Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos
XIX Na ilhota
XIX
Na ilhota
Na expectativa de extraordinário acontecimento, Élem e Vamiré conversavam.
Agora, já o Pzann podia compreender e exprimir as ideias fundamentais da linguagem dos braquicéfalos. Julgava oportuno interrogar a filha do Oriente; mas, nas suas reminiscências, nada ela encontrava, que esclarecesse a situação. No seu crânio supersticioso perpassavam apenas as antigas lendas do Animal das águas, expulsando das florestas todos os seres animados, a fim de investir o homem na posse delas. Os animais foram salvos pelo Elefante cornígero, que reina em as montanhas; e a Serpente, rival do Animal das águas e inimiga do homem, opôs-lhe o ser imundo que se alimenta de vermes, e a quem as tribos sagradas aniquilarão...
Estas coisas falavam pouco ao espírito do nómada e até o indignavam. Acaso o homem não vive de carne? e que seria das florestas e planícies, sem animais?{142}
Depois, Vamiré não podia imaginar um animal invisível. As suas duvidas abalavam as crenças de Élem, a qual, todavia, continuava a murmurar as suas orações, e a resguardar-se a si e ao seu amante, com práticas religiosas; e o mesmo faria até a hora da morte, e porventura até depois, se o destino lhe concedesse filhos, porque as coisas místicas, embora nasçam lentamente, são como o pigmento da carne ou a forma dos crânios, que só o tempo transforma e aniquila.
Inclinados sobre o rio, aguardavam a noite, que vinha chegando. O clarão do Crepúsculo era vívido e roxo a um tempo, duplicado pelo reflexo. Sob aquele clarão, a margem parecia muito distante, semelhando, sobre a floresta, uma fronteira alvorescente em face das sombras eternas; na margem, moviam-se animais fugitivos, os seus corpos escuros limitados por traços de luz, os espinhaços roliços ou sinuosos, lisos ou eriçados, as cabeças delicadas e longas, ou largas e volumosas, as armas pontiagudas do élafo, a vasta fronte do gamo, a crina ondeante do cavalo, o tronco flexível e serpentiforme da lontra, o dorso corcovado do urso...
Quando a noite se ia cerrar enfim, e as árvores e o rio se engolfavam lentamente na sombra, houve uma suspensão. Cada vez mais raros, já se não viam senão animais vagarosos, insectívoros ou carnívoros vermiformes que fugiam de uma vivenda próxima. Vamiré e Élem redobraram a atenção, e perceberam um rumor muito distante, semelhante ao uivo dos lobos ou ao lamento dos chacais.
Quase ao mesmo tempo, avistou-se na margem um{143} bando considerável de comedores de vermes. Mostravam-se fatigados, recurvados, cobertos de lama e de sangue. Transportavam em braços grande número de feridos, e, diante da impossibilidade de transpor com estes últimos o rio, quedavam-se amargurados. Vigias de retaguarda surgiam da espessura a cada instante, com gestos de alarma, mas ninguém tugia, ninguém pensava em atravessar o rio sem os feridos, e muitos dispunham estoicamente as suas clavas para uma luta extrema, quando Vamiré saltou para a sua piroga, dirigindo-se para eles.
O bando, que ele encontrara quatro dias antes, reconheceu o gigante loiro e manifestou alegria. Os outros, prostrados de fadiga, estupefactos, viram chegar aquele homem.
Vamiré chegou à margem, e fez sinal para que transportassem dois inválidos para a canoa. Os que se recordavam dele obedeceram; os demais confiaram-se passivamente à ventura.
Vamiré fez uma quinzena de travessias, e todos os feridos se acharam na ilhota; os outros alcançaram-na a nado.
Vamiré facultou-lhes as suas provisões. A tiros de frecha, matou três gamos fugitivos e um pequeno cavalo de focinho papudo. Os comedores de vermes, tranquilizados, iam buscar as presas e esfolavam-nos rapidamente, sob as indicações do grande nómada.
Vamiré desvelou-se por eles, consternado pelo desgosto de Élem; tratou dos feridos zelosamente, indicou a cada um lugar de dormida, porque os vermívoros,{144} depois da refeição, caíram logo no sono; e foi juntar-se à sua companheira, que estava em observação na outra extremidade da ilhota.
Conversaram em voz baixa. Élem propôs que subissem o rio, naquela mesma noite; mas Vamiré opôs à proposta que o temporal da véspera avolumara o rio, que arrastava troncos de árvores, perigosos para a canoa; e também ponderou que os comedores de vermes estavam debaixo de sua protecção.
Élem resignou-se, e tomou lugar no barco, comodamente abrigada por uma pele de urso. Quanto a ele, ficou de vela, alimentando o lume, acabando de esfolar as presas e de as partir em quartos, que ele punha logo a assar, para os conservar bem.
As trevas envolviam tudo, e mal se distinguiam as margens.
De quando em quando, Vamiré aplicava o ouvido. O vago rumor de pouco antes tornava-se agora mais distinto, já da esquerda, já da direita. Às vezes parecia extinguir-se, mas depois ouvia-se, sempre mais próximo.
A viração dava linguagem às folhas, a chama das fogueiras reflectia-se na água; a intervalos, o mergulho de um corpo e o ofegar do nadador: depois, o silêncio e a solidão, debaixo de um formoso céu constelado, sem luar.
Finalmente, à orla da floresta, assomou um perfil humano, movendo-se indistintamente na sombra; e quase ao mesmo tempo viu-se uma ondulação rasteira, como formada de centenares de corpos em bando; e ouviu-se um estrépito de tempestade, o reboar de latidos{145} multiplicados pelos ecos, um transbordar de vida e de alvoroto, quebrando o silêncio das trevas.
Élem, desvairada, correu para junto de Vamiré, e segredou-lhe uma palavra desconhecida do Pzann, tendo distinguido a voz do cão das grandes planícies estéreis.
Os comedores de vermes despertaram também, e, ao clarão da fogueira, procuravam o nómada. Este, com gravidade e altivez, procurava devassar a sombra e conhecer a ameaça que fazia tremer Élem e os tardígrados.
Durante a sua marcha lentíssima, os comedores de vermes tinham sido atacados pelos cães. O animal, todavia, respeitava ordinariamente o homem antigo, cujos bandos emigrantes atravessavam as vivendas caninas. Mas, por muitas vezes, os asiáticos tinham-se servido dos seus aliados quadrúpedes para atacar as tribos errantes; e, com receio de um ataque deste género, os comedores de vermes tinham retrocedido de pronto.
Retrocedendo, encontraram outros bandos de irmãos, de maneira que o seu número se elevava a muitos centenares.
Defendiam-se entretanto com energia, e chegavam quase sempre a repelir o seu terrível inimigo, quando, a meio dia do rio, depois de uma longa paragem, foram novamente assaltados.
O número dos seus adversários ia crescendo sempre, e por isso sofreram, neste último encontro, perdas consideráveis. Demais, convencidos, pela marcha lenta do quadrúpede, que os asiáticos o guiavam, precipitaram a sua retirada.{146}
Chegando à beira do rio, carregados de feridos, e horrorosamente fatigados, já não esperavam senão a morte, quando Vamiré os salvou...
Surpreendidos no sono pelo grito do cão, reuniram-se ao grande nómada, como ao seu protector único. Este convocou os chefes, e designou-lhes lugar de combate nas ribanceiras da ilhota, encarregando-os de formar os seus grupos. Como instruções, apenas levantou acima da cabeça uma das antigas clavas, baixando-a sobre um inimigo imaginário. Este movimento foi perfeitamente compreendido, e todos se encheram de coragem, animados pelo belicoso aspecto do Pzann, pelos seus belos olhos que chispavam altivez, pelo seu arcaboiço, dilatado nas previsões da luta.
Vamiré fez reavivar as fogueiras, e foi pôr-se de atalaia.
A margem oposta pouco tempo se conservou escura, pois a iluminou rapidamente uma grande fogueira.
Nesse momento, a alguma distância da fogueira, quase na estrema do espaço iluminado, Vamiré avistou o cão.
Élem apontava-lho com insistência, pronunciava-lhe o nome, referia-lhe a ferocidade quando conduzido pelo homem, a sua organização em vivendas, a sua aliança com os braquicéfalos.
O Pzann escutava-a atentamente.
O clarão da fogueira, menos enfumarado, banhava de claridade o quadrúpede; e, ao vê-lo mais semelhante à hiena do que ao lobo, com a sua larga mandíbula, a sua alta corpulência, a sua flexibilidade, Vamiré{147} compreendeu que ele devia ser um perigoso adversário.
Desviou-se porém a sua atenção, porque, adiante da fogueira, se interpôs um vulto humano, e uma voz ressoava em meio do grande silêncio e sobre as águas do rio.
Vamiré e Élem reconheceram a voz do chefe oriental. Élem dizia:
—Homem das regiões desconhecidas, escuta a voz daquele, cujos cabelos são brancos, e a quem fala, na solidão, o espírito do saber. As minhas palavras significam paz. Aliados com o cão, poderíamos encarar a guerra sem receio. Que poderias tu, homem das nascentes do rio, contra as inumeráveis legiões do animal, auxiliado de frechas e braços humanos? Aceita a paz. Mutuemos o sangue de nossas veias.—
Com a ajuda de Élem, Vamiré compreendeu-lhe as palavras. Voltando para a sua clareira, aceitou-as, gritando:
—Velho, o Pzann te saúda. Ouviu a filha da tua tribo, e está pronto a mutuar o próprio sangue com o teu. Afasta o animal, e salvem-se os comedores de vermes!—
Na margem oposta, os três moços haviam-se reunido, e o grupo dos braquicéfalos animou-se.
Não podiam fraternizar com os filhos da Serpente. O velho tendia para a clemência; mas um dos moços, fanático exaltado, pregou a vontade implacável do Animal das águas, a lei das tribos sagradas; e todos, repassados de desgosto e ódio, pareciam convencidos.
O chefe voltou-se de novo e clamou:{148}
—Porque é que o homem irmão toma o partido do ser imundo? É melhor deixar essa presa ao cão.—
Mas Vamiré indignou-se:
—O Pzann não ousaria aparecer entre os outros Pzanns, se abandonasse os seus aliados; o Pzann quer a paz, mas quere-a para todos que estão com ele.—
Formaram os orientais novo conciliábulo, e todos os moços, mais desejosos de uma vitória do que de uma solução pacífica, tendiam para a guerra.
O chefe não se atreveu a opor-se abertamente, mas referiu-se à coragem de Vamiré, à glória de uma expedição para as bandas do Norte depois do Inverno, à necessidade de estar em paz com os povos longínquos.
Dois dos moços pareciam convencidos, ao passo que o fanático baixava os olhos, obstinado. Aproximou-se, até, da margem, e, apontando a frecha ervada a um dos vermívoros:
—O Conselho diz: nunca a tua frecha hesite em ferir o imundo!—
E a frecha descrevia a sua parábola mortal, ferindo o tardígrado num ombro.
O doloroso grito do homem foi acompanhado de um grito colérico do homem loiro, e de um rumor de censura, entre os orientais.
—Homem,—clamou o velho,—perdoa a exaltação de um sangue muito novo!—
Mas Vamiré, cheio de indignação, replicou:
—O meu sangue também é novo, e não perdoaria a perfídia!— {149}
Armou o arco, e a sua frecha atravessou o peito do agressor.
Depois, correu para junto do tardígrado ferido. Os companheiros chupavam o sangue da ferida, extraindo assim o veneno. Vamiré buscou um antídoto, folhas alcalinas, cuja seiva ele espremeu na ferida aberta, em que depois as estendeu.
No campo dos orientais, o velho tratava do ferido. Este persistia em soltar injurias contra os comedores de vermes; e todos estavam indignados, porque o nómada ferira um homem, para vingar uma criatura ignóbil.{150}{151}