Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos
XII O mamute
Cansado, trôpego, começava a cravar na terra, junto de uma árvore, os ramos mais apropriados àquele fim, mas teve de interromper essa tarefa: dominou-o um entorpecimento mais forte, e, quando procurava sentar-se, caiu prostrado pelo sono.{89}
XII
O mamute
Era uma clareira entre faias, carvalhos e olmos. Crescia ali a tabua e o joio, de mistura com ranúnculos, cardos frocosos e urtigas dióicas.
Sob os gladíolos da erva, nas folhas, nas flores, nas hastes, nas raízes, havia o mundo dos insectos, esboço material do futuro mundo do homem, praticando a física, a química, as industrias do utensílio e do ácido, criando a broca, a verruma, a serra, a espátula, a fieira, a escavação na pele, a perfuração com cáusticos, as galerias de mina, a habitação social, a sineta do escafandro, a espada, a armadura, a luz, a seda, o tecido, a cera, o açúcar, o mel.
A madrugada achava-os trabalhando. Nos primeiros alvores, voluteava a grande mosca madaleneana, traçando ângulos; a vespa explorava corolas; agitavam-se, com as suas asas aveludadas, enormes piérides; voltavam do rio nuvens de mosquitos, a abrigar-se nas folhas; as formigas, em legiões, transportavam pulgões,{90} estames, grãos, os despojos das minúsculas batalhas da vida; a cicindela, de emboscada, espreitava uma presa; o necróforo, com as suas extremidades palidamente orladas, procurava a carcaça, em que devia pôr os ovos; o fura-pau batia com a tromba na casca dos olmos; o grilo, fatigado das suas vibrações, adormecia; as forfículas embebiam as suas pinças no fundo das corolas; e, semelhante ao tigre, o grande cárabo sobre o escaravelho.
Amodorrado o homem, a floresta parecia inquieta. A zona limitada pela outiva, pela visão, pelos penetrantes perfumes dos exploradores de troncos e ramadas, tudo começou a decrescer, pouco a pouco, à volta do rei bípede: os narizes microscópicos, as sensíveis trompas auditivas, as pérolas negras de olhos salientes, as longas barbas-antenas, perscrutaram as essências, que emanavam do homem, e conheceram a sua própria fraqueza. Apareceram ratos, atraídos pelas correias untadas de tutano; depois, eram as cabeças curiosas dos arganazes e esquilos, espiados pelo grande lince quaternário, das pôlas das altas ramarias.
Decorreram horas. O sol banhou a clareira. A corrente da vida engrossou com os raios solares, com os turbilhões de moscas que traçavam o seu voo enigmático, com os zângões, com as abelhas, mais rápidas e mais sonoras, com o enxamear das aves à sombra do moitedo.
No entretanto, uma hiena, baldada a sua digressão nocturna, claudicava esfaimada entre os espinhais. A sua pituitária reconheceu o odor humano, entre o do coiro{91} e o do unto. Aproximou-se. Os ratos debandaram; e a necrófaga, sem sair do seu esconso, compreendeu que o homem não estava morto. A esperança fe-la alapardar-se na sombra, numa semi-sonolência.
A luz continuava a coar-se, em fios cetineos, através dos interstícios das ramagens; a sombra atingiu o seu mínimo, e depois foi aumentando.
Vamiré dormia ainda, espreitado pela hiena. As aves iam-se calando; as grandes árvores emudeciam; a formiga trepava aos gladíolos da erva; o besoiro segurava-se na haste franzina das flores, curvando-a; as moscas zumbiam doidamente, e bandos de cabritos monteses partiam as plantas, na sua carreira veloz.
Pelas duas horas depois do meio dia, o fétido da hiena deu no faro de chacais, que se abeiravam do mato, onde ela se agachara. Por seu turno, emboscaram-se também na espessura, e a sua comoção de glutões, os seus gritos sinistros, desvendaram aos corvos a perspectiva de um opulento repasto.
Os corvos chegaram crocitando; com as asas negras escureceram por um pouco a clareira, e depois empoleiraram-se numa faia. A quatro mil metros de altura, três abutres reconheceram a comoção dos corvos, e caíram vertiginosamente sobre uma árvore vizinha.
Enquanto Vamiré dormia, os carnívoros gizavam o seu plano, desejando os nocturnos que chegasse a noite, e temendo os diurnos que findasse o dia. A hesitação mantinha-os quietos e de atalaia; depois, os chacais afastaram-se mais da hiena; o pânico dispersou, por um momento, os abutres. Nada prevaleceu contra{92} os corvos, que se reuniam aos centos, e que, com a afiada tesoira do seu bico, se aprestavam para o ataque.
Abriram eles o espectáculo: graves e cómicos nos ramos da sua faia, começaram por uma espécie de dança, avançando para a extremidade dos poleiros, até que um deles caísse; este esvoaçava por um pouco, crocitava furiosamente e voltava a reunir-se à fila.
O jogo e os gritos espantaram os nocturnos; e quando, numa nuvem, com o ruído do granizo em floresta, os palreiros baixaram sobre o homem, a hiena escafedeu-se, e o medo invadiu os chacais.
Os corvos, entretanto, iam andando, como míopes, astutos e grotescos, de terríveis mandíbulas que simulavam um grande nariz, e de corpo ondeado de azul-escuro.
A dois metros de Vamiré, hesitaram. Deixaram de crocitar; e os mais velhos formaram conciliábulo, em vozes baixas, como gorgolejos, alternados de saltos.
Um movimento do Pzann determinou a debandada. Os corvos voltaram para os ramos.
Pausa. Ouve-se rir a hiena e chorarem os chacais. Restabelecido o silêncio, a asa dos abutres soou pesadamente e as três aves de rapina baixaram sobre o solo. Os pescoços nus emergiam firmes de um colar de guarnição branca, e a cabeça longa, de um cinzento pálido, parecia a cabeça de um mamífero inofensivo, camelo, canguru, antílope.
Quedaram por muito tempo, como sentinelas imóveis. Os ângulos do número apareciam nas espáduas altas e{93} pontiagudas; o colo parecia jorrar do peito, e as asas eram mantos, guarnecidos de uma bela franja clara de penas rudes. De raça forte, a envergadura do seu voo ia até oito pés; as suas garras potentes, ávidas em remexer carnes mortas, aferravam presas animadas, nas horas de fome...
Ponderariam eles a agonia do homem, o resto da energia dos seus músculos soberanos, o seu peito arquejante, a sua cabeça de uro?
Estavam silenciosos, mas os caninos famélicos, cansados de esperar, deslizaram pelo mato. Então, os corvos retomaram o seu lugar, com ruído; os chacais, assombrados, pararam; e o abutre mais velho caminhou para a cabeça loira de Vamiré.
A cabeleira, esparsa nas faces, velava um tanto os olhos; o grande bigode fulvo estremecia ao passar do hálito febril; uma espécie de riso provocante soerguia o lábio, entre a resignada tranquilidade dos vincos da boca.
O ombro seminu parecia de pedra polida; os cabos retorcidos do tríceps denunciavam o poema das fibras em milhares de feixes, subordinados às mesmas funções; e o pêlo do espeleu encobria o tronco, em que pulsava o coração agitado.
A floresta realizava, em silêncio, o seu trabalho de cidade colossal. A vida, repleta, dormitava nos fojos, nos ninhos, e até nas galerias dos insectos.
Os corvos, interessados no procedimento do abutre, portavam-se com discrição; os chacais, bocejando, fechavam os olhos deslumbrados; e a hiena escarvava o{94} solo com as patas dianteiras. Ouviam-se pequenos ruídos, indecisos cantos, o cair de frutos maduros,—como difuso tiquetaque do relógio das coisas.
Entrementes, o abutre olhava, através do interstício da cabeleira de Vamiré, a pálpebra semi-cerrada, que deixava entrever a esclerótica.
Arrancar os olhos é o instinto da ave de rapina: o abutre decidiu-se ao assalto. Aproximou-se lentamente. Então, os seus companheiros chegaram também, e um deles pôs a garra no ombro nu.
A mão de Vamiré, inconscientemente, acudiu ao ponto ameaçado, caindo sobre a asa da ave; esta ripostou com uma bicada no pulso.
O ferimento despertou no homem as faculdades defensivas: como num sonho, os seus punhos de atleta acharam o pescoço de abutre... As garras aduncas fincaram-se, por dois minutos, na pele do espeleu; depois, veio a asfixia e a morte, antes que os dedos de Vamiré largassem a presa.
As asas dos sobreviventes feriram o ar; os seus vultos ergueram-se até as cimas das árvores. Ali, hesitaram por um momento, e, saindo por uma larga abertura, desapareceram.
O grande nómada, depois daquele incidente, recaiu na sua letargia. Tinha a aparência de um cadáver, e os corvos delegaram dez, de entre si, para se esclarecer. Os outros celebraram conferência, em que as vozes entre-cortadas respondiam a sons roucos, fundindo-se depois estes e aquelas.
Os dez verificaram que a grande presa era perigosa;{95} mas, como os tentasse o cadáver do abutre, trataram de o explorar.
O homem conservava esse cadáver na sua mão crispada. Com minuciosa circunspecção, deram volta ao animal, e atacaram-lhe o colo nu: abriram brecha, as tesoiras aprofundaram-na e, dentro em pouco, nas mãos de Vamiré estava apenas a cabeça do abutre. Depois, num esforço comum, os corvos levaram a presa para alguma distância.
Os chacais acharam favorável o ensejo. Ganindo e uivando, foram-se chegando, com um ruído semelhante ao de um aguaceiro na folhagem.
Os dez corvos ergueram voo, com um croaa furioso. Mas, reunidos aos outros, caíram aos centos sobre o espinhaço dos carnívoros, que prontamente fugiram, perante a imprevista agressão.
O bando negro ficou senhor do campo de batalha, e começou a devorar o abutre.
A hiena deixara de fugir. As exigências do estômago impeliam-na para a audácia. Embora altiva ainda, a sua raça ia decaindo, perdendo sucessivamente a índole ofensiva. Já estávamos longe do monstro daquele género, de maquerodo, que, com os seus caninos de dupla lâmina, do tamanho de um côvado, agredia os proboscídeos. Talvez que a grande hiena, nesse tempo, arrastasse ainda para as cavernas herbívoros palpitantes; mas esta, hiena mosqueada, não obstante possuir caninos e molares, os mais sólidos na animalidade daquela época, e capazes de partir o fémur de um auroco, limitava-se a preferir a carne morta, ou atacava,{96} em suas galerias os pequenos fossadores, a toupeira, o arganaz.
Adiantou-se lentamente, baixando-se como um animal que rasteja, e estendendo a cabeça a farejar o homem, cada vez mais inquieta.
A um salto de distância, calculou, e fixou o pescoço, planeando o assalto do cão e do lobo: a estrangulação...
Mas, toda nervosa, e raspando o colo, não se atreveu.
Enquanto ela hesitava, reacendia-se a luta, entre os chacais e os corvos. Os caninos fizeram uma sortida e, durante um desvio do adversário, puderam conquistar os restos do abutre. Magra refeição, sem duvida! De olhos vivos, pestanejando sob a acção da luz, trincavam os ossos do volátil, com ar de precaução.
Despertado o apetite, pensaram na grande presa. A hiena não se opôs, e até parecia que de ambos os lados se estimulava a audácia. Os risos e os uivos cruzavam-se com as corridas, os saltos de lado, e a exibição sugestiva das dentaduras.
As moitas entreabriram-se com fragor, o mato partiu-se com um rumor de tempestade, e apareceu um mamute, de fronte bojuda e de quinze pés de altura.
Gostou da clareira, parou, balanceou a sua enorme corpulência, arrancando com a tromba algumas ervas, num capricho de colosso pueril, e deitou-se: gozou a semi-sonolência dos grandes animais, perpassou-lhe na mente o devaneio, o inesgotável fluxo das formas e dos{97} movimentos que durante o dia lhe haviam impressionado a retina.
A hiena e os chacais, alapardados no esconso da vegetação próxima, recuaram de pronto. Um animal indolente, pesado, desajeitado, rompia vagarosamente do matagal e exibia-se em toda a luz: um urso.
O mamute, tranquilo, viu-o chegar. O plantígrado parou, consultando o proboscídeo. Despertado no seu fojo, à beira-rio, atraíra-o o barulho dos chacais; e, para o repasto do dia, contava agora com o homem estendido, esperando a neutralidade do grande elefante, porque sabia quanto este era pacifico, fora das épocas do amor.
Este cálculo pareceu acertado desde logo, pois que o elefante se ergueu e começou a andar, afastando-se; mas, a dez metros do homem, atentou nele, virou a tromba na direcção de Vamiré, aproximou-se, farejou, olhou. E, mugindo ameaçador, apresentou as suas defesas ao urso. Este sentiu a cólera funda, cega e obstinada da sua raça. Grunhiu, pôs-se de pé, atrás de um choupo, e a mímica das suas patas e o ricto do seu beiço exprimiram sede de represálias.
Com a tromba erguida em semicírculo, as defesas tocando no solo, com o seu corpo gigantesco potentemente especado, o elefante esperou...
Eram dois poderosos animais. O urso mostrava os braços peludos, armados de garras colossais, os seus caninos, a sua musculosa maxila. Podia, de pé, agarrar e sufocar. A sua pele espessa, oscilante, não o embaraçava na luta contra as feras, como o leopardo e até o{98} leão; o peso ajudava-o, e os seus gestos vagarosos eram de uma exactidão terrível.
Mas a força do mamute era incomparável. Os seus pequenos olhos, ao invés dos do urso, viam perfeitamente; a sua admirável tromba excedia, na agilidade e nos músculos, o braço do antropóide; as suas defesas recurvadas, do comprimento de dez côvados, jogavam e perfuravam como os cornos do auroco. Todo o seu corpo, em cima das quatro colunas das pernas, e sob o pêlo arruivascado e a abundante e negra crina mediana, mostrava-se a destreza e a facilidade de se voltar. Na floresta, na planície, nos desfiladeiros, em toda a parte, era ele o vitorioso senhor herbívoro, relíquia dos colossos de tromba, do período terciário, o dinotério, o elefante meridional, o elefante antigo.
O hipopótamo, o rinoceronte e ele representavam, todos três, o escol da era tapiriana, a monstruosa fauna alimentada do glúten da planta, o triunfo das grandes corporaturas e dos grossos músculos, o triunfo da paz armada, a coiraça, as pontas, as defesas, a tromba, contra a sanha dos carnívoros, a agilidade de locomotores, os caninos e garras de aço.
Perante o plantígrado míope, o proboscídeo foi o primeiro em deixar a expectativa. Naquele crânio, banhado de ondas de sangue, a embriaguez do furor toca, muitas vezes, as raias da loucura. O mamute soltou um mugido formidável e arrojou-se. A árvore salvou o urso, podendo este subir por ela até grande altura. O outro, com a espádua, fez agitar o tronco da grande árvore, e o urso, para não ser atirado ao solo, teve de{99} socorrer-se das suas garras de três polegadas, cravadas na casca do choupo.
Mas o elefante insistiu, e, de repente, o urso caiu-lhe sobre o dorso. Os dentes do urso fixaram-se em a nuca do elefante, e as garras junto às orelhas. Mas o paquiderme sacudiu-se, como um animal que sai da água, e, com um formidável impulso da tromba, fez cair o inimigo, que rebolou na erva. Depois, apanhou-o com a tromba, colocou-o sobre as defesas, ergueu-o, e atirou-o para cima de um silvado; e como o gigantesco animal se dirigisse ainda para o inimigo, este levantou-se, fugindo com dificuldade.
Misericordioso, o herbívoro aceitava este desenlace, e já se ia afastando, quando o urso reapareceu, atirando-se, às cegas, contra a tromba, arranhando-a e mordendo-a cruelmente.
O mamute, com um mugido de dor, dobrou o jarrete e abanou a cabeça. Com este movimento, o plantígrado perdeu o equilíbrio e caiu entre as defesas. A tromba segurou-o ali; depois o marfim enorme entrou-lhe no ventre, e, depois ainda, as grossas colunas do paquiderme esmagaram-lhe a caixa toráxica, e o urso exalou o seu derradeiro grunhido.
Por alguns segundos, o mamute encarniçou-se furioso nos despojos da vitima; e, em seguida, arremessou o cadáver para longe da clareira. E a hiena e os chacais tiveram que comer.
Satisfeita a sua vingança, o proboscídeo voltou para junto do homem. Farejou-o novamente e, colocando-se a alguns côvados de distância, mugiu longamente. A fêmea{100} apareceu com a cria; e ficaram todos três em volta de Vamiré.
Era quase noite agora. A grande mosca azul pré-histórica procurava o abrigo da folhagem; os nemóceros partiam em nuvens para as águas; o grilo recomeçava a sua vibrante arieta; as formigas transportavam a última colheita para os seus celeiros subterrâneos; a larva da cicindela dormia no fundo do seu poço; os necróforos lidavam no enterramento de um cadáver de arganaz; o chilrear da passarada esmorecia nas ramarias; e os corvos tinham levantado voo. Os raios difusos, mais rubros, mais escuros, fixavam-se nas extremidades da grama e da tabua; depois, escureciam mais, deixando apenas, aquém e além, algumas palhetas claras. Mas da erva ressaía ainda uma fosforescência, e os graves mamutes recebiam nas pupilas serenas estas últimas luminosidades, enquanto de entre o bosque saía o clamor sinistro dos chacais, e o rir da hiena, enfartada da carne do urso pardo.
Caíram enfim as trevas, estendendo o seu misterioso véu na floresta e no rio; no mato brilhavam pirilampos; perseguidas pelo morcego, esvoaçavam falenas, de asas lanuginosas; a coruja suspirou no côncavo dos carvalhos; e ouviu-se a voz das feras, proclamando as suas carnificinas triunfais.