Uma Vida Pequena

Hanya Yanagihara · Capítulo 4 de 19 · parte 2/4

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Uma Vida Pequena

II. O Pós-Homem

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Ela não parecia ter raiva, mas suas palavras, sim, e ele fechou os olhos, impressionado e um pouco assustado ao perceber que as coisas que aconteceram a ele – logo a ele! – poderiam inspirar tamanha ira, tamanha indignação.

Ana cuidou de sua transferência para um novo lar, seu último lar: a casa dos Douglass. Eles tinham outras duas meninas, também adotadas, ambas bem novas – Rosie tinha oito anos e era portadora de síndrome de Down, Agnes tinha nove e espinha bífida. A casa era um labirinto de rampas feias, mas robustas e planas, e diferentemente de Agnes, ele conseguia se movimentar com a cadeira de rodas sem precisar pedir ajuda.

Os Douglass eram luteranos evangélicos, mas não o obrigavam a acompanhá-los à igreja.

– São boas pessoas – disse Ana. – Não vão pegar no seu pé, e você estará seguro aqui. Acha que consegue rezar antes das refeições em troca de um pouquinho de privacidade e segurança? – Ela olhou para ele e sorriu. Ele fez que sim com a cabeça. – Além do mais –acrescentou –, sempre pode me ligar quando quiser falar de pecados.

E assim foi: passava mais tempo aos cuidados de Ana do que aos dos Douglass. Dormia na casa, comia por lá, e quando começou a aprender a andar com as muletas, era o Sr. Douglass quem sentava numa cadeira do lado de fora do banheiro, pronto para acudi-lo caso ele escorregasse e caísse ao entrar ou sair da banheira (ainda não conseguia manter o equilíbrio a ponto de tomar banho no chuveiro, nem mesmo com o andador). Mas era Ana quem o levava para a maioria de suas consultas médicas, e também quem esperava nos fundos do quintal de sua casa, com um cigarro na boca, enquanto ele dava seus primeiros passos lentos na direção dela, e ainda quem finalmente conseguiu convencê-lo a botar no papel o que acontecera com o Dr. Traylor, evitando assim que precisasse testemunhar no tribunal. Ele dissera que poderia ir até lá, mas Ana alegara que ele ainda não estava pronto e que tinham provas suficientes para colocar o Dr. Traylor atrás das grades por muitos anos, mesmo sem o seu testemunho. Ouvindo isso, pôde admitir seu alívio: alívio por não ter de dizer em voz alta palavras que não sabia como dizer, e principalmente por não ter de ver o Dr. Traylor outra vez. Quando finalmente deu o seu depoimento a Ana – escrito da forma mais clara possível, imaginando ao fazê-lo que na verdade estava falando de outra pessoa, alguém que conhecera antes, mas com quem nunca mais precisaria falar –, ela o leu uma vez, impassível, antes de acenar com a cabeça para ele.

– Perfeito – disse Ana bruscamente, dobrando o papel e colocando-o de volta no envelope. – Bom trabalho – acrescentou, e então repentinamente se pôs a chorar, quase incontrolavelmente, incapaz de segurar as lágrimas.

Dizia algo, mas chorava tanto que ele não conseguia entendê-la, até que finalmente ela foi embora, embora tenha telefonado naquela noite para se desculpar.

– Perdão, Jude – disse ela. – Não fui nada profissional hoje. Depois de ler o que você escreveu, não consegui... – Ela ficou em silêncio por alguns instantes e depois respirou fundo. – Não vai acontecer outra vez.

Também foi Ana quem, depois que os médicos determinaram que Jude não teria forças para frequentar a escola, encontrou um tutor para que ele pudesse concluir o ensino médio, e foi ela quem o fez pensar em entrar na universidade.

– Você é muito esperto, sabia? – falou. – Poderia ir para a faculdade quisesse. Conversei com alguns dos seus professores em Montana, e eles acham o mesmo. Já pensou nisso? Já? Onde gostaria de estudar?

E quando ele deu a resposta, preparando-se para ouvi-la cair no riso, ela apenas acenou com a cabeça.

– Não vejo por que não.

– Mas – começou ele – você acha que eles aceitariam alguém como eu?

Mais uma vez, ela não caiu no riso.

– É verdade, você não teve uma educação das mais... tradicionais – ela sorriu para ele –, mas se saiu muito bem nos exames e, embora provavelmente não acredite nisso, juro que sabe mais do que a maioria, se não todos os garotos da sua idade. – Ela suspirou. – No fim das contas, talvez você possa agradecer ao Irmão Luke por alguma coisa. – Ela estudou seu rosto. – Então não vejo por que não.

Ela o ajudou com tudo: escreveu uma de suas recomendações, deixou que usasse seu computador para digitar sua dissertação (ele não escreveu sobre o ano anterior; escreveu sobre Montana, e como aprendera a procurar por brotos de mostarda e cogumelos em suas matas) e até pagou sua taxa de inscrição.

Quando foi aceito – com um bolsa integral, como previra Ana – ele lhe disse que fora tudo por causa dela.

– Besteira – respondeu Ana. Ela estava tão doente àquela altura que tudo o que pôde fazer foi sussurrar. – Você conseguiu por seus próprios méritos.

Mais tarde, ele relembraria os meses anteriores e veria, como se destacados por um holofote, os sinais da doença dela, e como, em sua estupidez e egoísmo, ele deixara de perceber cada um: a perda de peso, os olhos amarelados, a fadiga, tudo que ele atribuíra a... o quê?

– Não deveria fumar – dissera a ela dois meses antes, confiante o bastante em sua companhia para começar a lhe dar ordens; ela era o primeiro adulto com quem ele falava assim.

– Tem razão – respondeu Ana, e apertou os olhos para ele dando um longo trago, sorrindo quando ele suspirou.

Mesmo então, ela não desistia.

– Jude, deveríamos conversar sobre aquele assunto – dizia ela num intervalo de alguns dias. Mas quando ele balançava a cabeça, ela ficava em silêncio. – Amanhã, então – negociava. – Promete? Amanhã conversamos.

– Não sei por que tenho de falar sobre aquilo – balbuciou certa vez para ela. Ele sabia que ela lera seus arquivos de Montana; sabia que ela sabia o que ele era.

Ela ficou em silêncio.

– Uma coisa eu aprendi – disse. – Precisamos falar sobre as coisas enquanto estão frescas. Ou nunca falaremos. Vou ensinar você a falar sobre elas, pois vai ficar cada vez mais difícil quanto mais você adiar, e isso vai apodrecer por dentro, e você sempre irá se culpar. Estará equivocado, é claro, mas sempre pensará assim.

Não sabia como responder, mas, no dia seguinte, quando ela levantou a questão mais uma vez, ele balançou a cabeça e lhe deu as costas, por mais que ela o tenha chamado.

– Jude – disse ela uma vez –, já deixei você passar muito tempo sem falar sobre isso. A culpa é minha.

E, em outra ocasião, pediu:

– Faça por mim, Jude.

Mas ele não conseguia; não conseguia encontrar o idioma certo para falar do assunto, nem mesmo com ela. Além do mais, não queria reviver aqueles anos. Queria esquecê-los, fingir que pertenciam a outra pessoa.

Quando junho chegou, ela estava tão fraca que nem conseguia sentar. Quatorze meses depois de se conhecerem, agora era ela quem estava numa cama e ele quem sentava ao seu lado. Leslie trabalhava no hospital durante o turno da manhã, então os dois muitas vezes ficavam sozinhos em casa.

– Ouça – disse Ana. A garganta estava seca por causa de um dos remédios, e ela estremecia ao falar. Ele estendeu o braço para pegar a jarra de água, mas ela balançou a mão, impaciente. – Leslie vai levar você para fazer compras antes da sua partida; preparei uma lista para ela com todas as coisas de que você vai precisar. – Ele começou a protestar, mas ela o interrompeu. – Não discuta, Jude. Não tenho forças para isso.

Ela engoliu em seco. Ele esperou.

– Você vai se sair muito bem na universidade – disse ela. Ana fechou os olhos. – Os outros garotos vão perguntar sobre o seu passado, já pensou nisso?

– Mais ou menos – disse ele. Era tudo no que pensava.

– Humpf – grunhiu ela. Também não acreditara no que ele acabara de falar. – O que vai dizer? – E então abriu os olhos e virou-se para ele.

– Não sei – admitiu.

– Ah, sim – respondeu ela. Os dois ficaram em silêncio. – Jude – começou Ana, e então parou. – Você vai encontrar seu próprio jeito de falar sobre as coisas que aconteceram. Terá de encontrar, se um dia quiser ser íntimo de alguém. Mas a sua vida... não importa o que pense, você não tem nada do que se envergonhar, e nada foi culpa sua. Vai se lembrar disso?

Aquilo foi o mais próximo que chegaram de conversar não somente sobre o que se passara no ano anterior, mas também nos anos que o precederam.

– Sim – disse a ela.

Ana o olhou fixamente.

– Prometa.

– Eu prometo.

Mas nem mesmo naquele momento ele conseguiu acreditar nela.

Ela suspirou.

– Eu devia ter feito você falar mais – afirmou.

Foi a última coisa que Ana disse a ele. Duas semanas depois – no dia 3 de julho – ela morreu. O funeral foi na semana seguinte. Na época, ele conseguira um emprego de verão numa padaria local, onde ficava sentado na sala dos fundos cobrindo bolos com glacê, e, nos dias após o funeral, ficava até tarde da noite no seu posto de trabalho, cobrindo bolo atrás de bolo com glacê rosa, tentando não pensar nela.

No final de julho, os Douglass se mudaram: o Sr. Douglass conseguira um novo emprego em San Jose, e eles levariam Agnes junto; Rosie iria para uma nova família. Ele gostava dos Douglass, mas, quando eles lhe disseram para manter contato, Jude sabia que aquilo não aconteceria – estava desesperado para se afastar daquela vida, da vida que tivera; queria ser alguém que ninguém conhecesse e que não conhecesse ninguém.

Foi colocado num abrigo de emergência. Era assim que o Estado o chamava: abrigo de emergência. Ele argumentara que já tinha idade para ser deixado por conta própria (imaginara, também segundo um raciocínio ilógico, que poderia dormir na sala dos fundos da padaria) e que, de qualquer forma, iria embora dali em dois meses, estaria fora do sistema, mas ninguém concordou com ele. O abrigo era um dormitório, uma colmeia cinzenta caindo aos pedaços, habitada por outros garotos para os quais – devido ao que fizeram, ao que lhes fora feito ou simplesmente pela idade – o Estado não conseguia encontrar um lugar.

Quando chegou seu momento de ir embora, lhe deram um pouco de dinheiro para comprar material escolar. Tinham, como o próprio Jude reconhecia, um vago orgulho dele; podia não ter ficado no sistema por muito tempo, mas estava a caminho da universidade, e uma universidade importante, por sinal – no futuro, ele seria sempre classificado como um de seus casos de sucesso. Leslie o levou até a loja de saldos militares. Perguntou-se, enquanto escolhia as coisas de que poderia precisar – dois agasalhos, três camisas de manga comprida, calças, uma manta cinza que lembrava o enchimento inchado que o sofá do saguão do abrigo vomitava – se estava comprando as coisas certas, as coisas que constariam na lista de Ana. Não conseguia parar de pensar que havia algo mais naquela lista, algo essencial que Ana achava que ele precisaria e que agora ele nunca saberia. Durante a noite, sentia falta daquela lista, às vezes mais até do que a falta de Ana; podia visualizá-la em sua mente, com as letras maiúsculas esquisitas que ela colocava aleatoriamente na mesma palavra, a lapiseira que sempre usava, os blocos amarelos, remanescentes de seus anos na advocacia, em que fazia suas anotações. Às vezes as letras se solidificavam em palavras e, nos sonhos, ele se sentia triunfante; ah, pensava, mas é claro! É claro que é disso que preciso! É claro que Ana sabia! Mas, na manhã seguinte, já não lembrava mais que coisas eram aquelas. Naqueles momentos, desejava contraditoriamente nunca a ter conhecido, pois era pior tê-la ao seu lado por um tempo tão curto do que jamais tê-la em sua vida.

Deram-lhe uma passagem de ônibus para o norte; Leslie foi à rodoviária se despedir. Ele guardara todas suas coisas num saco plástico preto e depois o colocara dentro da mochila que comprara na loja de artigos militares: todas suas posses num só pacote bem-arrumado. No ônibus, fitou a paisagem pela janela sem pensar em nada. Torceu para que suas costas não o traíssem na viagem, e elas não o fizeram.

Ele fora o primeiro a chegar ao quarto, e quando o segundo garoto – Malcolm – entrou com os pais e malas e alto-falantes e uma televisão e telefones e computadores e a geladeira e uma flotilha de engenhocas digitais, ele sentira as primeiras sensações de um medo vertiginoso, e depois de raiva, direcionadas irracionalmente a Ana: como podia tê-lo feito acreditar que estava preparado para aquilo? Quem poderia dizer que estava? Por que ela nunca lhe falara exatamente o quanto ele era pobre, o quanto era feio, e como sua vida era um farrapo ensanguentado e imundo? Por que o deixara acreditar que seu lugar era ali?

À medida que os meses foram passando, aquela sensação esmaeceu, ainda que nunca tenha desaparecido por completo; continuava viva dentro dele feito uma fina camada de mofo. Mas, ao passo que aquilo se tornou mais aceitável, outra coisa se tornou menos: ele começou a perceber que ela fora a primeira e a última pessoa a quem nunca precisaria explicar nada. Ela sabia que ele vestia sua vida na pele, que sua biografia estava escrita em sua carne e em seus ossos. Ana jamais perguntaria a ele por que não usava camisas de manga curta, mesmo quando fazia um calor insuportável, ou por que não gostava de ser tocado, ou, mais importante ainda, o que acontecera às suas pernas e costas: ela já sabia. Ao seu lado, nunca sentira a aflição constante e nem a vigilância às quais parecia condenado a sentir perto de qualquer outra pessoa; aquele estado de alerta era algo exaustivo, mas, no fim, acabou simplesmente se tornando uma parte da vida, um hábito como manter uma boa postura. Certa vez, ela abrira os braços para (ele só entenderia depois) abraçá-lo, mas ele instintivamente cobrira a cabeça com as mãos para se proteger, e embora tenha ficado envergonhado, ela não o fizera se sentir bobo ou exagerado.

– Sou uma idiota, Jude – fora o que dissera. – Me desculpe. Prometo que não farei mais nenhum movimento brusco.

Mas agora ela se fora e ninguém o conhecia. Seus registros foram lacrados. No primeiro Natal, Leslie lhe enviara um cartão, repassado a ele pelo escritório de apoio ao aluno, que Jude guardara por dias até finalmente jogá-lo no lixo. Ele nunca respondeu o cartão e nunca mais voltou a ter notícias de Leslie. Era uma vida nova. Estava decidido a não a arruinar.

Ainda assim, às vezes se lembrava das últimas conversas que tivera com Ana, reencenando-as em voz alta. Fazia isso sempre à noite, enquanto seus colegas de quarto – em diversas configurações, dependendo de quem estava no quarto no momento – dormiam na cama de cima e do lado.

– Não deixe esse silêncio se tornar um hábito – alertara ela antes de morrer. E: – Não há mal algum em ficar com raiva, Jude. Não precisa esconder.

Ela estava enganada a seu respeito, Jude sempre pensou; ele não era o que ela pensava que era.

– Você está destinado ao sucesso, garoto – dissera ela uma vez, e ele queria acreditar, por mais que não conseguisse.

Mas ela estava certa em relação a uma coisa: cada vez ficava mais e mais difícil. Ele se culpava. E embora tentasse a cada dia se recordar do que prometera a ela, a cada dia sua promessa ficava mais distante, até se tornar apenas uma lembrança, assim como Ana, uma personagem querida de um livro que lera muito tempo atrás.

–

– Existem dois tipos de pessoa no mundo – costumava dizer o juiz Sullivan. –

Os que tendem a acreditar, e os que não. No meu tribunal, valorizamos quem acredita. E quem acredita em todas as coisas.

Fazia aquela declaração com frequência para, em seguida, se levantar grunhindo – era muito gordo – e sair a passos lentos. Aquilo normalmente ocorria no final do expediente – o expediente de Sullivan, pelo menos –, quando saía de seu escritório para conversar com seus assistentes, sentando na beira da mesa de um deles e fazendo sermões muitas vezes obscuros, intercalados com pausas frequentes, como se os assistentes não fossem advogados, mas escrivães, e devessem anotar suas palavras. Mas ninguém anotava, nem mesmo Kerrigan, um verdadeiro devoto e o mais conservador dos três.

Quando o juiz saía, ele sorria do outro lado da sala para Thomas, que olhava para cima num gesto de resignação e lamento. Thomas também era conservador, mas “um conservador que pensa”, gostava de lembrar, “e só o fato de ter que fazer essa distinção é desanimador pra caralho”.

Ele e Thomas haviam começado a trabalhar para o juiz no mesmo ano, e quando fora abordado pelo comitê de contratação informal do juiz – na verdade, seu professor de direito corporativo, um velho amigo do juiz – durante a primavera de seu segundo ano na faculdade de direito, fora Harold quem o incentivara a se candidatar. Sullivan era conhecido entre seus colegas juízes por sempre contratar algum assistente cujas visões políticas divergissem das suas, e quanto mais, melhor. (Seu último assistente liberal acabaria trabalhando para um grupo de defesa ao direito de soberania do Havaí, que defendia a secessão da ilha dos Estados Unidos, um passo profissional que provocara um ataque de autossatisfação apoplética no juiz.)

– Sullivan me odeia – dissera-lhe Harold na época, soando feliz. – Vai contratar você só para me contrariar. – Ele sorriu, saboreando a ideia. – E porque você é o aluno mais brilhante que já tive – acrescentou.

O elogio o fez olhar para o chão: os elogios de Harold normalmente chegavam a ele por meio de outros, quase nunca eram feitos de maneira direta.

– Não sei se sou liberal o bastante para ele – respondera.

Com certeza não era liberal o bastante para Harold; aquele era um dos pontos – suas opiniões; o modo como interpretava a lei; como ele a aplicava à vida – sobre os quais discutiam.

Harold apenas resfolegou.

– Confie em mim – disse ele. – Você é.

Mas quando foi a Washington para a entrevista no ano seguinte, Sullivan falara sobre direito – e sobre filosofia política – com muito menos vigor e especificidade do que ele havia esperado.

– Ouvi dizer que você canta – disse Sullivan após uma hora de conversa sobre o que ele estudara (o juiz frequentara a mesma faculdade de direito que ele), sua função como editor de artigos no jornal de direito estudantil (a mesma que o juiz exercera) e sua opinião sobre alguns casos recentes.

– É verdade – respondeu, tentando imaginar como o juiz ficara sabendo. Cantar era seu consolo, mas raramente o fazia na frente dos outros. Teria ele cantado no escritório de Harold e alguém o ouvira? Ele às vezes cantava na biblioteca de direito, quando colocava os livros de volta nas prateleiras tarde da noite e o lugar ficava silencioso e calmo como uma igreja – teria alguém o ouvido ali?

– Cante algo para mim – disse o juiz.

– O que o senhor gostaria de ouvir? – perguntou. Normalmente ficaria muito mais nervoso, mas fora alertado previamente que o juiz pediria que fizesse algum tipo de interpretação (dizia a lenda que um dos candidatos anteriores tivera que fazer malabares), e Sullivan era um conhecido amante de ópera.

O juiz levou os dedos gordos a seus lábios gordos e pensou.

– Hummm – falou. – Cante uma música que me diga alguma coisa sobre você.

Ele pensou um pouco e então se pôs a cantar. Ficou surpreso em ouvir o que escolhera – “Ich bin der Welt abhanden gekommen”, de Mahler –, tanto porque não gostava muito de Mahler quanto porque o lied era difícil de se cantar, lento, lúgubre e sutil, impróprio para um tenor. Mas ele gostava do poema em si, do qual seu instrutor de voz na universidade desdenhara como “romantismo de segunda classe”, mas que ele sempre achara sofrer injustamente por uma tradução ruim. A interpretação tradicional da primeira linha era “Estou perdido para o mundo”, mas ele a lia como “Eu me tornei perdido para o mundo”, que, na sua opinião, era menos autocompadecida, menos melodramática, e mais resignada, mais confusa. Eu me tornei perdido para o mundo / No qual, no entanto, desperdicei tanto tempo. O lied tratava da vida de um artista, o que ele definitivamente não era. Mas podia compreender, de maneira quase primitiva, o conceito de perda, de se libertar do mundo, de desaparecer e ir para um lugar diferente, um lugar de retiro e proteção, dos desejos geminados de fuga e descoberta. Não significa nada para mim / Se o mundo acreditar que estou morto / Não posso refutar tal coisa / Pois, na verdade, não faço mais parte do mundo.

Quando terminou, abriu os olhos e viu o juiz aplaudindo e sorrindo.

– Bravo – disse ele. – Bravo! Mas acho que você errou completamente de profissão. – Ele sorriu outra vez. – Onde aprendeu a cantar desse jeito?

– Com os irmãos, senhor – respondeu.

– Ah, você é católico? – perguntou o juiz, ajeitando-se obesamente na cadeira e parecendo pronto para ouvir a resposta que o deixaria feliz.

– Fui criado como católico – começou.

– Mas hoje não é mais? – perguntou o juiz, franzindo as sobrancelhas.

– Não – respondeu. Esforçara-se por anos para manter o tom de desculpa ausente de sua voz ao dizer aquilo.

Sullivan soltou um grunhido descompromissado.

– Bem, o que quer que eles tenham lhe ensinado deve ter proporcionado ao menos alguma espécie de proteção contra as coisas que Harold Stein vem colocando na sua cabeça nestes últimos anos – falou. Olhou para seu currículo. – Você trabalha para ele como ajudante de pesquisa?

– Sim – disse Jude. – Há mais de dois anos.

– Uma mente brilhante, desperdiçada – declarou Sullivan (não ficou claro se ele quis dizer a dele ou a de Harold). – Obrigado por ter vindo, vamos entrar em contato com você. E obrigado pelo lied; você tem uma das mais belas vozes tenores que ouvi num bom tempo. Tem certeza de que está na área certa? – perguntou, abrindo um sorriso. Seria a última vez que Jude veria Sullivan sorrir com tanto prazer e sinceridade.

De volta a Cambridge, ele contou a Harold sobre a entrevista (“Você canta?”, perguntou Harold, como se Jude acabasse de lhe dizer que podia voar), mas tinha certeza de que não conseguiria o cargo. Uma semana depois, Sullivan telefonou: o emprego era dele. Jude ficou surpreso, mas Harold, não.

– Eu lhe falei – disse ele.

No dia seguinte, foi ao escritório de Harold como sempre fazia, mas o professor estava de casaco, pronto para sair.

– O trabalho está suspenso por hoje – anunciou. – Preciso que venha comigo, temos algumas missões na rua. – Aquilo era incomum, mas Harold era incomum. Na calçada, o professor lhe ofereceu a chave do carro: – Quer dirigir?

– Claro – respondeu, acomodando-se no banco do motorista.

Aquele era o carro no qual aprendera a dirigir, um ano antes, com Harold ao seu lado, muito mais paciente fora da sala de aula do que dentro dela.

– Isso mesmo – dizia. – Solte um pouquinho mais a embreagem... isso. Muito bom, Jude, muito bom.

Harold tinha de buscar algumas camisas que deixara para ajustar, e os dois partiram rumo à loja masculina pequena e cara na esquina da praça, onde Willem trabalhara em seu último ano de universidade.

– Entre comigo – instruiu Harold –, vou precisar de ajuda para carregar as roupas.

– Por deus, Harold, quantas camisas você comprou? – perguntou ele.

Harold tinha um guarda-roupa imutável formado por camisas azuis, camisas brancas, calças de veludo cotelê marrons (para o inverno), calças de linho (para a primavera e o verão) e agasalhos em vários tons de verde e azul.

– Silêncio – disse Harold.

Lá dentro, Harold saiu à procura de um vendedor, enquanto ele aguardava, passando os dedos pelas gravatas em suas caixas, enroladas e lustrosas feito doces numa confeitaria. Malcolm lhe dera dois de seus ternos de algodão, os quais ajustara e usara até o limite em seus dois estágios de verão, mas tivera de pegar o terno do amigo emprestado para a entrevista com Sullivan, e tentara se mover com cuidado por todo o tempo em que esteve com ele, ciente de sua grandeza e da qualidade da lã.

– É ele – ouviu Harold dizer, e quando se virou, o professor estava ao lado de um homem baixinho com uma fita métrica pendurada no pescoço feito uma serpente. – Precisa de dois ternos: um cinza-escuro e um azul-marinho. E vamos escolher para ele uma dúzia de camisas, alguns agasalhos, umas gravatas, meias, sapatos: ele não tem nada. – Para Jude, falou: – Esse é o Marco. Estarei de volta em duas horas, mais ou menos.

– Espere – disse ele. – Harold. O que está fazendo?

– Jude – disse Harold –, você precisa de roupas. Não sou nenhum especialista nesse campo, mas você não pode aparecer no tribunal de Sullivan vestindo o que veste hoje.

Jude ficou envergonhado: por suas roupas, por sua inadequação, pela generosidade de Harold.

– Eu sei – disse. – Mas não posso aceitar isso, Harold.

E teria insistido, mas Harold se colocou entre ele e Marco e o fez virar.

– Jude – falou –, aceite. Você mereceu. Mais ainda, você precisa. Não vou deixar você me humilhar na frente de Sullivan. Além disso, já está pago e não vão me dar meu dinheiro de volta. Certo, Marco? – gritou às suas costas.

– Certo – respondeu Marco de imediato.

– Ah, pare com isso, Jude – disse Harold, quando o viu abrir a boca. – Tenho de ir. – E saiu marchando sem olhar para trás.

E assim ele se viu diante do espelho triplo, observando o reflexo de Marco trabalhando em seus tornozelos, mas, quando Marco chegou à perna para medir a costura interna, ele se esquivou por instinto.

– Calma, calma – disse Marco, como se Jude fosse um cavalo agitado, e deu uns tapinhas em sua coxa, ainda como se fosse um cavalo, e quando ele deu outro meio coice involuntário no momento em que Marco media a segunda perna, ouviu o vendedor dizer: – Ei, estou com alfinetes na boca.

– Desculpe – falou, tentando permanecer parado.

Quando Marco terminou, ele olhou para si mesmo em seu novo terno: ali estava o anonimato, a proteção. Mesmo se alguém acidentalmente esbarrasse em suas costas, estava vestido sob tantas camadas que ninguém conseguiria sentir as cicatrizes por baixo. Estava tudo coberto, tudo escondido. Se estivesse parado, poderia ser qualquer um, alguém inexpressivo e invisível.

– Talvez mais um centímetro – disse Marco, beliscando a parte de trás do paletó na altura da cintura. Ele tirou alguns fios soltos da manga. – Agora só precisa de um bom corte de cabelo.

Ele encontrou Harold esperando na seção de gravatas, lendo uma revista.

– Acabou? – perguntou, como se a visita à loja fosse ideia de Jude, e Harold tivesse apenas cedido aos seus caprichos.

Durante o jantar, tentou agradecer Harold novamente, mas o professor sempre o interrompia com uma impaciência cada vez maior.

– Alguém já lhe disse que às vezes você precisa simplesmente aceitar as coisas, Jude? – finalmente perguntou.

– Você disse para nunca aceitar qualquer coisa – lembrou ele a Harold.

– Isso é na sala de aula e no tribunal – respondeu Harold. – Não na vida. Veja bem, Jude: na vida, às vezes coisas boas acontecem a pessoas bacanas. Não precisa se preocupar, elas não acontecem com a frequência que deveriam. Mas, quando acontecem, basta às pessoas bacanas dizerem “obrigado” e seguirem em frente, e talvez considerarem que aquele que está fazendo algo bom também esteja feliz, e não no clima de ouvir todas as razões pelas quais a pessoa a quem a boa ação foi feita acha que não a merece ou não é digna de tal.

Depois disso ele calou a boca e deixou Harold levá-lo para seu apartamento em Hereford Street.

– Além do mais – disse Harold, quando ele estava saindo do carro –, você ficou muito, muito bem. Você é um rapaz bonitão; espero que já lhe tenham dito isso antes. – E emendou, antes que ele pudesse protestar: – Aceite, Jude.

E, assim, ele engoliu o que iria dizer.

– Obrigado, Harold. Por tudo.

– De nada, Jude – disse Harold. – Vejo você na segunda.

Ele ficou parado na calçada, vendo o carro de Harold se afastar, e depois subiu para o apartamento, que ficava no segundo andar de um prédio adjacente à casa que sediava uma fraternidade do MIT. O dono do prédio, um professor aposentado de sociologia, morava no térreo e alugava os outros três andares para alunos das faculdades ao redor: no andar mais alto ficavam Santosh e Federico, que faziam doutorado em engenharia elétrica no MIT, e no terceiro andar moravam Janusz e Isidore, ambos cursando Ph.D. em Harvard – Janusz em bioquímica, Isidore em religiões do Oriente Próximo –, e logo abaixo deles viviam Jude e seu colega de apartamento, Charlie Ma, cujo verdadeiro nome era Chien-Ming Ma, e a quem todos chamavam de CM. CM era estagiário no Centro Médico Tufts, e os dois tinham horários completamente opostos: Jude acordava e encontrava a porta de CM fechada, ouvindo o ronco úmido e fungado que vinha do outro lado; quando voltava para casa, às oito da noite, depois de trabalhar com Harold, CM já havia saído. O pouco que via de CM lhe agradava – ele era de Taipei e frequentara um colégio interno em Connecticut, além de ter um sorriso sonolento e maroto que fazia você querer sorrir de volta – e era amigo de um amigo de Andy, que foi como eles se conheceram. Apesar de seu ar perpétuo de langor chapado, CM também era organizado e gostava de cozinhar: às vezes, ao chegar em casa, Jude encontrava um prato de bolinhos fritos no centro da mesa, com um bilhete dizendo ME COMA, ou ocasionalmente recebia uma mensagem instruindo para virar o frango deixado para marinar antes de ir dormir, ou pedindo que comprasse um maço de coentro no caminho para casa. Ele sempre fazia o que CM pedia, e, quando voltava, encontrava o frango transformado num ensopado ou o coentro picado e colocado dentro de panquecas de escalope. De meses em meses, quando os horários coincidiam, todos os seis se reuniam no apartamento de Santosh e Federico – o deles era o maior – para comer e jogar pôquer. Janusz e Isidore lamentavam em alto e bom som, alegando que todas as garotas pensavam que eles eram gays, pois só andavam juntos (CM virava o olhar na direção de Jude; ele apostara vinte dólares que os dois dormiam juntos mas fingiam ser héteros – o que, de qualquer forma, seria impossível de provar), enquanto Santosh e Federico se queixavam da burrice de seus alunos e de como a qualidade dos universitários do MIT despencara desde a época deles, cinco anos atrás.

O apartamento dele e de CM era o menor de todos, pois o senhorio anexara metade do andar para construir um depósito. CM pagava uma parte significativamente maior do aluguel, por isso ficara com o quarto. Jude ocupava um canto da sala de estar, a parte com a janela saliente. Sua cama era um pallet forrado por uma espuma fina, os livros ficavam alinhados sob o parapeito, e ele tinha um abajur e uma divisória de papel dobrável para lhe dar um pouco de privacidade. Ele e CM haviam comprado uma mesa grande de madeira, que colocaram na alcova da sala de jantar, acompanhada por duas cadeiras de metal dobráveis, uma descartada por Janusz e a outra por Federico. Metade da mesa era dele, a outra metade de CM, e ambas eram forradas por livros, papéis e seus computadores, que emitiam gorjeios e gargarejos dia e noite.

As pessoas sempre se surpreendiam com o vazio do apartamento, mas ele quase nem o notava mais – embora não por completo. Agora, por exemplo, estava sentado no chão diante das três caixas de papelão onde guardava suas roupas, tirando seus novos agasalhos, camisas, meias e sapatos dos envelopes de papel-manteiga branco, colocando-os sobre o colo, um por vez. Eram os melhores bens que já possuíra e de certa forma seria vergonhoso colocá-los em caixas feitas para armazenar fichários. Decidiu então reembalar tudo e colocá-los de volta nas sacolas de compra.

A generosidade do presente de Harold o perturbara. Em primeiro lugar havia a questão do presente em si: ele nunca, nunca mesmo recebera algo tão grandioso. Depois, havia a impossibilidade de um dia retribuir a gentileza adequadamente. E por fim havia o significado por trás do gesto: havia algum tempo que sabia que Harold o respeitava, e até mesmo gostava de sua companhia. Mas seria possível que ele fosse alguém importante para Harold, que Harold gostasse mais dele do que apenas como um aluno, mas sim como um amigo de verdade? E, se fosse esse o caso, por que isso o deixaria tão envergonhado?

Foram precisos muitos meses até que se sentisse realmente à vontade na presença de Harold: não na sala de aula ou no escritório, mas fora da sala de aula, fora do escritório. Na vida, como diria Harold. Quando voltava para casa após algum jantar na casa de Harold, tinha uma sensação de alívio. E sabia bem o porquê, por mais que não quisesse admitir para si mesmo: tradicionalmente, homens – homens adultos, grupo este do qual ainda não se considerava parte – se interessavam por ele por um motivo específico, o que o ensinara a temê-los. Mas Harold não parecia ser um desses homens. (Embora o Irmão Luke também não parecesse.) Às vezes parecia que tinha medo de tudo, e isso era algo que odiava em si mesmo. Medo e ódio, medo e ódio: muitas vezes aquelas pareciam ser as únicas características suas. Medo de todo mundo; ódio de si mesmo.

Sabia quem era Harold antes de conhecê-lo, pois Harold era famoso. Era um questionador implacável: cada comentário feito em sua aula era analisado e debatido numa saraivada infinita de “por quês”. Era elegante e alto, e tinha mania de andar num círculo preciso, com o torso projetado à frente, quando se sentia envolvido ou animado.

Para sua decepção, havia muito que simplesmente não conseguia se lembrar das aulas de direito contratual que tivera no primeiro ano com Harold. Não se lembrava, por exemplo, dos detalhes da dissertação que escrevera e que despertara o interesse de Harold, levando a conversa para fora da sala de aula e, eventualmente, à oferta para que se tornasse um de seus assistentes de pesquisa. Não se lembrava de nada particularmente interessante que pudesse ter dito na sala de aula. Mas se lembrava de Harold no primeiro dia do semestre, andando de um lado para o outro, falando com sua voz grave e ligeira.

– Vocês são calouros de direito – dissera Harold. – Meus parabéns a todos. Como calouros de direito, vocês terão uma grade de matérias bem típica: direito contratual; responsabilidade civil; direito das coisas; procedimentos civis; e no ano seguinte, direito constitucional e criminal. Mas vocês sabem de tudo isso.

“O que talvez não saibam é que essa grade reflete, de maneira bela e simples, a própria estrutura da nossa sociedade, os próprios mecanismos dos quais uma sociedade, a nossa sociedade em particular, precisa para funcionar. Para termos uma sociedade, precisamos em primeiro lugar de uma estrutura institucional: isso é o direito constitucional. Precisamos de um sistema penal: aí está o direito criminal. Precisamos ter um sistema em ordem que faça os outros sistemas funcionarem: aí encontramos os procedimentos civis. Precisamos de um modo para regular as questões de domínio e posse: o direito das coisas. Precisamos que alguém seja financeiramente responsável pelos danos causados a terceiros: disso trata a responsabilidade civil. E por fim, precisamos garantir que as pessoas cumpram os acordos que fizerem, que honrem suas promessas: e aqui falamos de direito contratual.”

Fez uma pausa.

– Vejam, não quero fazer generalizações, mas aposto que metade de vocês está aqui para um dia poder arrancar dinheiro das pessoas. Pessoas que cometeram atos ilícitos, então não há do que se envergonhar! Já a outra metade está aqui porque acha que pode mudar o mundo. Vocês estão aqui porque sonham em argumentar diante da Suprema Corte, porque acreditam que o verdadeiro desafio da lei está nos espaços em branco nas entrelinhas da Constituição. Mas estou aqui para dizer a vocês: não é por aí. O campo do direito mais verdadeiro, mais envolvente do ponto de vista intelectual, mais rico, é o dos contratos. Os contratos não são apenas folhas de papel prometendo às pessoas um emprego, ou uma casa, ou uma herança: em seu sentido mais puro, verdadeiro e amplo, os contratos regulamentam cada aspecto da lei. Quando escolhemos viver numa sociedade, escolhemos viver sob um contrato e obedecer às regras que esse contrato nos impõe: a Constituição em si é um contrato, ainda que maleável, e a questão de quão maleável ela é, exatamente, é o ponto onde o direito cruza com a política. E é sob as regras, explícitas ou não, desse contrato, que prometemos não matar, pagar nossos impostos, não roubar. Mas, nesse caso, somos tanto os criadores como os seguidores desse contrato: como cidadãos deste país, assumimos desde o nascimento a obrigação de respeitar e seguir suas normas, e o fazemos diariamente.

“Nesta aula, vocês obviamente aprenderão os mecanismos de um contrato: como ele é criado, como é quebrado, o quanto ele o compromete e como se livrar de um. Mas também terão de considerar o próprio direito como uma série de contratos. Alguns são mais justos que outros, e neste caso vou deixar que digam isso. Mas a equidade não é a única, nem mesmo a mais importante, consideração no mundo do direito: a lei nem sempre é justa. Contratos não são justos, não sempre. Mas às vezes elas são necessárias, essas injustiças, porque são necessárias para o bom funcionamento da sociedade. Nesta matéria vocês aprenderão a diferença entre o que é justo e o que é legítimo, e, mais importante ainda, entre o que é justo e o que é necessário. Aprenderão sobre as obrigações que temos uns para com os outros enquanto membros da sociedade, e quais são os limites da sociedade ao aplicar essas obrigações. Aprenderão a ver a vida de vocês, e a de todos nós, como uma série de acordos, e isso os fará repensar não somente a lei, mas o próprio país, e o lugar que ocupam nele.”

Ele ficara encantado pelo discurso de Harold e, nas semanas seguintes, por como o professor pensava diferente, como parava diante da classe feito um maestro, prolongando o argumento de algum aluno em formações estranhas e inimagináveis. Certa vez, um debate aparentemente inofensivo sobre o direito à privacidade – o direito constitucional mais estimado e ao mesmo tempo o mais nebuloso, segundo Harold, cuja definição de direito contratual muitas vezes ignorava os limites convencionais e adentrava alegremente por outros campos do direito – levara a uma discussão entre os dois sobre o aborto, o qual ele considerava indefensável do ponto de vista moral, mas necessário no âmbito social.

– A-há! – dissera Harold; ele era um dos únicos professores que conduzia debates morais, e não apenas legais. – E o que acontece, Sr. St. Francis, quando renunciamos à moral nos termos da lei em nome da administração social? Em que ponto um país e seu povo devem começar a dar mais valor ao controle social do que ao seu senso de moralidade? Existiria tal ponto? Eu mesmo não sei se existe.

Mas ele se mantivera firme, e a turma ficara em silêncio, assistindo à troca de argumentos entre os dois.

Harold escrevera três livros, mas fora o último, O aperto de mão americano: as promessas e as falhas da Declaração da Independência, que o tornara famoso. O livro, que Jude lera antes mesmo de conhecer Harold, era uma interpretação legal da Declaração da Independência: quais de suas premissas haviam sido mantidas e quais não foram, e seria ela capaz de resistir às tendências da jurisprudência contemporânea? (“Em resumo: não”, dizia a crítica do Times.) Agora ele vinha trabalhando nas pesquisas para seu quarto livro, uma espécie de sequência de O aperto de mão americano, sobre a Constituição, partindo de uma perspectiva semelhante.

– Mas vou tratar somente da Declaração dos Direitos e das emendas mais sensuais – disse Harold quando o entrevistou para o cargo de assistente de pesquisa.

– Não sabia que algumas eram mais sensuais que outras – falou.

– Mas é claro que são – respondeu Harold. – Apenas a décima primeira, a décima segunda, a décima quarta e a décima sexta são sensuais. O resto é praticamente a escória da política de outrora.

– Então a décima terceira emenda é um lixo? – perguntou, achando graça.

– Não falei que era um lixo – disse Harold. – Só não é sensual.

– Mas acho que é isso que significa escória.

Harold soltou um suspiro dramático, pegou o dicionário na mesa, abriu e o estudou por alguns instantes.

– Tudo bem, que seja – concedeu, jogando-o de volta sobre uma pilha de papéis, que deslizou na direção da beirada da mesa. – Essa é a terceira definição. Mas estou falando da primeira: as sobras, os detritos... as relíquias da política de outrora. Satisfeito?

– Sim – respondeu, tentando segurar o riso.

Ele começou a trabalhar para Harold nas tardes e noites de segunda, quarta e sexta, quando sua carga de estudos era mais leve – nas tardes de terça e quinta frequentava seminários no MIT, onde estava fazendo seu mestrado, e trabalhava na biblioteca de direito à noite, e aos sábados trabalhava na biblioteca pela manhã e numa padaria chamada Batter à tarde, perto da universidade de medicina, onde começara a trabalhar enquanto cursava o bacharelado e era encarregado de pedidos especiais: decorava biscoitos, fazia centenas de pétalas de flores de massa de açúcar para os bolos e testava diferentes receitas, uma das quais, um bolo com dez tipos de castanhas, se tornara o campeão de vendas da padaria. Também trabalhava na Batter aos domingos, e um dia Allison, a dona da padaria, que confiava a ele muitos dos projetos mais complicados, passou-lhe uma encomenda de três dúzias de biscoitos decorados em forma de bactérias.

– Achei que você seria a pessoa mais capaz de conseguir fazer isso – disse ela. – A esposa do cliente é microbiologista e ele quer fazer uma surpresa para ela e para o laboratório.

– Vou pesquisar – respondeu ele, pegando a ordem de serviço e reparando no nome do cliente: Harold Stein.

E assim o fez, pedindo conselhos a CM e a Janusz, e assou biscoitos em formas de gota, de bolas espinhentas, de pepinos, usando coberturas de diversas cores para desenhar citoplasmas, membranas plasmáticas e ribossomos, e formando flagelos com tiras de alcaçuz. Depois digitou uma lista identificando cada um e a colocou dobrada dentro da caixa, antes de fechá-la e amarrá-la com barbante; ainda não conhecia Harold muito bem, mas gostava da ideia de fazer algo para ele, de impressioná-lo, mesmo que de maneira anônima. E gostava de imaginar o que os biscoitos deveriam celebrar: Alguma publicação? Uma data importante? Ou seria simplesmente sua dedicação à esposa? Seria Harold Stein o tipo de pessoa que aparecia no laboratório da mulher com biscoitos sem motivo algum? Ele suspeitava que sim.

Na semana seguinte, Harold contou a Jude sobre os biscoitos incríveis que comprara na Batter. Seu entusiasmo, que algumas horas antes na sala de aula estivera voltado ao Código Comercial Uniforme, agora se concentrava nos biscoitos. Jude mordia o interior da bochecha para não sorrir, ouvindo Harold dizer que o pessoal da padaria fizera um trabalho genial, e que os colegas de Julia ficaram sem palavras diante dos detalhes e da verossimilhança, e como, por alguns instantes, ele se tornara o herói do laboratório.

– O que, a propósito, não é lá muito fácil entre aquelas pessoas, que consideram, ainda que não digam, qualquer pessoa envolvida na área de humanas um idiota.

– Parece que esses biscoitos foram feitos por alguém realmente obsessivo – disse. Não contara a Harold que trabalhava na Batter, nem tampouco tinha planos de fazê-lo.

– Então é um obsessivo que eu gostaria de conhecer – disse Harold. – E estavam deliciosos, ainda por cima.

– Hummm – respondeu, pensando em alguma pergunta a fazer a Harold para que ele parasse de falar sobre os biscoitos.

Harold tinha outros assistentes de pesquisa, é claro – dois alunos do segundo ano e um do terceiro, o qual só conhecia de vista –, mas seus horários eram programados de modo que nunca se sobrepusessem. Às vezes um se comunicava com o outro por meio de bilhetes ou e-mails, explicando onde haviam interrompido determinada pesquisa para que a pessoa seguinte pudesse partir dali e seguir adiante. Mas, durante o segundo semestre de seu primeiro ano, Harold ordenara que ele trabalhasse exclusivamente na quinta emenda.

– Essa é das boas – dissera. – Inacreditavelmente sensual.

Os dois assistentes do segundo ano ficaram com a nona emenda, e o do terceiro ano com a décima, e por mais que soubesse o quanto aquilo era ridículo, não conseguia deixar de se sentir triunfante, como se o professor o houvesse favorecido de alguma forma em relação aos outros.

O primeiro convite para jantar na casa de Harold surgira de forma espontânea, no final de uma tarde fria e escura de março.

– Tem certeza? – perguntou, incerto.

Harold olhou para ele, curioso.

– Mas é claro – respondeu. – É só um jantar. Você precisa comer, não é verdade?

Harold morava numa casa de três andares em Cambridge, do lado do campus universitário.

– Não sabia que você morava aqui – disse quando Harold entrou com o carro na garagem. – Esta é uma das minhas ruas preferidas. Eu costumava cortar caminho por aqui todo dia para chegar ao outro lado do campus.

– Você e todos os outros garotos – respondeu Harold. – Quando comprei esta casa pouco antes de me divorciar, todas as outras eram ocupadas por alunos; todas as persianas estavam caindo aos pedaços. O cheiro de maconha era tão forte que você ficava doidão só de passar de carro por aqui.

Nevava, só um pouco, mas ele ficou feliz por ter apenas dois degraus até a porta e por não precisar se preocupar em cair ou pedir a ajuda de Harold. Lá dentro, a casa cheirava a manteiga, pimenta e amido: massa, pensou. Harold soltou a pasta no chão e lhe mostrou rapidamente a casa – “Sala de estar; o escritório fica logo atrás; a cozinha e a sala de jantar estão à sua esquerda” –, e então conheceu Julia, alta como Harold e com cabelos castanhos curtos, de quem gostou de imediato.

Continuar: parte 3 de 4