Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos
XIV Reconquista
XIV
Reconquista
Ora, enquanto o bando dormia, de noite, o velho chefe lia na fogueira o evolar desordenado da vida dos ramos; fogueira que se desatava em numerosos seres subtis e coloridos, impulsiva e crepitante, matizada de fino azul, de amarelo claro, de purpura; rasteira sobre as cinzas, de vibrações rápidas, alta e ondulante sobre os ramos, esparsa na extrema do fumo, que, a revezes, se iluminava e se rasgava; fogueira, de onde surgiam mil quimeras, grutas, florestas, grandes lagos rutilantes, um mundo transitório, ateado ou apagado por sopros desconhecidos, mundo que se exaltava e se acalmava e se tornava mais furioso, dominado e terrível, devorador de florestas, subjugado pela mão de uma criança.
E o oriental dizia:
—Salve, fogo, mais belo que a água, tua inimiga, suave para a terra, que tu fecundas, suave para o homem, que tuas caricias aquentam.—
E pareceu meditar profundamente. Talvez ele pressentisse{110} então a grande maravilha do futuro, a era da metalurgia. Já o calor fundia partículas de terra ou de pedra, e na cinza se deparavam pequenas barras solidificadas. E guardavam-se com desvelo estas lágrimas de metal. Havia-as de diversas cores: amarelas, pardas, brancas. Batendo-as com uma pedra, davam-lhes formas diversas, ou as partiam em lâminas; mas estas lâminas eram frágeis, flexíveis ou quebradiças, e ninguém supunha ainda que estivesse ali o competidor da pedra, do osso, do chifre.
—O fogo corre em nossas veias,—murmurou o velho, voltando ao seu misticismo;—e por isso é que a nossa boca expele fumo, como um brasido em que se deita água.—
Respirou voluptuosamente, ufano daquela ideia, e, ao contemplar a noite, dilatava-se-lhe o coração.
O clarão da fogueira amortecia as estrelas zenitais; mas tremeluziam numerosas e pequeninas no horizonte do rio.
—O fogo da lua, o das estrelas, é um fogo frio como o olhar dos homens...—
Calou-se. O ruído nocturno dos sarçais parecia mais frouxo. Muito ao longe, bramia um leão, e a sua bela voz guerreira parecia emergir das cavidades abissais, ou ser eco de montanha, desmedidamente poderosa e grave.
Não corria uma aragem. Sobre a claridade do rio, espalmavam-se aqui e além as manchas de vegetação, e as sombras coavam angustias na alma.
O velho sentiu a impressão de tudo isto. Ergueu-se. A fogueira iluminou toda a sua forte corporatura.{111}
Pareceu inquietar-se de ver que Élem tinha os olhos abertos, e aplicou o ouvido.
Um ligeiro ruído, como de animal que rasteja, vinha da escuridão da selva; logo após, agitou-se o mato, e ouviu-se um pequeno choque, como de uma pedra contra outra.
—A pé!—bradou ele, de arco tenso na direcção do ponto suspeito.
Uma frecha rompeu do matagal, roçando a cabeça do chefe; e ainda os orientais estavam meio estendidos, e já Vamiré, de um salto, se achava junto da fogueira.
Por seu turno, o velho despediu uma frecha, mas esta perdeu-se, passando à esquerda do Pzann.
Vamiré, de clava erguida, ia esmagar o seu único adversário, quando Élem interveio, suplicante. Imediatamente, o grande nómada dirigiu-se aos homens estendidos e, num gesto, significou-lhes claramente que mataria o primeiro agressor.
Reconhecendo-se vencidos, os orientais aguardavam as ordens de Vamiré. O velho olhava sem receio para o intruso, e fez sinal aos seus, para que sossegassem.
—Fala, e não prefiras a violência à justiça.—Vamiré compreendeu que podia ditar as suas condições, e, com a sua mímica, indicou que desejava Élem.
—Vai!—disse o velho a Élem.—Mas porque levas, à força, uma rapariga das nossas tribos? Funda-se o teu sangue com o nosso, e reúna a paz os filhos da Luz com os homens das regiões desconhecidas.—
Élem pegou na mão de Vamiré e conduziu-o, com{112} palavras doces, para junto do chefe. O Pzann deixou-se conduzir, cativado pela voz austera e nobre do oriental; mas, atrás de si, os orientais levantaram-se inopinadamente, com um clamor entusiástico.
Vamiré acreditou numa perfídia, segurou Élem e começou a fugir. A alguma distância, nas trevas, parou.