Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos
VIII Noite na floresta
O nómada entendeu que, ficando à esquerda, a interposição da ilhota-navio o tornaria seguramente invisível, enquanto os seus inimigos não chegassem ao ponto marginal correspondente ao centro, dado que eles continuassem a persegui-lo. Ainda mesmo que eles passassem para a outra margem,—caso em que o perigo seria mais próximo,—ele chegaria provavelmente à região florestal antes de ser avistado, e ali a dificuldade da marcha para eles dava toda a vantagem à canoa, vogando livremente sobre as águas...{64} {65}
VIII
Noite na floresta
Ainda a noite! A vida imensa e minúscula; o mistério das forças; léguas de floresta; o choque das moléculas e dos seres; o contacto interminável da terra; o eriçar-se dos organismos imóveis, de veias frias, estremecendo ao roçar da aragem; o divagar da fome, das angustias, dos amores; e um astro de âmbar pálido rolando nas solidões do firmamento.
Entre musgosos montijos, Vamiré construiu provisório abrigo, coberto e fechado por grossos ramos, entrelaçados de enrediças. Fortaleza sólida. Se uma fera tentasse violá-la, Vamiré teria tempo de a ferir mortalmente, pelos interstícios, com a ponta da zagaia, embebida num veneno subtil e encabada numa haste de freixo.
Ao meio da noite, Vamiré, despertado por certo rumor, abriu os olhos e observou. Em torno do abrigo, vagueavam lobos; uma pantera ia passando na dúbia claridade do mato. Soaram entretanto uns gemidos roucos: Vamiré avistou o vulto de um grande tigre, que devorava um antílope, ainda vivo.{66}
—Élem!—murmurou ele.
A doçura penetrou-lhe na alma, diante da braveza da noite. O nome, que pronunciou, era o da sua companheira, nome que ele obtivera na paragem do meio dia, quando a apertava com perguntas gesticuladas.
É a terceira noite que passam na floresta, sem que o nómada saiba se são perseguidos ou não. A fuga fora penosa, o rio cheio de sinuosidades, a floresta abundante de ciladas, mas tudo vencera o caçador. Àquela, hora, as peripécias da travessia vinham-lhe à mente, de envolta com o nome da sua companheira.
—Élem!... Vamiré é o senhor de Élem!—Contempla-a, adormecida. Débeis ondas de luz, entremeadas de sombras, escoavam-se dos orifícios do abrigo sobre o rosto da virgem. Vamiré palpitava diante daquele perfil indefinido, e recompunha-lhe mentalmente os traços pálidos.
À proporção que ele vinha fugindo, à proporção que lutara por ela e contra ela, que acumulara fadigas para a raptar, mais preciosa se lhe tornara ainda.
O desenvolvimento da sua ternura coincidia com afectuosidades subtis, delicadezas de sentimento, até ali desconhecidas. Se se sente rudemente impelido a levar a aventura até ao desenlace, se deseja Élem apesar dela, e apesar de todos os perigos, sente-se, em compensação, cheio de piedade e de paciência.
Só a iminência de um perigo, o medo de a perder ou de morrer poderiam devolvê-lo à brutalidade de troglodita... Demais, ela incute-lhe um religioso temor; perturba-o com o seu silêncio, com os seus grandes olhos,{67} imóveis durante horas, com a sua misteriosa prosternação perante o sol poente e o sol nascente, com as palavras que ela então profere, lentas, monótonas, rítmicas...
Estalam ramos. Ouvem-se na clareira passos pesados; os lobos afastam-se. Por baixo das ramarias, apoiado nas colunas redondas das suas pernas, com as suas defesas brancas cintilando à frouxa claridade, eis o colosso quaternário, o grande mamute da decadência. Agita-o uma certa inquietação ou febre primaveral, um desejo de refrescar-se nas águas do rio. Adianta-se majestosamente, e o próprio tigre recua, levando a sua presa.
Vamiré, estremecendo, admira o enorme animal. Conserva por ele o respeito que os velhos transmitiram, sabe que é valente e pacifico e conhece a história melancólica da sua decadência.
—Lô! Lô!—
O mamute continua a andar; o perfil da sua larga cabeça torna-se mais nítido na penumbra, e Vamiré distingue-lhe a crina e a pelagem, a tromba escura que se baloiça sincronicamente, e os flancos enormes.
O animal roça o abrigo do caçador, afasta-se na direcção do rio, e Vamiré, deitando-se, julga que pode ter uma hora de sono, e fecha as pálpebras. As ideias chocam-se confusamente; afastam-se depois, e a respiração igual atesta o sono, o descanso.
Abrem-se então os olhos negros da sua companheira, que se põe à escuta, suspirando. Assalta-a uma ideia de libertação; se ela ousasse, enquanto ele dorme,{68} desmanchar o entrelaçamento dos ramos do abrigo e fugir para o Ocidente, para as regiões da sua tribo?
Mas Vamiré ouviria certamente o ruído, acordaria, e ela estremece, só à ideia do seu grito de cólera. Entretanto assoma-lhe aos lábios um sorriso, um desvanecimento feminil e não se supõe simplesmente uma vencida. Porque ela viu-o embaraçado e tímido, e fez recuar os apetites do bárbaro. Tudo isto ela compreende tão bem como as filhas do homem que hão de viver em longínquo futuro, e das quais ela possui a ciência confusa e, ao mesmo tempo, subtil.