Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos
IX O idílio nascente
Por isso os seus receios são mesclados de indulgência, sem todavia poder esquecer-se daqueles entre quem passou a infância; dos seres da sua raça, da sua família, dos moços que falam a sua língua.
Se ela ousasse... Mas, acima da cólera de Vamiré, apavora-a a floresta que a rodeia, abundante de meandros e carnívoros; e reconhece quanto é fraca, sem a clava e a zagaia do raptador.{69}
IX
O idílio nascente
Nos dias daquela fuga febril, em que o gigante loiro a arrancava ao sono; nas paragens nocturnas, e durante a comoção das caçadas, começara a formar-se o idílio na alma de Élem.
Em todos os seus sonhos, e através das pálpebras, surgia o cenário da floresta e o vulto de Vamiré em movimento, enquanto as estepes natais e as tribos pastorís se confundiam e se desvaneciam nos confusos horizontes da memória.
Mas, quando recrescia o instinto de resistência extrema, o receio da maternidade, o desejo de sorte menos inquieta, e quando surgia a ideia da união dos dois, na convivência, no contacto dos corpos, mais distantes pareciam um do outro, esquivos, concentrados.
Algumas vezes porém, as horas que ao meio do dia dominam a carne e ao crepúsculo o pensamento, quebravam aquela indiferença.
Então, a virgem morena, amortecida ao calor da{70} atmosfera, ou embalada nos vagos rumores do sonho, distendia a vontade rude, poisava os olhos nos olhos do homem, permitia um pouco de intimidade. Indispunha-a porém contra ele uma fera que rugia, um relampaguear de tormenta, um súbito receio dos lobos nocturnos.
Vamiré conseguiu algumas vezes que ela cantasse as melopeias, com que a sua tribo acompanhava o trabalho. Escutava-a, encantado pela sua candura de selvagem, seguia a cadência, embebia-se na musica de uma língua desconhecida. Como uma criança balbuciante, repetia o canto, inclinando-se às articulações misteriosas.
Porque ele ia aprendendo o dialecto estrangeiro, já sabia designar objectos e vocalizar movimentos.
Por seu lado, ela interessava-se pelas armas, pelas zagaias, de que Vamiré empregava muitas espécies;—as de bases abertas para receberem a haste; as de pontas que se embebiam num buraco da haste; as de arpões chatos ou de varetas; as de lâminas como punhais; as de raspadeira; mas o que ela admirava sobretudo era a fina agulha de fundo aberto, e o fio para coser, tirado dos tendões da rena,—coisas desconhecidas da tribo dela, a qual, se bem que já sabia a arte de entrelaçar as folhas vegetais, ainda empregava unicamente o furador.
E não admirava menos a escultura e a gravura, espantada da paciência, da segurança dos entalhes, da verdade das análises. Escutava com curiosidade Vamiré, que procurava explicar o modo de vida dos Pzanns; e{71} seguia a gesticulação do homem, que indicava dimensões, figurava cerimónias, descrevia habitações.
De uma vez, quis ela informar-se da sorte das mulheres e, depois de alguns esforços, compreendeu a repartição em famílias, sob a direcção dos anciãos. Admirou-se muito, porque provinha das tribos monógamas em que havia uniões periódicas com as tribos amigas, sendo os filhos criados pelas mães, e os pais reciprocamente guarda-costas das esposas e protectores vigilantes da prole.
Os raptos de donzelas eram habituais; pelo quê, a cólera dos orientais não procedia do rapto de Élem, mas de que Vamiré tivesse cometido esse rapto sem aliança prévia, e, mais ainda, essa cólera procedia da viva aversão a uma raça longínqua.
Entretanto, Vamiré e Élem compreendiam-se mal, pela impossibilidade das minúcias.
Na marcha, na caça, na cozinha, iam decorrendo longas horas. Viviam em comum, tocavam-se ingenuamente, como duas crianças perdidas na floresta imensa. Ela obedecia a todas as necessidades estratégicas, deixava-se quase guiar, mas, a cada paragem, assumia uma atitude mesclada de temor e galantaria.
Vamiré mantinha não sei que nobre doçura; entristecia às vezes; era rude com as coisas, pisando os ramos de árvores, correndo contra os lobos e as panteras; mas, para ela, não tinha a menor violência.
Quando havia uma passagem perigosa, e ele tomava nos braços a companheira, submergia-se-lhe o coração numa onda de fogo, mas ele conservava a humildade{72} do leão diante da sua fêmea, uma nobreza de bárbaro distinto. Além de que, ele sabia que nas cavernas da sua tribo os esponsais eram precedidos de preparações e provas, que eram já uma delicada compreensão dos transes fecundos do amor—alegrias e penas, febres sufocadas, lutas intimas, destinadas a converter-se em grandes batalhas da futura humanidade.
Vamiré aceitava as provas que deviam engrandecer a espécie,—a sedução lenta, a ventura recebida aos poucos, sem triunfos grosseiros; e é por isso principalmente que as gerações, dele procedentes, seriam gloriosas através dos tempos.{73}