente no banco. Finalmente conseguiu ficar de pé para valer. Ainda não estava pronto, mas podia se imaginar caminhando até o meio-fio, erguendo o braço para chamar um táxi e descansando a cabeça na parte superior do banco revestido de vinil preto. Contaria os passos para chegar até lá, assim como contaria os passos que precisaria dar entre o táxi e seu edifício, do elevador ao apartamento, e da porta da frente até seu quarto. Quando aprendera a andar pela terceira vez – depois que suas órteses ortopédicas foram removidas – fora Andy quem instruíra a fisioterapeuta (que não gostara muito daquilo, mas aceitara suas sugestões) e também quem, como fizera Ana quatro anos antes, o observara dar seus primeiros passos sem apoio num espaço de três metros, depois seis, depois quinze, e depois trinta. Seu próprio passo – com a perna esquerda subindo até fazer um ângulo de quase noventa graus com o chão, formando um retângulo de espaço negativo, e a direita se inclinando logo atrás – fora arquitetado por Andy, que o fizera praticar durante horas até que pudesse repeti-lo sozinho. Fora Andy quem lhe dissera que achava que ele seria capaz de caminhar sem bengala e, quando finalmente conseguira, fora graças a Andy.

Não faltavam muitas horas para segunda-feira, disse a si mesmo enquanto fazia um esforço para se manter em pé, e Andy o atenderia como sempre fazia, independentemente do quanto estivesse ocupado.

– Quando percebeu a abertura? – perguntaria Andy, cutucando sua perna de leve com um pedaço de gaze.

– Na sexta – responderia.

– E por que não me ligou antes, Jude? – insistiria Andy, irritado. – De qualquer forma, espero que não tenha saído para fazer sua estúpida caminhada de merda.

– Não, mas é claro que não – diria, mas Andy não acreditaria nele.

Às vezes se perguntava se Andy o via apenas como uma coleção de vírus e defeitos: sem aquilo, quem era ele? Se Andy não precisasse cuidar de Jude, ainda assim teria algum interesse nele? Se um dia aparecesse magicamente inteiro, com os passos tranquilos de Willem e a completa falta de vergonha de JB, podendo de refestelar na cadeira e deixar a camisa subir sem qualquer receio, ou tendo os braços longos de Malcolm, cuja pele na parte interna era macia como glacê, o que representaria para Andy? O que representaria para todos eles? Será que gostariam menos dele? Mais? Ou será que descobriria – como sempre temera – que o que enxergava como amizade na verdade era algo motivado pela pena que sentiam? Quanto do que ele era seria inextricável do que era incapaz de fazer? Quem ele teria sido, e quem viria a ser, sem as cicatrizes, os cortes, os machucados, as chagas, as fraturas, as infecções, as talas e os vazamentos?

Mas obviamente nunca saberia. Seis meses atrás, tinham conseguido manter a ferida sob controle, e Andy a examinara, verificando-a uma vez após a outra antes de lhe passar uma série de recomendações sobre o que fazer caso voltasse a abrir.

Não prestara muita atenção. Por algum motivo, sentia-se leve aquele dia, mas Andy estava ranzinza e, após um sermão sobre sua perna, Jude tivera de aguentar outro sobre os cortes (estava exagerando, segundo Andy) e sua aparência em geral (estava magro demais, segundo Andy).

Jude admirava a perna, girando-a e examinando o local onde a ferida finalmente se fechara, enquanto Andy falava sem parar.

– Está me ouvindo, Jude? – finalmente exigira saber.

– Parece curada – dissera a Andy, sem respondê-lo, mas querendo ser tranquilizado. – Não parece?

Andy soltara um suspiro.

– Parece... – E então não dissera mais nada, ficando em silêncio. Jude olhara para o alto e vira Andy fechar os olhos, como se tentasse recuperar a concentração, e então abri-los outra vez. – Parece curada, Jude – falara, em voz baixa. – Parece.

Sentira naquele momento uma enorme gratidão, pois sabia que Andy não achava que estivesse curada, e nunca acharia que estava curada. Para Andy, seu corpo era um ataque de horrores contra os quais os dois tinham de estar sempre atentos. Jude sabia que Andy o considerava autodestrutivo, delirante ou em constante negação.

Mas o que Andy nunca entendera sobre ele era: Jude era um otimista. A cada mês, a cada semana, escolhia abrir os olhos e viver mais um dia no mundo. Fazia isso quando se sentia tão mal que a dor às vezes parecia transportá-lo a outro estado, em que tudo, até mesmo o passado que tanto se esforçava para esquecer, parecia coberto por uma pincelada de aquarela cinza. Era o que fazia quando suas memórias sufocavam todos os outros pensamentos, quando eram necessários bastante esforço e bastante concentração para se agarrar à sua vida atual, para evitar que rugisse de desespero e de vergonha. Era o que fazia quando estava exausto de tanto tentar, quando acordar e viver exigia tanta energia que ele precisava deitar na cama e pensar em motivos para se levantar e tentar outra vez, quando seria muito mais fácil ir até o banheiro e abrir o zíper do estojo de plástico em que guardava seus chumaços de algodão, suas lâminas, seus lenços umedecidos e suas ataduras, que mantinha escondido sob a pia, e simplesmente se entregar. Aqueles eram os dias ruins de verdade.

Fora realmente um erro, a noite antes do Ano-Novo em que sentara no banheiro arrastando a lâmina pelo braço: ainda estava sonolento; normalmente não era descuidado daquele jeito. Mas, quando se dera conta do que havia feito, passou-se um minuto, dois minutos – ele contara – em que realmente não teve ideia do que fazer, em que sentar ali e deixar que aquele acidente se tornasse sua própria conclusão parecera mais fácil do que ele mesmo ter de tomar uma decisão, decisão esta que sairia do seu espaço pessoal e incluiria Willem, e Andy, e dias e meses de consequências.

No fim, não sabia o que o levara a pegar sua toalha e enrolá-la no braço, para então se colocar de pé e acordar Willem. Mas a cada minuto que passava ele se distanciava mais e mais da outra opção, e os eventos se sucediam numa velocidade que não conseguia controlar, e sentiu saudade daquele ano logo depois de ser ferido pelo carro, antes de conhecer Andy, quando tudo parecia capaz de melhorar, e o Jude do futuro podia se tornar algo brilhante e sem obstáculos, quando sabia tão pouco, mas tinha tantas esperanças, e fé de que suas esperanças pudessem um dia ser recompensadas.

–

Antes de Nova York houvera a faculdade de direito, e antes disso, a universidade, e antes disso, a Filadélfia, e a longa e lenta viagem pelo interior, e antes disso houvera Montana e o orfanato de meninos, e antes de Montana houvera o Sudoeste, e os quartos de motel, e os trechos solitários de estrada e as horas passadas no carro. E antes disso houvera a Dakota do Sul e o mosteiro. E antes disso? Um pai e uma mãe, supostamente. Ou, sendo mais realista, apenas um homem e uma mulher. E depois, provavelmente, só uma mulher. E depois ele.

Foi o Irmão Peter, que lhe ensinou matemática, quem sempre o lembrava de sua sorte e quem lhe disse que ele fora encontrado numa lata de lixo.

– Dentro de um saco de lixo, cheio de cascas de ovo, alfaces velhos, macarrão estragado... e você – disse o Irmão Peter. – No beco atrás da farmácia, você sabe qual. – Apesar de não saber, pois raramente deixava o mosteiro.

Mais tarde, o Irmão Michael negaria que aquilo era verdade.

– Você não estava dentro da lata de lixo – contou a ele. – Estava perto da lata de lixo. – Sim, admitiu ele, havia um saco de lixo, mas Jude estava em cima dele, não dentro, e, de qualquer forma, quem poderia dizer o que havia no saco de lixo em si, e quem se importava? Provavelmente eram coisas que a farmácia jogara fora: papelões, lenços, pequenos arames e envelopes. – Não acredite em tudo que o Irmão Peter diz – aconselhou, como costumava fazer, acrescentando: – Não entre nesta tendência de mitificar sua história. – Era isso o que sempre dizia quando Jude pedia detalhes de como fora parar no mosteiro. – Você chegou e está aqui agora. Deve se concentrar no futuro, não no passado.

Haviam criado o passado para ele. Encontraram-no sem roupas, afirmou o Irmão Peter (ou só de fraldas, segundo o Irmão Michael), mas, fosse como fosse, presumia-se que fora abandonado para, como diziam, que a natureza cuidasse dele, pois estavam em meados de abril e o tempo ainda era gélido, e um recém-nascido não poderia sobreviver por muito tempo naquela temperatura. Devia ter passado apenas alguns minutos ali, no entanto, pois ainda estava quase quente quando o encontraram, e a neve ainda não cobrira as marcas dos pneus do carro nem as pegadas (de tênis, provavelmente um número 36 feminino) que seguiam a caminho da lata de lixo e depois se afastavam dela. Tivera sorte de o terem encontrado (foi o destino que o tivessem encontrado). Tudo o que tinha – seu nome, sua data de aniversário (uma estimativa), seu abrigo, sua própria vida – era graças a eles. Devia ser grato (não esperavam que fosse grato a eles; esperavam que fosse grato a Deus).

Nunca sabia o que eles responderiam e o que não. Uma pergunta simples (Estava chorando quando o encontraram? Havia algum bilhete? Chegaram a procurar quem o deixara ali?) era ignorada, ou não se sabia a resposta, ou não lhe explicavam, mas havia respostas declarativas para as questões mais complicadas.

– O Estado não encontrou ninguém para ficar com você – disse o Irmão Peter (e não poderia ter sido outro). – Então decidimos mantê-lo aqui temporariamente, mas os meses se transformaram em anos, e cá está você. Fim da história. Agora termine essas equações; você passou o dia inteiro falando.

Mas por que o Estado não encontrara ninguém? Teoria número um (a preferida do Irmão Peter): Simplesmente porque havia muitos fatores desconhecidos – sua origem étnica, sua filiação, possíveis problemas de saúde congênitos e daí por diante. De onde viera? Ninguém sabia. Nenhum dos hospitais próximos tinha qualquer registro de um nascimento que correspondesse à sua descrição. E aquilo era uma fonte de preocupação para guardiães em potencial. Teoria número dois (defendida pelo Irmão Michael): Aquela era uma cidade pobre, numa região pobre e num estado pobre. Apesar de as pessoas se comiserarem – e elas se comiseraram, disso ele não deveria se esquecer –, colocar mais uma criança em casa já era outra coisa, especialmente quando seu lar já era bastante numeroso. Teoria número três (a do Padre Gabriel): Seu destino era ficar ali. Era a vontade de Deus. Aquele era o seu lar. E agora era hora de ele parar com as perguntas.

Havia ainda uma quarta teoria, que quase todos evocavam quando ele se não se comportava: Era um garoto mau, e fora assim desde o princípio.

– Você deve ter feito algo de muito ruim para ser abandonado desse jeito – costumava lhe dizer o Irmão Peter depois de castigá-lo com a tábua, repreendendo-o enquanto ele ficava ali parado, choramingando suas desculpas. – Talvez você tenha chorado tanto que não conseguiram suportar. – E ele chorava ainda mais forte, com medo de que o Irmão Peter estivesse certo.

Apesar de todo o interesse que tinham por história, irritavam-se coletivamente quando ele demonstrava interesse na sua, como se estivesse insistindo num passatempo particularmente cansativo que não conseguia superar num ritmo adequado à sua idade. Em pouco tempo aprendeu a não fazer perguntas, ou pelo menos a não as fazer diretamente, embora estivesse sempre atento a informações soltas que ouvia em momentos improváveis, por fontes improváveis. Quando leu Grandes esperanças com o Irmão Michael, conseguiu fazê-lo entrar numa longa explicação sobre como seria a vida de um órfão na Londres do século XIX, um lugar tão estranho a ele quanto Pierre, que ficava a apenas algumas centenas de quilômetros dali. No fim, a lição se tornou um sermão, como ele sabia que aconteceria, mas com isso aprendeu que ele, assim como Pip, teria sido entregue a um parente, caso existisse algum ou pudesse ser encontrado. Portanto, não havia nenhum, obviamente. Estava sozinho.

Sua possessividade também era um mau hábito que tinha de ser corrigido. Não conseguia lembrar quando começara a desejar algo que pudesse ter, algo que fosse seu e de mais ninguém.

– Ninguém aqui é dono de nada – era o que lhe diziam, mas será que era mesmo verdade?

Sabia que o Irmão Peter tinha um pente de tartaruga, por exemplo, da cor da seiva recém-extraída da árvore, um pouco translúcida, do qual se orgulhava e com o qual penteava o bigode todas as manhãs. Certo dia o pente desapareceu, e o Irmão Peter interrompeu a aula de história que Jude estava tendo com o Irmão Matthew para agarrá-lo pelos ombros e sacudi-lo, gritando que ele o havia roubado e que era melhor devolvê-lo se sabia o que era bom para si. (O Padre Gabriel mais tarde encontrou o pente, que escorregara pelo pequeno vão entre a mesa do irmão e o aquecedor.) Já o Irmão Matthew tinha uma edição original com capa de tecido de Os bostonianos, com uma lombada verde e macia que ele uma vez segurara à sua frente para que pudesse olhar a capa (“Não toque! Falei para não tocar!”). Até mesmo o Irmão Luke, seu preferido, que raramente abria a boca e nunca lhe dava broncas, tinha um pássaro que todos consideravam dele. Tecnicamente, alegava o Irmão David, o pássaro não pertencia a ninguém, mas fora o Irmão Luke quem o encontrara, cuidara dele, quem o alimentava e para quem o bicho voava, e assim, se Luke o quisesse, podia ficar com ele.

O Irmão Luke era o responsável pelo jardim e pela estufa do mosteiro, e, nos meses quentes, Jude o ajudava em pequenas tarefas. Sabia, depois de ouvir os outros irmãos às escondidas, que o Irmão Luke fora um homem rico antes de entrar para o mosteiro. Mas então algo acontecera, ou ele fizera algo (aquilo nunca lhe ficou claro), e perdera boa parte do dinheiro ou então abrira mão dele, e agora estava ali, pobre como os outros, embora a estufa tivesse sido construída com o dinheiro dele, e era ele quem ajudava a custear parte das despesas operacionais do mosteiro. Algo no modo como os outros irmãos evitavam Luke fazia Jude pensar que talvez ele fosse mau. Mas o Irmão Luke nunca fora malvado, não com ele.

Foi pouco tempo depois de o Irmão Peter o acusar de roubar o pente que ele de fato roubou seu primeiro item: um pacote de biscoitos da cozinha. Estava passando por ali certa manhã a caminho da sala que tinham separado para lhe dar aulas, e não havia ninguém por perto. O pacote estava em cima da bancada, bem ao alcance de suas mãos, e ele o agarrou num impulso e saiu correndo, enfiando-o sob a túnica áspera de lã que vestia, uma versão em miniatura da que usavam os irmãos. Saíra do seu caminho para poder escondê-lo sob o travesseiro, o que o fez chegar atrasado para a aula com o Irmão Matthew. Este o castigou com um galho de árvore, mas o segredo do pacote de biscoitos lhe enchia de calor e alegria. Naquela noite, sozinho em sua cama, comeu um dos biscoitos (dos quais nem mesmo gostava) com muito cuidado, quebrando-o em oito pedaços com os dentes e deixando cada um deles repousar sobre a língua até se tornar macio e gomoso, para que pudesse engolir tudo ao mesmo tempo.

Depois daquilo, passou a roubar mais e mais. Não havia nada no mosteiro que ele realmente quisesse, nada que realmente valesse a pena possuir, então simplesmente pegava o que encontrava pela frente, sem qualquer tipo de plano ou desejo: comida, quando conseguia achar; um botão preto que achara no chão do quarto do Irmão Michael numa de suas incursões após o café da manhã; uma caneta da mesa do Padre Gabriel, surrupiada quando, no meio de uma lição, o padre lhe dera as costas para procurar um livro; o pente do Irmão Peter (este foi o único que ele planejou roubar, mas a satisfação não foi maior que nos outros casos). Roubava palitos de fósforo e lápis e folhas de papel – tranqueiras inúteis, mas as tranqueiras inúteis de outra pessoa –, enfiando-as dentro da roupa de baixo e correndo de volta para o quarto para escondê-las debaixo do colchão, que era tão fino que dava para sentir cada uma das molas sob suas costas à noite.

– Pare com essa correria ou terei que lhe dar uma surra! – gritava o Irmão Matthew quando ele passava apressado na direção do quarto.

– Sim, irmão – respondia, diminuindo o passo.

Foi no dia em que roubou seu maior prêmio que ele foi apanhado: o isqueiro de prata do Padre Gabriel, subtraído diretamente de sua mesa quando o padre teve de interromper a lição para atender a um telefonema. O Padre Gabriel estava inclinado sobre seu teclado, e Jude esticou o braço e agarrou o isqueiro, sentindo o peso do objeto frio na mão até finalmente ser liberado. Assim que saiu do escritório do padre, guardou-o rapidamente dentro da roupa de baixo, e estava voltando o mais rápido que podia para o quarto quando fez uma curva e bateu de frente com o Irmão Pavel. Antes que o irmão pudesse gritar com ele, Jude caiu de costas e o isqueiro escapuliu, quicando pela laje.

Bateram nele, obviamente, e também gritaram, e como o que imaginava ser o seu castigo final, o Padre Gabriel o chamou em seu escritório e disse que lhe ensinaria uma lição quanto a roubar as coisas dos outros. Assistiu, sem entender, mas ainda assim tão assustado que não conseguia nem chorar, ao Padre Gabriel encostar um lenço dobrado na boca de uma garrafa de azeite de oliva e depois esfregar o azeite no dorso de sua mão esquerda. Depois, pegou o isqueiro – o mesmo que Jude roubara – e segurou sua mão sobre a chama até o ponto besuntado pegar fogo, quando então a mão inteira foi engolida por um brilho branco e fantasmagórico. Ele gritou sem parar, e o padre bateu em seu rosto por causa dos gritos.

– Pare de gritar – gritou. – É isso que merece. Não vai esquecer nunca mais que não pode roubar.

Quando recobrou a consciência, estava deitado em sua cama e uma bandagem cobria sua mão. Haviam levado todas as suas coisas: o que ele roubara, logicamente, mas também aquilo que encontrara por conta própria – as pedrinhas, as penas e as pontas de lança, e o fóssil que o Irmão Luke lhe dera em seu quinto aniversário, o primeiro presente que recebera na vida.

Depois daquilo, depois de ser apanhado, eles o levavam ao escritório do Padre Gabriel toda noite e o mandavam tirar as roupas, e o padre examinava seu interior em busca de contrabando. Depois, quando as coisas pioraram, se lembraria do pacote de biscoitos: se ao menos não o tivesse roubado. Se ao menos não tivesse dificultado tanto as coisas para si mesmo.

Seus ataques de fúria começaram após os exames noturnos com o Padre Gabriel, que logo foram ampliados para incluir exames com o Irmão Peter ao meio-dia. Tinha crises de pirraça, jogando-se contra as paredes de pedra do mosteiro e berrando o mais alto que podia, batendo o dorso da mão feia e machucada (que, passados seis meses, ainda doía às vezes, numa pulsação profunda e insistente) na madeira das quinas duras e inclementes das mesas de jantar, martelando a nuca, os cotovelos, as bochechas – todas as partes do corpo que mais doíam, as mais macias – contra a lateral de sua escrivaninha. Fazia aquilo de dia e de noite, não conseguia se controlar, sentia os ataques de fúria se deslocarem dentro de si feito um nevoeiro, deixando-se levar por eles. Seu corpo e sua voz se moviam em maneiras que o excitavam e o repeliam, pois, ainda que sentisse dor depois das crises de pirraça, sabia que aquilo assustava os irmãos, sabia que eles temiam sua raiva, seu barulho e seu poder. Acertavam-no com o que estivesse mais à mão, começaram a manter um cinto pendurado num prego na parede da sala de aula, tiravam as sandálias e batiam nele por tanto tempo que no dia seguinte não conseguia nem sentar, chamavam-no de monstro, desejavam que morresse, diziam que teria sido melhor deixá-lo na lata de lixo. E ele se sentia grato por aquilo, pela ajuda deles em lhe deixar exausto, já que não conseguia laçar a fera dentro de si e precisava da contribuição deles para fazê-la recuar, para fazê-la voltar à jaula até o momento em que se libertasse outra vez.

Começou a fazer xixi na cama e obrigaram-no a visitar o padre com uma frequência maior, para novos exames, e quanto mais o padre o examinava, mais ele molhava a cama. O padre começou a visitá-lo em seu quarto à noite, assim como passaram a fazer o Irmão Peter e depois o Irmão Matthew. Ele só piorava: obrigavam-no a dormir com o pijama molhado, faziam-no usá-lo durante o dia. Sabia o quanto fedia a urina e sangue, e gritava, se descabelava e urrava, interrompendo as aulas, derrubando os livros da mesa para que os irmãos tivessem de castigá-lo naquele exato momento, abandonando a lição. Às vezes batiam com tanta força que ele perdia a consciência, o que passou a ser seu maior desejo: aquela escuridão, na qual o tempo passava e ele não o vivia, na qual coisas lhe eram perpetradas sem que ele soubesse.

Às vezes havia um motivo por trás dos ataques de fúria, ainda que somente ele os conhecesse. Sentia-se tão incessantemente sujo, tão maculado, como se por dentro fosse um prédio caindo aos pedaços, como a igreja condenada que o levaram para ver numa de suas raras saídas do monastério: as vigas estavam pintalgadas de mofo, as traves cobertas de farpas e cheias de buracos com cupinzeiros, e os triângulos de céu branco surgiam imodestamente através do telhado em ruínas. Aprendera numa aula de história sobre sanguessugas, e como muitos anos atrás se acreditava que elas podiam extrair o sangue ruim das pessoas, sugando tola e avidamente a doença para dentro de seus corpos quentes e vermiformes, e ele passava sua hora livre – depois das aulas e antes de suas tarefas – andando pelo riacho na beirada do terreno do mosteiro, em busca de suas próprias sanguessugas. Depois de não conseguir encontrar nem mesmo uma, quando lhe disseram que não havia sanguessugas naquele riacho, ele berrou e berrou até sua voz o abandonar, e mesmo assim não conseguiu parar, nem quando sua garganta parecia se encher de sangue quente.

Certa vez estava em seu quarto, e tanto o Padre Gabriel quanto o Irmão Peter também estavam lá. Tentava não gritar, pois aprendera que, quanto mais ficava em silêncio, mais rápido aquilo tudo acabava, quando pensou ter visto o Irmão Luke passando pela porta, rápido feito uma mariposa, o que o fez se sentir humilhado, embora não conhecesse a palavra para a humilhação naquela época. No dia seguinte, durante seu tempo livre, foi até o jardim do Irmão Luke e arrancou todas as flores de narciso, empilhando-as na porta do barracão de ferramentas do Irmão Luke, com suas coroas em forma de flauta apontando para o céu feito bicos abertos.

Depois, novamente sozinho enquanto fazia suas tarefas, sentiu-se arrependido. A tristeza tornou seus braços pesados e ele deixou cair o balde de água que carregava de um lado do cômodo para o outro, o que o fez se atirar no chão e urrar de frustração e remorso.

No jantar, não conseguiu comer. Procurou Luke, tentando imaginar quando e como seria castigado, e quando teria de se desculpar com o irmão. Mas ele não estava ali. Aflito, deixou cair a jarra de metal com leite, e o líquido frio e branco se esparramou pelo piso. O Irmão Pavel, que estava ao seu lado, o arrancou do banco e o empurrou no chão.

– Pode limpar – vociferou para ele, jogando um pano de prato em sua direção. – Mas isso vai ser tudo que irá comer até sexta. – Era quarta-feira. – Agora vá para o quarto.

Ele correu, antes que o irmão mudasse de ideia.

A porta do seu quarto – uma despensa convertida, sem janelas e com espaço apenas para uma pequena cama, nos fundos do segundo andar acima do refeitório – ficava sempre aberta, a não ser quando um dos irmãos ou o padre estava com ele. Nesse caso, normalmente ficava fechada. Mas logo que dobrou a quina da escada pôde ver que a porta estava fechada, e por um instante ficou parado no corredor vazio e silencioso, sem saber o que lhe esperava lá dentro: um dos irmãos, provavelmente. Ou um monstro, talvez. Depois do incidente no riacho, às vezes sonhava acordado que as sombras que se esgueiravam pelos cantos eram sanguessugas gigantes, subindo pelas paredes, com suas peles segmentadas lisas, escuras e viscosas, aguardando para sufocá-lo com seu peso úmido e sem som. Finalmente criou coragem e correu direto para a porta, abrindo-a com uma pancada. Lá dentro, encontrou apenas sua cama, com a coberta de lã marrom-terra, e a caixa de lenços e os livros escolares na estante. Foi então que o viu num dos cantos, próximo à cabeceira da cama: um jarro de vidro com um buquê de narcisos, com suas flores afuniladas pregueadas no alto.

Sentou-se no chão perto do jarro e esfregou uma das flores aveludadas entre os dedos. Naquele momento, sua tristeza foi tanta, e tão avassaladora, que sentiu vontade de se rasgar, de arrancar a cicatriz do dorso da mão, de se esfrangalhar em pedacinhos como fizera com as flores de Luke.

Mas por que fizera aquilo ao Irmão Luke? Não era como se Luke fosse o único a ser caridoso com ele – quando não era forçado a castigá-lo, o Irmão David sempre o elogiava e lhe dizia o quanto era esperto, e até mesmo o Irmão Peter levava livros da biblioteca da cidade para que ele lesse e os dois pudessem debatê-lo posteriormente, ouvindo suas opiniões como se ele fosse uma pessoa de verdade –, mas não somente Luke jamais o castigara, como também se esforçava para tranquilizá-lo, para expressar sua fidelidade a ele. No domingo anterior, deveria declamar em voz alta a oração que precederia a janta, e quando se pôs de pé na cabeceira da mesa do Padre Gabriel, sentiu-se subitamente acometido pelo impulso de fazer malcriação, de agarrar um punhado das batatas em cubo do prato à sua frente e jogá-lo para todos os lados. Já conseguia sentir a garganta arranhar de tanto que gritaria, o cinto chamuscando ao atingir suas costas, a escuridão em que mergulharia, o brilho vertiginoso do dia quando acordasse. Viu o braço se erguer da lateral do corpo, os dedos se abrirem feito pétalas e flutuarem na direção da tigela. Foi então que olhou para o Irmão Luke, que lhe deu uma piscadela, tão solene e rápida, como o clique de uma câmera fotográfica, que de início ele não teve certeza de que realmente vira algo. Mas Luke piscou outra vez e por algum motivo aquilo o acalmou. Ele recobrou o controle, fez a prece e sentou, e o jantar transcorreu sem qualquer incidente.

E agora as flores. Mas antes que tivesse ocasião de pensar no que poderiam significar, a porta se abriu e ali estava o Irmão Peter. Jude ficou parado, esperando, naquele momento terrível para o qual jamais conseguia se preparar, quando tudo podia acontecer, uma verdadeira incógnita.

No dia seguinte, saiu da lição direto para a estufa, certo de que deveria dizer algo ao Irmão Luke. Mas, ao se aproximar, sua determinação o abandonou e ele diminuiu o passo, chutando as pedrinhas pelo caminho e abaixando-se para recolher galhos e depois se desfazer deles, jogando-os na direção da floresta que margeava o terreno. O que realmente gostaria de dizer? Estava prestes a dar meia-volta, para se recolher sob uma árvore específica ao norte do terreno, onde abrira entre as raízes um buraco para guardar sua nova coleção de coisas – por mais que fossem apenas objetos que encontrava na floresta, seguros, que não pertenciam a ninguém: pedrinhas; um galho que lembrava um pouco um cachorro magro no meio de um salto – e onde passava a maior parte de seu tempo livre, desencavando suas posses e segurando-as nas mãos. Mas naquele momento ouviu alguém chamar seu nome. Quando se virou, viu que era Luke, que erguera a mão para cumprimentá-lo e caminhava em sua direção.

– Pensei que fosse você – disse o Irmão Luke ao se aproximar (dissimuladamente, Jude perceberia mais tarde, pois quem mais poderia ser? Ele era a única criança no mosteiro), e por mais que tenha tentado, não conseguiu encontrar palavras para se desculpar com Luke.

Foi incapaz, na verdade, de encontrar qualquer palavra e, em vez disso, começou a chorar. Nunca sentia vergonha ao chorar, mas, naquele momento, sim, então deu as costas para o Irmão Luke e levou o dorso da mão marcada aos olhos. Percebeu de repente o quanto estava faminto, lembrando que ainda era tarde de quinta-feira e não comeria nada até o dia seguinte.

– Ora – disse Luke, e Jude sentiu o irmão ajoelhar bem perto dele. – Não chore, não chore. – Mas sua voz era tão suave que ele acabou chorando ainda mais.

O Irmão Luke então se levantou e, quando voltou a falar, sua voz estava mais animada.

– Ouça, Jude – disse ele. – Tenho algo para mostrar a você. Venha comigo. – E começou a andar na direção da estufa, virando-se para ter certeza de que o menino o seguia. – Jude – chamou outra vez –, venha comigo.

E ele, sem conseguir controlar a curiosidade, começou a seguir o irmão, caminhando rumo à estufa que conhecia tão bem, com o princípio de uma ansiedade incomum, como se nunca a tivesse visto antes.

Quando adulto, tornou-se obcecado, durante breves períodos, por tentar identificar o exato momento em que as coisas começaram a sair tão errado, como se pudesse congelá-lo, preservá-lo em ágar, erguê-lo diante de uma sala de aula e explicar aos alunos: Foi isto que aconteceu. Foi aqui que tudo começou. Pensava: Teria sido quando roubei os biscoitos? Teria sido quando arranquei os narcisos de Luke? Teria sido quando tive meu primeiro ataque de pirraça? Ou, o que seria mais improvável, teria sido quando fiz o que quer que tenha feito para que ela me deixasse atrás daquela farmácia? E o que tinha feito?

Mas, na verdade, ele sabia: foi quando entrou na estufa aquela tarde. Foi quando permitiu que o levassem para dentro, quando abriu mão de tudo para seguir o Irmão Luke. Aquele foi o momento. E depois daquilo, nada jamais voltou a ser certo.

–

Depois de mais cinco passos, ele chega à porta de casa, incapaz de enfiar a chave na fechadura porque suas mãos tremem, e ele esbraveja, quase deixando-a cair. Logo em seguida já está no apartamento e só precisa dar quinze passos entre a porta da frente e a cama, mas, no meio do caminho, é forçado a descer lentamente até o chão e se arrastar pelos últimos metros até o quarto com os cotovelos. Fica parado ali por alguns instantes, com tudo girando ao redor, até reunir forças para puxar a coberta sobre si. Vai ficar deitado daquele jeito até o sol deixar o céu e o apartamento ficar escuro, quando então finalmente impulsionará o corpo para a cama com os braços e cairá no sono sem comer, sem lavar o rosto ou mudar de roupa, rangendo os dentes de dor. Passará a maior parte da noite sozinho, pois Willem sairá com a namorada depois do espetáculo e, quando voltar, já será muito tarde.

Acordará bem cedo e se sentirá melhor, mas sua ferida terá vazado durante a noite e o pus encharcará a gaze que colocou na manhã de domingo antes de sair para sua caminhada, sua desastrosa caminhada, e encontrará as calças grudadas na pele pelo líquido viscoso que escoou de seu corpo. Enviará uma mensagem para Andy, e mandará outra para o trabalho, e depois tomará uma ducha, removendo cuidadosamente o curativo, que trará consigo pedaços de pele apodrecida e coágulos de sangue negro e mucoso. Ele vai arfar e arquejar para não ter de gritar. Lembrará a conversa que teve com Andy da última vez que isso aconteceu, quando o médico sugeriu que ele tivesse uma cadeira de rodas para deixar de reserva e, por mais que deteste a ideia de usar uma cadeira de rodas outra vez, desejará ter uma agora. Pensará que Andy tem razão, que suas caminhadas são um sinal de sua arrogância imperdoável, que fingir que tudo está bem e que ele não tem qualquer tipo de deficiência é um ato de egoísmo, dadas as consequências que aquilo provoca para outras pessoas, pessoas que vêm sendo inexplicavelmente e irracionalmente boas para com ele por anos, por quase décadas a esta altura.

Fechará a água do chuveiro e se sentará na banheira, apoiando a bochecha no azulejo e esperando até se sentir melhor. Será lembrado do quanto é limitado, preso a um corpo que detesta, com um passado que detesta, e como jamais poderá mudar qualquer um dos dois. Sentirá vontade de chorar, de frustração, ódio e dor, mas não chora desde o que ocorreu com o Irmão Luke, quando prometeu a si mesmo que nunca mais derramaria uma lágrima. Será lembrado de que é um nada, a casca de uma fruta que há muito se mumificou e murchou, e agora chacoalha lá dentro sem qualquer utilidade. Sentirá aquele formigamento, o arrepio de desgosto que o aflige tanto nos momentos mais felizes como nos mais lastimáveis, aquele que lhe pergunta quem ele pensa que é para incomodar tanta gente, para achar que tem o direito de seguir em frente até mesmo quando seu próprio corpo lhe diz deveria parar.

Sentará, aguardará e respirará, e ficará grato por ser tão cedo, de modo que não há qualquer possibilidade de Willem descobri-lo e ter de salvá-lo mais uma vez. De alguma forma (embora mais tarde não consiga lembrar como) conseguirá se colocar de pé, sairá da banheira, tomará uma aspirina e partirá para o trabalho. No trabalho, as palavras se transformarão em borrões e dançarão pela página, e quando Andy telefonar serão apenas sete da manhã, e ele dirá a Marshall que está doente, recusará a oferta de Marshall de que um carro o leve, mas aceitará sua ajuda – está mal a esse ponto – para chegar a um táxi. Fará o mesmo percurso pelo qual estupidamente caminhara no dia anterior. E quando Andy abrir a porta, tentará manter a compostura.

– Judy – dirá Andy, e estará de bom humor, sem fazer qualquer sermão hoje, e ele deixará o médico conduzi-lo pela sala de espera vazia, uma vez que o consultório nem abriu ainda, e Andy o ajudará a subir na maca onde já passou horas, tantas horas que poderiam formar dias, e Jude permitirá que ele até o ajude a se despir, enquanto fecha os olhos e espera pela dorzinha no momento em que Andy puxa o esparadrapo de sua perna e retira da pele em carne viva a gaze encharcada.

Minha vida, pensará, minha vida. Mas não conseguirá pensar em nada além disso, e continuará repetindo as palavras para si mesmo – parte como um mantra, parte praguejando, parte se tranquilizando – enquanto desliza para o mundo que visita quando sente aquele tipo de dor, o mundo que ele sabe que não está muito longe do seu, mas do qual jamais consegue se lembrar depois: Minha vida.