Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos
VII A perseguição
De maneira que não recusou a ligeira refeição, oferecida por Vamiré, e até, renascendo-lhe o apetite, sentiu prazer em mordiscar a coxa assada da lebre. O caçador, encantado, admirava-lhe os dentes de lobo, a cabeladura desprendida ao longo do pescoço; e não sei que sentimento de maternidade se mesclava ao amor crescente do moço pré-histórico.
Furtivamente, de olhos baixos, ia-se ela acostumando à presença do caçador, achava-o mais belo e mais robusto ainda do que na véspera, mas; a sagrada recordação da tribo interpunha-se aos dois e enchia-a de saudades.{58}{59}
VII
A perseguição
Pouco depois do alvorecer, Vamiré e a sua companheira chegaram enfim ao rio.
A abandonada canoa lá estava ainda na moita onde ele a escondeu: teve só que tomá-la aos ombros e pô-la a nado. Mas quando nela quis meter a estrangeira, esta manifestou violenta repugnância. Foi quase preciso empregar a força. Entretanto, desde que ela se viu embaraçada, voltou-lhe a resignação, o seu fatalismo de oriental.
Vamiré, acompanhando a margem, por onde a corrente era mais branda, pôs-se a navegar rio acima, lentamente.
Era deliciosa a hora, os raios do sol oblíquos, e toda a natureza rejuvenescia nas estepes. Árvores mais numerosas anunciavam a proximidade da floresta, e Vamiré esperava chegar lá, antes que o sol estivesse a meio caminho do zénite.
Mas haveria apenas meia hora que ele pangaiava,{60} quando teve um rebate. O seu olhar perspicaz descobria além, na planície, uma multidão confusa de homens ou animais. Minutos depois, não restava duvida: eram homens parecidos aos perseguidores da véspera e provavelmente os mesmos. Graças ao cortinado das árvores, Vamiré tinha a vantagem de que eles não descobririam prontamente a canoa, ao passo que ele, próximo dessas árvores, cujos intervalos lhe serviam de observatório, estava em posição de lhes seguir os movimentos pela planície inclinada que levava ao rio.
Demais, não traziam pressa; paravam amiúde, e desde logo percebeu o nómada que eles lhes seguiam a pista, com todas as paragens inerentes a este modo de perseguir.
Vamiré não descobriu a impressão à sua companheira, e começou a pangaiar com mais ardor, no intuito de atingir a floresta e desembarcar na outra margem. Mas, após alguns minutos, a rapariga avistou por sua vez os que a procuravam, e a sua fisionomia animou-se. Soltou uma exclamação, e, voltando-se para o seu raptador, dirigiu-lhe um olhar suplicante e humilde.
Vamiré baixou os olhos, comovido. Mas depois veio-lhe o despeito, uma resolução rude, que lhe fez dizer, como na véspera:
—Vamiré é o mais forte!—
Ela conservou-se firme, indiferente na aparência, observando obliquamente a vinda dos outros.
Vamiré calculou que, não sendo visto no momento em que eles chegassem à margem para conhecer as condições do rio entre a vegetação que o ladeava, hesitariam{61} necessariamente entre três ideias: que ele teria descido a corrente; que a teria subido; ou que teria atravessado o rio e continuado o seu caminho para leste.
Mantendo-se a velocidade actual da canoa, seria possível chegar à ilhota longa e estreita, coberta de arvoredo, que ele avistava mais acima, a dois mil cúbitos. Chegando lá e voltando à direita, nada poderia ser observado pelos perseguidores. Calculando bem as velocidades respectivas, a sua salvação dependia de uma dezena de cúbitos.
Empenhou todas as suas forças num impulso supremo, e abeirou-se rapidamente da ilha. Mas ao mesmo tempo chegavam os outros ao rio.
Naquele momento, foi enorme a inquietação de Vamiré: um dos asiáticos, pondo a mão em pala sobre a testa, parecia olhar na direcção dos fugitivos. Pela maneira como deixou cair a mão, pareceu a Vamiré que ele nada tinha visto; mas não era menos certo que o cortinado das árvores se tornava menos opaco para os outros e podia ser sondado por algum deles.
Felizmente a ilha estava próxima: mais algumas remadas, e Vamiré estaria no pontal.
Mas, de repente, a sua companheira, percebendo-lhe a estratégia desesperada, ergueu-se em pé e soltou um grito. Sem reagir, Vamiré deu as últimas remadas, dobrou o pontal, e, à sombra, invisível, tomou terra numa pequena calheta, e levantou-se furioso:
—Cala-te!—
A sua mão rude levantou a rapariga, sacudindo-a. Ela assustou-se, calou-se, dominada, entregue ao seu fatalismo.{62}
Vamiré conservou-se irritado dois minutos, com os temporais latejantes. Depois, serenou, convencido de que o grito não chegara à margem, e pôs-se a perscrutar a estepe.
Devidamente, ele estava de melhor partido. Os outros, lá em baixo, mais vagarosos, mais hesitantes, chegados a uma zona, em que as pegadas de uros se confundiam com os vestígios de Vamiré, certamente não podiam ainda explorar o rio. Vamiré apontou-os, triunfantemente com o dedo à oriental:
—Nunca mais te haverão..., nunca mais!—
E, obrigando-a a sentar-se de novo na canoa, retomou o remo e continuou a costear a ilhota.
A pequena embarcação singrou silenciosamente por algum tempo. A ilha ia-se alargando, recoberta de áspera vegetação, de árvores devoradas por cipós. De espaço a espaço, descobriam-se sapos colossais, aves pernaltas, palmípedes.
Através do incenso primaveral, da alegria perfumada das corolas, emanava das sombras um bafio de humo, de madeira bolorenta, de organismos sáurios. Aqui e ali, pontais a dobrar e plantas fluviais sobrenadando, atravancavam a canoa. As ogivas dos ameeiros e dos freixos roçavam Vamiré e a sua companheira; e a imagem trémula das coisas ressaltava das águas, revestida, ao mesmo tempo, de uma graça mais discreta e de uns revérberos vertiginosos.
E assim foi chegando Vamiré até meio da costa; depois, a ilha começou a estreitar-se, a afilar-se, à feição de proa.{63}
As águas azulejaram. Avistou-se enfim a ponta da ilha; o rio mostrou-se largo e límpido; a floresta ostentou-se a três mil cúbitos.