Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos

J.-H. Rosny aîné · Capítulo 17 de 24

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Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos

XVI A chuva

À terceira hora de trevas, a nona depois do meio-dia, avistaram a aberta que dava para a planície.

O chefe ia na retaguarda, cheio de resistência nas suas fibras ressequidas, espantando sempre a desordenada horda dos lobos, mas prestes a sucumbir.

Aos vitoriosos clamores dos homens responderam latidos a distância. Os lobos uivaram angustiosamente; depois, ouviu-se um agitar de mato, e passarem por ele centenares de corpos invisíveis, ladridos raivosos e a debandada dos lobos, a sua fuga, em meio de murmúrios de raiva e gritos de matança e de agonia.

Tranquilos então, os orientais chegaram à orla da floresta, onde os cães aliados, e dirigidos por um chefe, aguardavam os seus amigos.{118}{119}

 

XVI

A chuva

 

Aproximava-se o período diluviano do Estio, que todos os anos vinha ensombrar o céu quaternário. O vento arrefecia então, o frio matava, muitas vezes, a flor ou o fruto no ramo, e grandes fomes sucessivas exterminavam os frugívoros. Transbordavam rios e ribeiros; e o homem, encerrado na gruta da região alta, aprovisionado, hibernava, passando as horas a fabricar utensílios e armas.

Vamiré, prevendo aqueles dias nefastos, remava todo o dia. Élem, submissa, dominada, ajudava-o. A carne de élafo assado servia para a alimentação; e acresciam frutos silvestres, raízes tenras, ovos tirados dos ninhos serôdios.

Vamiré velava ternamente por Élem; e as noites, que eles passavam nas margens do rio, trescalavam a poesia imensa das infâncias.

Abrigavam-se perfeitamente contra o ímpeto da chuva; a barca, sustentada por quatro espeques, servia{120} de tecto; a pele do espeleu tapava o lado do vento; e grandes ramos pendiam da barca, de todos os lados.

Foi naqueles dias que o grande nómada do Ocidente se tornou esposo da filha dos países desconhecidos...

O ruído da chuva, o fragor da floresta açoitada pelo vendaval, isto, de per si, já falava de invernia e do prazer do refugio.

As primeiras friagens confirmaram o prognóstico. Vamiré, desagasalhado em favor de Élem, tiritava ao sopro do nordeste prematuro. Teve de gastar a manhã inteira do dia seguinte, em descobrir algum animal felpudo; e, de emboscada, surpreendeu um urso, atravessando-lhe o coração com a zagaia.

O cérebro do animal, misturado com o cerebelo e a medula de uma rena, serviu para untar a pele, previamente esfregada e desembaraçada da gordura e dos tendões.

Desde então, puderam ambos estar quentes, durante o sono. Élem, encantada do conforto, ria docemente, com uma confiança infinita. Mas Vamiré mantinha a preocupação das grandes chuvas próximas, durante as quais a floresta era inabitável. As feras, mais agressivas então, as hordas de lobos perigosamente esfomeados, iam amplificar a luta nos bosques. Em combates contínuos, as armas partir-se-iam. Era preciso estacionar, durante semanas, em alguma gruta, para renovar arpões e zagaias, para conjurar os perigos nocturnos de um acampamento volante e as torrenciais chuvadas ao ar livre.

Por menos suave que fosse o inicio do período diluviano,{121} Vamiré poderá chegar às grutas em fins de Julho, sob a condição de se apressar e de não perder tempo. Não se desprecatou; e, desde a aurora ao crepúsculo, a sua mão vigorosa fazia andar a piroga. Infelizmente, à barca sobrevieram avarias, e foi preciso despender três dias em reparos.

Por fim, a barca foi de novo lançada à água. O rio, com a enchente, tomava a cor do barro, e transbordava já para as margens mais baixas. A corrente, além disso, opunha-se; era preciso ir junto da terra; grandes troncos flutuavam ameaçadores, e algas terríveis emaranhavam as suas meadas.

Élem passava grande parte do dia, envolta na pele felpuda, e amodorrada pela monotonia da água corrente. O repasto era a sua principal ocupação. Amarrava-se então a barca em qualquer calheta. Graças à provisão de folhas secas em lugar coberto, o lume era suficiente para acabar de assar uma posta de élafo, um palmípede, um peixe arpoado em viagem.

O clima seco e frio dos tempos madaleneanos nas estepes da Europa, posto que moderado no Oriente meridional, comportava todavia o súbito regresso do frio antes do equinócio do Outono. Este facto ocasionava emigrações parciais de símios, de gamos, de chacais, de roedores, de aves palmípedes e pernaltas. O antropóide recuava então para o trópico, enquanto as hordas do mamute chegavam mais numerosas, e os pais do elefante indiano, os filhos do grande Anticus de Chelles desciam das montanhas.

Vamiré fazia parar, às vezes, a piroga, se um bando{122} de gamos ou de chacais chegava, em marcha, à beira do rio; mas o que verdadeiramente o apaixonava era o êxodo dos macacos, que, desfilando, e saltando de ilhota para ilhota, passavam à outra margem. Cabriolavam, clamorosos, aos centos, baloiçando-se, saltando a vinte côvados, apanhando de novo um ramo de árvore, suspendendo-se e prosseguindo aos saltos. A face deles tinha trejeitos, que pareciam determinados por ideias. Tinham gestos inteiramente humanos, coçando a cabeça, catando-se, assentados, descascando frutos com os dedos e com os dentes. As suas orelhas bem caireladas, os seus olhos de visão recta, a finura, a inteligência dos seus movimentos, encantavam extremamente Vamiré.

Sucedeu que uma fêmea, furiosa, atirou um filhito para o caniçal. Debalde gemeu ferido o pequeno macaco: os outros pareceram não cuidar em não avolumar a sua coluna com um inválido. Comovido, o grande nómada correu a apanhar o pequerrucho. Encontrou-o gemendo, de mãos estendidas no peito. Agasalhado, alimentado de frutos, o animalzito tornou-se estimável: gostava de dormir no colo de Élem, de se encarrapitar no ombro de Vamiré, beber água na mão dele, de se arrufar com a sua própria imagem na face do rio; e nada satisfazia o coração de Vamiré, como o ver o macaquito, inquieto, caprichoso, brincão.

Seria aquilo uma raça de homens anões?

Consultou Élem a este respeito, e soube que a linguagem deles era desconhecida, e que viviam como animais. Entretanto, Élem falou-lhe do homem das árvores, construtor de cabanas, e Vamiré recordou-se do{123} ente de olhos de âmbar, cabelos raros e corpo peludo, que encontrara outrora.

Um dia, à hora em que o vermelho indeciso, tremulando em fundo claro, anuncia o desaparecimento do astro soberano, Élem soltou um grito, e o Pzann suspendeu o remo. Na margem direita, apareciam homens. Eram de baixa estatura, curvados, e em seu rosto estereotipava-se uma fealdade triste e humilde. Armados apenas da antiga clava; e os seus cabelos, dispostos em pequenos anéis, desciam-lhes até o queixo.

—São os comedores de vermes,—murmurou Élem, contrariada.— No Estio, entram nas florestas e sustentam-se de bichos moles, contidos nas conchas; no tempo das chuvas, descem para a beira-mar, e nenhuma tribo sagrada tolera a sua vizinhança.

Vamiré, com interesse febril, observava os vermívoros. Tinham proeminente a maxila; a testa descia levemente até os enormes sobrecenhos arqueados; o cerebelo, desmedido, parecia pesar-lhes; não tinham os rins arqueados, e, marchando, apoiavam-se na clava.

Durante algum tempo, procuraram raízes e frutos de pevide entre as plantas aquáticas, e todos depunham a sua colheita, num monte, diante do chefe. O montão era já considerável, porque eles, pelo caminho, haviam já empilhado moluscos univalves, tubérculos, folhas hortenses.

Ao cair da tarde, agruparam-se em volta do chefe, que equitativamente distribuiu por eles os mantimentos.

—Conhecem a justiça!—murmurou Vamiré, satisfeito.{124}

Depois, vendo que eles acendiam lume, cedeu ao impulso do seu coração, e dirigiu para eles a piroga, com gestos de fraternidade.

Impressionaram-se, ao principio; mas o pequeno número dos adventícios tranquilizou-os.

Silenciosos e graves, contemplavam o grande nómada e a sua companheira. A estatura do homem, desconhecida no Oriente, assombrou-os; mas via-se que simpatizavam com ele, ao passo que visivelmente desconfiavam de Élem, em quem reconheciam o tipo dos mais ferozes perseguidores dos vermívoros.

Entre estes não havia mulheres: as mulheres, em hordas confusas, seguiam-nos de muito longe. A primavera reunia os sexos em paragens tradicionais; depois, o bando masculino abandonava o bando das fêmeas durante o Estio, o Outono e o Inverno.

Eram como vencidos, os vermívoros. Saídos cedo da matriz antropomorfa do período terciário, lançados nas vias externas do humano pela adopção de armas, de métodos de sociabilidade, já muito distanciados do processo animal, para que nele reentrassem sem fraquejar, tinham perdido, em frente do vigoroso quaternário, a esperança orgânica, esta força singular que abandona o velho tipo do Vermelho perante o Árico.

Demais, relegados nas estepes áridas ou na profundeza das florestas, fracos, mal armados para a caça da ligeira fauna silvestre, descambavam progressivamente na fitofagia, adestrados em descobrir os tubérculos que há debaixo da terra, em conhecer as hastes e raízes comestíveis, fazendo provisões de pevides de melancias,{125} de grãos de helianto, gulosos de moluscos, passando o Inverno nas costas do Cáspio ou do Mar-Negro, onde se alimentavam de pesca rudimentar.

Uma bondade, um instinto adorável, tornava a vida do individuo preciosa para a comunidade. As partilhas eram reguladas pela mais estrita igualdade, e cada qual tinha a maior dedicação em salvar o companheiro da garra das feras. Por isso, eram ainda senhores do leão, do urso, do leopardo e até do antropóide; mas tinham medo enorme dos braquicéfalos, caçadores das estepes fecundas: é que tinham visto perecer milhares dos seus, sob os golpes das frechas e zagaias.

Nunca se aproximavam dos acampamentos inimigos, a menos de seis dias de marcha, e até evitavam os grupos insulados.

Vamiré cativou-os pelo seu riso ingénuo, e pela generosidade com que lhes ofereceu alimentos da sua barca: postas de élafo e de esturjão, ovos de adem. Também estas provisões foram repartidas, com gáudio do Pzann. Este, brindando o chefe com uma pele de raposa, todo se tomou de surpresa, quando viu que a pele era gravemente retalhada e distribuído um pedaço a cada um do bando.

O seu riso franco, e a sua tentativa de fazer compreender o absurdo daquela prática, sugeriram alguma desconfiança aos vermívoros; e manifesto ainda era o terror que Élem lhes inspirava, e o desgosto dela; a ponto que Vamiré, mau grado seu, decidiu separar-se deles.{126}

Reembarcou pois. Já a distância, escondido pelos caniçais, fixou longamente a vista, com exclamações em voz baixa; os comedores de vermes, activando as suas fogueiras, agrupavam-se à roda delas; e, depois de construírem com ramos uma ligeira choupana, em que o chefe se recolheu, acocoraram-se sobre os calcanhares, ao ar livre, com a cara entre os joelhos, as mãos na cabeça, e assim adormeceram.

O Pzann sentiu então grande piedade para com a sorte dos seus irmãos inferiores. Ao amarrar a barca, passava em seus lábios um murmúrio de tristeza. Mostrou-se sombrio, à refeição da noite, e adormeceu tarde.

Acordou antes da aurora, e observou a partida dos vermívoros. Viu-os atravessarem o rio a nado, e desaparecerem ao nascente. Quando já os não via, suspirou melancolicamente, acordou a sua companheira, e desamarrou a piroga.

Quatro dias decorreram no labor da viagem. Em a noite do quarto, desencadeou-se uma furiosa tempestade, que derrubou árvores ruidosamente, levantou no rio enormes vagas e fez tremer toda a floresta.

Abrigado numa lapa, Vamiré dormiu, resignado e tranquilo. Élem passou a noite em suplicas, orando ao Desconhecido.

O furacão sibilava, insinuando-se nos sarçais, e curvava as altas ramarias, onde se perdiam clamores em som confuso.

A tempestade declinou de madrugada. O dia amanheceu suave, as nuvens deixaram passar réstias de sol, e a floresta ressurgiu para uma vida húmida e tépida.{127}

O rio, barrento, largo, engrossado e tranquilo, carreava os despojos da batalha da véspera.

Começava a descida para o mar dos peixes que sobem aos rios, e que iam passando em chusmas, adelgaçados, extenuados pelo trabalho da fecundação.

Élem, fatigada, dormia; Vamiré, de bom humor, remava para a pátria longínqua.

Em horas monótonas, a ideia do espaço a transpor, a vertigem da andadura, adormentava o cérebro do Pzann. Vamiré já não era senão uma vontade tensa, um organismo mergulhado no sono dos fluidos, a água, o ar; o marulho daquela e o infinito afago deste entorpeciam as suas carnes, imobilizavam a sua memória sobre algumas palavras, sobre a imagem de seu pai, de sua mãe, do seu valente irmão Guni ou da sua irmãzita, que saltava como uma cabra montesa; mas não chegava a realizar o esforço que relaciona as coisas e as faz falar.

Mas à sexta hora depois do meio-dia, deu-se um incidente inquietador, que atraiu toda a atenção do grande nómada.{128}{129}