Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos
V O homem das árvores
V
O homem das árvores
Quando a noite escureceu o rio, Vamiré percebeu que estava imensamente longe dos confins da floresta. Assou algumas postas de um esturjão arpoado na passagem, e, mitigada a fome, vieram-lhe à memória as lendas vagas dos Pzanns:
—«Tah, ancião de cento e vinte Invernos e memória lúcida, narrava o desmoronamento das montanhas. Três gerações antes de Tah, o Oriente meridional era limitado por lagos e serras, que nem os Pzanns, nem povo algum conhecido dos Pzanns tinham jamais transposto. Mas os fogos subterrâneos expandiram-se, e o ventre das montanhas entreabriu-se.
«O abismo bebeu os grandes lagos. O espanto dominou os homens, e, desenvolveu-se uma geração inteira, sem que ninguém se atrevesse a devassar as novas regiões. Depois, Harm, o grande caçador, acompanhado pelo pai de Tah e por moços valentes, aventurou-se aos desfiladeiros cavados pelo cataclismo. E foi{38} assim que se descobriram as grandes planícies do Oriente meridional...»—
Sentado sob uma faia de franças trémulas, comovido por aquelas lendas, Vamiré desejou ser, como Harm, um daqueles que descobrem terras distantes.
Lembrou-se ainda de outras lendas: a história dos Pzanns aventureiros, que, mais de cem anos antes, haviam tentado explorar a floresta, e muitos dos quais tinham desaparecido sem deixar vestígios, e outros tinham regressado, contando que o rio corria eternamente por entre árvores gigantes, e que os perigos aumentavam a cada dia de viagem.
Mas nada disto desalentava o nómada. A sua curiosidade e a sua coragem crescia a cada rumor da noite, a cada emboscada que ele entrevia nas sombras.
Permaneceu largo tempo, sem sono debaixo da faia. Mas quando, enfim, o cansaço lhe oprimiu o corpo, foi buscar a sua canoa e transportou-a para a margem; depois, tendo encontrado um lugar seco, estendeu ali a pele do espeleu e, virando a canoa, cobriu-se com ela, resguardando-se contra surpresas muito rápidas. E, com a clava numa das mãos e a zagaia noutra, adormeceu.
Nem nessa noite nem nas seguintes foi Vamiré atacado pelos carnívoros. Não porque os monstros da sombra não girassem à volta da sua canoa; mas é que nenhum tentou o assalto.
Vamiré acampava ora em ilhotas, ora nas margens silvestres. Em meio da abundância de tudo, não lhe faltou carne nem frutos que mantivessem a força do homem.{39}
Mais de uma vez, diante da interminável floresta, de onde manavam grandes ribeiras afluindo ao rio, chegou a arrepender-se da aventura, e a tristeza tomava-lhe a alma. Pensava em que o regresso seria mais difícil que a ida; a memória inquietava-se-lhe com a história dos que não tinham regressado; e o coração enchia-se-lhe de saudade, ao lembrar-se de Zom e Namir, seus geradores, e de seus irmãos e irmãs, mais novos que ele.
É verdade que Zom e Namir o tinham já esperado por outras vezes durante dois ou três quartos de lua, e se haviam acostumado às ausências dele; mas agora, que duração teria a viagem?
Os obstáculos acumulavam-se, especialmente as cachoeiras, que Vamiré não podia transpor, senão levando a canoa pelas margens.
Por entre espinhais e grossas raízes que ressaíam da terra, por cima da acidentada areia movediça, por entre répteis e feras alapadas, árdua era a passagem; mas estes próprios obstáculos, à proporção que ele os vencia em maior número, estimulavam-no à perseverança, pela ânsia de perigos sem recompensa.
Um dia, despertou quando as aves findavam o hino da alvorada, quando o orvalho escorria das árvores como chuva ligeira. Um ruído de ramagens chamou a sua atenção. Viu avançar então um vulto cor de freixo, de andadura oscilante, aos pulos, acocorado nas mãos posteriores; a sua estatura excedia a da pantera. As suas quatro mãos, o seu rosto, os seus olhos circulares, as suas orelhas delicadamente contornadas, lembraram a Vamiré{40} palavras de Sboz, aquele que de entre os Pzanns penetrara até mais longe no desconhecido da floresta: naquele extraordinário ser, de braços desmedidos e peito largo, reconheceu Vamiré o homem das árvores. Estranho aos povos da Europa e quase aos da Ásia, cada período o impelia para as regiões ardentes: cem mil anos depois do êxodo da raça, as florestas meridionais, raras e espessas, conservavam apenas algumas famílias solitárias.
Vamiré teve um movimento de simpatia. Levantando-se, soltou o grito de chamar, próprio dos Pzanns. O homem das árvores parou, inquieto, espreitando com os olhos redondos, por baixo da espessura da ramaria.
Vamiré, desviando as frondes, descobriu-o de súbito.
—Hoi!... Venturoso sejas!
O homem das árvores pôs-se em pé. Coberto de pelos penugentos, de raros cabelos, de menor estatura que o nómada, mas mais largo de ombros, parecia dotado de uma força extraordinária.
Vamiré admirou-lhe a fisionomia feroz, as maxilas enormes, as sobrancelhas emaranhadas por cima das pupilas amarelas, a sua epiderme escura e granulosa, sem que diminuísse a simpatia, o prazer de encontrar um semelhante, depois de uma semana de solidão; e, acompanhando as palavras com o gesto, Vamiré tornou:
—Vamiré, amigo..., amigo!
O homem das árvores rosnou, entreabrindo os beiços, certamente hesitante sobre as intenções do outro.{41}
O nómada, vendo a inutilidade das palavras, recorreu aos gestos, mas sem outro resultado, senão aumentar a desconfiança do desconhecido.
Sem se importar disso, Vamiré deu alguns passos em frente; mas então, de punhos cerrados e pupilas trémulas, o homem das árvores bateu no peito e ameaçou o troglodita. Este irritou-se:
—Vamiré não teme o leão, nem o mamute, nem as ciladas dos homens...—
O homem das árvores rosnou outra vez, sem avançar todavia para o Pzann, mantendo-se na defensiva.
À vista do que, Vamiré calou-se, já sem ira, e com uma curiosidade crescente.
Os dois contemplaram-se por algum tempo.
Esta pausa pareceu inspirar alguma confiança ao homem das árvores. A sua fisionomia desvincou-se, manifestando uma paz de herbívoro. Embora menos analista que Vamiré, percebia também que estava na presença de um semelhante. Vagos instintos porém, talvez recordações directas, temores atávicos, não lhe tornavam agradável tal presença.
Sentiria ele que outrora, ao dissolver-se o período terciário, ele ocupava a mesma escala do grande dolicocéfalo que estava em pé diante dele? Que, por misérias e vivendas depressivas, a sua raça estava agonizante e a do outro vitoriosa? Traria ele, gravadas na sua carne, as dores, as revoltas, as nostalgias, os êxodos perpétuos, as campanhas perdidas, tudo que se transmite de geração a geração, de sangue a sangue, e cujo despertar indefinido, entressonho de vidas passadas, ressurgidas{42} subitamente nas fibras hereditárias, equivale à memória directa e precisa?...
E o homem das árvores, desajeitado, continuava, embora menos desconfiado, a espreitar Vamiré. O Pzann, deixando de gesticular, e convencendo-se da impossibilidade de se fazer compreender, retirou-se para a sua canoa, a fim de a pôr a flutuar.
Quando chegou ao rio, voltou-se e viu que o homem das árvores o tinha seguido e o olhava com curiosidade.
Embarcado Vamiré, uma certa benevolência se desenhou na boca cinzenta, sobreposta de nariz chato, do homem das árvores, que com os braços peludos esboçou um vago gesto de amigo. Vamiré correspondeu-lhe imediatamente, sorrindo, e desculpando ao selvagem a desconfiança.
Por muito tempo, e enquanto a débil canoa se afastava, entre o raizame das margens deixou-se ver imóvel uma face atenta; e uma admiração pânica e uma impressão mista e selvática como as sarças marginais, vagueavam no cérebro do homem inferior, no crânio moroso do homem das árvores.{43}