Uma Vida Pequena

Hanya Yanagihara · Capítulo 4 de 19 · parte 3/4

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Uma Vida Pequena

II. O Pós-Homem

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

– Jude! – disse ela. – Até que enfim! Ouvi falar tanto de você. Estou muito feliz por finalmente nos conhecermos. – E parecia, pensou ele, que realmente estava.

Durante o jantar, os três conversaram. Julia vinha de uma família de acadêmicos de Oxford e vivia nos Estados Unidos desde a pós-graduação em Stanford; ela e Harold tinham se conhecido cinco anos antes por meio de um amigo em comum. Seu laboratório estudava o que parecia ser uma variação do H5N1 e tentava mapear seu código genético.

– Uma das preocupações da microbiologia não seria a possível utilização desses genomas como armas? – perguntou ele, sentindo, mesmo sem ver, Harold virar em sua direção.

– Sim, é isso mesmo – respondeu Julia, e enquanto ela explicava as controvérsias que cercavam o seu trabalho e o dos colegas, ele deu uma olhada rápida para Harold, que o observava, e levantara uma sobrancelha para ele num gesto que não conseguiu interpretar.

Mas a conversa logo mudou de rumo, e Jude quase foi capaz de assistir à discussão se afastar cada vez mais do laboratório de Julia para se concentrar inexoravelmente nele, e notou que Harold seria um ótimo advogado se quisesse, viu sua habilidade em redirecionar e reposicionar o assunto, quase como se a conversa entre eles fosse algo líquido e ele a conduzisse por calhas e tinas, eliminando qualquer possibilidade de desvio até chegar a seu fim inevitável.

– Então, Jude – perguntou Julia –, onde você cresceu?

– Dakota do Sul e Montana, na maior parte do tempo – respondeu, sentindo a criatura dentro de si sentar, ciente do perigo mas incapaz de escapar.

– Então seus pais eram fazendeiros? – perguntou Harold.

Ele aprendera ao longo dos anos a esperar por aquela sequência de perguntas, e também a desviar dela.

– Não – disse ele –, mas um monte de gente era, obviamente. O campo é lindo por aquelas bandas; já passaram um tempo no Oeste?

Normalmente aquilo era o suficiente, mas não para Harold.

– Rá! – falou. – Esse foi o método mais sutil de evitar um assunto que ouvi nos últimos tempos. – Harold olhou para ele com tanta atenção que Jude acabou baixando a cabeça na direção do prato. – Acho que esse é o seu jeito de nos dizer que não irá nos contar o que eles fazem, não é?

– Ah, Harold, deixe o menino – disse Julia, mas ele ainda sentia Harold o encarando e sentiu-se aliviado quando o jantar acabou.

Depois daquela primeira noite na casa de Harold, a relação entre os dois se tornou mais profunda e mais complicada. Sentia que havia aguçado a curiosidade de Harold, a quem imaginava como um cão animado e de olhos atentos – um terrier, implacável e entusiasmado –, e não sabia ao certo se aquilo era algo bom. Queria conhecer Harold melhor, mas durante o jantar fora lembrado de que aquele processo – o de conhecer alguém – era sempre mais difícil do que recordava. Sempre esquecia; sempre o faziam lembrar. Desejou, como sempre fazia, que toda aquela sequência – a revelação de intimidades, a exploração do passado – pudesse ser superada rapidamente e que ele fosse simplesmente teleportado para a etapa seguinte, na qual o relacionamento era tranquilo, flexível e confortável, no ponto em que os limites das duas partes eram compreendidos e respeitados.

Outras pessoas podiam até ter feito mais tentativas de questioná-lo e depois o deixaram em paz – outras pessoas o tinham deixado em paz: seus amigos, seus colegas de classe, seus outros professores –, mas Harold não desistia tão facilmente. Até mesmo suas estratégias habituais – dentre elas, dizer a seus interlocutores que queria ouvir sobre a vida deles, não falar da sua: uma tática que tinha a vantagem de ser verdadeira, assim como eficiente – falharam com Harold. Jude nunca sabia quando Harold daria o próximo bote, mas, quando o fazia, o pegava despreparado, e ele se sentia cada vez mais envergonhado, e não menos, à medida que passavam mais tempo na companhia um do outro.

Às vezes estavam no escritório de Harold, conversando sobre algum tópico – como o caso de a ação afirmativa da Universidade da Virginia ser levado à Suprema Corte, por exemplo –, e Harold perguntava:

– Você descende de que etnias, Jude?

– Muitas – respondia, e logo tentava mudar de assunto, nem que precisasse derrubar uma pilha de livros para causar uma distração.

Mas, outras vezes, as perguntas eram aleatórias e desprovidas de um contexto, impossíveis de serem previstas, feitas sem qualquer preâmbulo. Certa noite ele e Harold estavam no escritório, trabalhando até tarde, e Harold pediu comida pelo telefone. Para a sobremesa, encomendara biscoitos e brownies, empurrando o saco de papel na direção de Jude.

– Não, obrigado – falou.

– Não quer mesmo? – perguntou Harold, erguendo as sobrancelhas. – Meu filho adorava esse tipo de coisa. Tentamos prepará-los em casa para ele, mas nunca acertamos a receita. – Ele partiu um brownie ao meio. – Seus pais cozinhavam bastante para você quando era pequeno? – Harold lhe fazia aquelas perguntas com uma casualidade proposital que ele considerava quase insuportável.

– Não – respondeu, fingindo reler as anotações que vinha fazendo.

Ouviu Harold mastigando e, como sabia, considerando se devia recuar ou continuar com sua linha de questionamento.

– Você vê seus pais com frequência? – perguntou Harold, de maneira abrupta, numa outra noite.

– Eles morreram – disse, mantendo os olhos no papel.

– Lamento, Jude – disse Harold após um período de silêncio, e a sinceridade em sua voz o fez levantar a cabeça. – Os meus também. Relativamente há pouco tempo. Mas, obviamente, sou muito mais velho que você.

– Lamento, Harold – falou. Depois, tentou adivinhar: – Você era muito próximo deles.

– Sim – respondeu Harold. – Muito. Você era próximo dos seus?

Ele balançou a cabeça.

– Não, na verdade não.

Harold ficou quieto.

– Mas aposto que tinham orgulho de você – disse, rompendo o silêncio.

Sempre que Harold lhe fazia perguntas pessoais, Jude sentia algo se mover pelo seu corpo, como se estivesse congelando por dentro e seus órgãos e nervos fossem protegidos por uma camada de gelo. Naquele momento, porém, achou que pudesse quebrar, que se dissesse qualquer coisa o gelo racharia e ele se despedaçaria. Decidiu então esperar até saber que soaria normal antes de perguntar a Harold se precisava dele para procurar o restante dos artigos naquele instante ou se devia deixar para a manhã seguinte. Mas fez isso sem olhar para Harold, encarando o caderno enquanto falava.

Harold demorou um bom tempo para responder.

– Amanhã – disse Harold, em voz baixa, e Jude concordou com a cabeça, recolhendo suas coisas para ir para casa, ciente de que os olhos de Harold seguiam seu cambaleante progresso rumo à porta.

Harold queria saber como ele crescera, se tinha irmãos, quem eram seus amigos e o que fazia com eles: estava ávido por informação. Jude pelo menos podia responder às últimas perguntas e contou sobre os amigos, como haviam se conhecido e onde estudavam: Malcolm fazia a pós-graduação em Columbia, JB e Willem em Yale. Gostava de responder às perguntas de Harold sobre os amigos, gostava de falar deles, gostava de ouvir as risadas de Harold quando contava as histórias. Contou sobre CM, e como Santosh e Federico tinham se envolvido numa espécie de briga com os alunos de engenharia que moravam na casa ao lado, e como acordara uma manhã e encontrara um esquadrão de dirigíveis motorizados, feitos com camisinhas, voando ruidosamente por sua janela em direção ao quarto andar, cada um carregando cartazes que diziam: SANTOSH JAIN E FEDERICO DE LUCA TÊM MICROPÊNIS.

Mas, quando Harold fazia outras perguntas, sentia-se sufocado pelo peso, pela frequência e pela inevitabilidade que tinham. E às vezes o ar ficava tão denso com as perguntas que Harold não lhe estava fazendo que a sensação era tão opressiva como se de fato estivesse. As pessoas queriam saber tantas coisas, queriam tantas respostas. E ele entendia isso, de verdade – ele também queria respostas; também queria entender tudo. Sentiu-se agradecido pelos amigos, e por quão relativamente pouco haviam extraído dele, como o deixaram sossegado, uma campina vazia e sem rosto, sob cuja superfície amarela retorciam-se minhocas e besouros dentro do solo negro, e pedaços de ossos lentamente se calcificavam em rochas.

– Você está mesmo interessado nessas coisas – estourou ele contra Harold, frustrado, quando este lhe perguntara se estava saindo com alguém, para logo em seguida, tendo ouvido seu tom, parar e se desculpar. Os dois se conheciam havia cerca de um ano àquela altura.

– Nessas coisas? – disse Harold, ignorando o pedido de desculpa. – Estou interessado em você. Não vejo nada de estranho nisso. É sobre esses assuntos que os amigos conversam.

Porém, apesar de seu desconforto, ele continuava voltando a Harold, continuava aceitando seus convites para jantar, mesmo que em certo ponto durante cada encontro houvesse um momento em que sentia vontade de sumir, ou no qual temia que pudesse ter causado algum tipo de decepção.

Certa noite, durante um jantar na casa de Harold, foi apresentado ao melhor amigo do professor, Laurence, a quem conhecera na faculdade de direito e agora trabalhava como juiz da corte de apelação em Boston, e sua esposa, Gillian, que ensinava inglês na Simmons.

– Jude – disse Laurence, cuja voz era ainda mais grave que a de Harold –, Harold me falou que você está fazendo mestrado no MIT. Em quê?

– Matemática pura – respondeu.

– De que maneira isso é diferente – ela riu – da “matemática normal”? – perguntou Gillian.

– Bem, a matemática normal, ou matemática aplicada, é o que acho que vocês chamariam de matemática prática – respondeu. – É usada para resolver problemas, para fornecer soluções, seja no campo da economia, da engenharia, da contabilidade ou qualquer outra coisa. Mas a matemática pura não existe para fornecer uma aplicação prática imediata, ou necessariamente óbvia. É simplesmente uma expressão de forma, se quiser chamá-la assim. A única coisa que ela prova é a elasticidade quase infinita da própria matemática, dentro do conjunto aceito de hipóteses pelas quais a definimos, é claro.

– Está falando de geometria imaginária, coisas do gênero? – perguntou Laurence.

– Poderia ser, é claro. Mas não é limitada a isso. Muitas vezes, é apenas uma prova da... da lógica interna impossível e ao mesmo tempo consistente da matemática em si; existem vários tipos de especialidades dentro da matemática pura: a matemática geométrica pura, como você mencionou, mas também a matemática algébrica, a matemática algorítmica, a criptografia, a teoria da informação e a lógica pura, que é o que estudo.

– Que seria o quê? – perguntou Laurence.

Ele pensou.

– A lógica matemática, ou lógica pura, é basicamente um diálogo entre verdades e falsidades. Por exemplo, eu poderia dizer para você que “Todos os números positivos são reais. Dois é um número positivo. Portanto, dois deve ser real”. Mas isso não está realmente correto, está? É uma derivação, uma suposição da verdade. Eu não provei de verdade que dois é um número real, mas logicamente deve ser verdade. Assim, você elabora uma prova para, em essência, comprovar que a lógica daquelas duas afirmações de fato é real e aplicável de maneira infinita. – Fez uma pausa. – Isso fez sentido?

– Video, ergo est – disse Laurence repentinamente. Vejo, logo existe.

Ele sorriu.

– A matemática aplicada é exatamente isso. Mas a matemática pura está mais para – ele pensou outra vez – imaginor, ergo est.

Laurence sorriu para ele e assentiu com a cabeça.

– Muito bom – falou.

– Tudo bem, mas eu tenho uma pergunta – disse Harold, que se mantivera em silêncio, ouvindo-os. – Como e por que diabos você foi parar na faculdade de direito?

Todos caíram no riso, e ele também. Aquela era uma pergunta que ouvia com frequência (do Dr. Li, com ar de desespero; de seu orientador de mestrado, o Dr. Kashen, com ar de perplexidade) e sempre mudava a resposta para agradar a audiência, já que a verdadeira resposta – queria ter meios para se proteger; queria se certificar de que ninguém nunca mais pudesse chegar até ele – parecia um motivo egoísta, raso e pequeno demais para ser dito em voz alta (e também abriria espaço para uma avalanche de outras perguntas). Além disso, sabia àquela altura que o direito era uma forma inconsistente de proteção: se quisesse realmente se proteger, devia ter se tornado um atirador apertando o olho atrás de uma mira ou um cientista num laboratório com suas pipetas e seus venenos.

Naquela noite, porém, respondeu:

– Mas o direito não é assim tão diferente da matemática pura, na verdade. Quero dizer, em teoria, ele também pode oferecer uma resposta a todas as questões, não é? As leis existem para serem pressionadas, para serem forçadas até o limite, e se não conseguem oferecer uma solução aos problemas que afirmam cobrir, então não são leis de verdade, certo? – Ele parou para refletir sobre o que acabara de dizer. – Acho que a diferença é que, no direito, existem muitos caminhos que levam a muitas respostas, e na matemática há muitos caminhos para uma só resposta. E também, penso eu, o direito não se trata da verdade, mas sim de controle. E a matemática não tem de ser conveniente, prática ou gerenciadora. Só precisa ser verdadeira.

“Mas acho que outro modo em que os dois se assemelham é que, na matemática, assim como no direito, o mais importante, ou, para ser mais preciso, o mais memorável, não é que o caso, ou a prova, seja vencido ou solucionado, mas sim a beleza, a praticidade, com que são feitos.”

– O que quer dizer com isso? – perguntou Harold.

– Ora – disse ele –, no direito, falamos sobre uma bela apresentação, ou uma bela sentença, e o que queremos dizer com isso, obviamente, é a beleza não apenas de sua lógica, mas também de sua expressão. De maneira semelhante, na matemática, quando falamos sobre uma bela prova, o que estamos reconhecendo é sua simplicidade, sua... elementaridade, presumo: sua inevitabilidade.

– E quanto a algo como o último teorema de Fermat? – perguntou Julia.

– Esse é um exemplo perfeito de uma prova não bela. Pois, ao mesmo tempo que foi importante achar uma solução para ela, foi também, para um monte de gente, como meu orientador, uma decepção. A prova ocupava centenas de páginas, e recorria a campos tão discrepantes da matemática, e era tão... retorcida, remendada em sua execução, que ainda há muitas pessoas trabalhando na tentativa de comprová-la em termos mais elegantes, por mais que já tenha sido resolvida. Uma prova bela é sucinta, assim como um veredito belo. Combina apenas um punhado de conceitos diferentes, ainda que pertencentes ao universo matemático, e numa série de passos relativamente breve conduz a uma nova verdade, grandiosa e generalizada, no campo da matemática: ou seja, a um princípio absoluto completamente provável e inabalável, num mundo construído com pouquíssimos princípios absolutos inabaláveis.

Parou para respirar, percebendo repentinamente que falara sem parar, e que os outros permaneceram em silêncio, a observá-lo. Sentiu seu rosto ruborizar, assim como o velho ódio que o preenchia feito água suja uma vez mais.

– Perdão – desculpou-se. – Lamento. Não queria me prolongar.

– Está brincando? – disse Laurence. – Jude, acho que esta foi a primeira conversa realmente esclarecedora que tive na casa de Harold nos últimos dez anos: obrigado.

Todos caíram no riso outra vez, e Harold se refestelou na cadeira, com um ar satisfeito.

– Viu? – Jude conseguiu ler os lábios de Harold se movendo do outro lado da mesa para Laurence, que concordou com a cabeça, e percebeu que era dele que estavam falando, e não conseguiu evitar se sentir lisonjeado, e acanhado também.

Teria Harold falado dele para o amigo? Teria aquilo sido um teste para ele, um teste ao qual não sabia que seria submetido? Sentia-se aliviado por ter passado, por não ter feito Harold passar vergonha, e aliviado também, por mais desconfortável que às vezes aquilo o fizesse sentir, por talvez ter realmente merecido seu lugar na casa de Harold, e ter a chance de ser convidado a voltar.

A cada dia que passava, confiava um pouquinho mais em Harold, e às vezes se perguntava se estaria cometendo o mesmo erro outra vez. Seria melhor confiar ou ter cautela? Seria possível ter uma amizade de verdade se uma parte sua sempre esperasse ser traída? Ele às vezes sentia como se estivesse tirando proveito da generosidade de Harold, da fé que colocava nele, e às vezes achava que sua circunspecção seria mesmo a melhor escolha, pois, se as coisas terminassem mal, só teria a si mesmo para culpar. Mas era difícil não confiar em Harold: Harold tornava isso difícil, e, tão importante quanto, ele mesmo tornava isso difícil para si próprio – ele queria confiar em Harold, queria ceder, queria que a criatura dentro dele hibernasse num sono do qual nunca mais despertasse.

Já era tarde certa noite, durante seu segundo ano da faculdade de direito, e ele estava na casa de Harold. Quando abriram a porta, os degraus, a rua, as árvores estavam cobertos de neve, e os flocos avançaram feito um ciclone na direção da porta, tão rápido que os dois deram um passo atrás.

– Vou chamar um táxi – disse ele; assim, Harold não precisaria levá-lo.

– Não vai, não – falou Harold. – Vai ficar aqui.

Ele então passou a noite no quarto de hóspedes de Harold e Julia, no segundo andar, separado do quarto do casal por um espaço com enormes janelas, o qual usavam como biblioteca, e por um corredor curto.

– Aqui está uma camiseta – disse Harold, jogando algo cinza e macio para ele – e uma escova de dente. – Ele a colocou sobre a prateleira. – Tem toalhas no banheiro. Precisa de mais alguma coisa? Água?

– Não – respondeu. – Obrigado, Harold.

– De nada, Jude. Boa noite.

– Boa noite.

Ficou acordado por um tempo, com a manta recheada de penas o envolvendo e o colchão de pelúcia debaixo do seu corpo, vendo as janelas ficarem brancas e ouvindo a água gorgolejar das torneiras, e os murmúrios baixos e indistinguíveis de Harold e Julia, e um ou o outro se remexendo na cama, até que então, finalmente, silêncio. Naqueles minutos, fingiu que eles eram seus pais e que deixara a faculdade de direito para passar o fim de semana em casa, e aquele era o seu quarto, e no dia seguinte acordaria e faria o que quer que fosse que filhos crescidos faziam com os pais.

No verão depois daquele segundo ano de faculdade, Harold o convidou para sua casa em Truro, em Cape Cod.

– Você vai amar – disse. – Chame seus amigos. Eles também vão amar.

E assim, na quinta-feira antes do Dia do Trabalho, depois que seu estágio e o de Malcolm acabaram, todos eles deixaram Nova York de carro rumo à casa, e naquele fim de semana prolongado, a atenção de Harold se voltaria para JB, Malcolm e Willem. Jude também os observou, admirando o modo como respondiam a todas as perguntas de Harold, como eram generosos com suas próprias vidas, como eram capazes de contar histórias sobre si mesmos que os faziam rir e que também faziam Harold e Julia sorrir, como se sentiam à vontade perto de Harold e como Harold se sentia à vontade perto deles. Estava vivenciando o raro prazer de ver pessoas que amava se encantarem por outras pessoas que amava. A casa tinha uma rampa privada que levava a uma pequena nesga de praia privada, e toda manhã os quatro desciam até lá e nadavam – até ele nadava, de calças, uma camiseta por baixo e uma velha camisa de botões por cima, sem que ninguém lhe dissesse nada – e depois deitavam na areia para assar debaixo do sol, com as roupas molhadas desgrudando do corpo à medida que secavam. Às vezes Harold aparecia para observá-los, ou então para nadar com eles. Às tardes, Malcolm e JB saíam pedalando pelas dunas de bicicleta, enquanto ele e Willem os seguiam a pé, recolhendo conchas e as carapaças tristes de caranguejos-eremitas mordiscados muito tempo atrás, e o amigo diminuía o passo para acompanhar o seu. Às noites, quando o ar ficava ameno, JB e Malcolm desenhavam e ele e Willem liam. Sentia-se drogado sob o efeito do sol, da comida, do sal e da alegria, e à noite caía no sono rápido e cedo, acordando pela manhã antes dos outros para poder ficar na varanda dos fundos sozinho, olhando para o mar.

O que vai acontecer comigo?, perguntava ao mar. O que está acontecendo comigo?

O feriado acabou e o semestre de outono teve início. Não foi preciso muito tempo para que ele percebesse que, durante aquele fim de semana, algum de seus amigos devia ter dito algo a Harold, embora tivesse certeza de que não fora Willem, o único a quem finalmente revelara algo sobre o passado – e mesmo assim, não muito: três fatos, um mais vago que o outro, todos insignificantes, e nem mesmo juntando os três daria o começo de uma história. Até mesmo as primeiras frases de um conto de fadas eram mais detalhadas do que contara a Willem: Era uma vez um menino e uma menina que viviam com o pai, um lenhador, e a madrasta, bem no meio de uma floresta fria. O lenhador amava os filhos, mas era muito pobre, e então um dia... Sendo assim, qualquer coisa que Harold tivesse descoberto seria pura especulação, derivada das observações dos amigos, de suas teorias, adivinhações e ficções. Mas o que quer que fosse, fora o bastante para que perguntas de Harold – sobre quem ele era e de onde vinha – parassem.

À medida que os meses e depois os anos foram passando, os dois estabeleceram uma amizade onde os quinze primeiros anos de sua vida jamais eram mencionados, como se nem tivessem acontecido, como se houvessem retirado Jude da caixa do fabricante quando entrara para a universidade, ligando o botão na base de seu pescoço e dando-lhe vida. Sabia que aqueles anos vazios foram preenchidos pela própria imaginação de Harold, e que parte de sua imaginação era pior do que o que realmente acontecera, e outra parte, melhor. Mas Harold nunca contou o que pensava sobre seu passado, e, na verdade, ele também não queria saber.

Nunca havia considerado aquela amizade como algo contextual, mas se preparou para a probabilidade de Harold e Julia acharem isso. Assim, quando se mudou para Washington para trabalhar com o juiz, supôs que eles fossem esquecê-lo e tentou se preparar para a perda. Mas não foi o que aconteceu. Em vez disso, enviavam e-mails, telefonavam e, quando um estava na cidade do outro, jantavam juntos. Nos verões, ele e os amigos visitavam Truro, e, nos Dias de Ação de Graças, iam a Cambridge. E quando se mudou para Nova York dois anos depois para começar a trabalhar na Procuradoria, Harold ficou extasiado, de maneira quase preocupante, por ele. Chegaram a oferecer o apartamento que tinham no Upper East Side para que morasse lá, mas Jude sabia que eles o usavam com frequência, e não sabia se a proposta era mesmo para valer, por isso preferiu declinar.

Todo sábado Harold ligava para perguntar como estava o trabalho, e ele contava sobre seu chefe, Marshall, o Vice-Procurador-Geral, que tinha a capacidade enervante de citar decisões da Suprema Corte inteiras de cabeça, fechando os olhos para evocar a visão da página na mente, enquanto sua voz se tornava robótica e monótona, porém, sem nunca esquecer ou acrescentar uma só palavra. Jude sempre achara ter uma boa memória, mas a de Marshall o deixava estupefato.

De certa forma, a Procuradoria o lembrava do orfanato: era em grande parte um ambiente masculino, no qual efervescia uma hostilidade distinta e constante, um tipo de rudeza latente que brota naturalmente quando um grupo de pessoas altamente competitivas, com as mesmas condições, é colocado num mesmo espaço pequeno com o conhecimento de que apenas algumas delas teriam uma oportunidade para se destacar. (Ali, entretanto, as condições que os igualavam eram seus feitos; já no orfanato era a fome, a escassez). Aparentemente, todos os duzentos promotores assistentes haviam frequentado uma dentre cinco ou seis faculdades de direito e praticamente todos haviam participado do jornal estudantil e de julgamentos simulados em suas respectivas universidades. Jude fazia parte de uma equipe de quatro pessoas que trabalhava na maior parte do tempo em casos de fraudes em investimentos, e tanto ele quanto os colegas tinham algo – uma qualificação, uma idiossincrasia – que esperavam poder usar para se destacar dos outros: Jude tinha seu mestrado no MIT (com o qual ninguém se importava, mas pelo menos era uma curiosidade) e a experiência como assistente de Sullivan, de quem Marshall gostava. Citizen, seu melhor amigo no escritório, formara-se em direito em Cambridge e atuara como advogado em Londres por dois anos antes de se mudar para Nova York. E Rhodes, o terceiro no trio que formavam, fora bolsista do Programa Fulbright na Argentina após a universidade. (O quarto integrante da equipe era um sujeito extremamente preguiçoso chamado Scott, que, segundo os boatos, só conseguira o emprego porque seu pai jogava tênis com o presidente.)

Jude passava a maior parte do tempo no escritório e às vezes, quando ele, Citizen e Rhodes ficavam por lá até tarde e pediam comida pelo telefone, ele se lembrava das noites com seus colegas de quarto no Hood. E ainda que apreciasse a companhia de Citizen e Rhodes, e a especificidade e o alcance da inteligência dos dois, naqueles momentos sentia saudade dos amigos, que pensavam de maneira tão diferente da dele e que o faziam pensar diferente também. Em meio a uma conversa com Citizen e Rhodes sobre lógica, lembrou-se repentinamente de uma pergunta feita pelo Dr. Li em seu primeiro ano de faculdade, quando se candidatara a uma vaga no seminário de matemática pura: Por que as tampas de bueiros são redondas? Era uma pergunta fácil, e fácil de ser respondida, mas, quando voltara para o Hood e repetira a questão do Dr. Li a seus colegas de quarto, todos ficaram em silêncio. Até que finalmente JB começara, empregando o tom onírico de um contador de histórias:

– Uma vez, muito tempo atrás, os mamutes percorriam a Terra e suas pegadas deixaram cavidades redondas permanentes no solo. – E todos caíram no riso.

Ele sorriu, se lembrando da história; às vezes desejava ter uma mente como a de JB, capaz de criar histórias que encantavam os outros, em vez de sua própria mente, sempre em busca de uma explicação, uma explicação que, ainda que correta, era desprovida de romance, de imaginação, de sagacidade.

– Hora de exibir nossos méritos – sussurrava-lhe Citizen nas ocasiões em que o próprio Procurador-Geral aparecia no salão e todos os promotores assistentes o rodeavam feito mariposas, numa miríade de ternos cinza.

Eles e Rhodes se juntavam ao bando, mas nem mesmo naqueles encontros Jude mencionava a única coisa que, sabia ele, seria capaz de fazer não só Marshall como o próprio Procurador-Geral pararem e olhá-lo com mais atenção. Depois que Jude conseguira o emprego, Harold perguntara a ele se poderia mencionar seu nome a Adam, o Procurador-Geral, de quem Harold, por acaso, era um conhecido de longa data. Mas ele respondera a Harold que queria ter certeza de que conquistara tudo por mérito próprio. O que era verdade, mas o principal motivo é que sentia certa hesitação quanto a citar Harold como uma de suas vantagens, pois não queria que Harold se arrependesse de sua associação com ele. Por isso preferia não dizer nada.

Muitas vezes, porém, era como se o próprio Harold estivesse lá. Relembrar os dias da faculdade de direito (e sua atividade complementar, que era alardear os feitos alcançados na faculdade de direito) era um dos passatempos preferidos no escritório e, como muitos de seus colegas tinham frequentado a mesma universidade que ele, muitos conheciam Harold (e os outros sabiam de sua existência), e Jude às vezes os ouvia falar sobre as aulas que tiveram com o professor, ou sobre como tinham de estudar para elas, e sentia orgulho de Harold e – por mais que soubesse o quanto aquilo era bobo – de si mesmo, por conhecê-lo. No ano seguinte, o livro de Harold sobre a Constituição seria publicado e todos no escritório leriam os agradecimentos, veriam seu nome, e sua afiliação com Harold seria revelada, e muitos ficariam desconfiados, e ele veria a preocupação em seus rostos ao tentarem lembrar o que poderiam ter dito sobre Harold na sua presença. Quando aquele momento chegasse, no entanto, ele já teria se estabelecido no escritório por conta própria, já teria se enturmado com Citizen e Rhodes, já teria estabelecido sua própria relação com Marshall.

No entanto, por mais que tivesse vontade, por mais que desejasse aquilo avidamente, ainda se mostrava cauteloso quanto a reivindicar Harold como seu amigo: às vezes temia que estivesse apenas imaginando aquela intimidade, insuflando-a esperançosamente em sua cabeça, e então (para sua vergonha) tinha de tirar A bela promessa de sua estante e abrir na página dos agradecimentos, lendo as palavras de Harold mais uma vez, como se as próprias fossem um contrato, uma declaração de que o que ele sentia por Harold era, pelo menos, até certo ponto, algo recíproco. Mesmo assim, estava sempre preparado: Vai acabar este mês, dizia a si mesmo. E depois, no fim do mês: Mês que vem. Ele não vai querer mais falar comigo no mês que vem. Tentava ficar num estado constante de prontidão; tentava se preparar para a decepção, mesmo ansiando para que lhe provassem que estava errado.

E ainda assim a amizade foi se desenrolando, como um rio longo e ligeiro que o houvesse capturado em sua corrente e o estivesse levando consigo para um lugar que ele não conseguia enxergar. Toda vez que chegava ao que pensava ser o limite da relação entre eles, Harold ou Julia abria as portas para outra sala e o convidava a entrar. Conheceu o pai de Julia, um pneumologista aposentado, e o irmão, professor de história da arte, quando vieram da Inglaterra para o Dia de Ação de Graças e, quando Harold e Julia iam a Nova York, levavam Willem e ele para jantar em lugares dos quais tinham ouvido falar, mas não tinham dinheiro para ir por conta própria. Visitaram o apartamento na Lispenard Street – Julia foi educada, Harold ficou horrorizado – e, na semana em que os aquecedores misteriosamente pararam de funcionar, deram-lhe as chaves de seu apartamento no Alto Manhattan, que era tão quente que ele e Willem passaram sua primeira hora no local sentados no sofá feito manequins, atordoados demais para se moverem, pela súbita reintrodução do calor em suas vidas. E, depois que Harold o viu em meio a um episódio de dor – isso foi no Dia de Ação de Graças depois que se mudara para Nova York, e em seu desespero (sabia que não conseguiria chegar ao andar de cima), desligou o fogão, onde estava salteando espinafre, e se arrastou até a despensa, fechando a porta e deitando no chão para esperar –, ele e Julia rearranjaram a casa, de modo que, em sua visita seguinte, ele encontrou o quarto de hóspedes realocado para a suíte do andar de baixo, atrás da sala de estar, onde antes ficava o escritório de Harold, e a mesa, as cadeiras e os livros de Harold levados para o segundo andar.

Ainda assim, mesmo depois de tudo isso, parte dele sempre esperava pelo dia em que chegaria diante de uma porta, giraria a maçaneta e ela não se abriria. Não se importava tanto com aquilo, necessariamente; havia algo assustador e aflitivo em estar num ambiente onde nada lhe era proibido, onde tudo lhe era oferecido e nada exigido em troca. Tentava dar a eles o que podia; sabia que não era muito. E as coisas que Harold lhe dava de mãos abertas – respostas, afeto –, ele não conseguia retribuir.

Certo dia, depois de conhecê-los por quase sete anos, visitava-os em sua casa na primavera. Era o aniversário de Julia; ela fazia cinquenta e um anos e, como estivera numa conferência em Oslo quando completara os cinquenta, decidira que aquela seria sua grande comemoração. Ele e Harold limpavam a sala de estar – ou melhor, ele limpava, e Harold tirava livros da estante aleatoriamente e contava histórias sobre como cada um deles fora parar ali, ou abria a capa para ler os nomes de outras pessoas escritos lá dentro, incluindo uma cópia de O leopardo em que se via na primeira página um garrancho que dizia: “Propriedade de Laurence V. Raleigh. Não pegue. Harold Stein, estou falando com você!!”

Ele ameaçara contar a Laurence, e Harold devolvera a ameaça:

– Melhor não fazer isso, Jude, se sabe o que é bom para você.

– E o que você vai fazer? – perguntara, provocando-o.

– Vou fazer... isto! – respondera Harold, pulando em cima dele e, antes que pudesse entender que o amigo só estava brincando, Jude recuara de maneira tão abrupta, retorcendo o corpo para evitar o contato, que acabara dando um esbarrão na estante e se chocando com uma caneca de cerâmica feita por Jacob, filho de Harold, que caiu no chão e se quebrou em três pedaços. Harold se afastara dele logo em seguida e um silêncio súbito e horroroso se instalara no ar, quase o levando às lágrimas.

– Harold – falou, agachando-se para recolher os pedaços –, mil desculpas, mil desculpas. Por favor, me perdoe.

Teve vontade de se jogar no chão; sabia que aquela fora a última coisa que Jacob fizera para Harold antes de adoecer. Acima de si, tudo o que ouvia era a respiração de Harold.

– Harold, por favor, me perdoe – repetiu, juntando os pedaços nas palmas das mãos. – Acho que posso consertar, posso dar um jeito. – Não conseguia erguer os olhos da caneca e de seu verniz brilhoso e amanteigado.

Sentiu Harold se agachar ao seu lado.

– Jude – disse Harold –, está tudo bem. Foi um acidente. – Sua voz estava bastante tranquila. – Me dê os cacos – falou, mas com gentileza, sem soar zangado.

Jude obedeceu.

– Posso ir embora – ofereceu.

– Mas é claro que não vai a lugar nenhum – disse Harold. – Está tudo bem, Jude.

– Mas era de Jacob – ouviu sua própria voz dizer.

– Sim – disse Harold. – E ainda é. – Colocou-se de pé. – Olhe para mim, Jude – falou, e ele finalmente ergueu a cabeça. – Está tudo bem. Vamos lá. – E Harold estendeu a mão, e ele a segurou, e Harold o ajudou a se levantar.

Sentiu vontade de urrar, de dizer que, depois de tudo que Harold lhe dera, seu modo de retribuir era destruindo algo precioso, criado pela pessoa mais preciosa.

Harold subiu para o escritório com a caneca nas mãos e ele terminou de limpar a sala em silêncio, com o belo dia se tornando cinza ao seu redor. Quando Julia voltou para casa, esperou até que Harold contasse a ela como ele fora estúpido e desajeitado, mas isso não aconteceu. Naquela noite, durante o jantar, Harold agiu do mesmo modo de sempre, mas, quando voltou a Lispenard Street, Jude escreveu uma carta de verdade, séria, se desculpando de maneira adequada, e mandou para ele.

Alguns dias depois recebeu a resposta, também em forma de uma carta de verdade, que ele guardaria pelo resto da vida.

“Caro Jude”, escreveu Harold. “Agradeço por sua bela (ainda que desnecessária) carta. Aprecio tudo o que escreveu. Você tem razão; a caneca tem bastante valor para mim. Mas você tem mais. Então, por favor, pare de se torturar.

“Se eu fosse outro tipo de pessoa, poderia dizer que todo esse incidente é uma metáfora da vida em geral: as coisas se quebram, às vezes podem ser consertadas, e, na maioria dos casos, você percebe que, independentemente do que é danificado, a vida se rearranja para compensar sua perda, às vezes de forma maravilhosa.

“Na verdade... talvez no fim eu seja esse tipo de pessoa.

“Com amor, Harold.”

–

Não fazia muitos anos – apesar de saber que aquilo não aconteceria, apesar do que lhe dizia Andy desde seus dezessete anos – que ele ainda mantinha uma esperança pequena e constante de um dia se recuperar. Em dias especialmente ruins, repetia para si mesmo as palavras do cirurgião de Filadélfia – “A coluna tem um poder de regeneração espetacular” – quase como um mantra. Alguns anos após conhecer Andy, enquanto frequentava a faculdade de direito, finalmente reunira a coragem para sugerir aquilo ao médico, dizendo em voz alta a profecia que acalentara e à qual se agarrara, esperando que Andy fosse concordar e dizer: “É isso mesmo. Só vai levar algum tempo.”

Mas Andy bufara.

– Ele falou isso para você? – perguntou. – Não vai melhorar, Jude; à medida que for envelhecendo, só vai piorar.

Andy olhava para seus tornozelos enquanto falava, usando pinças para retirar pedaços de pele morta de uma ferida que ele desenvolvera, quando congelou de repente, e mesmo sem conseguir ver o rosto de Andy, Jude sabia que ele estava mortificado.

– Lamento, Jude – falou, erguendo o olhar, ainda segurando o pé dele com a mão. – Lamento não poder dizer outra coisa. – Diante do silêncio de Jude, acrescentou: – Você ficou chateado.

Ficara, é claro.

– Estou bem – conseguiu dizer, mas não tinha forças para olhar para Andy.

– Lamento muito, Jude – repetiu Andy em voz baixa. O médico só tinha duas atitudes, mesmo naquela época: ríspido e amável, e Jude as testemunhava com frequência, às vezes na mesma consulta. – Mas uma coisa eu posso prometer – falou, voltando ao seu tornozelo. – Sempre estarei aqui para cuidar de você.

E sempre estivera. De todas as pessoas em sua vida, Andy era, de certa forma, a que mais sabia sobre ele: Andy era a única pessoa diante da qual ficara nu depois de adulto, o único que tinha familiaridade com cada dimensão física de seu corpo. Andy era residente quando se conheceram e ficara em Boston para fazer sua especialização, e também a pós-especialização, e depois os dois se mudaram para Nova York num intervalo de poucos meses entre um e outro. Ele era cirurgião ortopédico, mas tratava de Jude no que quer que precisasse, de bronquites a seus problemas nas costas e nas pernas.

– Uau – disse Andy, casualmente, quando Jude sentou em seu consultório um dia todo encatarrado (isso fora na primavera anterior, quando uma epidemia de bronquite se espalhara pelo escritório). – Fico feliz em ter me especializado em ortopedia. Isto aqui é uma bela prática para mim. Era exatamente no que eu pensava em aplicar o meu treinamento.

Jude começou a rir, mas sua tosse atacou outra vez, e Andy bateu em suas costas.

– Talvez se alguém me recomendasse um clínico geral, eu não precisaria ficar vindo a um quiroprático sempre que preciso de um médico – falou.

– Humm – disse Andy. – Sabe de uma coisa? Talvez você realmente devesse começar a se consultar com um clínico geral. Só deus sabe quanto tempo isso me pouparia, além de uma porrada de dores de cabeça.

Mas ele nunca foi a nenhum outro médico além de Andy, e acreditava – por mais que nunca tivessem conversado sobre o assunto – que Andy também não iria querer isso.

Apesar de tudo que Andy sabia sobre ele, Jude sabia relativamente pouco de Andy. Sabia que os dois haviam frequentado a mesma universidade e que Andy era uma década mais velho que ele, e que o pai de Andy era gujarati e sua mãe, galesa, e que crescera em Ohio. Três anos antes, Andy havia se casado, e Jude ficara surpreso ao ser convidado para a cerimônia, uma festa pequena na casa dos sogros de Andy no Upper East Side. Obrigara Willem a acompanhá-lo e ficara ainda mais surpreso quando a noiva de Andy, Jane, jogara os braços ao redor dele ao serem apresentados e falara:

– Este é o famoso Jude St. Francis! Ouvi falar muito de você!

– Ah, é mesmo? – dissera ele, e sua mente se enchera de temor, como uma revoada de morcegos batendo as asas.

– Mas não é nada de ruim – tranquilizara-o Jane, sorrindo (ela também era médica, ginecologista). – Ele adora você, Jude. Estou tão feliz por ter vindo.

Conhecera também os pais de Andy e, no fim da noite, Andy jogara um dos braços em volta do seu pescoço e lhe dera um beijo forte e embaraçoso na bochecha, um gesto que agora repetia toda vez que os dois se viam. Andy sempre parecia incomodado em fazer aquilo, mas ao mesmo tempo parecia se sentir obrigado a continuar com o hábito, o que ele achava engraçado e comovente.

Jude gostava de Andy por vários motivos, mas o que mais admirava era sua imperturbabilidade. Depois de se conhecerem, depois de Andy dificultar o afastamento de Jude indo até o Hood e batendo à sua porta depois que faltara a duas consultas seguidas (não havia esquecido; simplesmente decidira não ir) e ignorara três ligações e quatro e-mails, ele passara a aceitar o fato de que talvez não fosse assim tão ruim ter um médico – afinal, parecia inevitável – e que Andy talvez fosse alguém em quem pudesse confiar. Na terceira vez que se viram, Andy anotou seu histórico, ou o que lhe foi informado, e registrou os fatos que Jude contava, sem qualquer comentário ou reação.

Foi somente anos mais tarde – pouco mais de quatro anos atrás – que Andy mencionara diretamente a infância dele. Isso acontecera durante a primeira grande briga entre os dois. Tinham lá suas rusgas, é claro, e desavenças, e uma ou duas vezes por ano Andy lhe passava um longo sermão (ele se consultava com Andy a cada seis semanas – embora com mais frequência atualmente – e sempre sabia qual seria a Consulta do Sermão pela rispidez com que Andy o recebia e conduzia o exame) sobre o que Andy via como uma má vontade desconcertante e irritante da parte de Jude em cuidar de si mesmo, sua recusa enlouquecedora em se consultar com um terapeuta, e sua relutância bizarra em tomar os analgésicos que provavelmente melhorariam sua qualidade de vida.

A briga girara em torno do que Andy considerara, relembrando o passado, ter sido uma tentativa malsucedida de suicídio. Acontecera pouco antes da noite de Ano-Novo: Jude estava se cortando, cortou bem próximo de uma veia, o que resultou numa enorme bagunça, com sangue para todos os lados, e se vira forçado a envolver Willem. Naquela noite, Andy se recusara a falar com ele no consultório, de tão zangado que estava, e chegara a ficar balbuciando para si mesmo enquanto costurava os pontos, cada um deles tão preciso e minúsculo que parecia bordá-los.

Jude sabia, antes mesmo antes de Andy abrir a boca na consulta seguinte, que o médico estava furioso. Chegara a pensar em nem aparecer para o exame, mas sabia que, se faltasse, Andy simplesmente telefonaria para ele sem parar – ou pior, para Willem, ou ainda pior, para Harold – até ele aparecer.

– Deveria ter mandado você para a porra de um hospital – foram as primeiras palavras de Andy aquele dia, seguidas por: – Sou um puta de um idiota.

– Acho que está exagerando – começara ele, mas Andy o ignorara.

– Acontece que acredito que você não estava tentando se matar, pois, caso contrário, eu teria mandado interná-lo tão rápido que sua cabeça iria girar – dissera. – Mas só porque, estatisticamente, alguém que se corta com a frequência com que você se corta, e durante tantos anos, tem menor risco de suicídio do que alguém que se automutila de maneira menos consistente. – (Andy gostava de estatísticas. Jude desconfiava que ele às vezes as inventava.) – Mas, Jude, isso é loucura, e você passou bem perto dessa vez. Ou você começa a se consultar com um psicólogo imediatamente, ou vou mandar interná-lo.

– Não pode fazer isso – falara, enfurecendo-se também, embora soubesse que Andy podia fazer aquilo: dera uma olhada nas leis de internação involuntária no estado de Nova York e elas não lhe eram favoráveis.

– Sabe muito bem que posso – dissera Andy. Estava quase gritando àquela altura. Suas consultas sempre ocorriam após o horário de atendimento normal, pois às vezes os dois ficavam batendo papo quando Andy tinha tempo e estava de bom humor.

– Eu processo você – ameaçara.

E Andy gritara de volta:

– Pode ir em frente! Você tem ideia da doideira que está fazendo, Jude? Tem ideia da situação em que está me colocando?

– Não se preocupe – respondera sarcasticamente. – Eu não tenho família. Ninguém vai processar você por erro médico.

Andy dera um passo para trás, como se Jude tivesse tentado golpeá-lo.

– Como ousa dizer uma coisa dessas – falara lentamente. – Sabe que não foi isso o que eu quis dizer.

É claro que sabia. Mas o que respondera fora:

– Dane-se. Vou embora.

E desceu da maca (por sorte, não havia se despido; Andy começara a lhe passar o sermão antes que tivesse a chance de começar) e tentava sair da sala, embora sair da sala em seu ritmo não era algo lá muito dramático, quando Andy correu para bloquear a porta.

– Jude – falou, numa de suas mudanças repentinas de humor. – Sei que você não quer ir. Mas isso tudo está se tornando preocupante. – Respirou fundo. – Você alguma vez já conversou com alguém sobre o que aconteceu com você quando era garoto?

– Isso não tem nada a ver com nada – rebatera, sentindo frio. Andy nunca fizera qualquer tipo de menção ao que Jude lhe contara, e fazê-lo agora era como uma traição.

– O escambau que não! – dissera Andy, e a teatralidade estudada daquela frase (Será que alguém falava daquele jeito a não ser em filmes?) o fez sorrir a contragosto, e Andy, interpretando o sorriso como zombaria, mudou novamente de direção. – Tem algo de muito arrogante na sua teimosia, Jude – continuou. – Sua recusa absoluta em dar ouvidos a qualquer um no que se refere à sua saúde ou ao seu bem-estar é um caso patológico de autodestruição ou então um enorme “vão se foder” a todos nós.

Aquelas palavras o magoaram.

– E há também algo inacreditavelmente manipulador em você ameaçar de me internar sempre que discordo das suas ideias, especialmente nesse caso, quando já falei que foi um acidente idiota – vociferou contra Andy. – Andy, eu gosto de você, de verdade. Não sei o que faria sem você. Mas já sou adulto e você não pode dar ordens sobre o que devo ou não devo fazer.

– Quer saber do que mais, Jude? – perguntara Andy (e agora voltara a gritar). – Você está certo. Não posso controlar suas decisões. Mas também não preciso aceitá-las. Vá procurar outro babaca para ser seu médico. Estou fora.

Continuar: parte 4 de 4