Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos

J.-H. Rosny aîné · Capítulo 14 de 24

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Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos

XIII Entre os orientais

Mais de um leopardo, mais de uma alcateia de lobos, aspirou os eflúvios do homem estendido; mas nenhum ousou perturbar a invencível família do grande mamute peludo, de cabeça bojuda.

Até às quatro horas depois do alvorecer, estiveram{101} de atalaia. Vamiré saiu então do seu longo entorpecimento, refrescado e fortificado, como de um banho fluvial em dias calmosos.

Pôs-se em pé. Distendeu os braços e o peito, e notou, de relance, a partida dos proboscídeos.

Esta partida relacionava-se, na sua mente, com a aventura da manhã anterior, e teve para os mamutes palavras de boas-vindas, embora não soubesse quanto lhes devia. Soube-o depois, quando descobriu o cadáver do urso, com os ossos partidos; e o seu coração comoveu-se vivamente.{102}{103}

 

XIII

Entre os orientais

 

Decorridos cinco dias de enfadonha marcha, com amiudadas paragens, notavam-se grandes melhoras nos feridos orientais. Na paragem do sexto dia, adquiriram a esperança de tornar a ver o acampamento da tribo, antes de finda a incipiente lunação.

Entre os primeiros que se punham a pé, o chefe não soltava uma queixa. Suportava o ferimento do ombro como velho robusto e estóico, cujos sofrimentos parciais não influíam no organismo geral. De manhã e à noite, passava em revista a sua gente, tratava o seu ferimento e os dos seus homens, aplicava drogas conhecidas para se evitar a inflamação, e pronunciava palavras mais benéficas que o bálsamo.

Durante o dia, silenciosa e torva, Élem acompanhava o bando; mas, de noite, acordava frequentemente, recordava-se e chorava. À sua alma de primitiva faltava{104} o grande nómada, de face clara, docemente enérgica, ombros largos e músculos de ferro. E os ímpetos dele, as expansões alegres, a superioridade intelectual, o olhar azul, a preocupação da arte e do trabalho, tudo agitava a sua carne viçosa, impelindo as afinidades de raça para propícios cruzamentos. Suspirava de amor, enquanto as horas decorriam, e pensava em evadir-se, pelo receio de ser sacrificada por seus irmãos.

Começavam já a carregar o semblante, com os louvores que ela tributava ao Pzann, quando a interrogavam. Apenas o chefe, observador reflexivo, adoptava um inquérito tranquilo; e ouvia com interesse os pormenores acerca da força, da agilidade e, mais ainda, da indústria e da arte do homem fulvo, e acerca dos costumes da região longínqua. Os seus ódios, que a idade acalmara, engolfaram-no no encantado enigma. Sentia que não tivesse sido aprisionado o grande homem loiro, porque talvez este soubesse até onde se estendia a floresta, de onde vinha o rio, e onde a terra tocava no céu.

De costumes mais selvagens, menos artistas que os grandes dolicocéfalos das planícies do Ocidente, os orientais haviam aceitado desde o principio as jerarquias sagradas. Nas férteis regiões do Levante, alimentavam o devanear monótono e imóvel do pastor. Era mais perfeita a sua organização social; mas aquelas raças não tinham o destino das raças plásticas, aventureiras, laboriosas e individualistas da Europa.{105}

Nómadas e caçadores, os orientais exploravam já o vegetal, preparavam massas farináceas com diversos grãos, aumentando assim a sua estabilidade. As colheitas de feno permitiam-lhes sustentar alguns rebanhos de cavalos e de bois asiáticos, contidos dentro de cerrados, porque o animal, pouco domesticado ainda, esquivava-se a aplicações metódicas, e apenas servia para alimentação do homem.

Tudo isto, e a fertilidade das suas terras, tornava as incursões dos braquicéfalos da Ásia menos extensas que as dos dolicocéfalos da Europa. Nas suas florestas, uma fauna de transição vivia onde já se encontravam espécies emigradas do Ocidente, raras variedades de bugios, chacais, gamos misturados com os animais das estepes frias,—mamute, urso, hiena, auroco, uro, boi almiscarado. Na época do regelo, começava o êxodo dos bugios, dos chacais, dos gamos, para os grandes bosques meridionais; atraía-os o verão.

Nas savanas de leste, os asiáticos haviam-se aliado com o cão, cujas vivendas se dilatavam, e que, menos vencido que o antropóide, dispunha de disciplina e de inteligência, lutava como o homem contra as grandes feras, e ajudava-o a caçar o uro ou o chacal, sob a condição de compartilhar os despojos.

À semelhança do homem, os cães haviam compreendido o benefício da sociabilidade, formavam assembleias deliberativas, organizavam exércitos masculinos, tinham chefes encanecidos pelo roçar dos tempos... Nas idades lendárias, foram o inimigo terrível da raça nascente. Já o pai do neandertal lacerava a face do leão e{106} domava o dinotério de defesas invertidas; já a terra estremecia sob os passos vagarosos de um entre-sonhador da génese civilizadora, esboçada nos mundos do insecto, e ainda o cão defendia o seu império. E quem poderia prever o desfecho, visto que o antropopiteco se restringia aos agrupamentos familiares, à primitiva horda, enquanto o outro confederava as suas tribos, ampliava a pátria, levantava exércitos, fortificava as suas cidades e educava seus filhos!

Os velhos encanecidos, sabedoria das tribos nómadas, sopeavam o instinto da ferocidade, cheios de emulação no ensino dos conhecimentos, cheios do mistério das coisas, aventurando explicações rudimentares sobre as fases da lua, sobre o curso das estrelas.

Devia-se-lhes a aliança com os cães, e estimulavam as tentativas de domesticação, com respeito aos insectos, às aves, ao uro, ao cavalo, ao urso, ao lobo. Ocupava isto capitulo extenso em seus anais.

Conheciam o capricho dos animais, e sabiam que, se alguns cedem à força, outros preferem a morte à violência.

Iam a consideráveis distâncias ver as tribos das chuvas, onde o feiticeiro Nadda criava abelhas; a tribo da lua, onde os guerreiros moços cavalgavam poldros; a tribo do trovão, onde três ursos viviam com os homens.

Em meio de tais recordações, o chefe oriental sentia crescer o despeito de não ter conhecido Vamiré. Quanto seria para desejar a paz com aqueles gigantes loiros, laboriosos e ousados! Os dois afastados povos,{107} postos em comunhão através da distância, teriam ampliado o património do homem. Explorar-se-iam paragens desconhecidas: seria descerrado o grande abismo, conhecer-se-ia a região dos elefantes cornígeros; ver-se-ia a serpente monstruosa, tudo que a lenda referia, havia séculos.

Protegeu Élem. Não só proibiu qualquer violência contra ela, mas até lhe dispensou inteira liberdade de acção. De dia e de noite, consentia que ela vagueasse a seu grado, adiantando-se ou atrasando-se na marcha, e reprimia de tal maneira o azedume dos seus homens, que não aventuravam uma observação.

Élem reconhecia a generosidade do velho chefe. Com o decorrer dos dias, a sua mágoa amadurecia, como um fruto ao sol do Estio. Solitária, erguia os braços para o Invisível, orava, suplicava. Os seus olhos exploravam atentos o rio, o rio amigo, em que a barca do Pzann a trouxe durante semanas. O aspecto das plantas aquáticas, dos nevoeiros errantes, inebriava-a, sufocava-a. Uma sede mortal, um profundo instinto de sobrevivência, sangue rubro e ardente, prestes a jorrar das veias, um sentimento de insubmissão e de capricho, tudo isto, que inda hoje é o perigo dos nossos amores, a perturbava e a tornava mortalmente amante e desesperada.

Ao sétimo dia porém, chegou um momento de calma. Através das brumas da alvorada, Élem julgou avistar entre os caniçais a barca de Vamiré. Estava longe, não distinguia bem, mas, com toda a sua energia de primitiva, convenceu-se da presença do Pzann.{108}

Muitas vezes, durante a marcha, teve tentações de se extraviar a bater mato, a quedar-se nas ribanceiras. Distraída e meditabunda, quando chegou a hora do sono, não pôde dormir, e os seus olhos semicerrados devassavam as trevas.{109}