Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos

J.-H. Rosny aîné · Capítulo 22 de 24

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Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos

XXI A derrota

XXI

 

A derrota

 

Foi decorrendo a noite. A ronda dos astros atravessava as calmas profundezas do rio; uivavam cães feridos; as fogueiras dos orientais ardiam por trás das ramadas, iluminando os braços negros e contorcidos do arvoredo e as densas e flexíveis cumeeiras da floresta.

Vamiré aproximou-se do rio, e ali se quedou alguns instantes, como para dar ensejo a palavras de conciliação. Mas teve de se furtar a uma frecha que vibrou.

Vibraram outras frechas, que, descrevendo vigorosas parábolas, iam quase todas cair inofensivas no meio da ilhota.

O Pzann guardou-as, satisfeito de ver que se iam esgotando as munições contrarias; mas os orientais, compreendendo logo a inutilidade daquele tiroteio, suspenderam-no, e, com gritos e açulamentos, fizeram reaparecer os cães, formigando na margem e latindo furiosamente.

Um vago perfil humano se desenhou entre os cães,{158} acocorando-se logo; outro perfil apareceu na ribanceira, em observação; e depois uma voz humana, irrompendo do rio, denunciou um nadador.

E daqui concluiu Vamiré que, desta feita, os asiáticos acompanhariam a expedição.

Em tais condições, o assalto era grave.

Sem perda de tempo, despertou toda a sua gente. Armou com arpões de pontas fixas e de zagaias seis velhos mais sagazes, anexou, para seu uso, uma lança à sua clava, e pôs-se de atalaia em bom lugar.

Os cães acabavam de se atirar à água. Seguidamente, a presença do homem revelou-se em nova táctica: formaram-se três colunas; uma seguiu para a frente; outra para o pontal, onde estava Élem; e a terceira, deixando-se ir ao grado da corrente, rodeou a ilha, para a assaltar por trás.

Então Vamiré, para concentrar a defesa, fez evacuar o pontal oposto àquele em que se achava, e fez guarnecer o outro lado da ilhota, organizando tudo de forma, que toda a gente se agrupasse com ele, sendo necessário.

Depois, enristando a lança, aguardou.

Os orientais não se viam. O seu plano devia ser o dirigir o ataque, intervindo nele apenas no momento decisivo, e, para isso, nada melhor do que estar na retaguarda. Tinham provavelmente mascarado os rostos, para melhor se confundirem entre as cabeças dos cães.

A dez metros da ilha, as colunas da frente estacaram contra a corrente, aguardando um sinal do bando{159} que fora por trás da ilha. Quando chegou o sinal, todas as forças atacaram a um tempo.

Parecia que aumentara a coragem dos cães. Luziam-lhes os dentes e o fósforo azulado dos seus olhos rasgava as trevas.

Antes de assentar o pé em terra, sofreram, como antes, consideráveis perdas; mas, desde que lá chegaram, muitos tardígrados das primeiras filas pereceram estrangulados; a heróica defesa dos outros, postos fora de combate centenares de cães, salvou-os do desbarato, e a luta seguiu curso regular, com fortuna vária.

Ao princípio, dando pela ausência do Pzann, dois orientais haviam-se adiantado e, primeiro a tiros de frecha, e depois com ligeiras lanças, sustentaram o ataque.

O contacto dos inimigos aterrorizara os comedores de vermes, que certamente se não salvariam da derrota, se os seis velhos, armados de arpões e zagaias não aguardassem corajosamente os asiáticos. Estes, envolvidos num círculo ameaçador, compreenderam a imprudência de arrostar armas ervadas, e debandaram em retirada, não intervindo na luta senão com brados e alguns tiros de frecha em momentos oportunos.

Do lado de Vamiré, os cães, açulados pelas vozes distantes, tinham efectuado a invasão.

Vamiré não os esperou; marchou contra eles com tal vigor, a sua clava e a sua lança fizeram tão numerosas vitimas, que os animais aguentaram apenas o primeiro embate e fugiram, deixando a descoberto um oriental, armado simplesmente de uma zagaia.{160}

Vamiré, com uma pancada, partiu a frágil haste da arma inimiga, e, segurando o homem pela nuca, lançou-o aturdido no chão, manietou-o, deu-o a guardar a Élem, e correu a socorrer os seus aliados.

Estes lutavam bizarramente. Mas as hordas caninas, sempre renovadas, estimuladas pela voz dos asiáticos, encarniçavam-se e era de recear que aos homens chegasse a hora fatal do cansaço.

Ao grito de guerra, soltado por Vamiré, os cães recuaram, mas retomaram o assalto, porque os orientais, da espessura da floresta, dirigiam mais activamente a batalha, e recebiam a aproximação de Vamiré com basto tiroteio de frechas.

Os seis velhos, armados de arpões e lanças delgadas, agruparam-se de novo, fazendo rosto ao inimigo, prontos em auxiliar a estratégia do nómada. Este, na frente, procurou aproximar-se dos asiáticos, mas não o conseguiu, porque os animais se opuseram firmes, não obstante os estragos que neles produzia a clava.

Demais, sobreveio um incidente, que poderia trazer desastrosas consequências: os comedores de vermes, que defendiam as traseiras da ilhota, refluíram para a frente, produzindo um princípio de pânico, que tornou indispensável a presença de Vamiré.

A peleja travava-se nas trevas. Os orientais, sempre que podiam; disseminavam as fogueiras, para estimular a coragem dos cães. Os tardígrados deixavam os lugares sombrios, e acercavam-se dos seus brasidos, que eles alimentavam cuidadosamente. Gemiam ali numerosos feridos, fechando com a mão ferimentos terríveis.{161} Geralmente, tinham mordidas as pantorrilhas e as coxas, ao passo que os mortos patenteavam gargantas rasgadas, ventres estripados.

A purpura de sangue avivava-se ao clarão vermelho das fogueiras, e os gritos de guerra mesclavam-se às agonias do estertor, ao clamor das vidas que se extinguiam, como os latidos do animal se mesclavam à enrouquecida respiração dos homens.

Do esconso das moitas, a horda dos cães emergia incessantemente para a luz. Encarniçados com os gritos agudos dos orientais, que reboavam naquela confusão, sacrificavam-se, aos centos, mas invadiam, mordiam, aterrorizavam.

Os comedores de vermes, já impressionados pelo contacto dos homens das grandes estepes, e cuja coragem era apenas mantida pela presença de Vamiré, viam, além de tudo, aproximar-se-lhes o cansaço, sentiam os seus braços menos lestos em erguer a clava, e tendiam a concentrar-se em grupos numerosos.

Vamiré compreendeu a situação. Num impulso terrível, arremessou-se de repente para a vanguarda, obrigando os cães a recuar. Depois, fez sinal aos velhos, armados de arpões e zagaias, para que se lhe juntassem.

Eles obedeceram, imitando-os os mais vigorosos de entre os demais.

Este pequeno grupo, desde então, sustentou firme todo o peso do assalto, enquanto os demais trucidavam os cães que mais se haviam internado, e conseguiam repelir os ataques de flanco.

Finalmente, o Pzann, durante uma trégua curta, fez{162} compreender que era mester alimentar as fogueiras extensamente, e, a pouco trecho, uma rampa de braseiros protegia o núcleo principal dos seus homens. As chamas elevaram-se, invadiram ervas secas, mato, macissos, e queimaram arbustos, de forma que, resguardados por tal barreira, Vamiré e a sua gente puderam tomar alento.

Os cães tomaram-se de assombro, e os orientais, conhecedores dos costumes do animal, resolveram ladear a barreira. Para isso, era preciso passar pelo pontal da ilhota, porque os flancos do inimigo eram protegidos por espessa vegetação, em que as forças disseminadas fraquejariam.

Vamiré, prevendo aquele movimento, destacou mais de trezentos tardígrados para os principais desfiladeiros, procurando estes por indicação dele, acender ali fogueiras, com brandões que levavam e que cobriam de ramos secos; mas não lograram esse intuito, antes da chegada dos cães.

Frouxo ao principio, o ataque do quadrúpede tornou-se formidável com a aproximação dos asiáticos. Muitos comedores de vermes, fatigadissimos, largavam o bastão, e defendiam-se com pés e mãos, com dentes e garras. Facto curioso, os cães, primeiro, inquietaram-se com aquele novo processo; mas, pouco a pouco, tiraram dele vantagem, devida principalmente ao número, que lhes permitia opor três ou quatro dos seus a cada um dos homens.

Neste ensejo, Élem veio ter com Vamiré, e as suas palavras pareciam mais eficazes que as armas. Reconhecendo{163} nela a raça amiga, os cães estavam evidentemente desbaratados; e foi necessária a intervenção dos orientais, para que o animal voltasse à carga.

Na refrega, duas frechas varreram a cabeça e o ombro de Vamiré; e depois vibrou uma zagaia que atravessou o peito de um tardígrado, ao lado do Pzann.

Percebendo que o alvejavam do recesso dos matagais, e que não poderia livrar-se dos cães, se não chegasse a pôr os orientais em debandada, Vamiré, depois de ter novamente agrupado os tardígrados e recomendado a Élem que se abrigasse, embrenhou-se no mato.

Orientou-se pela voz dos asiáticos, e, em poucos minutos, achou-se perto deles, rodeados de cães prestes a atirar-se. Eram forças folgadas, como de reserva para as eventualidades.

Estes animais farejaram Vamiré e denunciaram-no. Mas ele, de um salto, pô-los em desordem com a sua clava, e caiu sobre os orientais, um velho e um moço, que fugiram, disparando uma zagaia e largando as frechas. O Pzann alcançou-os, e levantou a clava, a qual caiu no vácuo, porque os outros, lestos como uma pantera, evitaram a morte. Com a pancada no solo, partiu-se a clava, e com uma só punhada, Vamiré prostrou o mais novo dos seus inimigos; o velho apontou-lhe a zagaia, e cruzaram-se os olhares de ambos.

—Bem,—disse Vamiré,—eu sei que és bom, e não desejo tirar-te a vida.—