Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos

J.-H. Rosny aîné · Capítulo 16 de 24

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Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos

XV Reforços

—Velho burlador,—clamou ele,—a tua voz canta a paz, mas o teu espírito quer a guerra. Vamiré despreza-te.—

Entrementes, armava o arco e apontava. Élem interpôs-se novamente. A frecha, desviada, internou-se nas trevas. Os outros armavam-se então; mas Vamiré desapareceu, enquanto o chefe, consternado, impedia a perseguição:

—Não marcheis para a morte... Ele não compreendeu as minhas palavras, e os vossos gritos assustaram-no!

A fogueira recebeu novo combustível; e, enquanto ela se ateava clara, os orientais tornaram a deitar-se, desgostosos daquela cena, em que a ingenuidade de se julgarem compreendidos inutilizava a prudência do chefe.{113}

 

XV

Reforços

 

A alvorada difundia-se por cima da floresta, e o velho permanecia ainda indeciso. Além de tudo, era impossível lutar com segurança contra o homem fulvo; a sua força, consideravelmente superior, dificultaria um combate franco; e a sua prudência inutilizaria qualquer cilada. Pedir auxilio a tribos, que demoravam longe, a algumas semanas de caminho, impossível. Reconhecer primeiro o território inimigo, e levar lá depois um exército? Mas não surgiriam obstáculos invencíveis? E a floresta teria limites?

As orações e os ritos cantavam-lhe longamente na alma. O seu olhar buscou a chave do enigma nos pálidos lampejos das achas, nos arabescos da ramaria. Mas não disse uma palavra: a sabedoria das tribos exige que o chefe prudente opere, sem fazer hesitar a caprichosa inexperiência da gente moça.

Tomou as suas armas; estudou a direcção da sombra; observou o voar de certas aves, e levou consigo os companheiros.{114}

Todos reconheceram, logo, que marchavam para o Sul. Desse lado, estendiam-se, até o sopé de altas colinas, grandes planícies estéreis, a que se aventuravam raros exploradores; era o território dos cães. Um pouco mais para o Levante, com seis paradas de um dia, poderiam chegar às tribos amigas.

Os moços admiravam-se, mas nada diziam.

Decorreu o dia, interrompido de breves paragens, e manteve-se a orientação até à noite.

A noitada foi áspera. Uma chuva torrencial caiu sobre a floresta, quatro horas antes de amanhecer. Apagou-se o lume, e os corpos tiritavam encharcados.

Foi mester construir um abrigo e, quando prosseguiram na marcha, era manhã clara.

Os quatro homens marchavam em silêncio. Uma espécie de ferocidade emanava das coisas: a chuva fustigava as ramadas; a terra prendia os pés na lamacenta argila; o vaguear das feras nos moitedos era ameaça terrível; os lobos, em alcateia distante, começavam de seguir os orientais, na previsão de carnagem; as serpentes multiplicavam-se, sinistramente estendidas nos braços das árvores.

O receio do Inverno estimulava o apetite: foi preciso disputar aos lobos uma presa já morta.

A nostalgia das cabanas e das grutas insinuou-se no peito dos orientais, que se sentiram invadidos pelo devaneio e pelos encantos do lar. Só o velho, impenetrável, curvava a cabeça às contrariedades, aceitando a sorte adversa.

Principalmente a segunda noite foi frigidissima. Felizmente,{115} descobriram uma larga clareira, à borda da qual chegaram a acender uma fogueira de folhas secas.

De manhã cedo, puseram-se a caminho; e o musgo das árvores, e o voo de certas aves na direcção das planícies, foram-lhes orientação bastante. Mas esta era já menos segura, e impunha-lhes numerosas paragens. Os novos entreolhavam-se furtivamente, sombriamente, e voltavam-se amiúde para Leste. Pelas oito horas, começaram a trocar palavras em voz baixa, e parecia que os animava um fermento de revolta.

O velho todavia continuava a marchar, altivo e robusto. Sucedia-lhe pensar alto, gravemente, e rir, até, com uma espécie de entusiasmo. Sagaz, como podia sê-lo um primitivo, dir-se-ia que tinha vista longa e dupla, e uma voz reveladora no seu intimo.

O sol, ao meio dia, rasgou as nuvens. Da terra ergueu-se uma névoa, com um cheiro morno, suavíssimo. O velho estendeu as mãos, dirigiu orações ao astro, e depois voltou-se para os seus companheiros:

—Quem há que tenha o direito de se esquivar à obediência? Se o Conselho quer a tua cabana, deves-lhe a tua cabana; se quer o teu braço, deves-lhe o teu braço; se quer a tua vida, deves-lhe a tua vida. Não sou eu, entre nós, apesar da idade, o mais forte e o mais discreto? Os vossos cabelos ainda não branquejam, e os Espíritos não vos falam ainda. Abatei o vosso orgulho, ou grandes males vos advirão!—

O arrependimento e o terror encheram então a alma dos novos; e estes, prosternados, reconheceram, mais uma vez, a autoridade da experiência.{116}

O chefe anunciou-lhes que depois do crepúsculo chegariam às raias; o que foi confirmado pela presença dos grandes quadrúpedes migradores, amigos das planícies.

Reapareceu a confiança e a esperança, não obstante a chuva, e o negrume da floresta, em que vagueavam mais numerosas as feras nocturnas. Seis lobos pereceram sob as frechas ervadas; os outros dispersaram-se; o homem pareceu retomar o seu ceptro.

Mas as cataratas jorravam mais copiosamente; um vento impetuoso sacudiu as árvores; as feras, inquietas, irromperam da sombra; a situação dos homens tornou-se lamentável.

Os lobos tornaram a agrupar-se; no esconso da mata, tornou-se mais vivo o rir das grandes hienas. A aproximação da noite duplicou os ruídos de hostilidade, o odioso clamor das feras.

Os orientais largaram a passo forçado. Atrás deles, ofegava a respiração dos lobos, e a rajada do vento atirava-lhes aos olhos folhas mortas.

As pálpebras da noite fecharam-se rápidas em meio do temporal. O chefe parou então.

O lobo, de pupilas fosforescentes, fechava adiante o seu círculo, e uivava, de beiços erguidos sobre os agudos caninos.

Havia poucas frechas, e o lume era impossível. Era forçoso resignarem-se os orientais a marchar de noite, com infinitas precauções. Demais, a raia era a salvação.

Lentamente, mantendo os lobos em respeito com tiros de zagaia, os asiáticos prosseguiram na marcha...{117}